Foi assim, com este romantismo todo, que o Jorge formulou aquele pedido que aconchega os nossos sonhos de menina. Nem anel, nem postura ajoelhada, nem declaração de amor reiterado... Nada! E se casássemos?! Como quem diz que em vez de andarmos por aí aos caídos, um para cada lado, mais vale andarmos aos caídos para o mesmo lado!
E não é que eu aproveitei logo a ideia e resolvi pôr em prática o mais importante? Arranjar uma casa!
Pois... é que eu queria mesmo casar ( O meu lado Susaninha porque nem todas as meninas de então se podem gabar de ter um lado Mafaldinha!) e tinha de aproveitar aquela distracção, não fosse ele arrepender-se e não tornar a dizer nada parecido.
É verdade que eu sonhava com a declaração de amor. É verdade que eu sonhava com o verdadeiro sonho. Certo é que já tinha recebido um manjerico no Santo António! Sempre é um sinal. Uma evidência, como se diz agora!
Aí fomos nós, cinco minutos depois à procura da casa. Não foi a primeira porque os dois contos e quinhentos, doze euros e meio na moeda da Troika, era demais, apurados que foram, em dez minutos, os recursos em escudos. Mas a segunda já cabia no Orçamento Geral do nosso estado de enamoramento, mais propriamente do meu enamoramento: dois contos trezentos e cinquenta.
Era doze de Julho e estava calor. Ainda bem que acertámos à segunda. Era um terceiro andar, na Rua José Malhoa em Odivelas. Três assoalhadas, porque na época ainda não havia T2.
Urgia oficializar mais o noivado, para estancar qualquer arrependimento, daqueles que se lêem nos romances. Uma carta para o meu pai. Uma carta para a minha mãe.
Querido papá... Querida mamã... vou casar. O meu namorado chama-se Jorge e é estudante de medicina. É de Angola e mais pormenores daqueles que os pais gostam de saber. Sobretudo as mães. Prometo que não vou deixar de estudar, etc, etc...
Ainda nesse dia, comunicámos aos pais do Jorge. A mesma promessa: não vamos deixar de estudar. O maior medo de um lado e do outro era o mesmo.
Na inocência dos meus vinte anos mais um, achava que alguém podia demolir o meu sonho e proibir-nos de casar. (Só hoje é que eu percebo que ninguém podia e ninguém pode levar-nos a fazer aquilo que não queremos!) Preparava-me para usar o direito da minha maioridade (vinte e um anos) para me casar sem autorização. Mas não foi preciso.
No dia seguinte, lá fomos ao Banco que tratava do aluguer. O terceiro andar já estava ocupado. Mas o segundo estava livre e até tinha umas paredes muito lindas, dizia a Dona Piedade que fazia as honras das apresentações e visitas aos andares. Ficámos com o segundo. Foi só uma questão de cobrir, com uma tinta barata mas eficaz, as flores desenhadas a rolo…
As certidões chegaram à velocidade do meu desejo e um mês e oito dias depois, lá casámos e fomos finalmente morar para as nossas três assoalhadas de "sonho".
Aí vivemos as alegrias maiores das nossas vidas. Aí começámos tudo!