quarta-feira, 28 de setembro de 2011

28 de Setembro de 1974 - Versão (da minha) memória

Saímos de casa muito cedo. Fim de semana, bom tempo. Nada mais apetecível do que um saltinho à Costa da Caparica.
Se houvesse "google maps" na altura, o trajecto recomendado seria: Calçada de Carriche, Avenida Padre cruz, Campo Grande, Avenida da República, Av de Berna, Praça de Espanha, acesso à Ponte, Ponte, primeira saída, via rápida, Costa da Caparica.
Mas não foi. O que aconteceu foi mesmo isto:
Calçada de Carriche: primeira barricada.
Comecei a fazer tricot!
- O melhor é irmos por Vila Franca! Dizia o Jorge.
Já não sabia onde é que ia, nem no tricot, nem no caminho, nem na barricada...
Mas nessa altura, não tinha medo de me perder. Nem tinha carta, portanto eu ia para onde o Jorge e o mini (DG-79-96) me levassem. À confiança!
Continuei a fazer tricot!
Os meus vinte e dois anos estavam cheios do sonho de um bebé que vinha a caminho.
Apesar das barricadas, era preciso tricotar...
Depois da Ponte de Vila Franca, depois de muitas barricadas, direcção Montijo, Sarilhos (Eu podia lá saber que havia uma terra chamada Sarilhos!), Moita e à noite lá chegámos à Costa da Caparica.
A viagem tinha sido proveitosa: as primeiras botinhas do Diogo!
As botinhas eram "obrigatórias" no enxoval dos bebés!
Imagem daqui.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Parabéns, Jorge!

Esta quantia de anos de idade veio mesmo a calhar para te "oferecer" um filmezinho recheado de momentos alegres da vida que já vivemos. Claro que a Vida não se faz só de alegrias. Houve outros momentos. Claro que houve! Mas é bom recuperar os outros, os bons, trazê-los à cena e agradecer-lhes terem "aparecido" tantas vezes e terem-nos ajudado a chegar até aqui.
Parabéns!
Quando eu era miúda, na estaçao B, através de umas antenas que eu nem sei como funcionavam, ouvia-se muitas vezes uma cantiga de parabéns diferente. Nunca me esqueci dos versos e lembrei-me deles hoje, a propósito do teu dia. Sabe-se lá porquê!
Não vou "cantar-te" a cantiga toda. Escolhi estes:
"The gift I have for you
is the promise to be true
to love you through the years
and never never bring you tears"
Quem me dera que fosse possível passarmos por dentro das vidas sem lágrimas. Algumas nem se vêem, mas nem por isso deixam de ser salgadas e doridas.
Já não somos adolescentes, já nem sequer somos "novos" e muitos dos nossos sonhos já são memórias. Outros são ainda sonhos e alguns ainda vão aconchegar os nossos dias.
A tal cantiga, que ouvi vezes sem conta nas noites caladas da minha casa em Moçambique, falava também de futuro. Claro que o registo é o do amor romântico até dizer chega, quase a tocar o que hoje chamam "pimba". Mas, paciência! Ser pimba ou ser ridículo vai dar ao mesmo e se Fernando Pessoa não temeu ser pimba e admitiu o ridículo, por que não eu?
Aí vai o resto:
Tomorrow starts a new year
and memory for the day
I wanna say I love you
darling happy birthday.
E, para terminar, a três minutos do dia de amanhã, agora a pergunta da cantiga dos Beatles: Will you still love me when I'm sixty four?

sábado, 17 de setembro de 2011

Parabéns, filho!

Há trinta e três anos, a Cegonha trouxe-me este bebé rechonchudo!
Estava muito calor: 40 graus. Era uma temperatura completamente inesperada para um Setembro já perto da data oficial do Outono.
Eram cinco e vinte da tarde quando ouvi anunciar: é um menino! Ou melhor. ouvi o pai dizer: Outro rapaz! Coisas de antigamente!
Depois foi o afã do costume: as visitas e as "inspecções" ao recém-chegado, para contar os dedinhos...
O "agregado" passou de três para quatro e havia todos os receios que nascem com um novo elemento na família da casa: o medo que aquele meio metro de gente vá ocupar o espaço todo dos corações dos grandes. Assim, atentos a todas as reacções, apresentámos os manos, um ao outro. O Diogo manteve durante muito tempo um olhar desconfiado, mas a pouca idade também não ajudava a dizer o que sentia. Tínhamos uma prenda preparada para adoçar o encontro: uma garagem da Shell, em brinquedo, claro! Mas o Diogo não se mostrou convencido...
A avó Di nem queria acreditar que se tratava de outro rapaz. Ela que estava à espera de uma menina. O quinto rapaz! Não podia ser.
Mas era mesmo um menino!
Parabéns, filho!

domingo, 11 de setembro de 2011

As (minhas) Sete Maravilhas da (minha) Gastronomia

O júri que aclama esta escolha é constituído por uma remota, mas nem por isso menos viva, memória das iguarias que alimentaram a minha infância, que deram sabor a esses dias que nem sempre são tão cor-de-rosa, como se imaginam, nem tão dourados, como se recordam. O tempero que domina toda e qualquer preparação é, sem dúvida, a dedicação carinhosa.
Comecemos pelas batatas fritas que saíam do azeite borbulhante das frigideiras de ferro. As batatas eram descascadas e depois cortadas em palitos, nem finos nem grossos, com a “medida” que a minha avó tinha na mão e na intuição, para o sabor que pretendia. Eram servidas em travessas abundantes. Algumas não passavam da cozinha. A minha avó fingia que não via e nós convencíamo-nos que tínhamos iludido a sua atenção!
O Caldo Verde da Tia Miquelina! As couves podiam ser as mesmas dos outros “caldos verdes”, as batatas e as cebolas também. Este caldo verde sabia pela vida. A minha tia era pobre. Pobre de bens materiais, pobre de dinheiro. Mas suas mãos, o seu talento e o seu amor transformavam todos os pratos numa iguaria que os ricos nunca provaram. (Tenho tantas saudades suas, Tia!)
O arroz de grelos da minha avó! Era uma das especialidades também.
O arroz de grelos acompanhava sempre os pastéis de bacalhau igualmente divinais. A última refeição que fiz em casa dos meus avós, nas férias grandes de 72, foi esta! Apesar das limitações da doença que lhe “tolhia” as pernas e a impedia de permanecer em pé, junto ao fogão, a minha avó preparou-me este manjar…. Obrigada, Avó!
O caril de galinha, prato domingueiro que a minha tia Odete Pequenina preparava pela manhã, cedinho. Depois da praia, apurado pelo tempo, servia-se o caril acompanhado de arroz branco, muito branco, muito solto.
E o chacuti que a doente do meu pai mandava frequentemente em sinal de agradecimento e reconhecimento a propósito de tudo e de nada?! A mais inofensiva injecção dava direito a um belo chacuti. Nunca consegui distinguir muito bem os ingredientes, mas isso não era diminuía o prazer de apreciar um sabor diferente. Hoje, associado à memória do chacuti, estão os saris e as lantejoulas que adornavam a senhora, que trazia sempre, a rigor, um ar bondoso e humilde.
O Bife da Princesa era um bife. Normal? Talvez! Mas o molho tinha um segredo qualquer e tornava diferente o sabor do bife. Aos dezassete anos adoeci gravemente: febre tifóide. Depois de um período de febres e delírios chegou a hora da recuperação, da convalescença. Bife da Princesa duas vezes ao dia. O Fabião largava os afazeres domésticos e lá ia ele buscar um Bife à Pastelaria Princesa. (Onde andarás, Fabião?)
Ficam ainda classificados como delícias inesquecíveis: a língua de vaca estufada que a minha mãe preparava, com todo o rigor das receitas transmitidas de geração em geração; os “cocós” dos Velhos Colonos, pequenas sandes de carne assada, inimitáveis; os camarões da Nacional; a carne assada da Nacional e o Frango à Cafreal do Piri-píri.
Mais um registo da memória do passado em prol da memória do futuro!
Na foto, tripas à moda do Porto. O melhor não se vê: a companhia dos amigos. Vieira do Minho.