quarta-feira, 15 de setembro de 2004

Agatha, a Christie (15/9/1890 - 12/1/1976)

"Uma das melhores coisas que nos podem acontecer na vida é ter uma infância feliz."
É com esta frase que Agatha Christie começa a aua Autobiografia.
Fala do pai, homem "preguiçoso", mas que cultivava a arte de agradar e se interessava sinceramente pelo próximo.
(Será que a solidariedade pode ser uma opção para quem não tem de trabalhar para viver? Afinal o ócio não gera só vícios!)
Fala do seu casamento com Archibald Christie, um casamento cheio de amor que terminou em divórcio. Da amargura desse divórcio, sobressai a coincidência de tragédias pessoais inevitáveis e inexoráveis, que marcaram essa época da vida da escritora.
Fala de um tempo em que parecia ter perdido quase completamente todo o sentido da vida. Isso levou-a a uma aventura, a viagem do Expresso Oriente, onde reencontrou esse sentido.
Fala do segundo casamento com um jovem arqueólogo, mais novo catorze anos. Refere-se a Max como uma pessoa "maravilhosa", um homem "tranquilo e parco de palavras de comiseração".
Fala da filha Rosalind,única, nascida do primeiro casamento com Archie, como lhe chama ao longo da narrativa. Conta a imensa alegria do nascimento do neto Mathew e a tremenda dor da morte do genro, na segunda guerra.
Escrever sobre a própria vida implica essa mesma vida ir já em fase adiantada, em que muitos balanços já foram feitos, muitas contas saldadas e, em termos interiores, estar completa a preparação para a partilha e para a revelação.
Por isso, as autobiografias são normalmente fascinantes.
"Se nascesse outra vez, queria ser mulher - sempre", "disse ela".



terça-feira, 14 de setembro de 2004

Goodbye Grace Kelly!

"O papel natural da mulher é ser o pilar da família."
Parece ser esta uma daquelas frase que não faria sentido sublinhar se a vida de Grace Kelly tivesse tido um curso diferente.
Quando Grace se tornava célebre no mundo do cinema, a vida propôs-lhe trocar de papel, propôs-lhe o papel de mãe de família, de uma família real.
Não foi pois uma questão de supremacia de fama ou de poder de uma opção em relação a outra. Ambas são escolhas de sonho: ser princesa ou ser actriz.
Grace escolheu ser Princesa do Mónaco.
A 18 de Abril de 1956, Grace e o Príncipe Rainier do Mónaco casaram civilmente, no Palácio Real e, a 19 de Abril, religiosamente,na Catedral de S. Nicolau.
A cerimónia durou três horas e foi transmitida pela televisão, pela MGM, para trinta milhões de pessoas.
Nos contos de fadas teriam sido felizes para sempre.
Mas estamos na dimensão da vida: tiveram três filhos e, ao contrário dos contos de fadas, não foram felizes para sempre.
Não era fácil educar adolescentes, nos anos sessenta, ser mãe e Princesa.
A 14 de Setembro, num trágico acidente de viação, Grace morreu.
Contudo, o mundo não esqueceu uma das mais belas mulheres do cinema, a lindíssima Princesa Grace do Mónaco.

segunda-feira, 13 de setembro de 2004

Outra vez Mia Couto

Claro que Mia Couto é um dos meus autores preferidos.
Tenho até o presságio que será o próximo Nobel da Lusofonia!
Quem, como Mia, reinventa a língua?!
Mas, quem sou eu, para além de uma simples mas incondicional admiradora das palavras "invensonhadas" e "maravilhentadas" do escritor da minha terra?
Sou mesmo!
Ainda do "cronicando" recordo a história do “subexistente” Horácio, que, “de tanto esperar o amor, acabou por amar a espera” e suspirava “Às vezes tenho-me pena”.
Nesta crónica a surpresa no terreno da língua vem da reinvenção dos provérbios.
Começa logo por:“pela gravata morre o tímido”. Leiam e saberão porquê.
Neste caso são “improvérbios”: dá-se o braço, logo querem a mão; quem tudo perde tudo quer; juntar o inútil ao desagradável e no final sem contas o último a melhorar é aquele que ri.
Bem-haja Tito!

domingo, 12 de setembro de 2004

Setembro

Já disse aqui que o mês de Setembro perdeu algo de mágico.
Como a escola também perdeu a magia de antigamente, presumo que não foram aspectos da vida a perder fantasia, mas eu (provavelmente problema meu) que perdi os binóculos, os óculos, ou qualquer outro objecto que se interpunha entre o mundo e os meus olhos.
Para mim, Setembro é um mês de muita indefinição, pouco fantasiosa...
Os lojistas tentam disfarçar esse mal- estar, misturando os saldos com a nova colecção. Tenho pelo menos essa sensação.
Subjectividades!
É deprimente entrar numa loja nesta altura do ano.
À nossa vaga, muito vaga sensação de calor ou de frio, disfarçada pelos ares condicionados, junta-se a incerteza de que não nos apetece nada do que está ali, supostamente para ser comprado pelos compradores compulsivos, em que todos nos vamos tornando, com os excessos de excesso em que vivemos.
Num balcão semi-visível, semi escondido, um monte de qualquer coisa e o cartaz horrendo: tudo a 5€!!!! Técnicas de marketing, suponho!
Também de modo semi-visível e semi-escondido expõe-se a nova colecção.
Não se ostentam os preços. É preciso ir lá, ver bem com óculos de ver ao pé!
Só há coisas incertas e indefinidas em Setembro?
É um truque para iludir os pobres de um poder de compra que não existe?
Já não podem ir à praia.
A televisão é "a monotonia dos quatro canais", como me dizia outro dia um vendedor da TV Cabo.
Nada de jeito para fazer em Setembro, senão esperar pelo frio e pelas lãs, pelas tardes de domingo a ver televisão ou a a ler os suplementos dos jornais de fim-de-semana.
Bem, eu preparei para este domingo um conjunto de crónicas de António Lobo Antunes.
Dá para refrescar a alma. Ou aquecê-la. Depende do ar condicionado.
É só entrar na minha outra tasquita.

sábado, 11 de setembro de 2004

A magia que se esboroa

- A minha escola, especialmente na aldeia, a dos tempos pré-primários, a de minha tia Emília, era algo de mágico. Ir para lá era uma expedição mágica.
(Altino do Tojal)
Vou guardar esta entrevista preciosa e rara do escritor dos Putos ao jornal A Página.

Não é mais uma expedição mágica. Será culpa dos tempos?
Numa conversa televisiva em que participava o ex ministro David Justino, um professor, quase a desistir da utopia inevitável na bagagem de qualquer profissional do ramo , dizia que, antigamente, os alunos gostavam da escola, os professores gostavam da escola. E hoje? Quem é que gosta da escola?
Se calhar já nem o Senhor Ministro da Educação gosta da Escola?
Vamos pensar em conjunto?
Uns com os outros: vamos ensinar a pensar?
Vamos!
Mas...a maior parte de nós já perdeu o treino de pensar e o tempo para o fazer também.
O sentido do dever impõe-se, ao professor, claro!, e, quando damos conta, passaram anos e o nosso nível de exigência já está pela metade e os conteúdos leccionados pela terça parte.
Quem perde? Todos! Especialmente as nossas crianças que nunca conhecerão uma escola “a sério”.
Conhecem aquela escola simpática, pouco exigente, que os vai conduzir a um mero diploma do Ensino Básico. Ou talvez os ponha à porta da Faculdade, quem sabe?
Mas não lhes venha pedir contas, se não conseguirem sair de lá a tempo e horas de começar carreira profissional, antes dos cabelos brancos.


Apontamento de televisão...

...da pouca televisão que ainda dá gosto ver, porque é bem verdade o que se ouve: não dá nada de jeito.
Mas dá! De vez em quando, mas dá! Altas horas da madrugada.
A última insónia que preenchi com televisão foi boa.
"Estes difíceis amores". Uma conversa caseira, ou a fingir que é caseira, sobre assuntos que nos dizem respeito, porque fala de relações, ou antes, das relações amorosas.
Desta vez falou-se de um provável reforço do sistema imunitário no caso dos casados.
Os casados adoecem menos e controlam melhor as doenças crónicas. Sobretudo os homens!
O psi alerta que se está a falar de amostragens em que se lida com números elevados. Não é a Maria que é divorciada e que até tem uma saúde de ferro e o Joaquim que é casado e anda sempre doente.
O problema é que nestas coisas há sempre tendência para procurar aquilo que bate certo com o nosso caso.
Há sempre tendência para averiguar o caso particular, ou então o geral parece não fazer sentido.
De qualquer modo, vale sempre a pena ver como o professor Júlio Machado Vaz, sem cerimónias, quase deitado no sofá, ali à nossa frente, a falar de coisas que sentimos, pensamos, tememos e raramente dizemos...

sexta-feira, 10 de setembro de 2004

Restos de Colecção

Criei um blog/armazém de textos para não os perder, para não se volatizarem na net...
Ficarão guardados, bem guardados, em "Restos de Colecção".

Para o enriquecer fica a ideia de Spielberg, destacada da entrevista de hoje à Visão:" A resposta ao ódio é a educação".

quinta-feira, 9 de setembro de 2004

Apontamento de leitura

A crónica do escritor António Lobo Antunes publicada hoje, quinta feira, na Visão é de leitura obrigatória.
Fala de?
Fala de sentimentos contraditórios. Escondidos mas não envergonhados.
De sentimentos percebe ele, que é psi.
De palavras lindas de morrer percebe o escritor.
De vida, percebemos todos. Ou pensamos nós que percebemos!
De morte, ninguém percebe.
"Claro que chorei:por ele, por mim, pela incompreensível finitude da vida. Não somos feitos para a morte."
E porque não somos feitos para a morte agarramo-nos sempre às memórias, àquelas onde a juventude, o vigor, a beleza e a vida parecem estar e ficar para sempre...

terça-feira, 7 de setembro de 2004

Ou então: escreve sobre a paz...

Concurso Promovido pelo Distrito 115 Centro Sul de Lions Clubes
Alunos com idades entre os 11 e 13 anos, completados até 15 de Novembro.

Leiam o regulamento aqui

"Dê uma oportunidade à Paz"

Porque a Paz faz sempre sentido, Chora Que Logo Bebes revela, com muito gosto, a iniciativa do Lions Clube do Montijo de divulgação do Concurso "Cartaz para a Paz", promovido pelo Lions Club Internacional.
Professores, estejam atentos e leiam o regulamento aqui.

O princípio


A 7 de Setembro de 1876 foi publicada a "Cartilha Maternal ou Arte de Leitura", de João de Deus.
Há 128 anos! Há muitas gerações, portanto!

segunda-feira, 6 de setembro de 2004

Cento e cinco anos de vida

Emídio Guerreiro faz hoje cento e cinco anos.
Há muitos fenómenos de longevidade no mundo e, de vez em quando, as televisões, com os seus instintos "voyeuristas", assinalam (mal,a meu ver) os aniversários natalícios,à laia de fenómeno, exibindo os aspectos mais tristes desta etapa da vida: as diminuições dos sentidos e de outras autonomias.
Os jornais são mais sóbrios, felizmente. Alguns!
Ontem, a Pública, deu o exemplo do elevado respeito pela dignidade do homem, com uma entrevista a Emídio Guerreiro, de onde ressalta o pensamento intocado, perfeito, pleno de capacidades e de memórias de um homem que ultrapassou tão elevadas barreiras de tempo.
A minha homenagem a Emídio Guerreiro.
Ele sabe que o pensamento é o que fica para sempre, para cá de todos os limites.
Cultivou o pensamento. Enriqueceu-se e enriqueceu outros que com ele conviveram.
O meu agradecimento à Pública.
- "Ah, a vida do Prometeu é a maravilha da mitologia. Quando penso em Prometeu e me recordo que roubou ao Olimpo o fogo sagrado, para o dar ao homem, vejo nele o primeiro acto da liberdade humana. Um desafio que pagou caro, muito caro, com as vísceras a serem devoradas pelas aves de rapina. É o primeiro passo do homem para a liberdade. O primeiro acto de rebeldia, que é também a primeira afirmação de autonomia da vida humana, que não se limita a ser só vida, é também a razão da vida."

quinta-feira, 2 de setembro de 2004

Espaço de debate

Artigo de opinião publicado no Jornal do Montijo, em 19 de Agosto de 2004.

OBVIAMENTE, MANUEL ALEGRE!

Agora que a Comunicação Social foi convidada a presenciar todos os actos de campanha eleitoral interna no Partido Socialista e atendendo ao interesse que desperta no público em geral, o que se passa a nível dos grandes partidos, resolvi escrever este texto, em que posso exprimir não só uma vontade mas, de alguma maneira contribuir para a defesa de uma ideia da política, do que deve ser a política.
Num mundo tão mediatizado como o que vivemos, em que todos se pronunciam sobre a política e sobre os políticos e normalmente em termos pejorativos, sabe bem escrever um pouco sobre Manuel Alegre.
De facto, para quem gosta da política e não de se servir da política; para quem defende o primado das ideias e ideologias e não o da economia e o do dinheiro; para quem a política é uma arte e um dever e não uma oportunidade de carreira e uma obrigação; para quem os Partidos Políticos devem servir para a congregação de vontades e não para a imposição de vontades; para quem o espírito e a cultura são os grandes valores dos Homens e não os interesses mesquinhos de grupos de pressão, tem na candidatura de Manuel Alegre ao cargo de Secretário-Gral do Partido Socialista a solução correcta e justa para esta defesa de valores.
Quem como Manuel Alegre escreve “Pergunto ao vento que passa/notícias do meu País/E o vento cala a desgraça/E o vento nada me diz”, mostra não só a sua grandeza de alma como também o seu alto sentido dos valores nobres da vida e pelos quais vale a pena lutar.
Manuel Alegre é pois o símbolo do inconformismo e da independência de espírito que fazem dele por vezes uma pessoa incómoda e indomável (até a sua própria Federação de Coimbra já em tempos o ostracizou!), mas que por isso mesmo faz renascer em nós a esperança de que se volte ao bom caminho da solidariedade, da igualdade e da fraternidade tão arredio desta nossa política...
Com a gravidade da situação que ora se vive em Portugal, em que o que parece contar é o oportunismo dos que nunca trabalharam na vida e que sempre viveram à custa da política, sem qualquer pudor e sem escrúpulos, mais a candidatura de Manuel Alegre faz sentido como oposição frontal a todas estas práticas.
Memo a nível interno (do P.S., leia-se) Manuel Alegre é contra todas as burocracias e controles aparelhísticos, pois eles são castradores das vontades da maioria dos militantes de base que, em muitos locais, já estão a ser pressionados por “funcionários zelosos” do status quo, que andam em grande azáfama a recolher assinaturas para outra candidatura, não dando nem sequer tempo para que cada um pense e decida com liberdade e coragem o seu futuro!
Não posso, ao terminar, deixar de transcrever mais um pedacinho de Manuel Alegre: “Mesmo na noite mais triste/Em tempos de servidão/Há sempre alguém que resiste/Há sempre alguém que diz não!”, para concluir como comecei – OBVIAMENTE, MANUEL ALEGRE!

Jorge Mendonça Santos, militante do Partido Socialista


quarta-feira, 1 de setembro de 2004

Voltar à escola!

O calor de Setembro costuma ser um calor sedutor, pela temperatura que aquece mas não queima, pela luz que ilumina mas não cega, pelo brilho que transmite aos princípios e fins de dia...
Em tempos que já lá vão, Setembro era um mês de praia. Havia calma. Os turistas de Setembro não eram os apreciadores dos excessos de Agosto. Esses, normalmente, estavam de ressaca de corpo e de alma.
Agora Setembro é outro frenesi, mais um frenesi: voltar rapidamente e em força ao trabalho.
O que me apetecia agora era uma suave passagem do afã das férias para o outro afã...
Mas quem disse que isto tem de ser como se quer?
Foi você que pediu um Setembro sem sol, carregado, zangado, carrancudo???

terça-feira, 31 de agosto de 2004

Mais uma obra do pintor João Paulo

A viagem

Continuo em Moçambique. Não de corpo. De memória e coração.
Pelas artes e letras, a descobrir quase-envergonhada o que devia saber e não sei...
No entanto, vou encontrando pessoas que já foram minhas, num tempo distante!
É uma emoção forte, que estilhaça no espaço que eu não sei definir, porque o meu conhecimento, para tal, não dá. É um espaço facilmente "vencível", em termos práticos. Estou à distância de uma tecla de um passado semi-adormecido, anestesiado pela correria dos dias impiedosos e inexoráveis.
Não é este o espaço das lamentações.
Estou em Chora que Logo Bebes, ponto de partida.
Será um dia ponto de chegada.
Entretanto, é a viagem.
Encontrei o meu professor de Desenho: o pintor João Paulo.
Aqui deixo as palavras que lhe teria dito aos quinze anos, se, nessa altura, soubesse verbalizar o que então já sentia.
Eu sabia, sentia, que estava (estávamos todos) perante um mestre, um artista, alguém que tinha naquela forma de expressão a sua forma de expressão: era a sua natureza, feita de cores, traços. Ele sabia, no meu caso, que estava perante o grau zero do conhecimento e do talento nessa área.
Queria tanto agradecer-lhe nunca ter sentido qualquer forma de humilhação por isso!
Pelo contrário: lutou contra a minha ignorância, para além de todos os limites.
E, graças a essa sua luta, eu não "chumbei" a Desenho no exame de quinto ano. Os correctores da prova de exame devem ter visto na minha prova a sua determinação.
Como professora, lembro-me muitas vezes deste mestre.
O meu tributo é a tentativa séria de imitar o seu exemplo pedagógico!

segunda-feira, 30 de agosto de 2004

Mia Couto, a propósito de...

... nada! Ou talvez:muito!
Hoje viajei até às minhas origens, parei em Ma-shamba e lá encontrei um caminho que me levou a um conto/uma crónica do Cronicando, que prova que a beleza e a simplicidade andam sempre próximas, muito próximas!
Recordei o dia em que os meus olhos bateram num livro muito simples, mas diferente.
Ainda hoje não sei por que é que o achei diferente...
Chamava-se Cronicando e o nome do autor era totalmente desconhecido para mim!
Li-o com o prazer acrescido de descobrir uma língua dentro de outra.
Mantenho na memória o gosto que senti ao longo de todas as histórias de Cronicando,mas há uma especial:a do filho que dá à luz a mãe.
Chama-se o Filho da Morte e é uma história de morte e de vida, num campo de refugiados, “que se doseavam, na aplicação da tristeza.” Talvez por isso, por terem de dosear a tristeza, não fosse ela consumida em doses mortais, não se ocupavam muito dos mortos, nem mesmo neste caso, tratando-se de uma grávida.
“Estavam demasiado ocupados em sobrevivências.”
Mas a pele luzidia e volumosa teimava em atrair uma atenção qualquer e a morta entrou em trabalho de parto, porque naquele dia, naquele corpo, a vida “fez horas extraordinárias”.
Ninguém se mexeu!
Ninguém excepto a “cabistonta” Tazarina, que sofria de tremuras tais que nem a si própria parecia conseguir amparar-se. Mas foi ela que pegou e deu colo àquele ser que vinha do outro lado da vida e, com ela, o choro do recém nascido cessou. O corpo dela ganhou forma e volume quase instantaneamente. Apoderou-se dela a verdadeira maternidade: “os seios se volumavam, os olhos se maternizavam”. “Nunca se viu, dizem, mãe em tanta compostura.”
É impossível falar do texto, sem recorrer às próprias palavras do autor, pois não há no nosso vocabulário palavras que substituam as que ele inventa.
Maternizar significa tornar materno.
E foi o que aconteceu à Tazarina, ou melhor aos seus olhos, tornaram-se olhos de mãe.

domingo, 29 de agosto de 2004

A kiss is just a kiss...


A propósito de beijo, Ingrid Bergman, a mítica protagonista de Casablanca disse:
"Um beijo é uma partida adorável concebida pela natureza, para calar as palvras quando elas se tornam supérfluas."
A 29 de Agosto de 1915, nascia Ingrid Bergman, na Suécia, em Estocolmo.
A 29 de Agosto de 1982, no dia do seu aniversário, tal como Shakespeare, depois de uma pequenina festa de aniversário com os amigos mais próximos, morria Ingrid Bergman, em Chelsea, em Inglaterra, em paz com a vida, com a sua vida, que segundo confessara a um amigo, tinha valido a pena viver.
A infância de Ingrid foi marcada pela tragédia da morte dos pais, mas também pela indomável vontade de ser actriz.
Apesar da sua beleza e o seu ar algo enigmático, Ingrid não pretendia que os seus papéis na tela se consumissem na imagem da mulher idealizada. Mas os sucessos de bilheteira não foram os filmes em que interpretou uma freira, uma psiquiatra ou uma alcoólica. Uma das interpretações de sucesso de Ingrid Bergman que perpassa as gerações é precisamente a de Ilsa, a romântica mulher dividida entre o amor e o casamento, em Casablanca, com Humphrey Bogart.
A vida pessoal e amorosa da bela Ingrid foi sempre polémica e alvo da censura da hipócrita moral púlica. Ingrid ,nestas questões de coscovilhice habituou-se a dar-lhes a importância devida: nenhuma!
No entanto, no caso Bergman-Rosselini, o escândalo ultrapassou a barreira do espectáculo, tomou dimensões inimagináveis. Ingrid Berman foi humilhada pela classe política, nomeadamente pelo Senador Edward Johnson, que propôs uma medida específica para actores estrangeiros, de modo a poder expulsá-los, por atentado à moral pública.
O talento da actriz sobrepor-se-ia a este mal estar e o seu trabalho foi devidamente reconhecido pelos pares e acarinhado pelo público.
Os últimos anos de vida foram marcados pela luta contra o cancro, cujos primeiros avisos ignorou.
Depois lutou, à sua maneira, contra a ideia da morte:“As vítimas de cancro que não aceitam o destino, que não aprendem a conviver com ele, acabam por destruir o tempo que lhes resta.”, dizia.
Assim viveu durante oito anos.
O seu último trabalho foi a interpretação de Golda Meir na televisão: Uma Mulher Chamada Golda, em 1982.

sexta-feira, 27 de agosto de 2004

quinta-feira, 26 de agosto de 2004

"Para que fosses nosso..."

É bom voltar a casa, aos hábitos que nos sustentam o ano inteiro!
Não sei bem se gosto de férias, pelo menos destes modelos de férias que são impingidos com matizes de felicidade dourada, em pacotes diverosos, adequados aos diversos ordenados dos portugueses.
Quer gastar pouco? Vá à Tunísia. Vá ao Brasil. República Dominicana?! Excelente ideia. Encontra lá toda a gente do seu bairro, da sua repartição...
Quer gastar muito? Pode gastar à vontade? Vá até ao Algarve.
Convém falar Inglês, pois mesmo na piscina do aldeamento pode ser abordado noutra língua.Se o atenderem em Português correcto, sem o marafado sotaque, pergunte ao empregado a nacionalidade. Talvez ucraniano! Talvez romeno!
Convém ler, "pelo menos mais ou menos" a língua de nuestros hermanos. Revistas e jornais chegam de todo o lado, menos do "nosso lado"...
Mas há lá mar melhor que o Mar Português?!
Para cá de todas as humilhações, para cá de todas as soberanias, o mar é nosso.

quinta-feira, 12 de agosto de 2004

"I love Torga"

Dizia eu, numa caricatura de um jornal de turma, feito por alunos do oitavo ano a quem eu dava aulas de Português.
Devia "notar-se" muito a minha preferência.
Adolfo Coelho da Rocha, Miguel Torga para os livros, nasceu a 12 de Agosto de 1907, em S. Martinho de Anta, Trás- os- Montes e faleceu em Coimbra, a 17 de Janeiro de 1995. Deixou a sua vida escrita em duas grandes obras autobiográficas: A Criação do Mundo e Diário, este último é prosa, poesia, ensaio... São muitos os volumes de poesia E são também muitos os contos, deixando sempre visível a intenção de retratar um Portugal distante, sozinho e quase desconhecido.
Os Diários e a Criação do Mundo foram, de todas as obras, as que li mais vorazmente, em toda a minha vida.
Nunca nessas páginas encontrei certezas absolutas. Mas encontrei muitas explicações para os lados mais difíceis da vida.
"Como é sabido, ninguém conhece o dia de amanhã, e, pelo que me diz respeito, fui um mártir dessa incerteza."
Torga era assim: triste. Ou telúrico, como dizem os críticos literários.
Diz-se que era um homem inacessível, distante, pouco simpático, sobretudo quando vestia a farpela de escritor, em actos públicos.
Diz-se e pode ser verdade.
Mas, na privacidade dos livros entregou-se a todos, de alma e coração.



quarta-feira, 11 de agosto de 2004

Os cinco e as nossas vidas


Enid Blyton nasceu no fim do século dezanove, a 11 de Agosto de 1897, em Londres.
“Ela era uma criança, pensava como uma criança e escrevia como uma criança.” Um psicólogo, Michael Woods, concluía ser este o segredo do sucesso dos livros de Enid Blyton. Como qualquer criança, Enid Blyton conhecia o poder da fantasia. Ao longo de várias gerações e durante uma grande parte do século vinte, os seus livros contribuíram para um imaginário colectivo de fantasia, onde as forças do bem protagonizavam a vida.
Graças à sua escrita muitos têm ainda hoje a paixão da leitura.
Foi um começo feliz!

Se a tanto me ajudar o engenho...

Ana Sousa, exposição de pintura na Casa do Artista em Março de 2004

Querida Ana, olha um dos teus quadros aqui no nosso canto do mundo, em Chora que Logo Bebes.

segunda-feira, 9 de agosto de 2004

Balada para Jesse Owens, de Manuel Alegre

Em mil novecentos e trinta e seis
Hitler perdeu uma batalha
Tinha um Partido um Estado uma Nação
SS Gestapo Cruz Gamada tanques
soldados e botas para calçar
Em toda a terra o pensamento
Só não tinha ninguém para saltar
Oito metros e seis em comprimento

Tinha generais para mandar
E tinha generais para obedecer
Submarinos barcos porta-aviões
Quinta coluna espiões propaganda Tudo
Estava pronto para a conquista
De espaço vital mercados povos mundos
SÓ não havia ninguém para correr
Dez metros em dez segundos

Por isso em mil novecentos e trinta e seis
Hitler perdeu uma batalha
À quarta medalha de Jesse Owens
Virou as costas e saiu do Estádio
Tinha uma máquina de moer
Quem não fosse alemão ou ariano
Só não tinha arianos para vencer
Aquele negro americano

Publicado no Jornal "A Bola" de 5 de Janeiro de 1985

domingo, 8 de agosto de 2004

Dá para ACREDITAR


Que, nesta sala, os meninos brincam com brinquedos ou com alguém que lhes oferece o seu tempo e a sua esperança.
São os voluntários.
Alguns são Barnabés, ou seja, jovens que já passaram pela mesma experiência. Estão ali não só para dar esperança e testemunho da cura, mas também para ajudar a concretizar essa cura.
Os Barnabés até já acompanharam alguns meninos a Paris, à Disney.
Vale a pena falar e voltar a falar sobre este projecto de esperança e de vida!

A Inês tem que ganhar esta batalha!


A minha homenagem sincera à Inês: pela coragem e pela esperança que nos ensina com o exemplo de luta sem tréguas.
A minha homenagem aos pais, pelos mesmos motivos.
Também pelo exemplo.
Recebo a lição, com humildade.
Esta é também a lição do apelo solidário: em nome da Inês, em nome de todos os meninos e meninas que sofrem! Para a Inês e para todos os meninos e meninas que sofrem.

sexta-feira, 6 de agosto de 2004

Cruel lição de História (1945 - 6 de Agosto)

Foi lançada a Bomba Atómica sobre Hiroshima!

"A explosão libertou uma quantidade absurda de radiação e o mundo conheceu pela primeira vez a imagem do temido cogumelo atómico. Ao todo, morreram cerca de 300 mil pessoas em consequência directa do ataque. Quem não morreu queimado, esmagado ou pulverizado sofreu mais tarde com os efeitos da radiação - em geral, morte por cancro."


A fotografia mais triste do albúm da Humanidade!

Dois dias depois, Torga escrevia no seu Diário (Volume III):
"Em Hiroshima, onde a bomba atómica foi lançada, tudo quanto era vida, morreu. Por causa do fumo e da poeira que se levantaram, o mundo esteve de respiração suspensa, sem saber o que tinha acontecido. Mas hoje de manhã, os jornais, diligentes, já estavam senhores da realidade inteira. Não tinham morrido vinte, trinta ou quarenta mil, como era de temer. Para matar a ridicularia de quarenta mil pessoas não era necessário tanto sonho. Não, felizmente não se tratava de um desapontamento. Nem quarenta, enm sessenta, nem setenta mil mortos. isto só: todos os seres vivos liquidados!
A humanidade dobrou o jornal aliviada."

quinta-feira, 5 de agosto de 2004

Goodbye Norma Jean!

No Inverno de 1961, Marilyn Monroe é internada numa clínica psiquiátrica, mas o sofrimento de toda a sua vida só terminaria a 5 de Agosto de 62, quando misteriosamente, na sua casa de Brentwood, Califórnia, morreu ou apareceu morta, de acordo com versões diversas.
Tinha apenas 36 anos.
Morria a mulher mais desejada do mundo, provavelmente a mais mal-amada.
Nascia a lenda que ainda hoje mantém Marilyn no plano mais elevado das divas do cinema.
Podemos rever os seus filmes, mais de trinta, rever a sua imagem, mas jamais saberemos a resposta a uma pergunta que se impõe: “Quanta felicidade trazem, ou podem trazer à vida, a beleza, o sucesso e o dinheiro?”
Ela própria afirmou que em “Hollywood se pagava mil dólares por um beijo e cinquenta cêntimos por uma alma”.


quarta-feira, 4 de agosto de 2004

Zeca

Ouvi com emoção algumas cantigas cantadas pelo Zeca Afonso, no Coliseu.
Com emoção e com saudade.
Saudade de muitos tempos. Os mais antigos são os do Liceu António Enes, em Moçambique, Lourenço Marques, hoje Maputo. O Zeca era professor de Geografia. Os alunos eram os seus maiores fãs. Hoje, percebo ainda melhor o valor desta admiração. Mesmo os que não eram alunos do Zeca eram contagiados pelos outros. Ouvíamos as cantigas e votávamos para que ele ficasse em primeiro lugar num Top de um jornal. E ficava. Era a louca correria aos cupões: recorta, preenche e manda...
Valeu a pena! Cada um de nós ficou com essa marquinha de saudade individual, que desagua nesta foz imensa da saudade de todos. Porque a canção do Zeca chega a todos.
Obrigada Ouguela pela homenagem ao Zeca.

Ontem recebi uma visita especial

A Thita!
Veio, com simpatia, retribuir-me a visita que lhe fiz há uns tempos.
Obrigada, Thita!
Como devemos sempre oferecer alguma coisa às visitas, aqui fica um poema, feito por uma menina da minha escola (Raquel, 5º ano):
Se eu fosse
Se eu fosse o vento,
tirava do mundo o desalento...
Se eu fosse o Sol,
iluminava qualquer girassol...
Se eu fosse a água,
afogava toda a mágoa...
Se eu fosse a terra,
rolava sobre a serra...
Se eu fosse o luar,
punha todas as estrelas a brilhar...

Um beijinho, Thita

terça-feira, 3 de agosto de 2004

1492, 3 de Agosto

Uma das mais famosas viagens da História, começou a a 3 de Agosto.
1492 Colombo parte de Palos, rumo à Índia.
Apareceram-lhe terras pelo caminho: as Américas.

Mapa-Múndi de Juan de la Cosa, princípio do século XVI

Cristovão Colombo, o marinheiro genovês que conseguiu convencer os reis católicos a "embarcar" na aventura da descoberta de um determinado caminho marítimo para a Índia. Descobriu a América. Não lhe valeu de muito, já que a história conta que uns anos mais tarde, a 20 de Maio de 1506, morre em Valladolid, "abandonado e esquecido".

"Teimosos"? Ou pobres...?

Derrocada de um prédio em Lisboa.

Mais saudades da Guidinha

Desta vez são as saudades do Molin!

segunda-feira, 2 de agosto de 2004

Saudade da Guidinha- artigo da Capital, de Rogério Rodrigues

Carta aberta ao pai da guidinha
Mas tenho a boa novidade o teu felizmente há luar dá-se nas escolas quem estraga tudo são os resumos que a rapaziada não está para ler a peça toda nem representá-la hoje nem feliz nem infelizmente há luar muito embora estejamos em Agosto e não em Outubro da execução do freire de andrade cujo delator foi um tal morais sarmento estamos em agosto e há um luar pleno uma lua cheia não sei se se pode dizer plenilúnio

Escolheste o silêncio eterno luís mas eu tenho saudades tuas porque escolheste paraísos sem mágoas menos artificiais e menos fiscais eu tenho saudades tuas sttau escolheste o esquecimento teu e dos outros mas eu continuo a lembrar-te luís sttau monteiro quando não sei se sabes que por aqui as notícias não são de todo agradáveis e a tua guidinha que sempre trataste com tanto carinho e amor foi a um pronto a escrever e comprou um sortido de maiúsculas vírgulas e pontos para se reciclar e fazer cozinhados da grande culinária social esquecendo-se de ti e adoptando outro nome o que é uma ingratidão mas conduta atitude como se diz agora normal correcta em dia luís isto está muito pior do que tu o deixaste já não a tua elegância mesmo de chinelos e dedos amarelecidos pelo tabaco tanto podias entrar no tavares rico como na tasca do joão na luz soriano onde partilhávamos uma garrafa de gin cuja marca já não aparece tower london um aviso do mal que a bebida das velhas inglesas fazia essa cadeia que nem sequer dispensavas no bacalhau com grão no solar do loreto luís estamos no crepúsculo até a guidinha nos abandona transformada em santanete que tu nem imaginas o que está a acontecer no país de que tanto gostavas e tanto detestavas na tua educação british filho de embaixador em londres meu adorável mentiroso tão mentiroso que te enganavas a ti próprio e nem de propósito estavas desiludido com a esquerda e a esquerda dava-te razões para estares desiludido e hoje estarias desiludido com todos que a guidinha deixou-te em maus lençóis apanhada agora a escrever novelas e já meio tia no algarve a quem não perguntam o que está a ler mas sim o que está a escrever este país está assim luís nem tu imaginas os que já morreram a não ser que estejam na tua companhia e aí o caso já muda de figura mas como sabes há muito eu não acredito nestas coisas de convívio eterno em que é proibida a má língua e maledicência portanto o melhor é que estejas sozinho não saibas nada do que se diz e vê no telejornal porque se eu por acaso numa comunicação mediúnica com o apoio da natália correia te anunciasse que santana lopes é primeiro-ministro e te alinhasse a nomenclatura governativa mandavas-me para o pasto de cambronne e dizias que eu tinha enlouquecido e eu respondia-te luís não fui eu que enlouqueci alguém enlouqueceu por mim e isto ainda não é tudo com assessoras no egipto lulus e lilis nas maldivas ou no bengladesh e guerras de alecrim e manjerona expressões que a guidinha não usava que ela era mais para a frentex e que hoje também se não usa porque em inglês é que tudo resulta mas eu escrevo-te assim não para te deprimir nem denunciar o teu conforto celestial muito menos para te informar que no ps ninguém se entende muito embora tu nunca tivesses pertencido a qualquer partido antes e apenas do reviralho daquilo que não estava bem não sabendo tu o que estaria melhor franco atirador de uma figa estando os teus melhores amigos no que é hoje o ps nunca foste ouvido nem achado mas tenho a boa novidade o teu felizmente há luar dá-se nas escolas quem estraga tudo são os resumos que a rapaziada não está para ler a peça toda nem representá-la hoje nem feliz nem infelizmente há luar muito embora estejamos em agosto e não em outubro da execução do freire de andrade cujo delator foi um tal morais sarmento estamos em agosto e há um luar pleno uma lua cheia não sei se se pode dizer plenilúnio acho que os foguetes vão ser proibidos por causa dos incêndios e o teu amigo de longa data jorge sampaio não se está a portar lá muito bem isso na opinião sempre subjectiva daqueles que votaram nele e nos quais me incluo pelo que vai alguma tristeza neste país e a esquerda está a fazer a cama no desconforto olha luís vou deixar-te que já estou atrasado para a vida a vidinha este correr das horas esta impertinência do tempo que nos quer iludir e eu não quero acabar esta carta em tristeza que um homem não chora mas também não é de ferro luís estejamos prontos para este abraço entre algodão e rama e fumo de tabaco como putos apanhados em falso que agora já quase é crime fumar que eu não sei se aí te deixam acompanhar o gin com um cigarro e tens um grupo de amigos como em campo d’ourique para saborear a tua imaginação gastronómica com o melo lapa o brun do canto e o este então miúdo que mal se assina tão trémulo está de saudade e de inquietação do futuro.

Saudade da Guidinha

Quem se lembra da Guidinha? Quem se lembra de Luís de Sttau Monteiro?
Em tempos que já lá vão (vão mesmo? ou é ilusão da nossa vontade?), não se podia escrever “à descarada”, a dizer mal do governo ou de outros senhores importantes, ou do estado das coisas. E qualquer pequeno atentado ao pudor hipócrita da moral pública podia valer um castigo pesado, não pecuniário, mas pago em liberdade, o que era bem pior. E, em termos de hipocrisia e moral pública, hoje, infelizmente, continuamos a não estar muito bem, receio...
Assim, disfarçadamente, para fugir o mais possível ao lápis azul e respectivas consequências, publicavam-se textos, que iludiam os donos do lápis azul, pois tinham o aspecto inocente e infantil de redacção. Quando percebiam que as redacções de inocente não tinham nada, era tarde.
As redacções da Guidinha remetem-nos para as vivências reais, duma família média-baixa , económica, cultural e socialmente falando. A Guidinha é uma criança traquina e quando é apanhada a fazer qualquer maldade, não diz a verdade sobre a identidade dos seus pais. Depois, diverte-se imenso com a confusão que gera, já que os pais, arranjados à pressa, são dois homens...A Guidinha já previa que trinta anos mais tarde o problema descia (ou subia?) à Assembleia da Republica e que todos os intelectuais, e não só, iam gastar muita massa cinzenta a debater o problema das uniões de facto.
(Deixem-me abrir um parênteses: Sttau Monteiro daria hoje um bom contributo para a discussão. Nunca foi um intelectual de moda. Foi sempre um homem que defendeu com coragem os seus pontos de vista, doesse a quem doesse. Não se veja nesta passagem qualquer preconceito. Ele viveu acima dos preconceitos e isso nem sempre lhe valeu a simpatia dos outros .)
Mas esta não é a única realidade que sai das redacções da Guidinha para os nossos dias, assim, quase sem tirar nem pôr...São os créditos, ainda sem cartão, mas já a malvada mania de se ter, ter, ter, sem pensar no ser. São as famílias quase pobres que não assumem as dificuldades do dia a dia.
São hilariantes as redacções da Guidinha! Por exemplo, quando a Guidinha se refere aos inconvenientes das modernas fechaduras, minúsculas, com buracos muito mais difíceis de espreitar. Impossíveis mesmo! É que a Guidinha representa muito bem um tipo de gente, que havia e não deixou de haver: os que gostam muito de saber da vida alheia. E defende a curiosidade, como atitude científica, com todas as forças. Cita a professora, que “diz que a ciência é filha da curiosidade” e afirma, corajosa, que vai continuar a espreitar pelos buracos das fechaduras.
A Guidinha é uma menina esperta, com o sentido de justiça que as crianças têm, mas espartilhada pelas insuficiências todas da sua classe. A Guidinha leva “bumba no toutiço” por dá cá aquela palha, à conta da frustração do pai, que se chama José e é escravo, de trabalho (subentenda- se), empregado de escritório, que receia não receber a gratificação no Natal, para comprar o peru.
Uma das coisas que a Guidinha não suportava era a eterna mentira em que a obrigavam a viver. Tretas, chamava-lhe. Uma delas era o Pai Natal. Um Pai Natal não oferece compêndios (era este o nome dos actuais manuais escolares) de Ciências Naturais! Um Pai Natal não traz do Céu uma camisola dos saldos da Rua dos Fanqueiros. Aí põe-se o problema do Céu ser a Rua dos Fanqueiros!
Hoje o Céu mudou de sítio, mudou-se para um dos modernos Centros Comerciais, mas a mentira é igual. Consome-se o Céu, em meia dúzia de compras.
A Guidinha esteve sempre lá, no suplemento “A Mosca” do Diário de Lisboa, para denunciar tudo, como quem não entende nada de coisa nenhuma.
E que falta faz a Guidinha hoje, aqui!
Hoje, alguém o recorda na Capital

O candidato invadido

O poeta, à luz das palavras de Francisco Lucas Pires, na Capital.
Mesmo quem tem por norma desconfiar dos poetas terá escutado com bons ouvidos o discurso de Manuel Alegre na passada quinta-feira. Um discurso com ideias sérias, estruturadas – das quais certamente se pode discordar, mas que são produto de uma reflexão cuidada –, e fórmulas próprias, claras, numa linguagem que não se refugia em ambiguidades ou nos chavões cinzentos do politiquês corrente. Um discurso que, só por si, o demarca do ambiente geral da política de hoje, em que banalidades repetidas até à exaustão são tomadas por “pensamento político” e sobrolhos franzidos para as fotografias por “poses de Estado”, em que se confunde bronzeados sorrisos de plástico com carácter ou espírito de liderança ou algo do género.
Atacando o “bloco central dos interesses”, o perigo do esvaziamento pelo centrismo, o caciquismo dos aparelhos, Manuel Alegre vem também afirmar-se, pela palavra, contra os políticos formados à sombra da imagem, deixando recados para fora e para dentro do PS. Concorde-se ou não, é admirável a generosidade e ousadia deste histórico que avança assim, com um discurso virado para a frente, sem medo nem da expressão “socialismo” nem da outra, “modernidade”. A vitória é quase impossível. Mas, pelo seu significado neste momento difícil da política portuguesa – como vitória das ideias e da palavra contra a política-espectáculo –, seria sem dúvida um bom sinal. É esperar para ver. Numa altura em que todos nos sentimos “invadidos pelos acontecimentos”, quem sabe se o dono da frase não acha um caminho?

domingo, 1 de agosto de 2004

Paris, no mês de Agosto. E Lisboa?

De larmes et de rires
Etait fait notre amour
Qui redoutant le pire
Vivait au jour le jour
Chaque rue, chaque pierre
Semblaient n'être qu'à nous
Nous étions seuls sur terre
A Paris au mois d'août
(da canção de Charles Aznavour)

Lisboa, em Agosto, emite uma luz diferente.
Dizem que está cheia de mochilas e as caras têm quase todas uma máquina fotográfica à frente.

sábado, 31 de julho de 2004

Muitos anos de vida, nesta data querida!

Hoje, nos tempos de hoje, os novos prolongam a adolescência que lhes entra pela casa dos trinta anos, sem cerimónias... Aos quarenta, assume-se a idade adulta. Aos cinquenta, teme-se a velhice e tudo o que ela traz.
A vida passa a voar. Tudo é rápido. A felicidade quer-se também rápida e instantânea. Os caminhos da vida são auto-estradas, onde não se pára quase sequer para abastecer. Não há portagens para pagar. É tudo via verde e larga.
É nestes tempos modernos que um homem sereno e muito lúcido festeja os seus cento e quatro anos. Dr Fernando Vale, homem bom, médico, fundador do Partido Socialista.
Numa entrevista que deu à televisão, surpreendeu pela simplicidade das palavras e dos hábitos: vou comprar o jornal, ando um bocadinho a pé, durmo e leio. Tenho sempre um livro à mão.
E disse mais: falou do partido que fundara e disse em qual dos candidatos recaía a sua escolha. Manuel Alegre. E em jeito de quem já está habituado a ser apenas um número, pois é assim que as pessoas hoje se consideram uma às outras, considerou coisa pouca a expressão da sua escolha. Disse mais ou menos isto: é mais um número.
Estes homens não são raros por terem ultrapassado os cem anos, estarem lúcidos e atentos.
São cada vez mais raros, por serem bons!



quarta-feira, 28 de julho de 2004

Nem a natureza nem a poesia escapam às malhas do destino

Foi precisamente a 28 de Julho que o poeta-filho lançou a primeira pedra do movimento de protecção a esta natureza - mãe.

Arrábida ferida de morte
Há ironias que não resistem ao fogo. Hoje celebra-se o Dia Nacional da Conservação da Natureza. Nesta mesma data, era criado, há 28 anos, o Parque Natural da Arrábida, visando proteger esta pérola paisagística das agressões do Homem. Foi também
num dia 28 de Julho, de 1947, que o poeta Sebastião da Gama, fervoroso apaixonado da Arrábida - ali viveu desde jovem para combater uma tuberculose e ali morreu - lançou, com o poder das palavras, um movimento académico de protecção à sua serra, ameaçada pelas primeiras pressões económicas. Desse movimento nasceu,
a 28 de Julho de 1948, a Liga para a Protecção da Natureza (LPN), dedicada a proteger
a Serra da Arrábida. Após os anos de esforços para manter a mais mediterrânica paisagem de Portugal intacta, todos falhámos

PATRÍCIA NAVES (Publicado no Jornal "A Capital")

terça-feira, 27 de julho de 2004

Serra-Mãe



Serra - Mãe


Quando eu nasci,
ficou tudo como estava,
Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve Estrelas a mais...
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.

As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém...

P'ra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe...


Sebastião da Gama (O poeta da Serra que arde)

Burn out

A compreensão do Inferno

Ver e ouvir o fogo. Sentir o cheiro entrar pela janelas. O calor sempre a aumentar. Os noticiários repetem os nomes dos lugares que ardem. Sempre os mesmos.
O verde a ser substituído pelo luto. A vida a ser tomada pela morte.
Do alto da serra ardida,o mar: sempre igual, a prometer alívio ao corpo e à alma.

segunda-feira, 26 de julho de 2004

Não queria ver!

Não queria ver tantas árvores a morrer!
Agora parece que entendo melhor a expressão que diz que as árvores morrem de pé. Mesmo quando o fogo as devora e as envolve num manto laranja, elas mantêm o desenho recortado a negro.
Sinal de luto!
O fogo avança e engole haveres de gente que já pouco tinha.
As lágrimas e os gritos de dor soltam-se impotentes perante as chama impiedosas.
Ninguém queria ver!

domingo, 25 de julho de 2004

A vitória da esperança

Lance Armstrong é a evidência da supremacia da vontade sobre toda a adversidade, neste caso, a doença e os prognósticos reservados.
O amarelo não é só a cor da camisola do vencedor da Volta à França. É também "a cor da esperança, a cor de todos nós."

domingo, 18 de julho de 2004

A minha primeira praia

Praia da Polana. Na minha memória também já perdeu cor e no meu coração já perdeu tanta gente. A minha tia nadava tão bem... Saltava de uma prancha que havia por perto, com uma elegância que nunca mais voltei a ver e nadava, com prazer, nas águas quentes do Índico.
As águas eram calmas e quentes, mas não há bela sem senão: os tubarões eram a ameaça a tanto prazer!

sexta-feira, 16 de julho de 2004

Por cá, morrem árvores em incêndios incompreensíveis


Pelo menos, estes abalam a nossa ilusão de tranquila imunidade aos males dos outros!

A lição que não valeu!!!

Uma notícia, a mais triste que se pode ouvir, ler ou ver: muitos mortos é o resultado de um incêndio numa escola, na Índia. Esses muitos mortos são quase todos crianças, pois é delas que se faz a escola e é por elas que existem escolas. Setenta, avançam as agências noticiosas ocidentais. Mesmo tratando-se de crianças a Índia é distante e essa distância cria a ilusão da imunidade a este tipo de desgraça. Centenas de mortos, são balanços de outras agências mais próximas do cenário real da tragédia.
Mesmo distantes, sentimos o vazio que certo tipo de dores provoca.
Encontrei explicação para o vazio numa página de Torga, escrita em Paris, vindo da Índia: "Quando se vem da Índia e se desembarca nesta terra é que se vê a que baixeza social o homem pode descer e a que alturas pode subir. Lá, a espécie gregária na sua suprema degradação; aqui, no seu esplendor."
Nem a revolta serve de nada...

A Lição do dia!

Chegou pela palavra de Manuel Alegre, o Poeta.
Não se fica "político" por acaso! A ele, aconteceu-lhe ter sido "invadido pela História".

terça-feira, 13 de julho de 2004

Indignação!

Este artigo de opinião indignou-me.
Respondi assim:
Exmo. Sr. Jornalista
Como professora senti-me muito mal tratada pelas suas palavras, por muitas razões, ou melhor, por tudo o que diz na sua crónica.
Primeiro, cometeu o lamentável erro de agarrar a opinião de um só professor "distinto membro da classe docente" de um só nível de ensino "do ensino secundário". E mesmo esse, que provavelmente foi mais sincero do que muitos profissionais de outras áreas, não recebeu tratamento condigno.
Os professores não servem só????? (Não servem????) Podia ter arranjado outro verbo, mas servem na acepção de ter alguma utilidade, parece-me pouco, para quem tem a seu cargo a formação integral das pessoas, dos alunos, enquanto pessoas: crianças, meninos, meninas, jovens adolescentes. Sabe que os professores, em especial os Directores de Turma, são responsáveis pela ligação entre os vários intervenientes no sistema educativo: aluno, escola, professores e família. Acredita? Não tinha pensado nisso?
Basta ser Encarregado de Educação para valorizar um pouco mais o professor Director de Turma.
As férias, caro cronista, no caso dos professores têm uma limitação temporal cada vez mais rigorosa. Tanto que não se compadece com o direito que tem qualquer marido ou mulher de gozar férias em família com o outro cônjuge, se a profissão não for a mesma.
Os funcionários administrativos têm as tarefas definidas no que respeita a alunos, mas são complementares e uma não dispensa a outra. E isto é verdade para todo o ano lectivo e não tem apenas a ver com tempos de férias.
As férias, caro cronista, já não são o que eram quando os professores " se interrompiam" de toda a realidade escolar, o que era possível porque só chegavam até nós alunos com todos os requisitos para o sucesso. Os "difíceis" iam trabalhar ou eram encaminhados, conforme os dinheiro dos pais, para colégios particulares ou outras instituições que lhes tratava "da alma e do coração". Agora, somos nós que o fazemos, em colaboração com outras equipas de ensino especial, onde o amor à crianças problemáticas marca todas as diferenças. Outras equipas e outros profissionais do sector, os auxiliares de acção educativa, por exemplo.
E não me vou prolongar em argumentações. Bastava-me convidá-lo a visitar a minha escola e talvez dissesse, sem essa ironia que lhe fica tão mal, que os professores merecem o Reino do Céus, mas antes disso o respeito dos outros e o reconhecimento do cidadão que, já agora, também fica bem.

Será que a sociedade continua a ver em nós pessoas que servem para... e não pessoas que servem ?

Quero acreditar que não!

segunda-feira, 12 de julho de 2004

Cem anos!


...Tudo o que você quiser, sim senhor, mas são as palavras que cantam, que sobem e descem... Prosterno-me diante delas... Amo-as, abraço-as, persigo-as, mordo-as, derreto-as... Amo tanto as palavras... As inesperadas... As que glutonamente se amontoam, se espreitam, até que de súbito caem... Vocábulos amados... Brilham como pedras de cores, saltam como irisados peixes, são espuma, fio, metal, orvalho... Persigo algumas palavras... São tão belas que quero pô-las a todas no meu poema... Agarro-as em voo, quando andam a adejar, e caço-as, limpo-as, descaco-as, preparo-me diante do prato, sinto-as cristalinas, vibrantes, ebúrneas, vegetais, oleosas, como frutas, como algas, como ágatas, como azeitonas... E então revolvo-as, agito-as, bebo-as, trago-as, trituro-as, alindo-as, liberto-as... Deixo-as como estalactites no meu poema, como pedacinhos de madeira polida, como carvão, como restos de naufrágio, presentes das ondas... Tudo está na palavra...

Pablo Neruda, in "Confesso que vivi"

A minha vida é uma vida feita de todas as vidas- as vidas do poeta.

Como a poesia se sobrepõe aos tempos e aos espaços, à vida e à morte!

domingo, 11 de julho de 2004

Se... memória desta vida se consente


Olhando para cima, para o Céu em que ela acreditou com uma força que a mim me falta, vislumbro-a serena, muito tranquila e de sorriso matreiro.
Não creio que seja uma visão. Creio que é mesmo ela!
E peço-lhe que aceite a minha humilde homenagem!

segunda-feira, 5 de julho de 2004

"É cuidar que se ganha em se perder"

Disse o nosso poeta maior.
É sentir o que se ganha em se perder, penso! Por exemplo: ganha-se uma oportunidade de revelar nobreza de carácter, humildade, sentimento e reconhecimento da justiça!

sábado, 3 de julho de 2004

Sophia viverá sempre

"Desmentida" a morte de Sophia

A poetisa é eterna.

Tal como a juventude dos seus versos.

Sophia

“Dizemos «Sophia» como se esta palavra fosse sinónimo absoluto de poesia.” (Alice Vieira)
É certamente por causa dessa poesia, da palavra poética que Sophia de Mello Breyner foi candidata ao Nobel, a mais alta distinção no mundo das Letras atribuída a um autor vivo.
Quando a poesia toca um ser, todos os seus actos, escritos ou não, passam pela poesia. Todos os actos de Sophia parecem brotar da poesia.
Da poetisa conhece-se o apego ao mar, como ela, uma força da natureza, uma força que não cede, que não se verga, que não ilude nem desilude, que dá o prazer e o pão. O mar é tratado na “Saga” de maneira ímpar. O mar que mata, que colhe vidas e transforma vidas, como a do pequeno Hans, que aos catorze anos largou a terra, longe, e se fez ao mar. Havia uma proibição. Houve uma transgressão. O pai nunca lhe perdoaria a desobediência e Hans jamais poderia voltar à sua aldeia, a Vik, rever os seus, porque também ele, homem do mar, sabia que, na índole do marinheiro, o perdão é uma transigência menor.
As crianças são poesia. Por isso uma grande parte da vasta obra de Sophia tem como destinatário o público infantil. E lá está o mar! A gente do mar e a gente da terra. A Menina do Mar! Tão pequenina que cabe num baldinho da praia, daqueles que os meninos transportam do toldo para a beira-mar e da beira-mar para o toldo! Ela e um desses meninos travam conhecimento e querem trocar saberes. Ele quer levar-lhe o fogo e o perfume. Coisas de sensações! Ela quer levá-lo ao fundo do mar. Ele quer explicar-lhe o que é a saudade, que é da terra, mas que o mar ajuda a entender.
A filha, Maria de Sousa Tavares, diz que a mãe lhes transmitiu “desde a infância, o apego intransigente às coisas essenciais da alegria de viver: o bom pão, o bom vinho, o mar...”
A fé, a verdadeira fé, uma fé católica aparece na poetisa como o desenvolvimento natural de alguém tocado pela poesia. A fé também é um dom. E mesmo em tempos conturbados, lá está Sophia, com a sua fé e a sua verdade. No entanto, a sua sensibilidade sempre atenta está pronta a desmascarar a hipocrisia. O cristão tem de ser verdadeiro e todos os seus actos devem ser coerentes com os valores do evangelho. Para os mais pequeninos há o Natal, a grande e bonita festa cristã.
Elaborados estudos falam da poesia de Sophia, da essência do eu poético. Muitos entrelaçam a mulher e a sua obra. Mas foi precisamente num texto em prosa que encontrei a alma feminina, a sensibilidade da mulher, a consciência plena do seu papel no trajecto- vida. Foi num dos “Contos Exemplares”, A Viagem.
Sophia de Mello Breyner Andresen nasceu no Porto, a 6 de Novembro de 1919. Aí passou a infância e foi aí que a poesia chegou até si, pela primeira vez. Aos três anos uma criada ensinou-lhe a Nau Catrineta, que Sophia aprendeu a dizer de cor. Antes de aprender a ler, o avô ensinou-a a recitar Camões e Antero.
Aos vinte anos casou com Francisco Sousa Tavares do qual teve cinco filhos. É ao marido que Sophia dedica os seus “Contos Exemplares”, com palavras que vale a pena citar. “Para o Francisco, que me ensinou a coragem e a alegria do combate desigual.”
Entre as várias honrosas distinções portuguesas e estrangeiras conta-se o Prémio Camões, atribuído à poetisa em 1999.
A 28 de Outubro de 2003, foi distinguida com o Prémio Rainha Sofia de Poesia Iberoamericana. Por razões de saúde, foi o filho Miguel quem recebeu o prémio, em representação da mãe, com «orgulho, alegria e tristeza», disse.
Hoje a tristeza faz sentido, porque Sophia partiu, deixando para sempre enobrecidas a língua e a poesia.
Tinha oitenta e quatro anos.

sábado, 26 de junho de 2004

Queremos mais! Queremos mais! Queremos mais!


Mais vitórias! Mais golos! Mais alegria! Mais festa!

Olhó poema da moda! Oh freguesa!

Olha a bola que rebola
Sobre o relvado
Verde e encarnado.
Nos pés do Figo,
Ou nas mãos do Ricardo.
Ricardo Coração-de-Selecção.
Verde e encarnado.
A bola já baila nos pés de Postiga
e ri, rebola-se a rir, dentro da baliza inimiga.
Ouve-se mais uma vez a cantiga:
Quero mais! Quero mais! Quero mais!

sexta-feira, 25 de junho de 2004

"O poeta faz-se aos dez anos"

É o título de um livro de Maria Alberta Menéres.
Ao meu lado, ao lado do teclado, tenho um livro de poemas. Os autores, os poetas, têm dez anos. O livro chama-se "Saboreando as palavras". Foi hoje apresentado a um público muito especial: os pais, os irmãos, os amigos, os colegas, os professores, a Presidente da Câmara e o Presidente da Junta. Estes últimos apoiaram a publicação.
E porque o mundo ainda é a cores, escolhi o poema que se chama precisamente Cores, da Ana Sofia Garcia,aluna do 5º ano, para este "lançamento" aqui, em Chora- que- Logo- Bebes.

Cores
Laranja...
É uma flor,
é um fruto,
é uma cor.

Preto...
É uma escuridão,
Tinta de uma caneta,
Fechada na minha mão.

Azul...
É o mar,
é o céu,
o sabor do luar.

Branca,
é a margarida,
é a nuvem,
a paz,
uma menina querida.


sábado, 19 de junho de 2004

Porque Alcochete não é só

Academia.
É também um património ligado ao rio...



de onde os olhos descansam sobre as águas, até à outra margem.

Onde há passados lembrados em becos escondidos!


Onde as tradições não naufragam!

sexta-feira, 18 de junho de 2004

A beleza, a idade e a cosmética

Hoje Isabella Rosselini faz 52 anos.
É sem dúvida uma mulher bonita.
Paul Mc Cartney também faz anos. Mais dez. Sessenta e dois.Escrito assim, em palavras, não magoa tanto as nossas memórias do beatle com cara de menino. Hoje parece um menino velho, o que é fisicamente impossível! E não é bonito. Acho que preferia vê-lo com cabelos brancos. Paul Newman (79) e Clint Eastwood (74) são bons exemplos de que os homens não precisam ou não devem (Hesito: precisam? devem?)pintar o cabelo.
Isabella Rosselini, filha da lindíssima Ingrid Begman, é uma das mulheres mais belas, de acordo com as classificações do mundo da moda e da cosmética. Apesar de considerar que a beleza não pode ser medida com precisão científica, neste caso, até concordo.
Contudo, corro o tremendo risco de dizer que, no caso de Isabella, deve tapar-se os cabelos brancos, as rugas e todas as imperfeições da idade.
A bela Isabella foi durante muito tempo o rosto de uma prestigiada marca de produtos de beleza. Neste momento estará reservada aos perfumes apenas? Não têm rugas, nem cabelos brancos... Pois!

domingo, 13 de junho de 2004

Comícios de boa memória

Eu sabia que esta expressão me tinha sido fornecida por uma leitura. Procurei, procurei, na minha memória e encontrei: José Gomes Ferreira, "O mundo dos Outros".
"Embora não pareça eu ainda sou do tempo dos comícios de propaganda republicana de boa memória.
Não passava então de um miúdos de colarinhos à mamã, onde apetecia desenhar bonecos a lápis,mas, sempre que a família não se opunha, lá estva caído, nos terrenos sáfaros da ex-Avenida Dona Amélia, agarrado às abas do casaco do meu pai, com todo o silêncio à escuta.
(...)
Quando pratica maldades ou trazia para casa más notas, presumo que o pior castigo que me podiam infligir era suspender-me sobre a cabeça a vingança desta ameaça:
- Se o menino não estuda, não vai ao comício ouvir o António Zé. Agora veja lá como se porta."

E por aí adiante, José Gomes Ferreira desfila memórias de uma infância que ele diz estragada por adultos, como um tal professor de matemática: "um senhor alto ventrudo, glabro, de lunetas cínicas e feições gelidamente irónicas que olhava para nós como feras de bibe e de calção"...

Leiam tudo, que vale mesmo a pena. Não só a leitura como a reflexão sobre valores de ontem que não passaram de moda, para as pessoas boas.

Ontem houve bola; hoje há política!

Só falta o fado.
Mas também o temos, ou seja, é sina nossa investir a nossa admiração, o nosso orgulho, outros sentimentos à mistura e sair-nos tudo "furado".
Não tenho bandeira, porque se esgotaram nas imediações. Ainda por cima com Alcochete à vista.
Mas tenho outras bandeiras dos tempos idos dos comícios de boa memória. Mas hoje não posso desfraldá-las, porque estamos em plenas eleições.
Mas que apetece, apetece!

sábado, 12 de junho de 2004

É preciso não ter vergonha nenhuma!

Comunicar, através dos jornais, à população em geral e aos interessados, igualmente em geral, que está tudo bem! Na verdade, o que está mesmo mal é avançar com conclusões sobre algo que mexe com a vida de muitas, muitas pessoas.
E essas pessoas, os professores, têm de se contentar com essas conclusões, porque o objecto da análise, a "alegada"* lista não está à vista, a não ser depois do povo ir a votos.
Que vergonha!!!!
*Finalmente, arranjei maneira de empregar um termo que ouço, ouço e ouço.

De que lado fica o coração?


Do esquerdo, tá claro!

sexta-feira, 11 de junho de 2004

O Ponto

Mínimo sou,
Mas quando ao Nada empresto
A minha elementar realidade,
O Nada é só o resto.

De Reinaldo Ferreira

É a vida!

A vida é assim!
Há dias que são de uma tristeza de morte! Mas mesmo nesses dias, a vida agarra-se à vida, como uma lapa.
Eis-nos a chorar, com ou sem lágrimas, mas a chorar, a sério, por dentro,ou de modo mais visível, a morte de pessoas que, não sendo nossas enquanto pessoas de carne e osso, eram nossas no domínio das ideias, do pensamento,
Ao lado dos carros funerários, passa a marcha popular!
É assim a vida: há tristeza e alegria! Há choro e cantigas!
Há música para uma situação e para outra situação! Há morte e há vida, lado a lado.
É a vida!

quinta-feira, 10 de junho de 2004

Silêncio ...

...flores

e dois versos dos Lusíadas, alusivos à obra que fica para além do inevitável desaparecimento físico do homem.

" E aqueles que por obras valerosas
se vão da lei da morte libertando"


Em dois dias desaparecem dois vultos da cena política portuguesa.
Eram, apesar de tudo e sobretudo, dois homens, duas pessoas, com família e amigos que lidarão com a dor e com o vazio durante muito tempo. Talvez todo!



domingo, 6 de junho de 2004

D Day aconteceu

porque homens da fibra do nosso herói (João Sem Medo) saltaram o muro do desgosto e foram para além de todos os limites, para além do medo... Para além da dor, diria Pessoa. De facto, desde os marinheiros de quinhentos que não se via coragem assim!
Há vinte anos estive lá, no palco da coragem e há dez também. Pensar que estamos a pisar a mesma areia que aqueles homens que vinham em missão quase impossível e, sem qualquer truque ou ficção, libertaram a França, a Europa e o mundo das teias de um louco!!!
Sente-se a responsabilidade de respeitar infinitamente esses homens. Muitos deixaram lá a vida, nessas praias!!! Meu Deus, como a raça humana às vezes se transcende!
Li cartas verdadeiras escritas a mães que esperavam os filhos do lado de lá do mundo. Essas mães gostavam dos seus filhos como eu gosto dos meus. O valor de um filho é universal!
Estive perto de veteranos, que voltam ali todos os anos, para assistir às comemorações.
São emoções impossíveis de descrever e de esquecer!

quinta-feira, 3 de junho de 2004

Quando o telefone toca ou posso dizer a frase!

Sei de alguém que anda à procura desta cantiga!
Não sei se este senhor, Sir Paul Mc Cartney a cantou, no sábado passado, no palco da Bela Vista.
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Enjoy the song!

A preguiça

Esta linda preguiça

tem mesmo de viver em liberdade, pois, de acordo com estudos publicados, em cativeiro, morre!