domingo, 31 de dezembro de 2006

Votos, desejos, propósitos

Os votos primeiros vão para a Azulinha.
Que a tensão desça, para que o Miguel, o Rei, possa passar mais uns tempinhos aconchegado na barriguinha da mãe, sem sobressaltos. Coragem e esperança não tem faltado àquela família real. A todos os que estão envolvidos nesta aventura de viver e fazer viver, em tons de Azul, eu junto também a minha esperança. O dia está quente. O sol brilha com alguma intensidade. Também o dia 31 de Dezembro de 1977 foi assim, quente e luminoso. Não que eu me lembre. São os diários de Torga que mo revelam, num fragmento de prosa poética que não resisto a transcrever. Até porque fala de esperança e, mesmo correndo o risco do chavão, eu não consigo pôr de parte essa boa expectativa para os dias que hão-de vir.
"Coimbra, 31 de Dezembro de 1977- O ano acabou em beleza, doirado de sol e de paz. Dir-se-ia que o atormentavam os remorsos de ter sido desilusivo durante trezentos e sessenta e quatro dias e procurava reabilitar-se no último com um sorriso de esperança. Às vezes a natureza também parece humana. Também nos dá a impressão de que está a ser propositadamente generosa, gentil, cordial. Que paga uma dívida que lhe pesa na consciência."

Calendário

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Parar para reflectir é inevitável neste dia.
Não se pode apagar o tempo, mas também não se pode guardar e reviver, como uma fita de filme.
Não há suporte para o tempo, para além da nossa própria memória.
Nem o papel, nem outro algum. O tempo somos nós. As palavras e as imagens são tópicos da nossa organização. Mas, o que de facto vivemos está cá dentro.
Até que ponto somos donos poderosos dessas lembranças?
Há recordações que são lenitivos tão potentes que se transformam em alavancas de vida.
São essas que importa trazer à tona e usar em benefício da transição dos dias que os calendários impõem de modo oficial e que, inevitavelmente, se repercutem no íntimo de nós.
Feliz Ano Novo!

sexta-feira, 29 de dezembro de 2006

Efeito L.A.

"Toquem-me no ombro, há alturas em que sinto necessidade que me toquem no ombro. Depois, logo a seguir, podem ir-se embora." António Lobo Antunes- Visão, 28 de Dezembro.
Pois é! Eu entendo. Eu percebo. Eu acredito.
Todos precisamos de sentir a presença dos outros. Sentir essa presença de forma física, apesar do toque no ombro poder ser mais imenso ou mais intenso. Ou menos!
Como eu gosto de ler estas crónicas tão vindas de dentro de uma pessoa!
Que o L.A. também é pessoa.
Uma vez estive muito perto dele, mas nem ousei olhá-lo de frente, muito menos dirigir-lhe palavra. Acho que os escritores nunca existem para os seus leitores enquanto pessoas de carne e osso. Conhecemo-los pelas palavras. Não pelas mãos! Não pelos olhos! Não pelo ombro!
Coisa estranha para o próprio: "Meu Deus serei apenas livros um dia, lombadas numa estante? E estas mãos? Estes olhos? Este corpo?"

Mais fitas

A filha mais velha, e também a mais sensata, conversa com o pai. Mora longe da casa materna e os momentos que passa junto dos seus trazem à tona e à memória e, porque não?, de volta aos hábitos, os mesmos sentimentos e os mesmos ressentimentos.
Desta vez, o motivo do regresso não é um motivo qualquer: é o casamento da irmã mais nova e mais insensata. Exactamente porque os irmãos não têm de ser iguais, no desempenho do papel social. Os irmãos só são iguais no amor dos pais. Mas o amor dos pais não molda seres humanos iguais, sem tirar nem pôr. Isso é uma felicidade que a natureza reservou, cautelosamente, para si.
Pressente-se um entendimento cúmplice. Pai e filha unidos pela mesma profissão e pela mesma sabedoria ajuizada. Comentam, de modo aligeirado, a vida familiar que, como eles tão bem sabem, tal qual o resto da vida, é concomitância de bem e mal. A sabedoria e a inteligência permitem-lhes que falem “a mesma língua” e “des-envolvem-se” do bem e do mal da mesma maneira, com a mesma agilidade, permanecendo distantes e algo paternalistas, em relação aos restantes membros da família, todos marcados por uma exuberância, quase excentricidade. O que belisca, ao de leve, o estatuto familiar, numa sociedade que quer todos os seus muito idênticos...
As duas irmãs preparam-se para a cerimónia. Conversam intimamente sobre o bebé que quase rasga o vestido de noiva que, afinal, devia ter sido objecto de estudo mais cuidadoso, em termos de evolução da gravidez. Mais uns metros de tecido e todos teriam ficado mais confortáveis: tanto a noiva e futura mãe, como o bebé, presume-se. A conversa gira à roda da obstinação da mãe contra aquele noivo. Porém, essa obstinação deverá, no dia, ser esquecida. Em prol da noiva, do bebé ou mesmo da própria mãe da noiva que fará todo o esforço do mundo, para dar a ideia da família unida, ao mundozinho da pequena cidade. A família unida resiste ainda aos primeiros flashes do fotógrafo e aos primeiros acordes da marcha nupcial, aos momentos breves em que o pai leva a noiva (e o bem evidente futuro neto) até ao altar, onde aguarda o indesejado noivo.
E quando já ninguém esperava que a ameaça matriarcal se concretizasse, eis a mãe estendida no chão, ao lado do altar, cumprindo à risca o seu aviso prévio: nem por cima do meu cadáver.
Casamento, não houve! Houve, sim, um serviço fúnebre para o qual se aproveitaram as iguarias da boda, com a dignidade possível: ao bolo de noiva tiraram os bonecos “noivos” e foi servido, apenas com umas flores que se acrescentaram e que convinham às circunstâncias.
Por razões da emoção, ou dos apertos do vestido, o bebé, uma menina, resolveu nascer.
Nem se arrefecem as fibras nervosas dos seres humanos que resistem à morte e à vida, permanentemente a marcar presença, mesmo em casamentos ou baptizados, sejam ou não convidadas.
A nova vida faz-se ouvir em tom bem alto e, por um instante rápido, parece fazer esquecer que a morte também passou por ali.
É a vida que leva a melhor, desta vez.
Nada disto é “verdade”, mas podia ser: é verosímil.

Esta é parte da intriga de uma série de sucesso “Providence”, que mostra bem o quanto os Irmãos Lumiére estavam enganados quando pensaram que o cinema não tinha futuro pois seria enfadonho para o público ver as cenas da vida repetidas no grande écran.
É pelas parecenças com a vida real, penso eu, que o cinema, em formato de fora ou dentro de casa, tem tanto sucesso: o cinema ensina a vida.
Mas o avesso também é válido. A fantasia é um lado de lá da vida, que também conta e também ensina. E, quando não ensina, pelo menos, ajuda.
Imagem daqui

quinta-feira, 28 de dezembro de 2006

Cinema

Esta data, 28 de Dezembro, é uma data muito importante na memória do cinema.
Em Paris, os Irmãos Lumiére exibiam a sua primeira "fita", em 1895, no Grand Café.Pensavam eles que "o cinema era uma invenção sem futuro", pois o que se vê na tela pode ver-se na rua.
Redondamente enganados! O cinema foi, ele mesmo, "o actor principal" de filmes que ficam para sempre registados nas nossas emoções: Cinema Paraíso, por exemplo; A Rosa Púrpura do Cairo, por exemplo.
O cinema é hoje uma arte, a sétima, convencionou-se, lamentando os apaixonados pela fotografia que esse lugar não lhe tivesse sido reservado. Sem fotografia não haveria cinema, dizem, talvez à laia de consolo.E têm razões!
Hoje o cinema pode ser a mais perfeita das mentiras, tão perfeita que rege a vida das pessoas, estabelecendo-lhes um espaço de sonho e de fantasia, só comparável ao dos livros.
Hitchcock, o mestre, estimou, a propósito, o valor de um filme: sempre que compense os preços da entrada, do jantar e da baby-sitter....
As trinta e três pessoas que assistiram ao filme dos Lumiére, em Paris, nesse distante ( e frio, com toda a certeza!) 28 de Dezembro pagaram um franco cada.

Esta foi uma das minhas escolas. No Scala, vi um dos mais belos filmes de sempre:"My Fair Lady". Tinha doze anos e sentia-me muito crescida.
(Por dentro, claro!)
Imagem daqui

sábado, 23 de dezembro de 2006

(...)

Natal é amor.

É Natal quando há paz
Natal é alegria
Há Natal quando Jesus nasce
É Natal quando os sinos tocam
Há Natal quando o pobre tem pão
Natal não tem guerra
É Natal quando o céu está azul.

Um dos meus filhos escreveu estas verdades tão puras e inocentes sobre o Natal. Não sei já qual deles foi porque o copiei e foi essa cópia que eu guardei.
Não sabendo o que hei-de dizer sobre o Natal e achando que, apesar de tudo, a época merece palavras boas, deixo por aqui esta ideia de Natal. Este presépio foi feito pelos alunos da minha escola. Não sei quem foi a professora ou professor que orientou o trabalho dos alunos, mas gosto!

quarta-feira, 20 de dezembro de 2006

Há sóis e sóis!

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A hora, o minuto e o segundo em que o sol toma conta do céu e do rio.
A partir de amanhã, os dias começam a crescer!

segunda-feira, 18 de dezembro de 2006

O que é que eu hei-de fazer aos porquinhos?

Resolveram saltar para dentro de uma árvore de Natal.
Onde é que já se viu semelhante figura? E não deixaram ficar o Lobinho para passar o Natal com a família. Ainda tentei chamá-los à razão, mas eles vieram com o argumento que o Lobinho é da família deles porque é bom e o Lobo Mau é, como o nome indica, mau.
Confesso que fiquei um pouco preocupada quando me anunciaram a decisão de passaram o resto do mês de Dezembro entre bolas, fitas, luzes, neve a fingir...
Mas vendo-os assim tão contentes, conformo-me.
Fiquem aí então, se isso vos faz felizes.
Mas já sabem, no dia 6 regressam às vossas histórias, porque têm de construir as vossas casas, para o Lobo as destruir, etc, etc.
E o que é que se faz ao Lobo Mau? Ah, pois é, vai até ao Centro de Emprego, preenche a papelada e entretém-se com isso, até vocês voltarem e abrirem a porta da história outra vez.
Feliz Natal, queridos porquinhos.
Se eu vir o Dumbo e o Bambi, digo-lhes onde é que vocês estão e até pode ser que eles apareçam!

ET, knock, knock... It's me!

O mágico Spielberg faz hoje sessenta anos.
(Por que será que os ícones da minha geração estão todos à beira de ou mesmo a transpor a barreira dos sessenta?!)
Mesmo assim, e talvez porque isto dos sessenta seja de facto uma coisa nos outros outra em nós mesmos, ou naqueles que nos são chegados, não são os sessenta que lhes vai apagar o brilho, seja ele de origem tão pública como o de Steven Spielberg, seja esse brilho mais privado, mais cá de casa...
(Cá em casa, ainda faltam uns meses. É só em Setembro!)
Depois desta camada de brilho, vulgo graxa, aos meus ídolos, vou então dizer o que tinha para dizer, sobre o aniversariante de hoje. Não posso deixar de associar para sempre o nome de Steven Spielberg a dois dos filmes que mais me marcaram nos últimos vinte anos. Ou, mais precisamente, vinte e cinco, pois a ternura do ET, que fez tocar as campainhas da nossa memória de crianças, vem de mais longe!
Sempre que revejo o ET sinto saudade de uma fantasia tão verdadeira, dói-me a pena de não sentir muitos ETs por aqui. Devem ter voltado todos para casa e há apenas uns quantos Elliots, ou irmãos de Elliot, que cumprem a sua missão de guardiães dessa fantasia.

O outro filme de Spielberg que tenho como referência é o Império do Sol. Uma história de sobrevivência nas fronteiras da vida e o custo dessa mesma sobrevivência.
O filme não foi muito bem aceite na altura pelos senhores que tornam os filmes mais ou menos famosos, consoante lhes toque as fibras da responsabilidade e da consciência. Mas a história do menino branco e loiro que perde de vez a inocência perante a morte do seu companheiro "amarelo", em plena brincadeira de crianças, a história, dizia, ficou por aqui, ao alcance de todas as consciências, sobretudo para as que hão-de vir!
"He was my friend!" diz o garoto! "He was a Jap!", corrige alguém com os pés menos assentes na verdade dos sentimentos.
Imagens daqui e daqui

domingo, 17 de dezembro de 2006

Post embrulhado, com dedicatória

Se tivesse que inventar uma indústria para esta aldeia, começaria pela "Fábrica dos Laços".
"Cativar é criar laços", disse o principezinho à Raposa. É desses laços!
Hoje o "laço" é vermelho, grande e muito brilhante. É um laço de festa! Mas não por ser Natal quase. É para a Ana Pereira que faz anos!
(Já passa um bocadinho da meia-noite mas a gente acerta o fuso pelos Açores e fica-se instantaneamente de volta ao dia dos anos da Ana.)
O Laço é vermelho porque o coração da Ana bate em vermelho-águia. É grande porque as fitas do laço têm de mergulhar no Índico e dar a volta ao tempo. É brilhante porque a Ana é uma "estrela", como podem ver aqui.

Parabéns, Ana! Ficamos a dever este "laço" a um afecto partilhado: a Tia Odete. Obrigada pelo lado de cá do laço! Um beijinho!

sexta-feira, 15 de dezembro de 2006

Blog Serviço Público

Dicionário de Mulheres Rebeldes de Ana Barradas
Por cada dez homens, há uma mulher representada nas enciclopédias. Onde estão as outras nove?
"O critério fundamental do livro foi o intuito de celebrar o desejo de revolta, o espírito pioneiro, os feitos inéditos e criativos, a dinâmica subversiva, a fuga à norma, enquadrando essas mulheres o mais possível num contexto epocal, para tornar mais transparentes as causas, as motivações e os efeitos de atitudes quase sempre assumidas à custa de enormes doses de coragem. Mais do que o coleccionar de histórias passadas, servirá talvez de inspiração para percursos de vidas futuras..." Palavras da autora!

quinta-feira, 14 de dezembro de 2006

Reuniões

pormenor
Tema: como tornar a vida cada vez mais fácil aos alunos e cada vez mais difícil aos professores.
Ah, queres dar Dois? Vais ver no próximo período, como vai ser pior ainda. O aluno vai desmotivar-se e não vai fazer nada. E, depois, dás-lhe outro dois e no fim como é que justificas um Três, se ele tiver recuperado alguma coisa? Não te esqueças que a avaliação é contínua! Eu, se fosse a ti, dava-lhe agora um Três menos, ou um Três pequenino, porque ele até é bem comportado e, às vezes, faz o trabalho de casa. Além disso, teve quarenta e tal por cento no teste. Pois, eu sei que os conhecimentos são ainda muito poucos, mas até por isso mesmo! Se agora lhe vais dar dois, com tão pouca matéria, no terceiro período vais dar-lhe um? Já pensaste em tudo o que tens de fazer para lhe dar um Um? Eu cá, se mandasse tirava era o Um da escala. Só se dá em caso de um aluno que nunca tenha vindo às aulas. basta ter vindo uma vez, para revelar algum interesse.
E depois, sabes como é: a vida que o miúdo leva. Olha, eu tenho tanta pena dele! Só por isso é que lhe vou dar o Três, porque, nas condições em que vive, nem sei como é que ainda se levanta da cama para vir até à escola. Pois, eu sei que é para brincar. Mas a escola também é isso, não achas? Pois, tu não achas porque tu tiveste uma infância dourada. Não tiveste? Não digas isso! No teu tempo não havia os perigos que há hoje com a internet e tudo o mais!
Pensa nos teus filhos. Também gostavas que fossem generosos com eles...
(Nem vale já a pena dizer que não. Que apenas gosto e sempre gostei que fossem justos e que há generosidades que são, em muitas situações, a pior maneira de fugir aos critérios de justiça!)

quarta-feira, 13 de dezembro de 2006

Boas surpresas da TV

O MEC, ontem à noite, foi uma boa surpresa que a TV me pregou.
"Expliquemo-nos" uns aos outros! O MEC conduz o nosso ego como se o percurso fosse o de uma montanha russa. Põe o português típico, médio, o português em geral, nos píncaros, para logo em seguida deixar cair a carruagem em queda livre. Quase a roçar o chão, o MEC acciona o mecanismo que evita o estatelamento absoluto do ego verde e vermelho.O efeito é o pretendido, suponho: pôr-nos a pensar!
Por mim, fiquei sobretudo a digerir a ideia de induzir o vício da leitura e da escrita, desde idades muito precoces, sobretudo porque a leitura nos vai valer na solidão, no desgosto, na velhice...
Fica também, para acalmar as "mazelas" provocadas pela queda abrupta, um poema de Leonard Cohen:"The sweetest little song"

You go your way
I'll go your way too


Este pequeno poema representa, de acordo com a Sra Esteves Cardoso, o desejo da mulher.
Como ela apenas identificou e não deu mais explicações sobre as duas linhas do poema ou sobre o desejo feminino, ficamos nós também sem saber. Mas a pensar e isso é que é importante. Raramente a TV me põe a pensar mais do que cinco minutos para além do fim de um qualquer programa!

terça-feira, 12 de dezembro de 2006

Cinco lições e muitas mais

Tenho por Kofi Annan uma simpatia natural. Há qualquer coisa na sua expressão que indicia a sua boa-vontade.
(E se faz sentido agora falarmos nos "homens de boa-vontade", sejamos nós crentes ou não. A "paz na terra" é uma ambição da humanidade, sobretudo dos que sofrem e é desses que fala Kofi Annan nos discursos em que se tem multiplicado, nesta despedida do exercício das funções de Secretário-Geral da ONU.)
É permanente o seu apelo à atenção do mundo em relação àqueles que precisam. As suas primeiras palavras, aquando da cerimónia do Nobel da Paz em 2001, foram para as crianças, ilustrando a gritante diferença de oportunidades com o nascimento de uma menina, naquele dia, naquele momento, no Afeganistão.
Today, in Afghanistan, a girl will be born. Her mother will hold her and feed her, comfort her and care for her – just as any mother would anywhere in the world. In these most basic acts of human nature, humanity knows no divisions. But to be born a girl in today's Afghanistan is to begin life centuries away from the prosperity that one small part of humanity has achieved. It is to live under conditions that many of us in this hall would consider inhuman.
Hoje, o Publico publica um texto de Kofi Annan: As Cinco Lições. Guardei-o aqui, no meu baú. É um bálsamo para a desumanidade que nos assola o presente!
A ler também o que a Teresa referiu, há quase um mês:
"O que me tira o sono? A degradação ambiental". Kofi Annan, "Única", 18-11-2006

(...)

arte da espera
Saber esperar é uma grande virtude, diziam os mais antigos!
Saber esperar é um ensinamento que falta na educação dos mais novos. Os tempos de espera são cada vez mais imperceptíveis e, pelo contrário, o culto do "já", do instantâneo impõe-se em quase todos os aspectos dos nossos dias.
Lamentavelmente, penso eu, muitas vezes, já que não me posso excluir dos responsáveis pela vitória do "já" nas nossas vidas.
Presumo não se tratar de um sintoma simples de nostalgia em estado avançado constatar que a espera nos tempera comportamentos, nos modela o pensamento.
Por isso, talvez, dou por mim cada vez mais deslumbrada com a imagem dos pescador de pesca à linha. Deve ser o verdadeiro execício para ginasticar e robustecer a paciência.
Um dia, vou aprender a pescar!
Sentemo-nos. Trouxe duas cadeiras. Deslumbremo-nos com a água e com a manhã!

sexta-feira, 8 de dezembro de 2006

Amar perdidamente

Os Trovante cantaram-na e eternizaram-na. Ia cometer a imprudência de dizer que este é o poema mais "poema" de Florbela Espanca, já que ela canta precisamente o maior mal, o mal que a consumiu: a sede de amor.
Amar e respirar é fundamental para a criatura humana existir com dignidade!
Florbela Espanca morreu de amor. Do amor todo. Desde o primeiro dia da sua primeira existência.
imagem daquiFlorbela inquietou-se todos os dias da sua vida, como não acontece, normalmente, no seu berço alentejano.
Nasceu e morreu a 8 de Dezembro!

quinta-feira, 7 de dezembro de 2006

Bebedor, truculento, imprevisível...

Foi-se, assim, definindo o poeta ao seu entrevistador, Baptista Bastos
De José Carlos Ary dos Santos, a Preguiça! Porque hoje o poeta festejaria mais um aniversário, não fosse "uma hepatite das antigas" - como ele próprio disse- tê-lo levado mais cedo da Rua da Saudade, onde sempre viveu, na cidade que cantou pela voz de muitos.
Tal como o seu "homem das castanhas", o poeta é eterno!

Lenda do Pai Natal

Esta história foi contada numa aula de Estudo Acompanhado, por uma aluna que se chama Natália. É uma lenda brasileira que explica o aparecimento do Pai Natal.
Era uma vez uma aldeia, onde viviam muitas crianças pobres.
Vivia também uma princesa. Era a única criança que tinha brinquedos, como tinham as meninas do resto do mundo.
Perto desta aldeia, passava um rio. Quando chovia, o rio corria com muito mais força e tornava-se perigoso atravessá-lo. Contudo, no dia de Natal, o rio parecia perceber que nesta época do ano, há um apelo à paz, à tranquilidade, ao amor... Corria então muito tranquilo, como que por magia.
Do lado de lá do rio, havia uma floresta e aí morava, há muitos anos, um velho lenhador que fazia brinquedos de madeira para as crianças pobres. No dia de Natal, passava o rio e distribuía os brinquedos na aldeia.
Um dia, estava o lenhador entretido com os seus pensamentos e com a sua arte de talhar a madeira, de modo a que das suas mãos saísse um comboio, um avião, uma casinha de bonecas, quando foi surpreendido por uma voz que lhe pedia uma boneca de madeira.
O pobre lenhador olhou e reconheceu a Princesa. Limpou muito as mãos a uma toalha que tinha em cima da bancada onde trabalhava e olhou para a princesa, com os olhos muito tristes.
- Vossa Alteza sabe que não posso oferecer-lhe uma boneca feita com a madeira das minhas árvores. Estes brinquedos são os dos meninos e das meninas pobres! Pelo que sei, o seu quarto tem brinquedos lindíssimos, coloridos, brilhantes. As suas bonecas parecem pessoas de verdade. Estes brinquedos são pobres...
- Mas sem uma boneca de madeira, eu nunca poderei brincar com as outras meninas nem, tão pouco, aproximar-me delas!
Uma lagrimazinha começou a correr dos olhos castanhos da Princesa e ela foi-se embora.
O coração do lenhador ficou despedaçado com a tristeza da menina. Ao fim e ao cabo lá por ser princesa não deixava de ser uma criança como as outras.
As florestas são normalmente habitadas por seres fantásticos como as fadas e os duendes. Nunca o lenhador tinha pensado em recorrer aos serviços destas criaturas de que tanto já ouvira falar e que até já tinha tentado representar nos seus brinquedos.
Mas desta vez o assunto era sério. Era uma criança que estava muito, muito triste e o lenhador já tinha ouvido histórias de pessoas que tinham morrido de tristeza. Este pensamento deu-lhe a coragem e o atrevimento de procurar a Fada da Floresta, no sítio que diziam ser a sua morada: aquela árvore imensa que nunca perdia a folhagem. Ninguém ousava tocar-lhe nem ao de leve com um machado por ser essa a casa provável da Fada.
Graças ao seu pensamento mágico, a Fada já sabia de tudo o que trazia ali o bom homem. Disse-lhe então que fabricasse a boneca com o mesmo carinho com que fabricava os outros brinquedos e que a levasse à Princesa no dia de Natal. Acrescentou que esta acção iria trazer-lhe, no futuro, muitas alegrias.
Assim aconteceu.
Passaram muitos anos e muitos dias de Natal. O homem estava muito velho mas continuava a fabricar os brinquedos. Começou a perceber que as forças lhe faltavam para atravessar o rio, apesar deste continuar fiel à acalmia da época festiva.
A Fada visitou-o na sua casa e disse-lhe que lhe ia oferecer uns animais, aparentemente iguais a outros que havia na floresta, mas dotados de fantasia, podendo assim voar sobre o rio, puxando o trenó que entretanto o lenhador tinha construído também com as suas mãos.
O pobre homem choramingou de emoção, humedecendo as lentes dos óculos que o ajudavam a ver o seu trabalho. Confessou então à Fada que, para além da falta de forças, afligia-o castigar as poucas árvores que a floresta já tinha, sabendo que um dia não ia ter nenhumas, se as continuasse a cortar como fizera até ali.
A Fada despediu-se e, mo mesmo instante, convocou o Rei dos Duendes e contou-lhe o que se estava a passar, confiante numa ajuda pronta. Não estava enganada. Os duendes foram todos avisados e, no dia seguinte, espalharam-se pela floresta e cobriram o chão de folhas. Dois dias depois nasceram muitas árvores novas que, graças também à fantasia, depressa se tornaram árvores robustas e fortes, capazes de fornecer ao lenhador e artífice a matéria-prima de que tanto precisava.
Passaram mais alguns anos e o Anjo da Morte aproximou-se da casa onde morava o lenhador. A Fada já tinha pensado nesta visita e, antes que ele pudesse levá-lo para o Jardim das Memórias, apareceu e pediu-lhe a imortalidade do velho lenhador. O Rei dos Duendes apareceu também e pediu o mesmo. O Anjo acedeu, mas com a garantia de que manteriam a aparência que ele tinha, naquela altura da vida.
As barbas estavam crescidas e eram muito brancas. As rugas à volta dos olhinhos, protegidos pelas lentes redondas, também continuaram. Fora sempre um bocadinho rechonchudo e nem era muito alto.
Passou a ser conhecido na Floresta, na aldeia, nas cidades, no mundo inteiro.
É o Pai Natal.
O Pai Natal da Natália
A Natália fala muito baixinho. Ao contrário do que acontece normalmente, os colegas barulhentos calaram-se e seguiram, com muita atenção e com muito encanto, a narrativa contada na voz suave, quente e brasileira da Natália.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2006

(...)

É bom ouvir alguém que sabe fazer prevalecer os seus pontos de vista, que são os nossos pontos de vista!
É bom imaginar que algum dia alguém vai talvez reconhecer que estes pontos de vista são os que decorrem, coerentemente, de uma vida quase inteira de uma prática profissional tão honesta como as mais honestas!
É triste confirmar as suspeitas de que os nossos governantes nos tomam por pessoas com pouca inteligência e que nos impingem ideias carimbadas, como uma coisa que não são.
O exemplo do momento é o Estatuto que não visa melhorar a qualidade do ensino e da aprendizagem, mas sim reduzir despesas.
É bom saber que não estamos sós, quando nos interrogamos sobre a "importância" de determinadas áreas não disciplinares, como o Estudo Acompanhado ou outras!
É confrangedor assistir, dia após dia, ao desmoronar do sentido de uma vida, a ponto de duvidar de tudo o que se pensou, fez ou disse, ao longo dessa vida!

Correspondência em dia!

Ou melhor: em noite!
Este post é para ti, Maria das Dores, portadora das minhas memórias.
Aqui vai mais uma, para tu levares contigo para onde tu fores.
A Libânia e a Rosa eram as outras manas talentosas do grupo dos Velhos Colonos.
A Libânia dizia versos, com arte e com sentimento. A Rosa cantava fado.
Lembro-me bem dela, um pouco mais velhinha do que a Rosa dos escorregas e dos baloiços, muito concentrada na sua missão de cantadeira, com o xaile preto posto, com aquele jeito amaliano...
Paralelamente, havia um rapaz na minha rua, que era assim de cair para o lado de bonito. Chamava-se Arlindo o que até parecia nome posto de propósito para rimar com a sua beleza. Mas não era. O nome vinha da família: do pai, do avô, gente muito amiga da minha mãe e do meu avô. (O mundo é mesmo muito pequenino!)
Um dia, muitos anos mais tarde, num café em Odivelas, ouvi alguém chamar-me como me chamavam quando eu era miúda. (Não vou dizer aqui, para evitar risos!!!!) Olhei. Nada. Não conheci ninguém. Mas alguém me conheceu a mim e sorriu. Era o Arlindo.
Foi uma surpresa muito boa.
Lá lhe disse o que fazia, tão longe da Rua Comandante Augusto Cardoso, tão longe dos nossos tempos de meninos, tão longe das festas de aniversário que a mãe do Arlindo fazia, onde nos divertíamos tudo o que nos podíamos divertir e até dançar o twist, ao som daqueles rapazes guedelhudos de Liverpool... Lembras-te?
O Arlindo disse-me então que tinha casado com a Rosa, a Rosa Feiteira, a que cantava o fado.
Claro que eu sabia quem era a Rosa. Ninguém a podia esquecer: os rapazes, pelas boas razões e nós, as raparigas, pelos efeitos secundários de não darmos tão nas vistas como ela. Tão bonita! E ainda por cima, cantava tão bem o fado.
Já lá vão muitos, muitos anos.
Vê tu como as memórias se cruzam!!!!
Mil beijinhos, querida Maria das Dores!
LM
Provavelmente, uma vista da nossa baía!

terça-feira, 5 de dezembro de 2006

O Prémio da Academia


Sem considerações prévias, que ninguém ia ler, passo já às nomeações.
Melhor blog individual feminino
.Amigas do Peito
.No Cinzento de Bruxelas
.EcoCoisas, etc....
.Na Senda das Beiras
.Passada
.Mindshelves
Melhor blog individual masculino
Legendas e Etecetera
Espumadamente
Apenas Mais Um
Coimbra's
Buba
Nkhululeko
- Melhor Blog Temático
.Amigas do Peito
.EcoCoisas, etc....
Clube de Política do Montijo
Raça Leonina
Fazedores de Teatro-
Netescrita
- Melhor Blog Colectivo
ABC dos miúdos
Blog da Carraça
aragem
Linguagem Gutural
A Fábrica
Voando em Moçambique
-Melhor Blog
Chuinga
Médico explica medicina a Intelectuais
Ma-shamba
Apenas Mais Um
Buba
Memórias Soltas de Prof
Melhor Blogger
Buba
Isabella Oliveira
Pitucha
André
JPT
Passada
Tá feito!
Obrigada a todos os que me compensam deste esforço de clica aqui, clica ali!

Escritas em dia

Vivemos com as palavras: as nossas, as dos outros, as que dizem os vivos, as que disseram ou escreveram os que já morreram. As palavras são, para mim, um bom formato de memórias. E são sólidas!
E os artesãos da palavra têm a minha admiração. Não podendo conhecer todos profundamente, tive a sorte de poder "privar" com muitos, ao longo das minhas aulas de Português, com os livros de Português.
(Numa semana é talvez a terceira vez que eu falo dos meus livros de Português e vou confidenciar que os guardo e folheio e releio, já não para ensinar, mas sobretudo para não esquecer os mais belos textos que li na vida. E são muitos!)
Hoje, ao tropeçar na memória de Raul Brandão (data da sua morte, em Lisboa) os meus sentidos foram todos tomados pelo mar. Não pelo mar do prazer, mas pelo mar da faina, da labuta, do perigo, do sustento, pelo mar do pão.
"Mas a onda quebra. Desaba em catadupas e outra enrodilha-os logo. O clamor das mulheres confunde-se com o eco da tempestade e é disperso pela lufada"
E sobre o mesmo mar...
"... às vezes parece um véu diáfano, outras pó verde. Às vezes é de um azul transparente, outras cobalto. Ou não tem consistência e é céu, ou é confusão e cólera. De manhã desvanece-se, de tarde sonha."
azenhas
Azenhas do Mar

domingo, 3 de dezembro de 2006

Recado

É nos olhos dos outros que nos sentimos distintos ou suficientes. Quem o disse, ou melhor, escreveu, foi Vitorino Nemésio, num belo texto daqueles que tornam mais rico um manual de Português, recordando o exame da quarta classe e o seu amigo Abílio.
A frase é exactamente esta: "E foi nos olhos dele que eu me senti distinto."
Foi o que me aconteceu ao ver o meu simples espaço (deixem-me tratá-lo assim, porque ele merece!) nomeado para o "prémio da Academia", instituído pela Geração Rasca. Foi nos posts de Lady Chuinga Isabella e no post de Sir Espumante que eu senti a honra das suas escolhas. Fiquei mesmo feliz!
PS para o Espumante: Nem por um simples segundo duvidei da tua razão sobre o meu erro. Claro que o Rio Marracuene não existe senão na minha geografia. De vez em quando baptizo lugares. Perto de mim há uma serra que eu baptizei de Palmela, por ser dela, de Palmela, o "castelo altaneiro" que avisto no regresso do Algarve. Obrigada uma vez mais!

Não há escolas de pais nem de mães

A paternidade é um terreno mitológico, onde impera uma certa ditadura amorosa. É suposto que os nossos filhos sejam a melhor coisa deste mundo, e por isso o mundo impõe-nos a seu respeito uma exclusividade de sentimentos cor-de-rosa. Eles têm de ser tudo para nós e nós temos de dar tudo por eles. Quando, a meio de uma conversa, eu digo que a paternidade está um bocado sobrevalorizada, as pessoas descartam-me com um abano de cabeça e toques no braço: "você é um brincalhão." Mas eu não estou a brincar. Os filhos arrasam as noites, cavam olheiras e pura e simplesmente enterram a vida como nós a conhecíamos. Amamo-los por aquilo que nos dão mas, no escuro da noite, bêbados de sono, odiamo-los por aquilo que nos tiram - viagens que nunca faremos, livros que nunca leremos, filmes que jamais chegaremos a ver. É por entre essas contradições que fazemos o nosso caminho e aprendemos a ser pais, esperando que a cada momento o amor vá ganhando terreno e as frustrações cicatrizem, até ao dia em que possamos sinceramente dizer: "são o melhor que tenho e aquilo de que mais me orgulho." Mas demora. Mas sofre-se. As pneumonias levam demasiado tempo a curar. Escreve um jovem pai, João Miguel Tavares, no DN de hoje, na coluna da Opinião.
Este é talvez o assunto que eu melhor domino, provavelmente por "levar já muitos anos disto", como se diz, assim, à pressa do pensamento. Contando com aquele período super cor de rosa (que, no meu caso, foi sempre azul) em que todas as esperanças são possíveis, já perfaço trinta e três anos!
Claro que estas são as palavras de um pai jovem que expressa bem as emoções tão contraditórias desta felicidade suprema que é ter filhos. É que eles são, de facto, a fonte de tudo na vida de alguém.
Mas o pior de tudo, caro pai, quase novinho em folha, é que isto não muda nunca, na maioria dos casos. Aprendemos a disfarçar e respondemos a outras solicitações da vida, para que a aflição permanente com a segurança, a vida, a felicidade deles adormeça, pedindo aos santinhos todos que adormeça para aí cem anos, pelo menos, como a Bela da historinha.
Toda a felicidade dos nossos dias está suspensa no altar do mais afamado santo, especialista em milagres radicais.
(Espero que os santos venham ler estas linhas e que leiam também o texto do DN, trazendo de volta a boa saúde aos pequeninos.)
Os nossos filhos só merecem o melhor.
E quem diz filhos diz sobrinhos ou diz netos, porque a verdade que eu também já "entendi" é que quem não tem filhos de BI transfere, às vezes com alto juro, para a conta dos sobrinhos (e no caso dos avós, para a conta dos netos) estas elevadas somas de afectos e emoções.
filhos

O corpo é que paga

António Variações consagrou para sempre a voz do povo que avisa, quase pragueja, que o corpo paga os desvarios do juízo.
Cantou o aviso, não porque o levasse a sério. Aliás: "deixa-o pagar, deixa-o pagar, se estás a gostar."
O que ele levava mesmo a sério era o sentir do povo, do tal povo que talha com o seu machado as tábuas do seu caixão. Acabou por o provar ao longo de uma carreira muito curta mas muito intensa. Provou ser senhor também de um rigoroso sentido estético muito mais abrangente que as canções que o recordam hoje.
Do ponto de vista humano, ainda é recordado entre os amigos, com muita saudade, com a saudade de alguém que valorizava os afectos.
Eu, se tivesse uma saudade concreta do António Variações,sentiria saudade da calma que os olhos intensamente azuis emanavam.
variações
António Joaquim Rodrigues Ribeiro nasceu a 3 de Dezembro de 1944.
O seu tributo a Amália também será eterno.
Fiz dos teus cabelos a minha bandeira
Fiz do teu corpo o meu estandarte
Fiz da tua alma a minha fogueira
E fiz, do teu perfil, as formas de arte

Fiz das tuas lágrimas a despedida
fiz do teu braço a minha anca
dei o teu sentido à minha vida
E o grito deu-o ao nascer de uma criança

Todos nós temos Amália na voz

Dei o teu nome à minha terra
Dei o teu nome à minha arte
A tua vida à primavera
A tua voz à eternidade

Todos nos ...

A tua voz ao meu destino
O teu olhar ao horizonte
dei o teu canto à marcha do meu hino
A tu voz à minha fonte

Letra daqui

sábado, 2 de dezembro de 2006

DT (Depois da TLEBS)

Depois da polémica à roda da TLEBS, é melhor mesmo dedicar-me aos altos estudos culinários!
Pelo menos o interesse pela compreensão dos fenómenos fonéticos ou da evolução da grafia não desapareceu em mim, o que me leva a guardar carinhosamente estas publicações preciosas.
(Esta não é original.)
Devo dizer que a Linguística é, para mim, uma ciência nobre.
O Professor Lindley Cintra ensinou-me a considerá-la assim.
Custa-me ver hoje tamanha desorientação nos estudos da Língua.
"A Linguística é talvez a disciplina das humanidades que mais evoluiu e que melhor diálogo tem com as ciências naturais: perguntem a António Damásio sobre os ecos entre o seu trabalho e o dos linguistas, na neurologia, nas ciências cognitivas e na inteligência artificial." Rui Tavares, no Público de hoje.
Não é só a mim que me dói o dizer mal por dizer mal. Dizer mal pode ser uma estratégia para disfarçar a ignorância. Mas a Língua merece mais e melhor comportamento por parte dos falantes.

Estranhezas!

O dia foi estranho.
De manhã, havia sol, o dia prometia ser um dia de inverno, a sério, azul, com frio e sem chuva.
Em sextas-feiras feriados o amanhecer é inacreditavelmente melhor. Primeiro, vem a confirmação de que não se trata de uma confusão, de que é mesmo dia de dormir até mais tarde. E amorna-se novamente a preguiça no "edredon" e o sono embala-se com motivação de hora extraordinária.
(Mia Couto é que fala num conto de um corpo em que a vida fez horas extraordinárias!)
Ao meio dia, o afã nas ruas era de sábado, porque isto de ser Dezembro tem que se lhe diga. Há que abrir as lojas ao público e os cordões à bolsa.
Depois do almoço, o afã era outro, mais em tons de vermelho e verde. Uns e outros preparavam a alma para a vitória, sabendo ambos que nem empatados saiam os dois felizes. Um empate é sempre uma derrota, embora mais leve! Ganhar é que é bom.
Ao fim da tarde, ainda o sol andava por Lisboa e já se sentia o jogo, nas proximidades do estádio dos leões.
Durante o jogo, a cidade acalmou.
Até que o árbitro, filho ou não de uma honrada senhora, apitou e o jogo acabou.
Não vi mas sei que muitos leões abandonaram, cabisbaixos, a arena mesmo antes da decisão do senhor que veste de negro. (Ou não?)
E depois veio a chuva, assim sem mais nem menos, como se tivesse sido convidada...
Na segunda circular, um, apenas um benfiquista apitava. Timidamente, mas apitava.
Só um! E até tinha um cachecol ondulante na janela.
Tudo circulava à velocidade da pressa de regressar a casa, numa noite sem história para além daquela que devíamos lembrar: a História que nos devolveu a Independência, que alguns agora lamentam, mas enfim...
Durante muitos anos, foi este um dos nossos dias de orgulho!Deste dia, 1 de Dezembro, fica a mensagem do Laço Vermelho. Um laço solidário que nos ata à prevenção e ao esclarecimento!