sábado, 19 de novembro de 2011

Memórias dos Dias

As canções dos Beatles foram a banda sonora de uma revolução global que nós, os “sessentinhas” e os “cinquentões”, vivemos com a gulodice própria da adolescência, daquelas cheias de “borbulhas no rosto”, como diz a canção do Rui Veloso. Foi bom! De repente, o mundo parecia estar a nosso favor e não contra nós, “para nos tramar”… (Outra vez a canção do Rui Veloso!)
A primeira vez que me lembro de dançar (eu, que nem sabia dançar!) ao som daquela magia que toma conta de nós e nós não sabemos porquê, foi no aniversário da minha prima Madalena. Ela fazia os mesmos dez anos que eu tinha feito dois dias antes. Estávamos crescidas! (Achávamos nós!)
O Twist and Shout passava uma vez e outra vez no pick up que coloria de som a festa de anos.
Nós não sabíamos porque quem está por dentro das coisas não vê, mas a adolescência estava mesmo a chegar, com uma bagagem de novas sensações. Também não sabíamos e ainda não sabemos tudo acerca das sensações: só se sabe o que se experiencia na primeira pessoa.
Também não sabíamos, mas em breve viríamos a compreender que anda tudo ligado. Naquela manhã em que a minha mãe me foi acordar, com o medo na voz e nos gestos, percebi que ser adulto podia não ser assim tão fácil como imaginavam os meus dez anos, presos às pernas altas e corpo desengonçado: mataram o Kennedy! Ora o Kennedy não era só política: havia o lado cor de rosa dos Kennedy que tinha acabado de nascer com a belíssima, requintadíssima Jackie.
Bem, pelo menos ainda não tinha sido o Salazar, que esse parecia ser o medo máximo da minha mãe. Esse sim punha em causa vivermos como vivíamos, já então numa antecipação de conforto que havia de caracterizar o fim do século vinte.
Chegados à adolescência, lá estavam os Beatles. “Aqueles guedelhudos” que se calhar nem banho tomavam todos os dias! Enquanto uns se fixavam nos cabelos escandalosamente compridos, quase a tocar o colarinho da camisa, outros aproveitavam as letras para “crescer” e o mundo pulava e avançava “como bola colorida” entre as mãos de uma criança que ia ficando cada vez mais para trás. Estávamos a perder a "criança" (que dizemos que ora dentro de nós) e parecia não nos importarmos com isso…
Foi pena termos perdido essa criança!
A 19 de Novembro de 1967 os Beatles lançavam o seu álbum “Magical Mistery Tour”. Like a fool on te hill faz parte desse trabalho e não tem nada a ver com twist. Tem mais a ver com uma nova maneira de ver o mundo, lá de cima, do topo do monte…
Like a fool on the hill...

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Só acontece aos outros...

Maria Antónia Palla publicou, no final dos anos setenta, um conjunto de peças jornalísticas, denunciando casos de que a Humanidade certamente se envergonha: maus tratos perpetrados ou consentidos, com trágicas consequências. Às vezes, a mais trágica, a morte.
Tudo nos choca, com conta, peso e medida. Na maior parte das vezes, consciente ou inconscientemente damos a nós mesmos o mote para glosarmos a indiferença. Porque só acontece aos outros...
E os outros, por definição, nunca somos nós.
É certo que não podemos viver em permanente estado de choque que, também por definição, nos inibe de agir.
É por essa razão que a maioria de nós já desliga os aparelhos de televisão.
-É só desgraças!
E nós não estamos cá para ouvir desgraças
- Para desgraça, já chega a nossa vida! Assim vamos, dia a dia, adiando a nossa intervenção, desleixando o nosso contributo para um mundo melhor.
Há uns dias, uma pedra foi ter comigo à aula. Não houve intenção de me magoar. Eu creio. Os alunos já estavam todos fora da sala, no recreio e não eram meus alunos.
(Recreio? Qual recreio? Um espaço encharcado, enlameado onde não há baloiços nem marcas da macaca no chão? Desculpem, já estou a delirar!)
Tratava-se de uma “aula de substituição”! A ideia foi assustar-me, penso eu. E brincar. Dá jeito à gabarolice e quem viu pode sempre provar que aconteceu mesmo.
Como não há feridos, não há desgraça, mas para mim também não tem graça nenhuma. Pelo susto, primeiro. Depois pelo que significa em termos de falhas na nossa educação, no nosso sistema educativo, na nossa cultura que promove a violência.
E vamos continuar assim, porque isso “só acontece aos outros”! Desenho oferecido por uma aluna, na aula de substituição seguinte.