"A volúpia do aborrecimento" - crónica de Fernando Alves, na TSF- ou a vida dos velhos vista por dentro, do lado do avesso, que é o lado que temos de vestir quando a estação da vida nos impõe. E calçar pantufas, mais um eufemismo para os dias soturnos e tristes, amarelados como as folhas da árvores, antes de tombarem de vez num chão qualquer que será pisado por tantos, os tantos que ainda caminham na vida de salto alto ou outro que convenha ao sexo/género...
Uma coisa menos triste retive desta crónica: a infância só existe porque a vemos bem, ao longe, quando olhamos para trás. Tal como esticamos o braço para ver melhor ao pé, também as "temporadas" só tomam precisão de contornos vistas de longe.
O que o Fernando Alves não diz, porque provavelmente o neto é tão pequenino que ainda não lhe deu essa "dica", é que os nossos netos nunca acham que somos velhos e pulam para os nossos "lombos" como se fôssemos uns burricos novos e cheios de força. A minha neta, revelando ao mundo um pensamento que deve ser padrão da idade e da experiência, diz muitas coisas e nunca me chamou velha...
Outra coisa que também é boa é que todos os miúdos da minha idade continuam a ser da minha idade...
Como diz o GPS: chegou ao seu destino!!
Mesmo que nos enganemos nas coordenadas e nas moradas...
(private joke)
quarta-feira, 28 de outubro de 2015
quarta-feira, 21 de outubro de 2015
Dia Mundial do Regresso ao Futuro
Hoje é o Dia Mundial do Regresso ao Futuro. Um Dia Mundial que rende homenagem merecida a quem nos encantou com filmes como o que dá nome ao dia.
Outros autores ou realizadores também escolheram o ingrediente tempo para se tornarem mais apetecíveis e aquecer a esperança de um dia dominarmos esta variável e corrigir erros do passado com um saltinho ao futuro. O próprio Super-homem empurrava o planeta para retirar dos escombros do terramoto a sua Lois. Também pode ser uma técnica mas o super-homem já cá não está....
Pessoalmente não tenho pressa, até porque o saltinho paga-se e bem. São viagens muito caras e não tenho grande curiosidade relativamente a mais aplicações tecnológicas. A minha Bimby queixa-se de solidão. Mas a culpa é dela que não desempenha as funções como prometeu. Ao seu lado, a placa de indução vibra de vaidade porque todos os dias lhe dou coisas para fazer. O que eu quero é viver este presente, correr com os pés que Deus me deu (que os médicos já remendaram) atrás dos meus netos, mergulhar de cabeça (coisa que eu nunca soube fazer nas piscinas da minha infância) na fantasia dos livros de encantar e nos filmes.
E cuidem-se os que pensam que sabem o final da Branca de Neve. Quem casa com o Príncipe não é a Branca de Neve. Acho que a minha neta já manifestou intenção de "catrapiscar" o Príncipe.
Mesmo com muita tecnologia não me parece que vá ao casamento mas desejo mesmo é que o Futuro traga muita saúde e muitas felicidades aos meus netos!
E a todos os que por cá andarem!
Outros autores ou realizadores também escolheram o ingrediente tempo para se tornarem mais apetecíveis e aquecer a esperança de um dia dominarmos esta variável e corrigir erros do passado com um saltinho ao futuro. O próprio Super-homem empurrava o planeta para retirar dos escombros do terramoto a sua Lois. Também pode ser uma técnica mas o super-homem já cá não está....
Pessoalmente não tenho pressa, até porque o saltinho paga-se e bem. São viagens muito caras e não tenho grande curiosidade relativamente a mais aplicações tecnológicas. A minha Bimby queixa-se de solidão. Mas a culpa é dela que não desempenha as funções como prometeu. Ao seu lado, a placa de indução vibra de vaidade porque todos os dias lhe dou coisas para fazer. O que eu quero é viver este presente, correr com os pés que Deus me deu (que os médicos já remendaram) atrás dos meus netos, mergulhar de cabeça (coisa que eu nunca soube fazer nas piscinas da minha infância) na fantasia dos livros de encantar e nos filmes.
E cuidem-se os que pensam que sabem o final da Branca de Neve. Quem casa com o Príncipe não é a Branca de Neve. Acho que a minha neta já manifestou intenção de "catrapiscar" o Príncipe.
Mesmo com muita tecnologia não me parece que vá ao casamento mas desejo mesmo é que o Futuro traga muita saúde e muitas felicidades aos meus netos!
E a todos os que por cá andarem!
domingo, 18 de outubro de 2015
Peixinhos da horta e coisas assim
"Quando os Deuses no Olimpo luminoso,
Onde o governo está da humana gente,
Se ajuntam em concílio glorioso..."
Havia mais este compromisso, adiado uma semana por razões de saúde da homenageada.
Mas o vento e a chuva teimavam em castigar o desejo de quem se quisesse fazer à "viagem". Estavam criadas todas as condições para tornar épico qualquer passo fora de casa! A simples travessia da ponte Vasco da Gama podia transformar-se na "viagem" do próprio Vasco da Gama, há mais de quinhentos anos.
Mas os deuses atentos determinaram que a chuva parasse, que o vento se calasse, que as nuvens se afastassem e eu pudesse cumprir aquele compromisso.
Pelo menos um! Pelo menos aquele!
O lançamento do livro Memórias do Coração de Helena Lopes, professora, educadora e amiga.
Confesso agora que temia não aguentar as recordações da Namaacha, geladas como os dormitórios, irritantes como a sineta para nos acordar.... Recordações cheias da saudade da minha mãe e do medo de um dia ir parar ao inferno. E, no meio das lembranças tão dolorosas, sobressai a presença amiga da Irmã Maria Helena que me/nos dava o carinho, a palavra doce, ajudando sempre a reconstruir a esperança, a moldar a personalidade, a dignidade, os valores...
Se não tivesse ido, as coisas teriam ficado assim, geladas e inertes, à espera do grande fogo do inferno.
Fui e reconciliei-me com estas raízes.
Vou tentar esquecer o dormitório, o refeitório, os peixinhos da horta, as confissões dos inúmeros pecados que uma criança de dez anos consegue arranjar à custa da imaginação e do medo.
Voltei feliz, quase, quase a acreditar na humanidade.
Cinquenta anos depois, a Irmã Maria Helena mantém a mesma estrutura moral, aborda-nos com o mesmo carinho, disfarçando a emoção com apontamentos de humor.
Era, ou melhor, é a mesma, com farinha nos cabelos!
Beijinhos, Irmã Maria Helena! Parabéns e obrigada por esta celebração, por este livro, por este encontro.
Meninas: Cristina, Fernanda, Luísa, Madalena, Manuela, um xi coração apertado!
Onde o governo está da humana gente,
Se ajuntam em concílio glorioso..."
Havia mais este compromisso, adiado uma semana por razões de saúde da homenageada.
Mas o vento e a chuva teimavam em castigar o desejo de quem se quisesse fazer à "viagem". Estavam criadas todas as condições para tornar épico qualquer passo fora de casa! A simples travessia da ponte Vasco da Gama podia transformar-se na "viagem" do próprio Vasco da Gama, há mais de quinhentos anos.
Mas os deuses atentos determinaram que a chuva parasse, que o vento se calasse, que as nuvens se afastassem e eu pudesse cumprir aquele compromisso.
Pelo menos um! Pelo menos aquele!
O lançamento do livro Memórias do Coração de Helena Lopes, professora, educadora e amiga.
Confesso agora que temia não aguentar as recordações da Namaacha, geladas como os dormitórios, irritantes como a sineta para nos acordar.... Recordações cheias da saudade da minha mãe e do medo de um dia ir parar ao inferno. E, no meio das lembranças tão dolorosas, sobressai a presença amiga da Irmã Maria Helena que me/nos dava o carinho, a palavra doce, ajudando sempre a reconstruir a esperança, a moldar a personalidade, a dignidade, os valores...
Se não tivesse ido, as coisas teriam ficado assim, geladas e inertes, à espera do grande fogo do inferno.
Fui e reconciliei-me com estas raízes.
Vou tentar esquecer o dormitório, o refeitório, os peixinhos da horta, as confissões dos inúmeros pecados que uma criança de dez anos consegue arranjar à custa da imaginação e do medo.
Voltei feliz, quase, quase a acreditar na humanidade.
Cinquenta anos depois, a Irmã Maria Helena mantém a mesma estrutura moral, aborda-nos com o mesmo carinho, disfarçando a emoção com apontamentos de humor.
Era, ou melhor, é a mesma, com farinha nos cabelos!
Beijinhos, Irmã Maria Helena! Parabéns e obrigada por esta celebração, por este livro, por este encontro.
Meninas: Cristina, Fernanda, Luísa, Madalena, Manuela, um xi coração apertado!
segunda-feira, 5 de outubro de 2015
Dia do professor

Sou professora! Fui professora!
— com Adilia Manteigas e 2 outras pessoas.Não sei e não consigo decidir qual o tempo verbal. Comecemos pelo passado, pelo fui.... Fui professora a sentir-me a aprender muito, tanto, todos os dias, porque precisava de aprender para ensinar e as aprendizagens entravam no meu pensamento como "o sol por um vidraça", para usar a comparação de Eça. Fui professora com uma juventude que me refrescava constantemente a memória dos meus dias de mais menina, produzindo toneladas de cumplicidades que se ficavam por ali, pelo meio, entre os treze anos deles e os meus vinte e três. Fui professora em dias de liberdade acabada de nascer. Foram tempos inesquecíveis para quem os viveu com todos os sentidos ligados no botão "on", aguentando trabalho, barulho, confusão, prazer e liberdade. Tudo! Até o sonho de ter filhos e de os criar, transmitindo-lhes, desde o primeiro dia, os ideais que nos guiavam a vida. E mesmo depois de passar a euforia, fui professora. Fui professora mãe. Em cada aluno eu via um filho. Porque todos os alunos são filhos de alguém e sempre alimentei a esperança de estar à altura de receber esses filhos de outras mães, como eu queria que recebessem os meus filhos. Os tempos foram mudando. O sol arrefeceu. Ou talvez não. Pode ser que até tenha aquecido porque passou a fazer mal à pele. Os meus filhos cresceram e, finalmente, envelheci. No Bilhete de Identidade, nos cabelos e um pouco por todo o corpo. Mas cá dentro de mim e dentro da sala de aula, talvez por magia, a "aula acontecia" (Sebastião da Gama/ Diário). Fui professora de sala de aula sempre. E (talvez não devesse dizer isto) divertia-me tanto. Mas houve um dia que me tiraram deste palco, que me interromperam a minha peça de teatro, o meu filme, que me impingiram personagens cinzentonas carregadas de papel, que me violentaram o prazer de ensinar/aprender. Nesse dia "morri" no palco. Fui professora, portanto! Não é possível trazer para casa a sacada de momentos que me encheram a alma de alegrias várias. Mudei de vida! Já não sou professora e esta verdade não me dói. |
Dia do Professor
Sou professora! Fui professora!
Não sei e não consigo decidir qual o tempo verbal.
Comecemos pelo passado, pelo fui....
Fui professora a sentir-me a aprender muito, tanto, todos os dias, porque precisava de aprender para ensinar e as aprendizagens entravam no meu pensamento como "o sol por um vidraça", para usar a comparação de Eça.
Fui professora com uma juventude que me refrescava constantemente a memória dos meus dias de mais menina, produzindo toneladas de cumplicidades que se ficavam por ali, pelo meio, entre os treze anos deles e os meus vinte e três.
Fui professora em dias de liberdade acabada de nascer.
Foram tempos inesquecíveis para quem os viveu com todos os sentidos ligados no botão "on", aguentando trabalho, barulho, confusão, prazer e liberdade.
Tudo! Até o sonho de ter filhos e de os criar, transmitindo-lhes, desde o primeiro dia, os ideais e os sonhos que nos guiavam a vida.
E mesmo depois de passar a euforia, fui professora.
Fui professora mãe. Em cada aluno eu via um filho. Porque todos os alunos são filhos de alguém e sempre alimentei a esperança de estar à altura de receber esses filhos de outras mães, como eu queria que recebessem os meus filhos.
Os tempos foram mudando. O sol arrefeceu. Ou talvez não. Pode ser que até tenha aquecido porque passou a fazer mal à pele. Os meus filhos cresceram e, finalmente, envelheci. No Bilhete de Identidade, nos cabelos e um pouco por todo o corpo. Mas cá dentro de mim e dentro da sala de aula, talvez por magia, a "aula acontecia" (Sebastião da Gama/ Diário).
Fui professora de sala de aula sempre.
E (talvez não devesse dizer isto) divertia-me tanto.
Mas houve um dia que me tiraram deste palco, que me interromperam a minha peça de teatro, o meu filme, que me impingiram personagens cinzentonas carregadas de papel, que me violentaram o prazer de ensinar/aprender.
Nesse dia "morri" no palco.
Fui professora, portanto! Não é possível trazer para casa a sacada de momentos que me encheram a alma de alegrias várias.
Mudei de vida!
Já não sou professora e esta verdade não me dói.
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