quarta-feira, 31 de março de 2010

De todos os Marços....

De todos os Marços da vida, aquele que me deixou um sabor mais doce na memória foi, sem dúvida, o de 1975.
Sim, era a revolução. Era também a minha revolução!
Tomei conta da vida. Peguei nela e levei-a para diante. Senti o lado doce de um certo poder, um poder que nasce cá muito dentro e vem carregadinho de cravos e de esperança, alimentada que estava eu de cravos vermelhos e altos, tão altos que quase roçavam nas nuvens e lhes cortavam o caminho.
Um dia, sonhei (mentira? porque não? amanhã é dia delas!) que uma nuvem se rompeu em prantos perante a impossibilidade de vencer o cravo que a impedia de se tornar pesada e grossa, de desabar sobre os felizes que por aqui andavam.
E o cravo crescia cada vez mais, qual feijoeiro da história das fadas e bebia directamente da nuvem alta, que se atrofiava de tempestades e se dissipava noutras direcções...
Antes desse Março, chegar ao fim, poucos minutos antes, entrei, triunfante e feliz na Maternidade, para acolher Abril, senhora de uma nova condição!

domingo, 21 de março de 2010

E a Poesia?

Imagem, de Miguel Torga

Este é o poema de uma macieira.
Quem quiser lê-lo,
quem quiser vê-lo,
venha olhá-lo daqui a tarde inteira.

Floriu assim pela primeira vez.
Deu-lhe um sol de noivado,
E toda a virgindade se desfez
Neste lirismo fecundado.

São dois barços abertos de brancura;
mas em redor
não há coisa mais pura,
nem promessa maior.

Vila Nova, 4 de Abril de 1936São Martinho de Anta, Março 2006
Para a TP, porque também é "Torguiana" e para todos e todas que gostam de poesia e da Primavera

Chegou!

A Primavera, cá em casa, fez-se anunciar. Foi esta elegante flor que me segredou aos sentidos que a Primavera vinha mesmo. Deixei transparecer alguma dúvida, mas ela, com a convicção de uma flor sábia, reafirmou a certeza de já estar próxima a sua chegada.
Fui ter com ela, à janela da cozinha, aos primeiros minutos do dia previsto que consta nos Livros do Tempo. Confesso que temi que se tivesse perdido por outros hemisférios!
Mas, à meia noite em ponto, ou dois minutos depois, para ser mais precisa, a minha flor mexeu, com um vagar voluptuoso, as suas pétalas e eu percebi o sinal.
Abri a janela, para deixar a Primavera mais à vontade. Disse-lhe que se instalasse, que tinha a casa toda para si. Pediu-me um lugarzito nos nossos corações e eu fui a correr limpar o meu de algumas angústias que o têm deixado numa autêntica lixeira.
Estamos todos prontos para receber a Primavera!

sábado, 20 de março de 2010

O Dia dos Pais

À medida que a vida avança, evolui o significado dos vários elementos que constituem essa mesma vida. As rotinas tornam-se imprescindíveis bengalas de segurança. Os sentimentos ganham matizes dourados de Outono. O bom torna-se muito bom. O mau, por vezes, afunda-se e desaparece nas profundezas da nossa indiferença. O belo, cada vez mais belo. E todos os dias fazem sentido!

segunda-feira, 15 de março de 2010

São os Putos deste povo....

Tenho para mim que as respostas às grandes perguntas estão dentro de nós. São respostas pequeninas, tão pequeninas que as escondemos bem, para não nos sentirmos envergonhados perante a imensa Humanidade.
Tenho ainda para mim, que as respostas, apesar de pequeninas, são de tal modo universais, tanto quanto os porquês, que vêm nos livros.
São os Mundos dos Outros que nos revelam os nossos próprios mundos. É lá que nos grita a Boca Enorme e o Graxa, o tal miúdo de olhos de "cinza", filho das "manhãs duras de trabalho".
(É pena que eles nos perturbem os belos dias de sol,como o de hoje, por exemplo!)
A ironia do poeta acorda a mais sonolenta e preguiçosa resposta dentro de nós.
E até vêm miúdos de outras estantes, de outros volumes, putos, do Altino do Tojal.
São meninos como esses, adormecidos para nosso descanso, nas páginas dos livros, que um dia desatam a vingar-se do Mundo Deles, apanhando o mais frágil ser que vier à rede e o que vem à rede é peixe.
A vingança não conhece idades e não vale a pena andarmos com mais lirismos! Como diz o poeta, ou seja lá quem for: a culpa é nossa. Há uma culpa colectiva que não se dilui em rios de tinta (ou de "toner") e que teremos de assumir um destes dias, para erradicarmos de vez a violência das nossas escolas.
Para a Teresa M que me "provocou" esta reflexão!

quinta-feira, 11 de março de 2010

O dia em que fomos Prémio Nobel

Foi ontem, na Escola da Restauração em Alcochete.
A conversa e o convívio com as professoras e os alunos foi para além do tempo que estava previsto. Não demos, eu falo por mim e pela Ana, pelo tempo, pois o prazer e a emoção tomaram absolutamente conta de nós.
A Biblioteca Escolar estava preparada para receber as autoras, ou seja, nós. Logo, à entrada, um painel lindíssimo elaborado pelos alunos.
Os meninos entraram e sentaram-se à nossa frente, no chão, num "anfiteatro" improvisado e, graças à técnica do "sentar à chinês", couberam as duas turmas. E ainda sobrou espaço.
E depois foi tudo conversa. Linda conversa, muito na base do diálogo, das perguntas e das respostas: quanto tempo a Ana tinha demorado a desenhar? Quanto tempo eu tinha demorado a escrever a história? Como é que tinha surgido a ideia do livro? Se a árvore existia mesmo? Se além de "autoras" tínhamos outra profissão....
Linda a valer foi a sessão dos autógrafos. Foi um dos momentos mais solenes, porque as crianças dão muito valor ao autógrafo: puseram-se em fila, com a postura mais cerimoniosa que a intuição lhes ditava, segurando papelinhos, alguns muito minúsculos mesmo, onde iriam guardar o nosso nome.
Esta simplicidade a transbordar de uma solenidade quase mágica era a prova (dos nove, que não falha...) que aquele momento estava a ser um momento especial, muito especial mesmo.
Foi o nosso Prémio Nobel. Mas, em grande! Obrigada Professoras, meninos e meninas.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Dia da Mulher

Não nascemos mulheres; tornamos-nos mulheres, disse Simone de Beauvoir.
Hoje celebra-se a Mulher: a pobre e a rica; a bonita e a feia; a que vende saúde e a que sofre; a que passou por alegrias mil e a que provou o pão que o diabo amassou. Ainda há as novas e as que já não são. Diz o nosso Nobel (Gosto de o tratar assim. É o orgulho a funcionar!) sobre a sua avó Josefa: "trave da tua casa", "lume da tua lareira".
A propósito desta data, tenho-me lembrado muito da minha mãe e é a ela que quero prestar esta simples homenagem. Apesar de todas as vicissitudes das condições actuais, não perde o gosto de pôr o seu baton, o rouge, o perfume e os brincos. Acho que é coragem! E a coragem também não nasce connosco, a coragem aprende-se e, pela força do exemplo, ensina-se!

segunda-feira, 1 de março de 2010

"links" ou "nonsense"

Há coisas assim: olha-se e ouve-se; olha-se e vê-se.
Esta imagem, recolhida pela minha "cusquice" há já algum tempo, trouxe-me hoje à ideia a cantiga do Jorge Palma. Encosta-te a mim, nós já vivemos cem mil anos. Não sei se as bicicletas se namoram, se são casadas ou vivem juntas. Não sei. Mas sei que passam os dias encostados à mesma balaustrada da vida da terra, quase mesmo a mergulhar na vida do rio. Por sinal, tranquilo. Nada das ondas furiosas que tenho visto nos últimos dias. Nada de águas alterosas, como ouço na previsão do tempo.
E ali ficam, todo o dia, todos os dias. Se calha passar por ali a cantiga do Jorge Palma, são bem capazes de trocar outros entendimentos.
Tudo o que eu vi,
estou a partilhar contigo
o que não vivi, hei-de inventar contigo
sei que não sei, às vezes entender o teu olhar
mas quero-te bem, encosta-te a mim
.

Não sei porquê, mas sempre que as vejo, imagino-as a namorar...
Talvez seja do lugar, que a isso convida. Perguntem à árvore que ali está e que deve saber tudo de tudo.
(Sonhei que sabia voar! É isso e duas bicicletas apaixonadas!)