Hello, Paul!
Pois... Não me conheces de lado nenhum e eu estou aqui a tratar-te por tu com uma intimidade que pode parecer escandalosa aos olhos de muitos. Mas, eu, tu e mais uns muitos milhões de sessentões sabemos que esta intimidade é muito real e muito verdadeira. Não tem nada de especial, nem nada de fingido.
É que nós vivemos um tempo muito, muito especial: o nosso!
(Já o meu pai dizia isso em relação ao Frank Sinatra e aos Eddies todos de que ele falava, como se tivesse andado com eles na escola. Se calhar até andou... Com eles, esses grandes das cantigas e das telas, não andou. Mas andou pelas mesas do café de Lourenço Marques com o poeta Reinaldo (Ferreira). E a minha mãe andou com a Milú e outras estrelas de cinema nos Pátios das Cantigas e nas Costas dos Castelos. Era a figurante mais bonita!)
E agora é assim: (diz-se muito "é assim", antes de se começar mesmo a expor uma ideia.) Soube hoje que vais gravar com o Ringo, outra vez.
Hello, Ringo!
Desculpa ter-te passado assim para "segundos", mas tu eras mesmo o mais feio, dos quatro. O Paul era o mais bonito e tu o mais feio. mas, olha, vês como a idade também ajuda a compor algumas pessoas. Engordaste um bocadinho e o nariz enorme passou a parecer absolutamente proporcionado. Estás giro! Mais giro que o Paul, deixa-me dizer-te assim ao ouvido.
E eu aqui a lembrar-me das expressões do teu rosto que acompanhavam em intensidade a energia com que descarregavas as músicas nos tambores. ( Eu nunca percebi muito bem o que era tocar bateria. Tu foste talvez o único a que eu prestei mais atenção.) Tocavas mesmo de corpo inteiro e os teus braços voavam de um tambor mais longe, para um tambor mais perto à velocidade da nota musical.
Tenho de ir andando. É domingo mas as tarefas domésticas esperam-me. Quem diria que um dia dancei o twist and shout sem pensar na comida para fazer, na roupa para passar, no chão para limpar... Pois... Eu tinha dez anos!