Quem se lembra da Guidinha? Quem se lembra de Luís de Sttau Monteiro?
Em tempos que já lá vão (vão mesmo? ou é ilusão da nossa vontade?), não se podia escrever “à descarada”, a dizer mal do governo ou de outros senhores importantes, ou do estado das coisas. E qualquer pequeno atentado ao pudor hipócrita da moral pública podia valer um castigo pesado, não pecuniário, mas pago em liberdade, o que era bem pior. E, em termos de hipocrisia e moral pública, hoje, infelizmente, continuamos a não estar muito bem, receio...
Assim, disfarçadamente, para fugir o mais possível ao lápis azul e respectivas consequências, publicavam-se textos, que iludiam os donos do lápis azul, pois tinham o aspecto inocente e infantil de redacção. Quando percebiam que as redacções de inocente não tinham nada, era tarde.
As redacções da Guidinha remetem-nos para as vivências reais, duma família média-baixa , económica, cultural e socialmente falando. A Guidinha é uma criança traquina e quando é apanhada a fazer qualquer maldade, não diz a verdade sobre a identidade dos seus pais. Depois, diverte-se imenso com a confusão que gera, já que os pais, arranjados à pressa, são dois homens...A Guidinha já previa que trinta anos mais tarde o problema descia (ou subia?) à Assembleia da Republica e que todos os intelectuais, e não só, iam gastar muita massa cinzenta a debater o problema das uniões de facto.
(Deixem-me abrir um parênteses: Sttau Monteiro daria hoje um bom contributo para a discussão. Nunca foi um intelectual de moda. Foi sempre um homem que defendeu com coragem os seus pontos de vista, doesse a quem doesse. Não se veja nesta passagem qualquer preconceito. Ele viveu acima dos preconceitos e isso nem sempre lhe valeu a simpatia dos outros .)
Mas esta não é a única realidade que sai das redacções da Guidinha para os nossos dias, assim, quase sem tirar nem pôr...São os créditos, ainda sem cartão, mas já a malvada mania de se ter, ter, ter, sem pensar no ser. São as famílias quase pobres que não assumem as dificuldades do dia a dia.
São hilariantes as redacções da Guidinha! Por exemplo, quando a Guidinha se refere aos inconvenientes das modernas fechaduras, minúsculas, com buracos muito mais difíceis de espreitar. Impossíveis mesmo! É que a Guidinha representa muito bem um tipo de gente, que havia e não deixou de haver: os que gostam muito de saber da vida alheia. E defende a curiosidade, como atitude científica, com todas as forças. Cita a professora, que “diz que a ciência é filha da curiosidade” e afirma, corajosa, que vai continuar a espreitar pelos buracos das fechaduras.
A Guidinha é uma menina esperta, com o sentido de justiça que as crianças têm, mas espartilhada pelas insuficiências todas da sua classe. A Guidinha leva “bumba no toutiço” por dá cá aquela palha, à conta da frustração do pai, que se chama José e é escravo, de trabalho (subentenda- se), empregado de escritório, que receia não receber a gratificação no Natal, para comprar o peru.
Uma das coisas que a Guidinha não suportava era a eterna mentira em que a obrigavam a viver. Tretas, chamava-lhe. Uma delas era o Pai Natal. Um Pai Natal não oferece compêndios (era este o nome dos actuais manuais escolares) de Ciências Naturais! Um Pai Natal não traz do Céu uma camisola dos saldos da Rua dos Fanqueiros. Aí põe-se o problema do Céu ser a Rua dos Fanqueiros!
Hoje o Céu mudou de sítio, mudou-se para um dos modernos Centros Comerciais, mas a mentira é igual. Consome-se o Céu, em meia dúzia de compras.
A Guidinha esteve sempre lá, no suplemento “A Mosca” do Diário de Lisboa, para denunciar tudo, como quem não entende nada de coisa nenhuma.
E que falta faz a Guidinha hoje, aqui!
Hoje, alguém o recorda na
Capital