quinta-feira, 23 de setembro de 2010

...esqueceste-te do texto...

Não, Jorge, não me esqueci do texto!
Eu sei que o poeta maior legitimou o ridículo das cartas de amor. Mas a nossa geração entranhou a noção do ridículo e não se expõe com facilidade. Pelo menos em palavras. Na primeira declaração de amor ficava esgotado o risco de ser gozado. Não era fácil dizer "adoro-te" e muito menos "amo-te". Je t'aime e I love you ficavam tão bem na tela ou no vinil! Mas, quando a realidade batia à porta, não íamos além da puerilidade de "Eu gosto muito de ti!". Era o pudor das palavras no seu esplendor.
Não me esqueci do texto! E se tivesse optado pelo texto, teria referido, em primeiro lugar, a tua honestidade e, em segundo lugar, a irreverência que cria os seus engulhos, mas que acaba por ser também apreciada por muitos.
Se tivesse optado pelo texto, ter-me-ia referido ao teu papel de pai. Aliás, basta ver a ternura com que os teus filhos te tratam e como, naturalmente, a tua relação com eles evoluiu para o que é hoje, hoje que eles são gente crescida e com responsabilidades.
Também és um sogro "à maneira"! Acho que posso afirmar, sem risco de contestação.
Mas eu só te conheço há quarenta anos. E só me "dou" contigo há trinta e nove. Pois é: levei um ano a adaptar-me à tua irreverência e, durante esse ano, fiz campanha contra ti junto das minhas amigas. Dizem que quem desdenha quer comprar. Mas eu não queria. Caí da escada e magoei-me. Para não ir ao hospital, recorremos a ti, porque ali eras praticamente doutor. Quarto ano de Medicina já dava para confiar!!!
O resto da tua vida, pertence aos teus pais, pertence-te só a ti.
Um dia, numa cerimónia pública (com uma ministra e tudo!) agradeceste aos teus pais terem-te ensinado sempre o caminho da verdade e nunca o do interesse. Como eles mereceram esta expressão de gratidão, este certificado de "Os melhores Pais do Mundo" que lhes entregaste!
Se eu tivesse optado pelo texto, não iria dizer "eu amo você" porque tem direitos de autor!!!

sábado, 11 de setembro de 2010

Cohen, "Our" Man

Dance me to your beauty with a burning violin
Dance me through the panic 'til I'm gathered safely in...

Com jeito de quem responde a um pedido, a voz de Cohen "dançou-nos" até à mais íntima das nossas emoções. Cohen não precisa ser maior, nem parecer mais robusto fisicamente. A voz e a certeza que transmite conduz-nos numa dança, às vezes veloz, outras vezes nem tanto! O chapéu ajeita-lhe a figura magra, esquelética e o gesto de tirar o chapéu como saudação ou respeito é repetido vezes sem conta, ao longo das três horas e muito que dura o espectáculo. Poucas vezes o ecrã gigante transmite a imagem da cabeça quase toda branca. Na tela aparece quase sempre um Cohen do peito para cima, com destaque privilegiado para o rosto. O resto é um chapéu. Cinzento, neste caso. Não sei se muda de show para show. Mas o chapéu empresta a esta figura a tonalidade da sedução de Humphrey Bogart. E o microfone acrescenta-lhe o charme, à falta (abençoada falta!) do cachimbo ou do cigarro que compunha muito a figura do sedutor dos anos cinquenta.
Cohen começa a cantar de joelhos, levanta os olhos do chão e pousa-os no guitarrista que se agarra ainda mais às cordas e dedilha fortemente para acompanhar a força das palavras cantadas pelo nosso "Homem".
O palco está cheio de estrelas. O público é bem comportado. Na sua maioria, jovens dos anos sessenta vieram mascarados de pessoas "normais" (até um ex-ministro disfarçado de pessoas normal lá estava!), mas os sucessivos "encores", levaram-nos a "soltar as paredes" de uma correcção postiça e aí foram eles olhar de perto a Lenda, ouvir mais perto, sentir mais perto. E irrompe subitamente um cenário de "beatlemania" junto ao palco. Tudo canta!
Gostei!

domingo, 5 de setembro de 2010

Crise de idade

A ideia dos recomeços sempre me atraíram Atrai toda a gente, penso eu. Sempre senti uma alegria imensa em começar o ano lectivo. No ano em que estive de baixa, assim que acabei a radioterapia, liguei a pedir junta, para voltar o mais cedo possível, antes que o ano lectivo avançasse e eu perdesse aquelas primeiras emoções. É como amanhecer: quando o nosso estado geral é dominado pelo bem-estar, pela saúde, pela harmonia. Quando alguma coisa corre mal, o amanhecer é uma angústia: o que é que o dia me reserva?
Eu estou por aí, pelo meio... Nem feliz, nem infeliz! Instável! E tudo porque entrei numa crise de idade, numa plena consciência que a juventude só permanece no plano de uma memória de coisas muito boas e pelas quais devo erguer as mãos ao céu. Mas não! Enrolo-me, numa tristeza vaga mas dolorosa e penso em mil maneiras de contrariar este sentido único da vida, “incontrariável”.
Hoje, tenho estado a ler um livro muito interessante e muito filosófico, muito "chinês", muito longe da agressividade que caracteriza a nossa maneira de viver, logo nos primeiros anos de escola.
Fez-me bem. Fui tirando uns apontamentos para o Facebook. Nada de muito relevante. Simples.
Depois encontrei imagens de um lugar que "visitei" há um mês... Talvez levada pela leitura, encontrei nas imagens uma ideia de tranquilidade, que me faz muita, muita falta.
Da Natureza aprendo e colho a tranquilidade, directamente do "produtor", como deixei no Facebook.
Continuo a olhar e pergunto, à paisagem, que idade tem. Parece-me ouvir "eternidade".
Afinal, nem tudo o que tem idade, ou mesmo eternidade, assusta ou desmerece um olhar mais prolongado…

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Um regresso para dizer adeus

Hoje regressámos à escola. Todos os professores, no dia um de Setembro invadem as escolas. Uns estão mesmo a chegar de férias. Outros já lá estão a trabalhar, nas preparações do arranque do ano lectivo. Mas no dia um é o grande regresso e uns juntam-se aos outros.
Este ano, infleizmente, muitos já se tinham encontrado por tristes razões. O reencontro foi marcado pela tristeza, pela falta e pelo adeus a um grupo de professores que vai para a nova escola. Fizeram uma escolha e foi uma boa escolha. Uma escola nova, a estrear é apetecível para todos. Mas não podiam ir todos e não quiseram ir todos. Hoje foi o último dia no mesmo espaço!
Vou sentir-lhes a falta! Vai doer essa falta em muitos de nós!
Boa sorte, Patrícia! Boa sorte, Regina! Boa sorte, Luís! Boa sorte, Sandra! Boa sorte para todos. Boa sorte Virgínia! Boa sorte, Elisabete! Boa sorte, Adelaide!
Para os que vão e para os que ficam!

Madalena 3G

Cena Um
Casa da Avó Nel, sala de estar contígua à cozinha
Avó, Avô, Mãe, Irmão, Jorge, Madalena (eu) e Madalena(ela)
Madalena, eu - Gosto tanto da tua mãe!
Madalena, ela- Mas tu foste mãe dela?
Acredito que as crianças 3G confirmem a sabedoria milenar: mãe é mãe e não há amor que se lhe compare...