
Hoje foi um daqueles dias de "bebedeira de azul" de que fala Gedeão!
O rio estava azul. O céu estava azul. Ao longe, o mar deixava-se adivinhar azul.
Andei nos barcos para lá e para cá, margem esquerda, direita, esquerda, direita e esquerda outra vez. Subi à Torre Gémea, no Porto Brandão. Gémea da Torre de Belém que lhe disputa o protagonismo da entrada da cidade, da saída para a conquista, da saudade das despedidas, das vozes de um Velho. A gémea de Porto Brandão jaz agarrada à terra e à memória de si mesma, sem tectos, segurando-se às paredes que resistem à vida há mais de quinhentos anos. Vamos a contas: até ao 1755 ela resistiu!
Enquanto isso, junto à bela Torre de Belém, milhares de mulheres vestidas de cor-de-rosa, celebravam a vida para além do medo. "Além da dor", Fernando Pessoa disse. Correram contra o cancro da mama. Como dizia o motorista do táxi, que nos levou a Belém pela manhã, aquela "confusão" valia a pena. Era a dor e o medo de quem está perto a falarem por ele. A minha mulher vai ser operada, acabou por dizer.
À uma da tarde, vindos de todos os lados, misturavam-se os turistas e as mulheres da T-shirt cor-de-rosa. E reinava a alegria verdadeira de quem confia. Isto está no papo, percebia-se. O que estava no papo não era a vitória do Porto ou do Chaves. O que estava no papo, e está no papo!, é a certeza de se poder pôr o cancro de lado e seguir com a vida para a frente.
No regresso, o eléctrico vinha cheio. Cheio de cor-de-rosa. Cheio de esperança. Cheio de confiança.
Para a próxima também vou. Fica a promessa. Hoje elas correram também por mim e, por isso, eu agradeço, cá de dentro, mesmo do peito, do mesmo peito onde mora essa confiança.
(
Estrelinha, esta esperança é para ti!)