segunda-feira, 30 de junho de 2008

Tanto tempo depois

Um dos meus maiores martírios enquanto aluna foi a Geografia.
Para mim, todos os montes eram uma abstracção. Montes mesmo só os Libombos, triste paisagem da janela do frio dormitório do colégio da Namaacha.
Rios, só mesmo o que passa em Marracuene, carregadinho de hipopótamos a mascar ervas, com olhares alucinados.
À Serra da Arrábida, eu continuo a chamar Serra de Palmela. Quando se desenha cheia de beleza no horizonte cheio de tons de pôr-do-sol, quando venho do sul, sei que estou a chegar a casa.
Em contrapartida, compreendia o que me parece hoje ser a abstracção maior: a divisão do mundo em fatias, os fusos e fazia todos os problemas num instante. Diziam que eu era espertinha mas pouco esforçada, estigma que me ficou para a vida.
Há pouco mais de um ano, tanto tempo depois, dou de caras com o Rio Sabor, ele mesmo, ao vivo e a cores.
E agora persegue-me nas páginas dos jornais, em forma de dissabor, a relembrar-me o meu "chumbo" a Geografia, no quinto ano.

domingo, 29 de junho de 2008

O dia em que eu encontrei o "Inoque"

Este título tem uma nítida influência "agualusiana". Pelo menos, a mim, parece-me. Não faz mal. Ninguém me vai acusar de plágio e os envolvidos muito menos.
A primeira vez que eu encontrei o Inoque, foi num dos Manuais de Português, dos anos oitenta, altura em que eu era o que sonhava vir a ser para sempre: Professora de Português. Eu estava mais apaixonada pela Língua Portuguesa do que o próprio Pessoa. (Não te irrites, Poeta, esta frase é uma hipérbole!)A minha pátria da altura era sem qualquer margem de dúvida, a Língua Portuguesa.
Ontem, avisada que estava para uma reedição das obras de Virgílio Ferreira, num daqueles passeios de sábado ao fim do dia, na Fnac da Guia, não foi difícil encontrar os Contos. Apesar de estar às voltas com outras páginas, as novidades são sempre muito irresistíveis.
E por ali fui andando, página a página, encantada com as narrativas que "cantam" e contam sobretudo a simplicidade das gentes, simplicidade que corre o risco de morrer assassinada pelos costumes de hoje que não permitem que ela nasça, quanto mais que cresça, dê flores e frutos.
(Nas lojas de moda, as coisas simples, chamam-se "básicas", o que conota logo as ditas coisas simples com a noção de incompleto, imperfeito, pouco.)
E eis que chego à Palavra Mágica. E eis que dou de caras com o Inoque.
Inoque foi o que o Silvestre ouviu como insulto. Mas o que o outro contendor disse não foi inoque, foi inócuo. Contudo, de boca em boca, de rixa em rixa, como tão bem se narra naquelas linhas, a palavra assumiu todos as intenções insultuosas, das mais inocentes às mais nefandas.
Até que chegou ao juiz, que resolveu o imbróglio, para desgosto de todos que viram morrer tão ingloriamente a poderosa palavra que feria mais do que cem espadas.
O dia em que eu reencontrei o Inoque foi o dia a seguir a este pôr-do-sol, que deliciaria o Principezinho, como me deliciou a mim.Parece que o sol se aconchega com pressas de desejos à terra e ao rio, deixando o céu por conta das estrelas... Elas guardam as noites!
E, se me é possível o atrevimento, dedico este pôr-do-sol à minha terra distante que festejou, no dia 25 anos, 33 anos!
E ao irmão do Principezinho, pois nele são evidentes o traço do ideal, Nelson Mandela, que festejou ontem uma idade qualquer... Este é um dos raros seres humanos para quem o tempo só vale se for todo, inteiro, como ele mesmo! A Mandela, agradeço ainda o exemplo!

terça-feira, 24 de junho de 2008

A velha questão de Shakespeare

Hoje a Matemática sai no jornal, por maus motivos, por descontentamento daqueles a quem o assunto diz directamente respeito, daqueles que fazem contas à vida, não para hoje mas para muitos amanhãs: os alunos.
Há um sentimento generalizado de frustração, que talvez comece agora a notar-se mais do que até aqui, que se vai generalizando, tal como vai acontecendo com outros sectores.
Esperemos que seja dada atenção a este sinal, que não se subestime esta sociedade que há-de vir, marcada pelos erros de hoje, cometidos por nós, que os estamos a preparar para a vida.
Quando digo nós, também me incluo, claro! Posso não contribuir com uma certa negligência, mas de algum modo vou baixando o nível da minha exigência para acompanhar os tempos. E esta é a prova dos nove. Este é o caso sério, a versão verdadeira da anedota que circula nas nossas caixas do correio e que põe em evidência o facilitismo crescente, imposto por "cima", com taxas de sucesso obrigatórias, com fantasmas de avaliações negativas para os professores que não promoverem o sucesso das pautas.
(E o sucesso pessoal e educativo, quem é que promove Senhores Ministros?)
Mas, atenção, já não são os professores que vêm pôr em causa o ensino em Portugal. São os próprios alunos que se sentem enganados.
Será que não conseguimos arranjar um meio termo entre a competitividade doentia e o sucesso da preguiça e da esperteza saloia?
Há momentos de avaliação, há momentos do percurso e há alunos em que é absolutamente necessário atenuar os graus de dificuldade. Mas um exame nacional, crê-se que tem por objectivo aferir a média dos conhecimentos dos alunos alvo e, em conjunto com a nota de frequência, no caso do exame final do Ensino Secundário, estabelecer uma ordem para o acesso ao Ensino Superior.
E por que é que não se abrem as portas das Universidades a todos os alunos, independentemente deste exame? Era mais justo, parece-me!

domingo, 22 de junho de 2008

Eu vim de longe

Eu vim de longe
de muito longe
o que eu andei p'ra'qui chegar
Eu vou p'ra longe
p'ra muito longe
onde nos vamos encontrar
com o que temos p'ra nos dar.
José Mário Branco

Foi o que eu senti hoje, quando abri o Tesouro da Ana,
E deixei também o que senti. Abri a minha bagagem. Descosi as cordas do tempo e, de repente, fiquei ali, eu perante mim, com décadas de distância a aproximarem-nos.
Assim:
Uma grande fatia da minha infância cor-de-rosa (às vezes toldada de outros tons menos inocentes!) está aqui. No parque infantil, guardado pela Dona Isaura, nos meninos e meninas com quem brinquei e com quem escorreguei nos enormes escorregas e nas trombas dos elefantes; na piscina pequena e na piscina grande onde não aprendi a nadar por causa do medo que as pranchas me faziam; na biblioteca onde aprendi a gostar da ideia de namorar e etc; do Posto Médico e do bondoso Dr Seiça Neto, amigo do meu pai que esteve várias vezes à minha cabeceira e até um dia me levou uma imagem de Nossa Senhora com o Menino.... São muitas memórias. Se calhar é por isso, por causa desse gesto, que ainda cá ando. Fui abençoada por essa bondade dos que antecipadamente se santificam praticando o bem, a tolerância, a generosidade e, como calha à profissão, curam sem alardes de fama e glória. Está no Céu, com certeza, com o meu pai e eu espero que hoje (tempo presente) eles me protejam!
Desculpa, Ana, o comentário ser tão longo!
Muitos beijinhos

VC treze anos

Vamos a ver

O rio está para a cidade, como o céu está para as gaivotas.
Era esta a mensagem dos fados e cantigas de antigamente, que o meu pai trauteava com paixão, paixão essa que se confundia com outras, com toda a certeza. Nomeadamente a paixão da sua juventude, dos seus anos verdes em que tudo lhe parecia fácil.
Cresci geograficamente longe deste rio, deste céu, destas gaivotas, mas a cidade de Lisboa entrou-me nas veias, no coração e no cérebro, antes, muito antes, do dia em que o meu avião da Tap, se aproximou do rio, passando rente, muito rente. Tão rente que julguei ver tudo ali naqueles segundos: a ponte, os cacilheiros, o cais das colunas, o Terreiro do Paço, as ruas do Ouro e a Augusta. O meu enlace com a cidade deu-se por procuração e não sei se me apaixonei por uma Lisboa real, se pela Lisboa dos fados. Aquela que "tem o Tejo aos seus pés, a morrer de amores por ela."
"Se uma gaivota viesse, trazer-me o céu de Lisboa..."
Lisboa merece! Lisboa é uma linda cidade! Lisboa é um dos meus orgulhos!
"A ver vamos", se se cumprem as promessas que gemem que nem fados nas vielas.
Lisboa, qual é afinal o teu fado?

sábado, 21 de junho de 2008

I'm practically perfect

I'm practically perfect in every respect.
I haven't a flaw you could ever detect.
As soon as you know me I'm sure you'll agree
there's no one around who's as perfect as me.

I'm handsome and rich, with a generous heart.
I'm funny, and charming, and totally smart.
At school, in my classes, I only get A's.
I'm also athletic in so many ways.

My clothes are expensive. My hair is just right.
My teeth are all straight, and they're shiny and white.
I'm practically perfect. I'm sure you could tell.
And, oh, did I mention? I'm humble as well.

Kenn Nesbitt

(Não é por nada, mas tenho a sensação que este rapaz deve ter ido para a política!!!
Tão perfeito e ainda por cima humilde, seria difíil alguém sugerir-lhe outro caminho. Deixa cá ver.... Se calhar até está no governo?! Mas não, estou a passar em revista outras bancadas, que não "centrais", que essas foram abaixo ontem, e... Está li alguém que também deve ter dado uma ajudazita na inspiração deste poema!)

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Hoje acordei...

...com complexo de Principezinho.
A conferir:
-uma enorme vontade de fazer desenhos de jibóias com elefantes na barriga;
-um desejo também grande de encontrar no meu deserto alguém que me entendesse e conseguisse decifrar os meus desenhos, em vez de rir, troçar e achar que era/sou um caso perdido;
-um estranho impulso de arranjar um animal de estimação, que não fosse necessariamente um cão ou gato. Pensei em ovelhas, claro! e em vacas, daquelas dos anúncios aos chocolates com manchas pretas, ou brancas, muito bem desenhadinhas no lombo;
-a constatação de que eu sou duas pessoas em uma e que a pessoa crescida que há em mim é muito aborrecida (para não dizer “chata”, como dizem os ....);
- uma ânsia de pôr-do-sol;
- a certeza de ser responsável por todos aqueles que ao longo da vida cativei, o que nem sempre sai bem;
- a intenção de aprender a olhar para as estrelas, descobrir e reconhecer aquela que olha para mim e agradecer-lhe por isso;
Para a mentira parecer verdade, como dizia o poeta Aleixo, tenho de aprender a varrer ervas daninhas que se podem vir a transformar em gigantescos embondeiros; tenho de saber cuidar de uma rosa; tenho de aprofundar o significado de algumas palavras como “efémero” e “cativar”, para melhor a explicar ao principezinho.
Não vá eu encontrá-lo por aí!Os desenhos já fiz. Só falta o resto!

segunda-feira, 16 de junho de 2008

No, Minister...

Quando leio notícias destas, sinto uma enorme vontade de chorar. E isto é mesmo verdade: sinto imensa vontade de chorar, eu que nem sequer sou "muito dada" a choros, apesar do nome, ao abrigo de qual decreto-lei número tal barra qualquer coisa ano um nove cinco dois!!!
(Já me está a passar a vontade de chorar! Concentra-te, Madalena, no que estás a falar sobre!)
Primeiro é a história de "ver no terreno", como se o terreno se revelasse em meia dúzia de minutos. Para além disso, as condições do dito terreno são alteradas pela presença física do Sr Primeiro Ministro. (Está-me a dar a ideia de levar sempre um boneco do tamanho do nosso Primeiro, parecido com alguém que eu cá sei, para moderar alguns comportamentos.)
Vai uma aposta que nenhum menino vai atirar a mochila pelo ar, não vai tocar nenhum telemóvel, não vão andar à chapada dentro da aula, não vão dizer palavras "feias"?!
Outra coisa: vamos ser todos mais felizes com o cartão electrónico, não é verdade?
Os meus alunos do quinto ano já sabem trocar as cadernetas para iludir a vigilância do portão e sair quem não tem autorização. Agora imaginem o cartão. Vai ser "superhipermegafácil".
Qualquer dia chega a moda da impressão digital: põe o dedo e entra! Ou põe o dedo e sai. E dá mais trabalho roubar um dedo a alguém ou pedir emprestado um dedo para sair da escola no intervalo do almoço.
Lá vai o correio electrónico de cada um ser inundado com mails, com assuntos do género "Atenção: fraude...."
Mas vai ser tudo muito bonito, não vai Portuguesas e Portugueses?
Os kits tecnológicos vão erradicar a violência, a indisciplina, o insucesso?
No, Minister!montagem com fotografias do site da série "Yes, Minister".

sábado, 14 de junho de 2008

Chamava-se Ernesto.

Chama-se Che. Nasceu há oitenta anos.
O ideal matou-o. O ideal imortalizou-o. Há um Che Guevara dentro de todos os que sonham um mundo melhor.
"Os poderosos podem matar uma, duas até três rosas, mas nunca deterão a primavera.", disse.
Manuel Alegre dedica-lhe uma obra poética inteira.

Talvez o Che tenha sido o primeiro a compreender
que não se pode mudar o mundo
sem mudar o ritmo da relação com ele.

Por isso quando lhe disseram que a mãe tinha morrido
(andava ele no Congo
naquele ano em que esteve em parte nenhuma)
pediu um mate sem açúcar
falou da infância
e depois afastou-se lentamente
para cantar sozinho os tangos argentinos
que eram por certo os ritmos do seu sangue.

Ele sabia que era preciso o inesperado. O efeito
surpresa. Ataque e fuga.
Por exemplo: quebrar a rotina. Despedir-se.
Desaparecer.
Criar um foco algures dentro de nós.
Partir de um centro para uma espécie de irradiação.

"Navegar é preciso..."

"Quando nasceu a geração a que pertenço, encontrou o mundo desprovido de apoios para quem tivesse cérebro e ao mesmo tempo coração. O trabalho destrutivo das gerações anteriores fizera que o mundo , para o qual nascemos, não tivesse segurança para nos dar na ordem religiosa, esteio para nos dar na ordem normal, tranquilidade para nos dar na ordem política. Nascemos já em plena angústia metafísica, em plena angústia moral, em pleno desassossego político."
Bernardo Soares, Livro do Desassossego, Autobiografia- Diário, Edições Alma Azul
Bem-vindo à Internet, Fernando Álvaro Alberto Bernardo Campos Caeiro Soares Eu Tu Ele Nós Vós Eles Pessoa!
Gostava de te perguntar por que é que "viver não é preciso"?

sexta-feira, 13 de junho de 2008

O Grande Entrevistado

Tenho a certeza que não fui a única a sentir-me esmagada pela coragem do Salvador Vaz da Silva, até hoje desconhecido para mim.
É uma lição de coragem e de esperança. É a prova de que é possível falar de esperança e de coragem, mesmo depois de se ter passado "além da dor". É mais um testemunho de que a qualidade humana dos seres que sofrem de esta ou outra doença não tem de ficar comprometida. Pelo contrário, pode até melhorar.
É também sinal de grande coragem abrir a intimidade dos seus dias difíceis. Ele sabe sem dúvida que valeu e vale a pena! Afinal é de muitos mais frágeis e debilitados que se recebe esta espécie de transfusão que revigora o pensamento e regenera a vontade!
Obrigada, Salvador!

quarta-feira, 11 de junho de 2008

a viagem

Hoje, num determinado serviço público, alguém me dizia que não há revoluções sem derramamento de sangue. O que é, para mim e para muitos, um motivo de orgulho, é, pareceu-me, para outros, uma falha técnica. Não há pois luta que se preze sem sangue, de acordo com esta opinião que me magoou, devo confessar.
Como não podemos separar o povo que somos em dois ou mais, há que aceitar!
Eu também tive um sonho: que os rapazes da bola se dirigissem aos governantes e lhes pedissem para envidarem todos os esforços na solução de um problema que cada dia se torna mais difícil de resolver, sem sangue e sem lágrimas.
Por razões relacionadas com o momento que vivemos, não fui de carro para Lisboa. Levei o radiozinho de orelha para ouvir notícias relacionadas com a aflição do momento. Qual quê? Nada!
Futebol. Futebol. Futebol.
Fui de barco e, claro, vim de barco. De repente, começo a ouvir "é golo!" e a expressão alastrou-se, "cresceu" e quase todo o barco se levantou e gritou GOOOOOOOOOOOOOlO! Senti-me traidora dos ideais pátrios, mas não gritei gooooolo.
No entanto, fiquei feliz com felicidade dos meus companheiros de viagem!
Quase logo a seguir, o meu telemóvel tocou. Olhei desconfiadamente para o visor. Será alguém a querer comemorar comigo o golo? Pouco provável.
Mas era mesmo para comemorar! Era uma notícia feliz: "Madalena, o meu neto nasceu quando o Ronaldo meteu o golo!!!!!", gritava radiante a minha amiga Benvinda, do lado de lá de não-sei-quê-que-não-são-fios.
Aí eu gritei GOLO, mas foi baixinho. Mas apetecia-me gritar alto, como os outros.
Entretanto chegámos. Nesta curta travessia, Portugal consolidou a vitória e o mundo ganhou mais um ser. "Benvindo" sejas Tiago!!!! Bem-vindo sejas Tiago!!!!

terça-feira, 10 de junho de 2008

Pirilampos

Haver uma nova espécie de pirilampos em Portugal até pode ser uma notícia interessante. Mas, cuidado, os pirilampos alimentam-se de caracóis e de lesmas. Se estes comerem só as lesmas, tudo bem, mas os caracóis...
Eu cá por mim, o Pirilampo que eu prefiro é mesmo o Pirilampo Mágico.O Pirilampo e a Pirilampa vestidos a rigor para o Dia de Camões. Só falta mesmo o cachecol! Ah! Não? isso é amanhã, pois....

domingo, 8 de junho de 2008

O dia em que nasceu Yourcenar

“Não me queixo de que as coisas, os seres, os corações sejam perecíveis, porquanto parte da sua beleza é feita desse infortúnio. O que me aflige é que sejam únicos.” In “A salvação de Wang Fô e outros contos orientais”, de Marguerite Yourcenar.
São palavras do Príncipe Genghi, reflectindo sobre o valor da vida, num eremitério, para onde se exilou, voluntariamente, para aí viver os últimos anos de vida.
Marguerite Antoinette Jeanne Marie Ghislane nasceu a 8 de Junho de 1903, em Bruxelas, e a mãe, Fernande Cartier de Marchienne, belga, morreu dez dias depois. O bebé, aparentemente igual a muitos outros bebés, ficou entregue aos cuidados do pai: francês, com mais de cinquenta anos, presente e condescendente, abastado, boémio, Michel Cleenwerck de Crayencour. (Yourcenar é um anagrama do seu último nome.)
Em criança aprendeu a lidar com a solidão, educando assim uma força interior e uma coragem quase inabaláveis. Tinha oitenta e três anos quando escreveu pela primeira vez a palavra "choro", aquando da morte de Jerry Wilson, quarenta anos mais novo e seu companheiro de então.
A sua vida não se regulou pelos paradigmas sociais, mas a qualidade literária da sua escrita valeu-lhe a honra do reconhecimento pela Academia Francesa. Pode ler-se aqui o seu discurso na Sessão Pública que se realizou a 22 de Janeiro de 1981.

Parabéns, Pitucha!

Querida Pitucha, vê tu o tempo que eu levei para fazer esta distância, Montijo- Bruxelas.
Tanto trânsito! Vi logo que era uma multidão de admiradores que não queriam deixar de te cantar os parabéns e de desejar as maiores felicidades!
Para a querida sobrinha, uma salva de palmas!
Os parabéns estão atrasados mas os desejos de felicidades estão muito actualizados!!!! Muitas flores para ti!

sábado, 7 de junho de 2008

Efeito L.A.

"Chovem-me lembranças antigas."
E a chuva começa sempre no mesmo sítio, uma espécie de paraíso à moda antiga, onde não há máquinas de rega, nem máquinas nenhumas, nem de lavar ou passar a ferro a roupa de uma família numerosa. E a chuva cai sempre em espaços que não têm fim, sobretudo na minha memória deles.
A chuva rejuvenesce as imagens dos meus e enquanto chovem os dias passados, eles recuperam o andar e a voz clara que o tempo leva. Ouço-lhes os risos.
Enquanto chove, o cheiro das batatas fritas em azeite torna-se real. A chuva lava as cores das alfaces do quintal e os grandes limões amarelos, temperados com sal grosso, sabem ao mais opíparo manjar divino.
Chovem-me as noites frias da Namaacha e a água gelada dos lavatórios...

"Dêem-nos um pouco mais..."

"Numa cidade em que a maior parte da margem continua interdita ao peão, cada nova aproximação ao rio é uma festa. Dêem-nos um pouco mais de Tejo, com porto e tudo. Deixem-nos circular a pé até à margem, ao longo dela ou até, de barco, pelo rio. Entendam-se as entidades, abram-se os percursos, deixem-nos passear pelo porto, não criem mais barreiras físicas e visuais para chegarmos ao rio." Helena Roseta, 21 de Maio de 2008, Público.Direi ainda: num país em que o futebol domina a atenção de todos, dêem-nos um pouco mais do resto que não é futebol.
Dêem-nos um pouco menos de futebol!
Conversemo-nos", por exemplo!

sexta-feira, 6 de junho de 2008

O dia mais longo

"Normandy is marked by the landings. It is inscribed in people's hearts, in memories, in stone, in rebuilding, in memorial plaques, in street names, everywhere." the Rev. Rene-Denis Lemaigre, priest of Lisieux.
Fica para sempre inscrito também na memória de quem visita a Normandia.

Decididamente,

cada vez percebo menos de política.
Juntaram-se três homens da política, da televisão, da rádio, dos jornais, de todos os lados, pois não há em Portugal quem não queira saber como pensam as cabeças deles, juntaram-se, dizia, e bateram "forte e feio" em Manuel Alegre.
O Pacheco Pereira diz que a festa de terça à noite foi uma manifestação contra o governo PS. (Haja alguém, Doutor Pacheco Pereira, que possa manifestar-se contra estas políticas que nos governam, ser temer ser despedido, afastado, processado...)
Lopo Xavier diz que Manuel Alegre não concretiza alternativas. Diz palavras muito bonitas, mas não concretiza, não diz o que se deve fazer em vez de. Pegar na pobreza e mostrá-la a quem não a quer ver não me parece nada abstracto, Dr Xavier!
António Costa, elegante e educado, apresentou a teoria: a natureza do poeta é ser do contra, é dizer não. O PS é todo muito feliz, em termos colectivos, quando está na oposição.
E calam-se as consciências quando um partido sobe ao poder?
Pois é....Isso até acontece a todos!

terça-feira, 3 de junho de 2008

Uma coisa de "pessoas"...

Diz Manuel Alegre a propósito da celebração desta noite no Teatro da Trindade.
Está lançada ao mar a semente da poesia!

Quinto Poema do Pescador

Eu não sei de oração senão perguntas
ou silêncios ou gestos ou ficar
de noite frente ao mar não de mãos juntas
mas a pescar.

Não pesco só nas águas mas nos céus
e a minha pesca é quase uma oração
porque dou graças sem saber se Deus
é sim ou não.

Manuel Alegre, Senhora das Tempestades, Lisboa, 9.12.96

domingo, 1 de junho de 2008

... ao jeito de antigamente...

Antigamente, ligava-se mais a alguns aspectos do calendário. O próprio clima era mais respeitador dos hábitos e costumes das pessoas.
Um dos pontos altos do calendário era sem dúvida a abertura da praia. Abria a praia e pronto! Estava aberta para o bom e para o mau e mesmo que alguém tivesse de levar casacos e abafos nos primeiros dias, a felicidade era estar na praia. Havia de chegar o sol! Haviam de se banhar nas ondas os fervorosos banhistas que incluíam a praia nas suas vidas porque fazia bem aos grandes e sobretudo aos pequenos. Não havia cá essa coisa o bronze. O bronze era um efeito secundário. O que valia mesmo era o prazer dos banhos, para uns, dos castelos de areia para outros. O que valia mesmo era viver o verão!
Viva o sol! Viva o mar!
Hoje fui espreitar a praia. Não vi ninguém entusiasmado. Fiquei também um bocadinho triste.
Um dia, daqui a alguns anos, neste mesmo dia primeiro de Junho, hei-de ir com os meus netos à praia e hei-de ensiná-los a gostar do mar e da areia e das ondas e de andar na areia molhada...
É que há coisas que nunca esquecem e outras que nunca mudam e o mar é desses!