sábado, 23 de julho de 2011

É sempre a mesma "conclusão"... O tempo voa.

Já lá vão 39 anos.
Tanto que eu tinha desejado este momento. Tanto que eu tinha sonhado com o meu regresso a Moçambique, a Lourenço Marques, à casa da minha mãe, ao carinho dos meus amigos, ao convívio sempre alegre das minhas primas, ao "colo" dos meus avós, às conversas demoradas sobre a Vida, com o meu pai.
E agora que estava ali, no aeroporto, para seguir no avião da TAP, tudo o que eu queria era mesmo ficar. O namoro tinha começado há tão pouco tempo! Queria ficar e continuar a namorar.
Uns tempos antes, eu tinha preparado esta viagem com muito entusiasmo. Queria revisitar os meus lugares. Queria sentir as minhas praias, apanhar ameijoa na Costa do Sol, comer camarões na Nacional, "bater-me" com os bifes da Princesa que tanto tinham contribuído para a minha rápida convalescença da tifóide. Queria beber as coca-colas todas que não tinha bebido nos dois anos que me separavam de "mim". Queria sorvetes da Cooperativa e sentir a inspiração das noites do Zambi...
Agora, só queria ficar!
Mas não podia ficar. E lá estivemos os quatro: a Dulce, o Rui, o Jorge e eu, até ao último momento que nos deixaram ficar na zona mítica das despedidas. (Hoje fala-se em check in e check out e o romantismo da despedida e dos reencontros passou a disfarçar-se de normalidade!)
Catorze horas depois, eu e a Dulce desembarcámos em Lourenço Marques. E não havia telemóveis, não havia Skypes, não havia nada. Havia saudades que mudavam de dono…
Agosto de 1973: eu, em Nampula; o Jorge, em Veneza!

terça-feira, 12 de julho de 2011

E se casássemos...

E se casássemos?!
Foi assim, com este romantismo todo, que o Jorge formulou aquele pedido que aconchega os nossos sonhos de menina. Nem anel, nem postura ajoelhada, nem declaração de amor reiterado... Nada! E se casássemos?! Como quem diz que em vez de andarmos por aí aos caídos, um para cada lado, mais vale andarmos aos caídos para o mesmo lado!
E não é que eu aproveitei logo a ideia e resolvi pôr em prática o mais importante? Arranjar uma casa!
Pois... é que eu queria mesmo casar ( O meu lado Susaninha porque nem todas as meninas de então se podem gabar de ter um lado Mafaldinha!) e tinha de aproveitar aquela distracção, não fosse ele arrepender-se e não tornar a dizer nada parecido.
É verdade que eu sonhava com a declaração de amor. É verdade que eu sonhava com o verdadeiro sonho. Certo é que já tinha recebido um manjerico no Santo António! Sempre é um sinal. Uma evidência, como se diz agora!
Aí fomos nós, cinco minutos depois à procura da casa. Não foi a primeira porque os dois contos e quinhentos, doze euros e meio na moeda da Troika, era demais, apurados que foram, em dez minutos, os recursos em escudos. Mas a segunda já cabia no Orçamento Geral do nosso estado de enamoramento, mais propriamente do meu enamoramento: dois contos trezentos e cinquenta.
Era doze de Julho e estava calor. Ainda bem que acertámos à segunda. Era um terceiro andar, na Rua José Malhoa em Odivelas. Três assoalhadas, porque na época ainda não havia T2.
Urgia oficializar mais o noivado, para estancar qualquer arrependimento, daqueles que se lêem nos romances. Uma carta para o meu pai. Uma carta para a minha mãe.
Querido papá... Querida mamã... vou casar. O meu namorado chama-se Jorge e é estudante de medicina. É de Angola e mais pormenores daqueles que os pais gostam de saber. Sobretudo as mães. Prometo que não vou deixar de estudar, etc, etc...
Ainda nesse dia, comunicámos aos pais do Jorge. A mesma promessa: não vamos deixar de estudar. O maior medo de um lado e do outro era o mesmo.
Na inocência dos meus vinte anos mais um, achava que alguém podia demolir o meu sonho e proibir-nos de casar. (Só hoje é que eu percebo que ninguém podia e ninguém pode levar-nos a fazer aquilo que não queremos!) Preparava-me para usar o direito da minha maioridade (vinte e um anos) para me casar sem autorização. Mas não foi preciso.
No dia seguinte, lá fomos ao Banco que tratava do aluguer. O terceiro andar já estava ocupado. Mas o segundo estava livre e até tinha umas paredes muito lindas, dizia a Dona Piedade que fazia as honras das apresentações e visitas aos andares. Ficámos com o segundo. Foi só uma questão de cobrir, com uma tinta barata mas eficaz, as flores desenhadas a rolo…
As certidões chegaram à velocidade do meu desejo e um mês e oito dias depois, lá casámos e fomos finalmente morar para as nossas três assoalhadas de "sonho".
Aí vivemos as alegrias maiores das nossas vidas. Aí começámos tudo!

sábado, 2 de julho de 2011

Adeus, Carlos!

Adeus, Carlos!
Deixa ficar connosco a memória do teu riso! Deixa ficar connosco o teu olhar espantado e podes até deixar o teu olhar zangado, esse ar que te emprestava uma certa expressão de criança, a mesma com que falavas com as tuas netas.
(O teu lugar é no meio de nós. A tua partida não faz sentido!)
No último almoço, quando todos tirámos as caixas dos comprimidos do bolso e começámos a tomar, desatámos a rir da nossa "velhice" ali escancarada no comprimido da tensão e do colesterol.
Fomos tomando consciência de que a juventude, tal como ela era quando nos conhecemos, estava a passar para os nossos filhos e isso era bom...
Fomos aceitando as mazelas e até fazíamos humor com os sinais exteriores da nossa "avançada" idade de BI. Por dentro, a nossa imensa amizade estava tudo igual. Sobretudo a irreverência que era a nossa imagem de marca. Para a história ficarão as tortas que iam ao ar sem se desmancharem, sem nunca eu ter percebido porquê. O pó da casa da Isabel, tão preocupada com a extrema limpeza. O sonho do carpélio contado pelo Jorge, revisto e aumentado com o passar dos anos e sempre gerador de gargalhada geral.
Não, Carlos, não vai ser nunca mais a mesma coisa. Mas vamos sempre sentir a tua presença, ouvir a tua gargalhada e perscrutar no teu olhar traquina, o homem bom e o bom amigo.
Um dia a gente vê-se, Carlos!!!!