terça-feira, 31 de janeiro de 2006

Os nomes das ruas

Uma coisa de que me lembro bem é dos nomes das ruas em que morei.
A mais simpática talvez tenha sido a Rua dos Velhos Colonos, do lado de lá da Mansão (era assim que se chamava a instituição que acolhia os velhinhos!), mesmo em frente ao posto médico. Na vivenda ao lado morava a família da Natália Luiza, mas ainda não havia Natália Luiza. Lembro-me do seu nascimento e da alegria que trouxe àquela casa e à mana Teresinha, minha companheira de brincadeiras. A casa deles tinha um caramanchão que dava uma sombra fresquinha muito agradável para se pôr a alcofinha da menina.
Mas a Rua que me deixou mais recordações foi, sem dúvida, a Simões da Silva. Morei no número treze e isso não me trouxe azar nenhum. Era uma rua pequena, perpendicular à Pinheiro Chagas, que começava mesmo em frente ao Patriarcado e terminava logo ali, no primeiro quarteirão. Não foi exactamente pela minha casa, mas por ser também nesta rua a casa da minha avó, uma casa antiga, de estilo colonial, com todas as insuficiências que hoje nos trariam desgostos, mas que tinha em compensação um quintal que era um mundo, com capoeiras, muitas árvores de fruto e muito espaço para as nossas brincadeiras.
Há uma Rua Álvaro de Castro com memórias desorganizadas e uma Rua (ou seria avenida?) 31 de Janeiro, que é uma morada do tempo em que o Pai Natal ainda me visitava na noite de 24, onde quase morri de tifo, onde, enfim!, vivi!
Procurei a razão, na minha dita "cultura geral". Rebusquei, fui ao fundo, tirei tudo para fora, como faço quando procuro a chave do carro na minha mala "de mulher" e, como acontece com as chaves do carro, não estava lá.
Há que procurar noutros lugares: bolsos dos casacos que vestimos ontem, proximidades dos fogões ou frigoríficos, lugares muito (mal... grrrr) frequentados por senhoras (Há pouco eram mulheres, agora já são senhoras!) e o pior que pode acontecer é ter de pedir a cópia a quem a tiver!
Como também acontece na vida real, os sítios alternativos às malas de mulher, encontrei mais do que uma chave e não sei qual é a que serve para abrir o mistério do nome da Rua.
31 de Janeiro é data de nascimento (1512) e morte (1580) do cardeal D.Henrique, o que nos ficou a governar por não ter conseguido refrear os instintos expansionistas do sobrinho adolescente e Rei D. Sebastião.
"A revolta de 31 de Janeiro de 1891 foi a primeira tentativa de implantação do regime republicano em Portugal.." diz o Portal da História.

Esta eu acho que serve!!!! É uma data importante. Foi a primeira vez que a bandeira se vestiu de verde e vermelho e se mostrou assim, se deixou içar, na Câmara Municipal do Porto, com as cores que haviam de ficar.
No dia 31 de Janeiro de 1908, é decretada a "expulsão do território nacional europeu de todos os adversários do governo."
Como sempre as histórias repetem-se na História com letra grande. Depois vieram os republicanos e houve perseguição aos monárquicos.
Foi então que o meu avô Abraão Gouvêa foi deportado.
O que tivemos de passar para aprender a democracia!
É por isso bem mais simples baptizar as ruas com nomes de flores, como aqui no Montijo: Rua das Papoilas, Rua dos Cravos Vermelhos...
rua das margaridas
Sinal de menos bom-gosto acho que que é dar às ruas nomes das disciplinas da escola: Rua da Física, Rua da Biologia, Rua da Matemática.
rua da mat
E chamar à rua da minha escola Rua dos Mártires do Tarrafal?!
(É certamente uma medida para combater o "sucesso" escolar!)

segunda-feira, 30 de janeiro de 2006

As magras vestes da paz e da razão


É como se a força que guardava neste magro corpo ainda nos pudesse tocar, ainda nos pudesse ensinar a resistir. Não "por conta própria" ou para servir honras e glórias pessoais, mas por amor à dignidade de ser (Homem) vivo, de ter todos os direitos, para lá da cor da pele, para lá de qualquer condição de raça ou credo.
Gandhi acreditava que a vida, a sua vida, só fazia sentido ao serviço da verdade. Lutou pela Verdade, com todos os meios não-violentos que o seu pensamento e a sua "alma grande" lhe inspiravam!
Foi assassinado a 30 de Janeiro de 1948.

domingo, 29 de janeiro de 2006

Finalmente posso usar os versos que trouxe da infância. Com alguns ajustes, claro!

Batem leve, levemente,
como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
e a chuva não bate assim.


É talvez a ventania:
mas há pouco, há poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho...


Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento com certeza.


Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria...
Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!


Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho...


Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
duns pezitos de criança...


E descalcinhos, doridos...
a neve deixa inda vê-los,
primeiro, bem definidos,
depois, em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!...


Que quem já é pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!...
Porque padecem assim?!...


E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
e cai no meu coração.


Os versos de Augusto Gil, que todos aprendemos, lemos e decorámos.
Nunca tinha visto nevar. Foi a primeira vez.
Como tudo o que a natureza gera, sem intensidade e sem violência, é um espectáculo...

sexta-feira, 27 de janeiro de 2006

Verdes de nascença

sportinguismo
Têm de multiplicar a esperança que a cor lhes augura.
É já amanhã! É já a seguir!

É tão giro ter um mini!

giroterummini
Giro, giro era ter vinte anos, ou vinte e cinco, partir de Lisboa, com uma tenda e pouco mais, rumo a qualquer destino que apetecesse no caminho.
Esta fotografia tem umas palavras escritas no verso, numa tinta ainda azul que diz a data (Agosto de 77) e um lugar (estrada, na Bélgica).
(Hello, Pitucha! Não estavas aí, nem havia União, talvez CEE e a Bélgica foi apenas de passagem!)
Foi giro ter um mini!

Mozart! Mozart! Mozart!

"Neither a lofty degree of intelligence nor imagination nor both together go to the making of genius. Love, love, love, that is the soul of genius." (Wolfgang Amadeus Mozart, 1756 -1791)
Tudo o que eu sei sobre Mozart está aqui...

Dores paridas, dores esquecidas

alfdacosta
Mãe e filho encontram-se bem!

quinta-feira, 26 de janeiro de 2006

Acordar assim...

A frase que anda de blog em blog: "Hoje acordei assim..."
Que tal experimentar acordar na pele de alguém?
Vai daí e decidi-me por...
(imaginem!)

(Hoje acordei homem, logo com direito a sofá, após um dia de trabalho...
Tarefa árdua! A mulher, esse ser bafejado pela sorte de ser escolhido pelo primeiro homem para lhe fazer companhia, tem o direito quase divino de descascar batatas...
Já para não falar na suprema sorte de ter um ferro eléctrico que lhe engoma as camisas dos homens!)

Os versos que eu aprendi

Os nossos livros da Escola Primária estão cheios de versos simples que nós aprendíamos a declamar. A maior parte das declamações eram insípidas talvez!
(As minhas deviam ser. Lembro-me de quase ter morrido de vergonha, ao subir, uma única vez ao palco, para recitar uns versos sobre a morena que tinha pena que as mais raparigas lhe chamassem morena.)
Um dos poetas mais presentes nas páginas desses livros era Afonso Lopes Vieira, de quem se diz, na "Bíblia" da Literatura, ter sido "o mais dotado dos poetas tradicionalistas", muito adequado pelos temas e pelo gosto à literatura infantil.
Porque com versos de meninos pode falar-se de coisas importantes como a recuperação de um património afectivo e cultural, que, em todos os tempos, sofre ameaças de morte...
Por mais voltas que se dê, os intelectuais, os escritores e sobretudo os poetas são os grandes cavaleiros incumbidos dessa missão de proteger, guardar e defender esse património.
Sobre este poeta leia-se quase tudo o que resume o seu pensamento e a sua acção aqui e aqui.
Afonso Lopes Vieira nasceu a 26 de janeiro de 1878, em Leiria.

E como dizia Artur Semedo, que eu recordo com saudade, "Lá vai poema"!
Um poema de meninos, claro!

Era uma vez
um capitão português
chamado Bartolomeu
que venceu
um gigante enorme e antigo.
Bartolomeu, em menino
pequenino,
ia para o pé do mar...

e ficava a olhar
o mar...
E Bartolomeu cismava...
Ó que lindo, ó que lindo,
o mar, e a sua voz profunda e bela!
Uma nuvem no céu, era uma caravela
que novos céus andava descobrindo...

Ó que lindo, os navios,
que vão suspensos entre a água e o céu,
com velas brancas e mastros esguios,
e com bandeiras de todas as cores!
Bartolomeu cismava
porque ouvia
tudo o que o mar contava
e lhe dizia.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2006

Psiu, Cegonha!!!!

Está mesmo a chegar à Maternidade Alfredo da Costa.
Afastem-se as nuvens um bocadinho, para ela poder poisar com tranquilidade e entregar este bebé muito desejado à sua mamã Milena e ao seu papá João.

Feliz! Feliz! Feliz!
Dona Cegonha está muito atarefada e atrasada nas entregas. Os controladores dp tráfego prevêem a chegada para as primeiras horas da manhã.
Para sossego de todos, Dona Cegonha manda dizer que o bebé está bem!

terça-feira, 24 de janeiro de 2006

Anúncio Precisa-se

Imaginação para fazer testes e para manter o Chora aberto, pelo menos em hora de expediente, ou seja, à noite.
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segunda-feira, 23 de janeiro de 2006

A volta dos tristes

Aos domingos, em Lourenço Marques, íamos dar a volta dos tristes!
Às vezes era só meia volta: íamos até ao Zambi e voltávamos logo.
Outras vezes a volta era completa. Talvez fosse mais do que uma volta.
Íamos mais longe, para os lados da Costa do Sol.
Os carros rolavam vagarosos, como se estivessem também eles tristes de cumprir caminho, só para cumprir caminho.
Já em Portugal, continuei a ouvir falar da volta dos tristes e percebi que, pelo menos na zona de Lisboa,os tristes tinham mais rotas e destinos. Cascais, Malveira, Ericeira... Além disso, não eram tão tristes. Não sei bem porquê. Mas não eram mesmo.
costa do solmaputo
Imagem tirada do livro "Recordações de Lourenço Marques"

domingo, 22 de janeiro de 2006

O erro de Sócrates

Multiplica-se, esta noite, em tentativas de abafar outras vozes...
Lamentável!!!!
Pobre Sócrates! Pensa que pode calar a poesia!

Eu sou o bem amado o mal amado
País a quem dei tudo e me rejeita
País que só me quer cruxificado
porque não sou de tribo nem de seita.


"Eu Regente serei: mas só dos pobres."
Versos de Manuel Alegre

By the way...

A Rainha Vitória morreu há cento e cinco anos.
Foi o mais longo reinado da monarquia britânica. Este período da história ficou conhecido como Era Vitoriana: foram sessenta e quatro anos em que no mundo muita coisa aconteceu e na vida pessoal da Rainha também. O casamento com o o Príncipe (encantado, para ela, mas temido pelo súbditos!)e a sua morte prematura contribuíram para o seu retrato histórico em que sobressai uma mulher dura e obstinada, imagem que se tem vindo a humanizar com o passar dos anos.
E as crianças? Como era a vida das crianças no tempo da Rainha Vitória?
A obra de Dickens traça-nos um retrato sombrio e impõe-nos uma reflexão sobre a vida das nossas crianças. Os livros de História confirmam uma época muito errrada para ser criança.

Imagem daqui
Poucas crianças frequentavam a escola no reinado da Rainha Vitória. A maioria das crianças pobres trabalhava e os seus salários contribuiam para o rendimento familiar. Se estas crianças fossem para as escolas, as famílias ficavam ainda mais pobres.
(É evidente que esta realidade não era apenas uma realidade inglesa.)
Mas em meados do reinado, em 1870, a Educação passou a ser obrigatória, no Reino Unido!

As regras eram severas e os alunos podiam ser vergastados pelos professores!
(Que se registe o repúdio!)
Os alicerces da escola, tal qual ainda hoje se organiza, estão, sem dúvida, nesta época que pode ser espreitada aqui.
A severidade dos castigos, pode ficar para sempre no poço dos tempos.
As nossas crianças de hoje não sabem o que se sofreu "para aqui chegar"...

sábado, 21 de janeiro de 2006

Convém lembrar

"Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que outros."
George Orwell nasceu na Índia. Em Montihari, a 25 de Junho de 1903 e faleceu em Londres a 21 de Janeiro de 1950.
De nacionalidade inglesa, Eric Blair, adoptou o pseudónimo literário George Orwell, tendo atingido nos finais dos anos 40 grande popularidade ao escrever as duas sátiras duras e brilhantes à sociedade que adivinhava, ou temia, estar a caminho.


Quando li pela primeira vez “Animal Farm”, de George Orwell, não pensei que passados trinta anos a “verdade” se mantivesse. Pensava eu que estava perante um livro de um tempo só e afinal, pena minha, sinto e verifico que nem o próprio tempo, nem a esperança, nem os homens mudaram “aquela verdade”: Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que outros.
Todo o ideal sucumbe à ambição do poder! Convém lembrar!

sexta-feira, 20 de janeiro de 2006

Aos amigos

que estão doentes, o Choraquelogobebes envia os desejos de melhoras!
E algumas flores!
Rosas, mais exactamente!
são rosas
E um beijinho!
Finalmente chegaram as rosas! A seguir ao pôr do sol, aparecem as rosas no horizonte...
São os efeitos especiais da produção deste bló!!!

É o que dá morar ao pé do rio!

sunset

Obrigada, Buba!

Agradecer, expressar a emoção verdadeira do sentimento da gratidão é tão mais difícil quanto maior é essa emoção!
Não estou a exagerar! Já senti este embaraço mais do que uma vez e sinto-o agora.
As palavras de agradecimento parecem-me todas desadequadas à emoção de ter sido alvo de um acto de generosidade pura: o Buba decidiu oferecer um livro aos amigos e visitantes e entre eles estou eu, que nada fiz para merecer tal honra!
Hoje, Buba, este gesto recuperou a minha vontade de acreditar nos homens!
"Sejamos gratos para com aqules que nos fazem felizes; eles são os jardineiros encantados que fazem florir as nossas almas.", disse Proust!
Não esquecerei nunca este gesto, amigo Buba! Fez-me feliz. Fez florir a minha alma.
rosas

quarta-feira, 18 de janeiro de 2006

Poeta castrado, não!

Ary
O talento de Ary escancarava a poesia com despudor não contido até... até ao ponto em que a poesia aguenta as palavras duras, cruéis, inevitáveis, as suas!
Mas era também ele que, a gosto, suavizava o poema e o construía com as palavras simples de todos: com os meses Abril e Maio, com ditos do povo -Depois da tempestade há a bonança- incitando à confiança. É assim o soneto "O Futuro".

Isto vai meus amigos isto vai
um passo atrás são sempre dois em frente
e um povo verdadeiro nao se trai
não quer gente mais gente que outra gente.

Isto vai meus amigos isto vai
o que é preciso é ter sempre presente
que o presente é um tempo que se vai
e o futuro é o tempo resistente.

Depois da tempestade há a bonança
que é verde como a cor que tem a esperança
quando a água de Abril sobre nós cai.

O que é preciso é termos confiança
se fizermos de Maio a nossa lança
isto vai meus amigos isto vai.


A poesia servia-se de Ary para tudo até para a canção do festival.
Eram seus os poemas mais bonitos da Simone, do Tordo, do Paulo de Carvalho, da Tonicha..
Ary dos Santos morreu a 18 de Janeiro de 1984.
Poema e imagem da Obra Poética, Edições Avante.

If

If you can keep your head when all about you
Are losing theirs and blaming it on you,
If you can trust yourself when all men doubt you
But make allowance for their doubting too,
If you can wait and not be tired by waiting,
Or being lied about, don't deal in lies,
Or being hated, don't give way to hating,
And yet don't look too good, nor talk too wise:
If you can dream--and not make dreams your master,
If you can think--and not make thoughts your aim;
If you can meet with Triumph and Disaster
And treat those two impostors just the same;
If you can bear to hear the truth you've spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to, broken,
And stoop and build 'em up with worn-out tools:

If you can make one heap of all your winnings
And risk it all on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
And never breath a word about your loss;
If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: "Hold on!"

If you can talk with crowds and keep your virtue,
Or walk with kings--nor lose the common touch,
If neither foes nor loving friends can hurt you;
If all men count with you, but none too much,
If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds' worth of distance run,
Yours is the Earth and everything that's in it,
And--which is more--you'll be a Man, my son!


Não consigo imaginar o autor deste poema que me acompanha desde os livros do liceu assumir atitudes polémicas e humanamente incorrectas.
Pode ler-se aqui.
Mas também é verdade que o lado bom dos homens não deve ser esquecido!
Para além deste poema que contém ensinamentos de vida que nos fazem falta, há ainda o Livro da Selva (e o pequeno Mogli) que nos ajuda também na construção da nossa fantasia, motor da vida.
Rudyard Kipling morreu a 18 de Janeiro de 1936.

Acho que João Villaret declamava uma tradução muito boa. Não encontro!
Terminava assim: "Alegra-te meu filho. Então serás um homem!"

terça-feira, 17 de janeiro de 2006

Memória de Torga

Disse então aos tiranos:
Que pequena e mesquinha humanidade
A vossa!
Horas, dias e anos
De crueldade,
Para que ninguém possa
Gritar que passais nus pela cidade!
poetatorga
José Adolfo Coelho da Rocha morreu há onze anos. O Poeta Miguel Torga sobreviveu-lhe em forma de verso, em forma de prosa e num pensamento que era só seu, marcado pela intransigência absoluta que a fidelidade aos valores da "terra" e dos seus entes mais queridos lhe impusera!

tous les garçons et les filles de mon âge

Tous les garçons et les filles de mon âge savent bien qu'il y a quelque chose dans les mots des chansons d'autrefois...

Imagem daqui
Onde estarão todos os rapazes e todas as raparigas que começaram namoros "mão-na-mão" e "olhos-nos-olhos", há trinta e quatro anos que é a idade precisa desta cantiga de embalar corações apaixonados, ou em vias de?

tous les garçons et les filles de mon âge
se promènent dans la rue deux par deux
tous les garçons et les filles de mon âge
savent bien ce que c'est d'être heureux

et les yeux dans les yeux et la main dans la main
ils s'en vont amoureux sans peur du lendemain
oui mais moi, je vais seule par les rues, l'âme en peine
oui mais moi, je vais seule, car personne ne m'aime

mes jours comme mes nuits
sont en tous points pareils
sans joies et pleins d'ennuis
personne ne murmure "je t'aime" à mon oreille

tous les garçons et les filles de mon âge
font ensemble des projets d'avenir
tous les garçons et les filles de mon âge
savent très bien ce qu'aimer veut dire

et les yeux dans les yeux et la main dans la main
ils s'en vont amoureux sans peur du lendemain
oui mais moi, je vais seule par les rues, l'âme en peine
oui mais moi, je vais seule, car personne ne m'aime

mes jours comme mes nuits
sont en tous points pareils
sans joies et pleins d'ennuis
oh! quand donc pour moi brillera le soleil?

comme les garçons et les filles de mon âge
connaîtrais-je bientôt ce qu'est l'amour?
comme les garçons et les filles de mon âge
je me demande quand viendra le jour

où les yeux dans ses yeux et la main dans sa main
j'aurai le coeur heureux sans peur du lendemain
le jour où je n'aurai plus du tout l'âme en peine
le jour où moi aussi j'aurai quelqu'un qui m'aime


"le lendemain" da canção é hoje.
Hoje é também o dia do aniversário da dona desta voz que apelava a todas as boas sensações do enamoramento e da paixão!
Abaixo a solidão! Abaixo a tristeza!
Até porque um outro nome da canção francesa gritava:
La solitude ça n'existe pas
La solitude ça n'existe pas
La solitude ça n'existe pas

Obrigada, Ana, pela sugestão!

segunda-feira, 16 de janeiro de 2006

Parabéns à prima!

hóquei
Parabéns, priminha! Resolvi presentear-te com o nosso momento de glória: o dia em que saímos no jornal, porque queríamos ser hoquistas!!! Era, pelo menos, uma ambição com rodas para rolar, mas o trambolhão do dia a seguir ao dia do sonho doeu tanto, que desisti logo!!!
(Em relação ao desporto, eu fiz sempre a minha parte, isto é, dei o primeiro passo.
O medo resolveu sempre o problema e não cheguei a fazer figuras ainda mais tristes!!!)
Mas resistimos, priminha, a este trambolhão e a outros. Passámos a barreira dos cinquenta e só espero que venhas cá buscar o jornal: "A Tribuna" de 1 de Abril de 1969. Joanesburgo - Lisboa é mesmo um saltinho!
Parabéns! Cheers, primita!

domingo, 15 de janeiro de 2006

(...)

O fim de tarde de sábado prometia um domingo a valer.
azulpalmeiras
As palmeiras explodiam em "bebedeiras de azul", mas acordaram encharcadas de uma chuva fria e cinzenta, à laia de "toma lá que é para aprenderes a não fazer promessas vãs"!
Nestes dias vale a pena vadiar por aqui, navegar e ir ao encontro de blogs amigos.
Estamos todos feitos ao bife, no bom e no mau sentido, todos os dias.

sábado, 14 de janeiro de 2006

You must remember this...


Humphrey DeForest Bogart, Bogie, inspirou um estilo de uma geração que sonhava alcançar o amor romântico dos filmes.
(Todos sonhamos com o amor ideal e, às vezes, até parece estar ao alcance de um certo olhar, de um certo gesto, de um certo cigarro, de um certo meio-sorriso...)

imagem daqui
Woody Allen trabalhou bem o mito e o complexo de Humphrey Bogart em "Play it again Sam"

(Esteve em Lisboa, no Apolo 70, sala já desaparecida. A falta de imaginação nacional e comercial substituiu-a por uma loja de loiças e artigos para o lar!!!)
Humphrey Bogart, o verdadeiro sedutor da primeira metade do século vinte, na categoria homem não muito bonito, mas com muito encanto (para não dizer charme que não é português de cá!),o Bogie, para os mais íntimos, morreu a 14 de Janeiro de 1957.
Num gesto de ternura muito original, evidenciando também uma grande força interior, Lauren Bacall, a mulher do mito, ofereceu-lhe um apito em ouro. Se precisasse, bastava dar um sinal.
Quase cinquenta anos depois, Bogie, continua encantador nas memórias e nos ecrãs.
You must remember this...

sexta-feira, 13 de janeiro de 2006

Sincerely...

"The first Mickey Mouse comic strip was published on January 13, 1930. They were drawn by Ub Iwerks at first. Then Win Smith, Ub Iwerks' assistant, drew them for 3 months. He was succeeded by Floyd Gottfredson who drew the comic strip for 45 years."
O saber nunca ocupa lugar. Quando esse saber nos envolve nas emoções e alegrias dos mais pequenos, tanto melhor!
Os bonecos do Walt Disney são mesmo eternos, como é capaz de ser eterna a nossa capacidade de sentir esta ternura tão boa!

quinta-feira, 12 de janeiro de 2006

Adeus, Adrião

O hóquei era desporto rei em Moçambique.
Ontem recebi a notícia da morte do Fernando Adrião e, embora não o conhecesse pessoalmente, senti mais uma fatia do meu património de boa saudade a ser levada.
Sinto que há uma emoção especial nas palavras que são dirigidas ao Fernando Adrião, uma emoção merecida por quem nos deu glórias, num tempo em que o ideal do desporto era o ideal por si só.
Deixo aqui o texto d'A BOLA, que lhe presta assim uma bonita homenagem.
Adeus ao penta Adrião
PARTIU o homem, mas permanece o ídolo. Fernando Adrião, um dos melhores hoquistas de sempre, fez ontem a sua última partida. Vítima de doença prolongada, faleceu com 68 anos. Filho do primeiro guarda-redes campeão do Mundo, também ele Fernando, Adrião vestiu por 136 vezes a camisola nacional. O seu estilo elegante em rinque não deixa margem para dúvidas: é um mito do hóquei mundial.
Apesar de ter dedicado a sua carreira enquanto jogador a clubes moçambicanos (Malhangalene e Desportivo de Lourenço Marques), Fernando Adrião, que teve em seu pai o primeiro treinador, contribuiu, na década de 60, de forma decisiva para o incomparável palmarés da Selecção: cinco vezes campeão do Mundo, quatro vezes campeão da Europa e cinco vezes campeão nacional (duas em Portugal e três em Moçambique).
António Ramalhete, antigo guarda-redes da Selecção, diz mesmo que a elegância era tanta que a sua patinagem era facilmente confundida com dança.
O seu filho, Bruno, médio como o pai e jogador do Dramático de Cascais (um dos três clubes que Fernando orientou, além do Alenquer e o Académica da Amadora) sempre foi incentivado e nunca se sentiu inferiorizado pelo estatuto paterno: «Sei que mitos e ídolos não nascem todos os dias. Mas serviu-me de estimulo para melhorar, pois acompanhou sempre a minha carreira e era espectador entusiasta.»
O corpo está em câmara ardente na Basílica da Estrela até amanhã, às 10 horas, seguindo depois para os Olivais onde será cremado. À família e a todos amigos, A BOLA endereça sentidas condolências.
Este trabalho está assinado pelo Pedro Figueiredo, um dos meus sobrinhos da família Pastilhas.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2006

Onde estão as goiabas da minha infância?

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Não era por goiabas que o poeta chamava. Era por azedas. O poeta é José Gomes Ferreira, um dos padroeiros deste blog.
(O outro padroeiro é o meu pai. Meu pai e pai dos porquinhos...)
"Dêem-me azedas! Quero azedas. Tragam-me azedas. Quero morrer a fazer caretas!"
Na memória dos sabores, senti muitas vezes esta angústia, este desespero...
Sei o que isso é, digo eu, arrogante, ao poeta, do alto da minha experiência de privação de um gosto tão intenso como o da goiaba!
(Às vezes falo com os livros! Normalmente faço-lhes perguntas e eles respondem-me.)
Mas isso acabou. Agora posso ir buscá-las à árvore e saboreá-las logo ali, a saberem ainda a sol, chuva, orvalho, ou a terra saloia que também é minha!
agoiabeiracomvista
Obrigada, dono da goiabeira!
a goiabeira
(O dono da goiabeira é o meu cunhado)

De Setúbal, para sempre!

Luisa Todi dá nome a um Teatro, a uma Avenida e a uma Escola, em Setúbal.
É sinal que a gente de Setúbal tem orgulho nos pessoas que ali nasceram e cujos nomes ultrapassaram as fronteiras da terra e da pátria e, sobretudo, as fronteiras do tempo. Ficaram eternas como Luisa Todi ou como Bocage.
As várias referências na cidade a estes dois vultos enobrece a própria cidade!
Luisa Todi nasceu em Setúbal, a 9 de Janeiro de 1753. Se filho de peixe sabe nadar, filha de músico sabe cantar. O dom veio nos genes!
Ainda por cima, como se a herança paterna não chegasse, o casamento acrescentou-lhe a possibilidade de ir mais além. Francesco Saverio Todi, o violinista com quem casou aos dezasseis anos estimulou o estudo mais profundo do canto e acompanhou-a sempre na carreira de glória que esta cantora portuguesa conheceu, não só nos palcos, mas também no seio das famílias reais que a cumulavam de presentes e honrarias.

Teve uma vida longa e, como um dia alguém me disse, quando se vive muito também se sofre mais.
Morreu com oitenta anos, em Lisboa. Setúbal não a esqueceu e assinalou, com iniciativas diversas, a passagem dos dois séculos e meio sobre a data do seu nascimento.

domingo, 8 de janeiro de 2006

O que se T-Vê

Ou melhor: o que eu T-Vi, de jeito!
Um programa sobre Malangatana, na RTP África, entre as duas e as três da manhã, com testemunhos diversos, também politicamente falando: de Baltazar Rebelo de Sousa a Almeida Santos, que brilhantemente explicou o quadro que retrata a cena do julgamento em que o pintor foi réu ( e absolvido) e ele, advogado de defesa. Referiu-se ao jogo dos olhos, à falta de perspectiva, às cores... Parecia tão fácil entender o quadro!
Aproveitei para espreitar uma África que é minha, lugares que eu conheço, como a Missão Suiça. Parece-me ter reconhecido também o jardim em frente ao Gil Vicente, cinema!

imagem daqui
Título: "Uma dor pode ser o nascer de uma alegria"
******
Antes deste belíssimo programa, tinha ficado presa à irreverência de Rui Zink, no "Livro Aberto".

"Fiz o meu papel enquanto aluno. Um aluno deve chatear", disse ele, com ar muito sério.
Eu presumo então que o papel do professor deve definir-se, talvez assim: Um professor deve ser chato.
(Já estou mais descansada! Estou no bom caminho!)

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Estes estão feitos!
Quanto mais tempo tenho de vida registada, mais falta sinto de tempo, tanto de vida registada como do outro, do sobrante do trabalho ou outras obrigações calendarizadas e incontornáveis, para fazer tudo o que quero e que gostava de fazer ainda, nesta passagem.
(Mesmo que haja outra dimensão, não sei "se a memória desta vida se consente"!)
Apesar de tudo, pelo que já provei, pelo que já saboreei, sinto-me agradecida!
O meu património de afectos é tão imenso que não há "declaração" que chegue para enumerar! Nem mesmo "os ódios de estimação" conseguem contribuir minimamente para o "desbrilho" desta certeza suprema!
flor54
Aspiro permanentemente a um bem-estar absoluto e isto, eu sei, é uma "ambição desmedida", recorrendo, uma vez mais, à poesia de Reinaldo Ferreira! Uns dia consigo mais, outros dias consigo menos. Mas é este o meu "norte".
Sei que fico aquém de muitas metas, muitos destinos e até de muitas expectativas por parte de quem me rodeia. Procuro uma redenção impossível, pois no plano dos afecto nada é redimível!
A todos, mesmo todos, os que contribuem para o saldo positivo, o meu imenso agradecimento!
birthday54
Li com atenção todos os comentários do Dia de Reis. Senti-me uma verdadeira rainha!
Muito obrigada!
E ainda mais um obrigada à Chuinga, ao Kamikase e ao Cê! Eu não mereço tanto!

sexta-feira, 6 de janeiro de 2006

Dia de Reis

dia de reis
Este desenho está numa sala de aula, na minha escola.
Achei-o muito bonito e, às escondidas, fotografei-o, precisamente para ilustrar o dia de hoje. Tem pois autor, ou melhor, um grupinho de autores.
Gosto das tradições associadas ao dia e só tenho pena que o Bolo Rei já não tenha fava nem prenda! É que assim já se sabia quem comprava o bolo, no ano seguinte!
Gosto também da ideia de se fazer a distribuição das prendas no Dia dos Reis!
Este é o fecho oficial das festas. Toca a comer tudo o que é errado e sabe bem, hoje, que "amanhã já é outro dia", como diz a cantiga, e já é outra época.
(Amanhã já começam a aparecer as serpentinas!)

terça-feira, 3 de janeiro de 2006

Ouro na manhã junto ao rio

manhã2
When you arise in the morning, think of what a precious privilege it is
to be alive - to breathe, to think, to enjoy, to love.
Marcus Aurelius
(Diz-se que Marco Aurélio não foi um grande pensador. Mas, pelo menos, pensou coisas certas!)
Volto a este espaço para me referir à partida de Cáceres Monteiro. Soube pela IO e nem queria acreditar. Não estou mesmo preparada para ver ir embora as referências da minha geração. Teve uma vida cheia. viajou, escreveu, tornou a viajar e a escrever.
Lembro-me d'o Jornal e do Sete, já desaparecidos, dois jornais de que foi director e que eram de leitura obrigatória, cada um pela sua razão!
Parece que o mundo está a ficar mais pobre. Para nós, pelo menos, fica. Para nós, a geração cinquenta/sessenta que poderá não estar cá para ver os Cáceres Monteiros do futuro! Mas creio que haverá!
Faz ainda mais sentido insistir no "precioso privilégio de estar vivo"...

Também acho mal...

Outra coisa que eu também acho mal é que o Papa tenha excomungado Martinho Lutero.
(Obrigada, Dr Fernado Moser, por essas aulas de História da Cultura e das Instituições. Este é um dos professores que me enternece a memória dos dias gelados da Faculdade de Letras. Era um professor brilhante, talvez por ser um homem simples. Chegava de manhã, num autocarro que parava mesmo em frente à escadaria da Faculdade. Vinha sempre sorridente. Parecia feliz. Se calhar, era feliz!)
Foi a 3 de Janeiro de 1521 que o Papa Leão X baniu um verdadeiro pastor de almas, o monge alemão Martinho Lutero.
(Não professo qualquer religião protestante e até me parece que nisto de fé e de religião as coisas se passam dentro das pessoas. A orientação isenta do estudo dos escritos de Lutero e desta época pelo professor Moser foi muito importante para os meus vinte anos de então. E hoje ainda é!)
porquitos do choraquelogobebes
'Tá feita a efeméride, não vá não ter nenhum prémio no fim de 2006!
Os porquinhos agradecem ao Espumante, ao Cê, ao Armando e à Chuinga (again)!

Eu, é mais bolos...

Foi-se embora a pouca inspiração que eu tinha. Algum dia isto havia de me acontecer!
bolomais
A Filomena Mónica convenceu-me que pertenço a uma espécie de gente molenga e que nem o optimismo trágico do Boaventura Sousa Santos nos pode salvar!
A Filomena Mónica pode dar-se ao luxo de não entrar em Centros Comerciais. Realmente, isso de passear no Shopping é coisa de pobre.
Ainda bem que temos intelectuais que podem deixar as coisas menores para os menores, para os que são "mais bolos", para que eles se possam dedicar à reflexão.
E depois de reflectirem tudo, acontece o quê?
(Bem me parecia!)
Também sou pelo mérito. Aliás, ficar-me-ia muito mal não ser pelo mérito. Parece que tinha medo de ser avaliada, julgada. Venha depressa o mérito, que a maioria de nós tem a vida ameaçada pela verdadeira incompetência à solta, desgovernada!
Agora vou conversar com a minha sobrinha que essa, pelo menos, cumpre o seu papel de nos encher os dias de alegria e de esperança.