Eu gostava do verão, mas isso era dantes, quando o verão era todos os dias e o domingo era inesquecível: praia de manhã, caril ao almoço e matiné à tarde, no Gil Vicente, Manuel Rodrigues ou no Scala. Tanto prazer num dia só!
A praia era o ponto de encontro: os meus tios, as minhas primas, o meu pai, às vezes, a minha mãe, quase nunca. A água era quente. O senão era mesmo o perigo de algum tubarão passar por ali...
Chegavamos à praia e não havia dramas de estacionamentos, nem parques, nem orientadores à caça da moeda que, nos dias de hoje, vai sempre parar a algum lado.
Tudo chegava para todos: a praia, a areia, o mar....
Enquanto uns se desfaziam da pouca roupa que atrapalhava o sol de nos tocar na pele, o meu pai ensaiava o seu estilo do protagonista do filme "Aventura é aventura", sempre na esperança de agradar a alguma turista, de ganhar fama para lá da fronteira, de consolidar a que já tinha, ou simplesmente para não perder o jeito...
O meu tio sorria, ria.... Divertiam-se!
À hora do almoço já os ombros ardiam e a pele ganhava a cor da saúde.
Era hora de zarpar, que o resto do domingo estava ainda por viver.
O caril tinha ficado a apurar a manhã toda. Era só fazer o arroz, comer e chorar por mais.
O filme da tarde era o que fosse. Era um ritual domingueiro cumprido com o corpo a arder por uma boa causa: a beleza do tom.
Era deste verão que eu gostava...
sexta-feira, 20 de junho de 2014
quarta-feira, 4 de junho de 2014
Hoje será sempre o dia dos teus anos, papá!
"Hoje será sempre o dia dos teus
anos, papá!"
Foi o que eu escrevi no Facebook, hoje,
pela manhã. Não porque seja necessário fazê-lo, para me lembrar de ti, para
sentir que tu continuas a andar por aqui. Continuas porque os genes assim o ditam e,
contra a ciência, nada feito! Ela ganha! Esta verdade científica dá-me
segurança e não tenho de me refugiar noutros “creres” para ter a certeza da tua
presença.
Todos os dias o teu retrato deambula
pelas minhas recordações, pela minha própria pessoa pois estou cada vez mais
parecida contigo, fisicamente.
Às vezes, é na vida dos
outros, é nos momentos que vamos repetindo, no tempo de hoje, que eu
te "encontro". Quando vou buscar os meus netos à escolinha, por exemplo, recordo o dia em que
chegaste mais tarde e a tua figura enorme nunca mais aparecia junto ao portão e
eu pensei que esse era o último dia da minha vida. Pois que é que eu podia fazer
sem ti ou sem a minha mãe? Quando finalmente chegaste, corri e as tuas pernas
eram tão grandes que era difícil o abraço, o colo…. Era preciso trepar.
(Por isso, "aflição" foi coisa que eu quis sempre que os meus filhos não sentissem. E agora com os netos será igual.)
(Por isso, "aflição" foi coisa que eu quis sempre que os meus filhos não sentissem. E agora com os netos será igual.)
Tu foste sempre um homem
grande e a tua altura não era apenas uma altura medida em metros. Tinhas uma
visão das coisas da vida muito certa, muito antes de chegarem até nós.
Juntavas a esta capacidade de prever, ver ao longe, uma filosofia de vida que
se baseva, digo eu, hoje, no mais profundo senso comum. E olha que o senso
comum não é qualidade que as pessoas gostem de proclamar! Todos querem ser originais. E
tu tinhas umas tantas frases feitas que, sendo ou não da tua autoria, sustentavam
a tua verdade sobre a vida. Por exemplo, o ditado “os cães ladram e a caravana
passa” era muito inspiradora para ti porque tu sabias (eu ainda não) que
devemos seguir os nossos caminhos, independentemente do que os outros acham ou
não. Mais ou menos isso.
Eras pessoa de grande
conversa e de grande companhia. Os teus interesses eram tão variados que
ninguém ficava indiferente ao que dizias. Sabias ouvir e isso era muito
importante para mim. Mesmo que não dissesses, eu percebia quando é que tu não
gostavas de alguma coisa que eu tivesse dito ou escrito.
Dois ou três dias antes da
tua partida (não consigo referir-me por outra palavra que não seja o
eufemismo!) falámos de nós, de mim e de ti, os dois, eu e tu, e eu fiquei muito feliz porque tu me disseste
que eu nunca te tinha dado problemas ou desgostos. Engoli em seco porque sabia que isso não era
bem assim, mas também percebi que na altura era o teu sentir: não havia nada
nas minhas escolhas, nos meus caminhos, que tivesse de ser severamente censurado.
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