quinta-feira, 26 de abril de 2007

C'est fini

Eu era miúda e as cantigas ficavam-me no ouvido. A falta de jeito para as cantarolar, levava-me a fixar-me mais nas letras românticas de morrer...
Fui vê-los e ouvir as solidões de todas as adolescências ao Cinema Manuel Rodrigues, se a memória não me está a enganar.
Não está certamente.
Ou estará? Terá sido no Gil Vicente, como diz a IO?
Hoje, ao ler a notícia da morte de um dos elementos do Conjunto João Paulo, senti a saudade indefinida do tempo frágil dos doze, treze anos, em que o futuro é uma esperança e ao mesmo tempo uma incerteza e, por isso, as emoções aderem às cantigas de embalar que hoje nos parecem pirosas de morrer...
Não digamos adeus carregados de tristeza que a ninguém serve.
Digamos adeus, de outra maneira. Não sei como, mas sei que gostava de ser capaz de vencer a tristeza com a ternura das memórias simples.
Obrigada, Malhanga, pelas recordações que guardas!
Aqui deixo também a "prova" do crime: Não só os ouvi, como pedi autógrafos!

quarta-feira, 25 de abril de 2007

Cravos: "ração de utopia"

De José Jorge Letria, deixo estes versos, parte de uma carta a Zeca Afonso, numa celebração de Abril.
"Ai, Zeca, a falta que tu nos fazes.
Não gostavas que eu o dissesse,
mas eu não tenho outro modo
de o dizer e de o sentir. Tu sabes.
E agora que Abril celebra
a maioridade dos seus vinte e cinco anos,
eu acho que tu tens o nome desse mês
e que esse mês é teu gémeo e teu sinónimo.
(...)
Onde quer que estejas, Zeca,
estarás sempre na margem esquerda
de uma história imperfeita, inacabada,
de uma história que não começa
nem acaba connosco, em nós.
Partilhar o teu tempo foi a festa maior
da minha idade de ter sonhos
foi a minha ração de utopia,
a minha razão de ter voz
e a força de ver crescer em nós
a altaneira luz que nos resgata."
A todos os que sonharam este dia, eu agradeço! Pode até parecer que já nem é nada connosco, que do vinte e cinco original sobram sombras apenas...
Mas à medida que o tempo passa, crava-se-me a dor de ter perdido um ideal.
Quero reencontrá-lo. Quero deixá-lo aos meus filhos e aos meus netos.
Onde quer que estejam, Salgueiro Maia, Zeca, Ary e outros, que mais anonimamente trabalharam nas fábricas da liberdade, obrigada!

segunda-feira, 23 de abril de 2007

Queridos Livros

Para a comemoração deste dia, Dia do Livro, escolho um que conheço bem, porque o "dei" nas aulas de Português, no sétimo ou oitavo ano... Já não me lembro se era sétimo, se era oitavo.
Bem, bem, lembro-me sim do livro, da capa, já muito colada e descolada, colada e descolada, do que dizia, do que me ensinou, do que me sussurrou que "aproveitasse" para transmitir valores, que aproveitasse para receber com humildade as lições. Sim, porque lá por ser eu a professora não queria ( e não quer!) dizer que não aprendesse também. Com os alunos e com o Livro: O Mundo dos Outros, de José Gomes Ferreira.
Estas aulas ficaram-me agarradas à pele de pessoa/professora, que não está ali apenas para debitar matéria, mas sim também e sobretudo para ensinar e aprender a vida, porque numa aula há vidas e vidas para a troca.
Foi no Mundo dos Outros que aprendi quase tudo sobre as infâncias estragadas. E o que mais temos dentro de uma sala de aula é infâncias estragadas. Disfarçadas, pois...
O Graxa, a Boca enorme, os quinze dias de felicidade na Colónia Balnear do Século, as azedas, o próprio poeta a dar os primeiros versos na poesia, as azedas, outra vez? sim! outra vez! e uma "confusão de mundo", que se mantém, por muito que digam, por aí, que há admiráveis mundos novos à nossa espera.
Que venham mais livros ao nosso encontro, para nos ensinarem a vida, "como ela é", "sem tirar nem pôr"...
mundo dos outros

sexta-feira, 20 de abril de 2007

O Prémio do nosso contentamento

Já disse como é que conheci o escritor, ou melhor, a escrita de Mia Couto?
Já devo ter dito. Em quase três anos de blog, já devo ter dito quase tudo sobre o que de importante me aconteceu na vida.
Não estou a exagerar, o que não deixava de ser legítimo e normal.
Tropeçar numa voz da minha terra abriu caminhos para entranhas do pensamento que eu não ousava tocar.
áfrica
E ali estava, nas minhas mãos, nas páginas de um livro, o sentir das gentes que, ao fim e ao cabo, são diferentes e são iguais, pois a massa humana é uma, apenas: mistura de músculos, ossos, tecidos, órgãos... Analisada a lágrima da preta é "água quase tudo e cloreto de sódio", como a lágrima de qualquer sueca ou dinamarquesa... Mas o que dói é pensar na guerra, na fome, na condição pobre para que parecem destinados os povos de África. Claro que a tragédia e a cor da pele não têm qualquer ligação directa, mas, às vezes, parece que para ser feliz é preciso ser belo, magro, jovem e, quem sabe, também branco.
Foi esta "África", minha pela memória, que encontrei em Mia Couto, ontem distinguido com o Prémio União Latina de Literaturas Românicas.
Nunca será demais lembrar a uma parte do mundo que há um lado do mundo onde moram os desfavorecidos da sorte, onde nem uma migalha do pão de cada dia está garantido, onde a escola é um sonho lindo, onde todos os direitos consagrados para a humanidade são ainda uma causa, com muita luta pela frente...
Tenho para mim que Mia Couto será o próximo Nobel da lusofonia!
É uma ideia minha e vale o que vale. Mas tenho essa ideia sobretudo pela reinvenção do português novo, feito de palavras mestiças, enriquecidas por isso, de beleza verdadeiramente única.
"Abensonhados" prémios que promovem a divulgação do escritor moçambicano, da escrita moçambicana, à escala do mundo dito culto!
Se algum dia chegarmos a alguma justiça humana será com as armas da cultura!
mãe zambézia
Obrigada, Mia Couto!
(Fotografias- Alto Molocué, anos 50)

terça-feira, 17 de abril de 2007

Mãos à obra!

Determinados filmes apanharam-me numa idade já amadurecida ( ou envelhecida, como os vinhos!) numa casta de vulnerabilidade causada pelo sentimento de responsabilidade da vida dos outros. E estes outros são filhos, sobretudo, são alunos, são sobrinhos, são todos aqueles em relação aos quais sei que há um qualquer poder, por pequeno que seja, de moldar o pensamento, talvez para sempre...
A História Interminável foi sem dúvida um desses filmes. Vi-o repetidas vezes, primeiro nas salas de cinema, na era antes do vídeo; depois em casa, onde há a vantagem de voltar atrás e ver de novo, sempre que a nossa compreensão, concentração ou atenção o peçam.
(Os temas dos filmes infantis são, normalmente, intemporais. Dizem respeito a todas as infâncias de todos os tempos. Mesmo as infâncias escondidas pelas rugas e pelos cabelos brancos reagem às evocações das emoções das idades pequenas.
Como os medos, por exemplo!)
O meu mais longínquo terror era precisamente o Nada. O Nada aterrorizava-me, sobretudo à noite, e eu chamava a minha mãe que tentava acalmar-me os medos, chamando-me à razão. Nunca, no entanto, lhes confessei o medo real, o medo dominante: o nada. A ideia do nada. A possibilidade do nada. A consequência mais aterrorizadora: a minha própria inexistência.
Claro que o Nada se dissolveu na razão dos anos da vida que se foram seguindo. Foi Michael Ende que mo devolveu, atadinho de pés e mãos graças à idade adulta caldeada por outros medos, por outros nadas, por outras ameaças à fantasia, esse reduto da infância, que podemos renovar em cada geração que se segue.
"Don't you know anything about Fantasia? It's the world of human fantasy. Every part, every creature of it, is a piece of the dreams and hopes of mankind. Therefore, it has no boundaries."
Recordo ainda, e tenho-me lembrado muito nestes tempos, o cavalo que morre afogado no Pântano da Tristeza. A tristeza parece irresistivelmente sedutora. Quase certo! Mas a razão e a vontade são antídotos, por excelência.
"If we're about to die anyway, I'd rather die fighting!"
Contra o Nada! Contra a tristeza!
Corações à obra!

sábado, 7 de abril de 2007

Eco

"E todavia, por muito que eu possa contar ao narrar-me e ao narrar (até escrevendo estas poucas páginas), por muito que escreva ou diga - mesmo que fosse Platão, Montaigne ou Einstein-, não irei nunca transmitir a minha experiência vivida- por exemplo, a sensação que experimentei ao ver o rosto amado, ou a revelação que tive em frente a um pôr do Sol." Umberto Eco, A passo de Caranguejo
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E isto eu já entendo. Quando se trata de um pôr do Sol, eu entendo. Aprendi com o Principezinho!
Páscoa Feliz!

sexta-feira, 6 de abril de 2007

"É isso que eu não entendo..."

Belinha, esta manhã estavas zangada e agressiva.
O teu sorriso de dente único estava amarrado a uma expressão de raiva. Os teus gestos desarmonizavam-se na pressa de empacotar os sacos plásticos e fechar as duas malas de mão que trazias. O saco maior tinha a vaga forma de gente e tinha o tamanho da tua boneca, daquela que costumas embalar como se embala um filho.
Mas hoje os teus modos não eram os teus modos. Bateste na empregada que limpava o pó da televisão e não querias que ela acabasse a limpeza do chão.
Junto aos sacos de plástico e às malas, estavam duas bonecas. Não estavam vestidas nem penteadas. Não as trataste com os mil cuidados que costumas ter com a tua boneca grande, que até se parece contigo.
Que pecados expias tu, Belinha?
Não são os teus pecados certamente, pois não os tens, nem à luz da lei mais rígida dos homens, nem à luz das leis de Deus.
Que sentido faz o teu sofrimento sem conhecimento nem reconhecimento?
Contudo a relação com os outros existe para ti e manifesta-se sempre nos limites da ternura ou da raiva, como vi esta manhã?
Nós, os outros quase todos que não nos atrevemos a sentir até aos limites, a não ser que circunstâncias extraordinárias nos imponham a ousadia, quem, de nós, pode compreender-te, como dizemos vulgarmente, quase todos os dias, que nos compreendemos uns aos outros?

(...)

rocha
Praia da Rocha, esta manhã.

domingo, 1 de abril de 2007

Parabéns, Diogo!

O que é que eu posso dizer acerca do que desejo para ti e que tu não saibas já?
A vida é como uma montanha que uns sobem e outros descem. Se descem, como eu e o pai, é porque já chegámos um dia ao cimo e, por lá, estivemos a contemplar a vida, a gozar a vista do alto dos nossos anos jovens, plenos de sonhos e de força, de esperança e de tudo o que é bom. Foi do alto dessa montanha que te vimos chegar e foi com muita alegria que te vimos começar a subir a montanha, norteado pelos valores que também a nós foram transmitidos pelos que já desceram a montanha até ao fim.
Diogo-1
O bolo de chocolate da Di já está à tua espera. Saiu agora mesmo do forno. E só hoje é que eu aprendi a fazê-lo para que possa, daqui a alguns anos, ser eu a levá-lo aos meus netos!
Parabéns, Diogo!!!