segunda-feira, 11 de outubro de 2004

Still him

"I think a hero is an ordinary individual who finds strength to persevere and endure in spite of overwhelming obstacles(...)"



Às vezes, um homem tem de ser herói.
Convidado pela vida, Christopher Reeve não conseguiu fugir ao papel de herói.
Herói no cinema, um superhomem com muito poderes e um coração também superbondoso.
Herói na realidade: um corpo prisioneiro que resistiu durante quase dez anos à imobilidade; uma mente brilhante que espalhou a verdadeira lição da generosidade e da solidariedade.
O coração de Christopher Reeve parou.
O Superhomem sabia que não podia permanecer eternamente na terra.



Não consigo imaginar a dor dos que perderam o pai, o marido, o filho, o irmão.
Todos os que lhe eram próximos foram fiéis à coragem e à esperança e não mostraram nunca qualquer desânimo.

Para as pais, os filhos são projectos perfeitos, cujo percurso apenas entende as etapas: nascer, crescer e viver, livres de qualquer imperfeição física ou outra, imunes ao sofrimento, à doença.
O próprio tempo não exercerá qualquer efeito erosivo.
Os nossos filhos são sonhos sem rugas, sem cabelos brancos, sem quaisquer marcas menos estéticas.
Os nossos filhos hão-de ser absolutamente e infinitamente belos.

"I'm glad that he is free of all those tubes." disse a mãe de Christopher Reeve, Barbara Johnson.

Poderão estes pais, agora, reviver a imagem do filho na plenitude da beleza física, que, neste caso, se aproximou bastante do ideal.
Poderão guardar para sempre o orgulho (não a vaidade) da beleza interior, do pensamento brilhante, do talento, dos bons sentimentos que se mantiveram intactos e não precisaram de tubos ou fios para se manterem vivos e activos.
E mais uma vez a coragem e a esperança são chamadas à cena como o mais rico legado deste herói que nunca desistiu.

Bye, Superman!
See you somewhere in the beautiful future where you belong!

sexta-feira, 8 de outubro de 2004

Momentos de lucidez

Parece que a humanidade tem momentos de lucidez.
Tudo faz sentido. Tudo está certo. Tudo está no seu lugar.
Hoje ouvi o anúncio do Nobel da Paz, nos entretantos da esquizofrenia das politiquices da santa terrinha!!!
Há alguém que ousa desafiar os senhores do mundo e que grita em defesa de valores, direitos, em defesa de humilhados e oprimidos.
Esse alguém é ouvido. Esse alguém é distinguido com o Nobel da Paz.
Os deuses devem estar lúcidos.

Wangari Maathai é a primeira mulher africana a ganhar o Nobel da Paz, desde 1901, ano em que este prémio foi atribuído, pela primeira vez.
Wangari Muta Maathai nasceu a 1 de Abril de 1940, no Quénia, é casada e tem três filhos.

quinta-feira, 7 de outubro de 2004

O Triunfo dos Porcos


"Pigs" de Ruth Schindler.
Toda a agitação à roda do caso TVI-Marcelo faz-me lembrar o Triunfo dos Porcos.
Gosto do burro Benjamim.Até gosto do seu não compromisso com os revolucionários. Gosto da sua atitude expectante.
Estou como o burro:é esperar para ver.
O sexto mandamento diz: Nenhum animal matará outro animal.
E o último, o tal do fantástico acrescento, diz: Todos os animais são iguais.
Este, "tal qual", não satisfaz ninguém.
Todos querem ser mais iguais do que outros.
Vamos ver!

"As amizades e os ódios do PSD são problemas íntimos, dos dirigentes e militantes do PSD, e não são problemas do Governo dos portugueses. Como dizia Vasco Santana, fora de cena quem não é de cena."
Diz Clara Ferreira Alves a propósito.

quarta-feira, 6 de outubro de 2004

Crianças, infâncias e outros espantos!!!!

" A mim foi um professor de matemática quem me estragou a infância.
Era um senhor alto, ventrudo, glabro, de lunetas cínias e feições gelidamente irónicas que olhava para nós como para feras de bibe e calção capazes de, ao mínimo descuido de domesticador, saltarem para o estrado, comerem-no vivo, roubarem-lhe a caderneta, partirem-lhe o ponteiro na calva e escreverem no quadro, a giz, a divisa libertadora:"Abaixo as equações! Viva o jogo da barra!"
Para nos conter em respeito, todos os dias marcava zeros à classe em peso. E quando algum aluno palidamente resoluto lhe respondia com assanho, não se enxofrava nem se enfurecia. Pelo contrário, as lunetas luziam-lhe mais cínicas. E, pingante de tranquilidade cruel, pegava no ponteiro e entretinha-se a vergastar o pobre rapaz nos dedos, nos braços, na cabeça, ao mesmo tempo que o supliciava com a sua voz fria, gota a gota, como a prova da água na Inquisição."


Este texto, da autoria de José Gomes Ferreira, o padroeiro deste blog, não termina aqui.
Chega o que aqui está para se perceber o que mudou nas escolas.
Já não há jogo da barra, mas ainda há equações.
Já não há suplícios, nem medo, mas falta autoridade.
Da verdadeira!
Já não são os professores quem estraga as infâncias.
Há muita gente a estragar infâncias, infelizmente!
Se é que ainda há infâncias, no meio de tanta actividade, tanto ballet, tanta natação, tanto judo, tanto ATL, para que as crianças não se apercebam que têm tempo e poderiam talvez brincar, se não tivessem de ser os melhores na matemática, mesmo que, à custa disso, talvez se venham a sentir muito insuficientes na vida.
Ser criança é uma condição única e muito limitada no tempo de vida. Viver em plenitude esse tempo é certamente o melhor alicerce para a construção de um adulto feliz.
Já sei que isto é só teoria!!!!
Já sei que isto é só sonho, só utopia!
Vou ali, ao livro do lado, buscar mais um argumento para a defesa desta teoria:
"O que eu quero principalmente é que vivam felizes" escreveu Sebastião da Gama sobre os seus alunos.


segunda-feira, 4 de outubro de 2004

Janet Leigh


A vida tem um curso inexorável: a beleza desaparece, a juventude esgota-se.
Claro que é discutível o desaparecimento da beleza. Há quem consiga lê-la nas rugas, como quem lê na entrelinhas.
Para além das rugas, há o brilho e a cor da pele, remediáveis apesar de tudo, com uma pequena ajuda cosmética.
A eterna juventude é um desejo não menos eterno. Inatingível.
E o que mais intriga é que nada obedece ao imenso poder do homem, que já conseguiu, entre outras coisas, pisar o solo lunar.
Sobrepõe-se o poder das células e a obstinação de cumprirem o seu destino.
Janet Leigh foi a bela mulher que Hitchcock escolheu para Psyco.

O papel celebrizou-a, mas o "chuveiro" tornou-se um pesadelo que não conseguiu ultrapassar. Foi vítima do seu próprio sucesso.
Em 1951, Janet Leigh casou com Tony Curtis, o dos olhos verdes mais cobiçados do cinema desse tempo.Divorciaram-se em 1962.Do casamento, nasceram duas filhas: Jamie Lee e Kelly.
Casou então com Robert Brandt. Para sempre. Até a morte os separar.
Foi o porta voz de Jamie Lee que deu hoje a notícia à Comunicação Social.
Janet Leigh morreu ontem, dia 3 de Outubro,na sua casa de Beverly Hills.
Serenamente.
Tinha 77 anos.
Será recordada como eternamente bela.
Assim:

domingo, 3 de outubro de 2004

Colheita

Colhi mais uns textos.
Estão guardados no sítio do costume.

Ainda o regresso às aulas

Vamos começar as aulas, finalmente.
Todos os meus alunos são novos alunos e são meus alunos pela primeira vez.
São pequeninos e por isso há que ter muito cuidado com as primeiras impressões, que condicionam certamente o sucesso da relação que se há-de prolongar, pelo menos até ao fim do ano lectivo e que, em arquivos de memória, se mantém para além da escola e do ano lectivo.
Muitos professores ficam assim "arquivados", por boas razões.
É um desses professores que eu gosto de recordar, o Professor Lindley Cintra , e faço-o sem qualquer esforço, naturalmente, porque nos deixou um trabalho de qualidade insuperável na Língua Portuguesa, uma Gramática, que ainda hoje me tira dúvidas a toda a hora.
Recordo a sua postura nas aulas, no Anfiteatro principal da Faculdade de Letras, marcada pela imagem física de homem magro, bem parecido, que expunha a teoria com palavras simples.
Nunca precisou de humilhar ninguém, como outros faziam, para que sentíssemos bem a distância de sabedoria que ia do nosso banco à cadeira, na qual nunca se sentava, pois dava as aulas todas de pé.
A matéria parecia sempre fácil e recordo que dizia que usava termos “caseiros” para que pudéssemos entender.
Recordo a sua postura moral, sempre "acima de qualquer suspeita". Via-o privar com todos, sem compadrios.
Lembrar o Professor Lindley Cintra faz reviver a saudade de Abris antecipados e faz-me doer a memória.
A única vez que vi alguma alteração (mesmo assim serena) foi no dia em que os polícias de choque entraram no Bar, pela janela e desataram à bastonada. Ele apanhou algumas e sangrava. Mas não fugiu. Ficou ali, dentro da Faculdade, nas imediações do bar, sempre ao lado dos estudantes.( O professor e poeta David Mourão Ferreira também, mas esse nunca foi meu professor.)
A última vez que vi o Professor Lindley Cintra foi na Reitoria, na Aula Magna, numa sessão de abertura de um congresso de Português. A doença já tinha tomado completamente conta daquele corpo. Mesmo assim ele estava ali. Foi tão forte a presença, que nem me lembro das palavras que a propósito foram ditas. E penso que o Homem (e o Estudioso) sentiu o respeito e o reconhecimento que perpassaram a sala, desde o mais profundo cantinho até à mesa do Congresso.
Tenho a certeza que tudo isto esteve na génese das minhas opções políticas e sobretudo aprendi com ele mais do que Saussure ou Chomsky, aprendi com ele a lição da solidariedade para com os mais fracos.
Apenas quero, à semelhança de todos os que o conheceram, lembrá-lo e, com palavras simples, render-lhe a minha homenagem.

sábado, 2 de outubro de 2004

Para olhar e ver

Há um ditado popular que diz que os olhos também comem.
Independentemente de levar à letra o ditado que, como acontece com todos os ditados, deixa uma margem de erro ao sabor da imaginação de cada um, penso que os olhos também se saciam.
Os meus normalmente "saciam-se à saciedade" com a visão do mar.
Mas, neste espaço pode propor-se outras "vistas", ímpares também: os quadros.
Porque nem só de palavras vive a arte!

Elza Filipa, Museu do Traje do Algarve

quinta-feira, 30 de setembro de 2004

O milagre das listas

- Que trazeis no PDA, Sr Informático?- pergunta a Ministra da Educação.
- São listas, senhora. São listas!


O milagre das listas ou O que eu disse ao Barnabé, a propósito dos concursos.
Estes concursos e estas listas são a ponta do iceberg.
Não entendo como é que as pessoas já esqueceram as colocações do ano passado. Foi já um escândalo.
Mas como era o Dr Barroso....
A colocação habitual em final de Agosto saiu a 3 de Setembro. A 3 de Outubro saiu mais uma série de colocações e mesmo assim continuou a haver "alunos sem professor e professor sem escola"!!!!
Durante muitos meses, ou seja, praticamente o ano lectivo, houve horários disponíveis na net. Era uma sorte conseguir-se um horário desses. Havia um desfazamento entre a publicação do horário e os telefonemas que os Executivos tinham ordem para fazer, seguindo a graduação.
Este agora foi mais um episódio da novela dos professores-ainda-não-quadro-de-escola!!!!
Lamento ver que as pessoas se esquecem.
Quantas pessoas ficaram mal colocadas ou por colocar no ano que passou, graças à implementação do novo modelo de concursos.
Este "tava-se" mesmo a ver que era uma valente de uma "nabice" informática, aliada à irresponsabilidade que preside à dinâmica da vida das nossas mui nobres instituições.
Eu até nem tenho nada a ver com o assunto, devia era meter a viola no saco: sou QE e falta-me meia dúzia de anos para a reforma.
Mas sinto uma grande revolta, mesmo assim!!!!

As Mulherzinhas


Este foi um dos livros que marcou a minha adolescência.
Marcou muitas adolescências e uma época, uma maneira de pensar e de sentir.
Foi publicado pela primeira vez a 30 de Setembro de 1868.

Quadros pretos

Gosto de quadros pretos.
Dantes, todos os quadros da escola eram pretos e havia ardósias de todos os tamanhos. Faziam parte do material escolar de qualquer aluno.
Hoje, já que não são o que eram, já que perderam algum valor, sejam pelo menos bons para escrever e apagar e voltar a escrever e voltar a apagar...



Os quadros pretos da minha escola são deste tempo, ou seja, do tempo deste senhor.
Por muito bom que seja o giz e muito limpo o apagador, é difícil escrever sobre os nossos quadros pretos.
Tudo sofre o efeito de tempo.
Por que é que tudo o que está na minha escola, ou é dos primórdios e foi novo, "in illo tempore", ou é em segunda ou terceira mão?
Temos agora os pavilhões da Escola Secundária da Cidade Universitária, plantados no meios dos eucaliptos, polvilhados de bondex, como se fossem novos.
A terra cresceu, a tele-escola acabou, o número de meninos aumentou e a solução foi esta.
Vá lá que, pelo menos nestas salas de aula temos quadros a estrear,branquinhos!
O resto é tudo muito velho e já andou por muitas escolas.
Não percebo esta política de educação!
Ou não andasse eu espantada de existir!!!!

domingo, 26 de setembro de 2004

Papel de Rascunho

Neste espaço de reflexão e estética, a Virna, a dona da casa citou Jung:
"Prefiro ser íntegro, a ser bom".
Aqui está a prova de que as intervenções nestes espaços não precisam de ser enormes para serem inteiras.
A Humanidade devia orientar-se por este desejo de ser íntegro.
O desejo da integridade talvez conduzisse este pobre planeta à Paz.
Ou pelo menos este pobre país, condenado à vergonha de, sendo tão pequeno, conter tanta maldade.
A Virna Teixeira é poetisa.
Conhecia-a no Pastilhas, nesta estranha dimensão virtual, mas tive depois o prazer de a conhecer em pessoa, em Lisboa.
Sei que a Virna me visita, mesmo quando não deixa "recado".
Quero agradecer-lhe, porque, de facto, um blog não existe para auto-satisfação.
Um blog é um espaço de comunicação e só assim faz sentido.
(Clique no título. Sinta o Papel de Rascunho, aquele que não deve ser rasgado até segunda ordem...)

sexta-feira, 24 de setembro de 2004

Perplexidades

Hoje, a mãe da pequenina Joana, desaparecida há doze dias, é ouvida no Tribunal de Portimão.
Suspeita de homícidio.
É inacreditável.
Corrijo: parece inacreditável!
É mais uma daquelas situações que nos levam a pensar que, por vezes, a realidade ultrapassa a imaginação e a ficção.
Há muita especulação jornalística a alimentar a raiva natural de todos e, provavelmente, alguns já teriam feito justiça por suas mãos, se não houvesse um aparato policial tão grande a proteger os presumíveis culpados: a própria mãe e o tio.
Não é o primeiro caso, como disse Moita Flores, numa pequena entrevista à RTP. Não será infelizmente o último, também disse e também o sabemos nós.
O que não conseguimos compreender é esta mãe, por muitas patologias do foro psiquiátrico que possam ser sugeridas.
A mãe, o amor de mãe é celebrado por poetas, pintores, todos os artistas, como sendo o maior de todos.
Existe mesmo um dia para comemorar esse amor: O Dia da Mãe.
Como se uma mãe e um filho coubessem num Domingo de Maio!
Esta intimidade universal e infinita, permanente e eterna não se pode confinar, nem no tempo e nem no espaço, a um Domingo de Maio em Portugal, outro no Brasil...
Sempre me pareceu que na celebração de calendário, existe a ideia subjacente de ser esta relação de alegria, de ambos os lados, e ainda de reconhecimento, de um desses lados.
Mas sempre soubre que há outras mães e outros filhos...
E sempre suspeitei que ficariam convenientemente esquecidos, outros sentimentos e outros estados de espírito, como a dor, o sofrimento, a aflição, a raiva, o desespero...
Contudo, continua a parecer-me inacreditável e sobretudo inexplicável o silêncio cúmplice da mãe, que a Comunicação Social noticia e que, aparentemente, protege o irmão, tio da Joana.
Continua a parecer-me inacreditável a fabricação consciente da trama, do enredo, os passos que foram dados para que tudo parecesse um rapto, um desaparecimento.
Não quero acreditar que este é o meu planeta e que eu própria posso transformar-me no mais ignóbil dos seres, por artes de qualquer dificuldade de vida ou por qualquer doença, que me retire a dignidade de manter o meu pensamento e o meu comportamento dentro dos valores da vida.

A Maternidade, de Picasso

Receita para fazer um herói

Tome-se um homem,
Feito de nada, como nós,
E em tamanho natural.
Embeba-se-lhe a carne,
Lentamente,
Duma certeza aguda, irracional,
Intensa como o ódio ou como a fome.
Depois, perto do fim,
Agite-se um pendão
E toque-se um clarim.

Serve-se morto.

Reinaldo Ferreira

Dor


"Mulher trabalhadora", em "Moçambique Passado e Presente".
Estas são as mães que as televisões não procuram para a entrevista oportunista.
Estas é que são as mães que não se queixam das escolas não abrirem e não terem onde deixar os filhos...
Estas são as mães que amam os filhos até todos os limites do limite.
Ou para além de.
Onde não há lamentos e muito menos reivindicações.

quarta-feira, 22 de setembro de 2004

O sentido da solidariedade


Saiba como ajudar aqui.
Reparem como é bom livramo-nos do que não precisamos e ainda por cima sabermos que vai ajudar alguém.

terça-feira, 21 de setembro de 2004

Outono quase!

A luminosidade dos dias, no Outono, apela à calma.
Os sentidos pedem sossego.
A alma também anseia por um morno aconchego, longe do tumulto dos dias quentes.
A Natureza parece preparar-se para dormir.
"Deixa a Natureza ser a tua mestra", disse Woodsworth.
Alçada Baptista inspirou-se no Outono e nas suas metafóricas ligações e escreveu um romance: "Tecido de Outono".
"É no Outono que a gente é capaz de reparar que a vida não é banal não obstante o nosso quotidiano ter sido de uma banalidade atroz. Acredito que é possível descobrir pedaços de luz no meio de tudo isso."
Contudo, neste fim de Verão, há poucos prenúncios de Outono.
O calor ainda se vinga dos dias frescos de Agosto.
Os computadores do Ministério da Educação recusam-se a colocar os professores, prolongando as férias grandes para datas que fazem lembrar os tempos em que as aulas não começavam antes do feriado que celebra a República.
Mas isto foi feio, sobretudo por causa das vidas que ficaram por definir.
Cada vez faz mais sentido o lema deste blog:
"É proibida a entrada a quem não andar espantado de existir."

Listas de professores e listas verdes e brancas

Que dia estranho!
Espera-se pelas colocações de professores como quem espera pela lotaria ou por um milagre.
A meio da "operação", o "operador" vem dizer que está quase e que vai correr tudo bem, quando tudo tiver corrido, ou seja, quando tiver corrido o que tiver corrido...
Para complicar as coisas, alguns professores foram à bola e o resulado foi desastroso: uma derrota.
Sei que o Molin está triste. Sei que o JPT está triste. Presumo que a Titas e o Eduardo não estejam tristes, pelo mesmo motivo...
Mas já passou o dia 20.
Hoje é dia 21. É outro dia.
Gosto do 21!
Eu ainda sou do tempo em que se esperava pelos 21 anos para tirar a carta e para casar!

segunda-feira, 20 de setembro de 2004

domingo, 19 de setembro de 2004

Obrigada pela visita


O contador é mentiroso. Eu não devia contar e conto.
Tenho de estar sempre a subtrair-me.

sábado, 18 de setembro de 2004

Lindo!

Será que desta vez consigo fazer a surpresa de mostrar o teu quadro, Ana?
Este lugar pertence-te!

Lembras-te do dia em que eu me cruzei com o David Justino?
A seguir encontrei-me contigo e contei-te.
Pensavas que eu estava a delirar.
E delirámos as duas a ideia deste blog.
Mas outros valores mais altos se "alevantam" e está justificada a tua falta de comparência.

Lentamente

Com pequenos passos de cágado, o centésimo post aproxima-se!
Se ainda não leram o conto de Almada Negreiros, não deixem de o fazer.
Roubei-o e guardei-o no armazém. Está aqui a chave.

Quem, com tamanha sabedoria, podia ilustrar uma simples característica do comum mortal, com tão prodigiosa imaginação? Num conto breve e divertido? Almada Negreiros. O poeta, o pintor, o escultor, o escritor.
Aos sete anos, já as suas ilustrações eram regularmente editadas em jornais manuscritos da época, O Mundo e A República.
Ainda adolescente, já agitava a arte em Portugal, consciente de que era necessária a mudança, porque ele próprio já a experimentara em Paris. As reacções não se fazem esperar. Mas Almada também não faz esperar ninguém e reage no célebre Manifesto Anti Dantas e Por Extenso, que termina com a uma frase, que a minha amiga Angélica repetia, com o mesmo desprezo, quando os menores ousavam duvidar das suas boas intenções: Morra o Dantas, morra! PIM.
Assinava Poeta d ´Orpheu Futurista e Tudo.
O espírito inquieto e rebelde parecia não acalmar e no ano em que lhe morrem os companheiros Amadeu de Sousa Cardoso e Guilherme Santa Rita, faz as malas e embarca para Paris, onde qualquer emprego parece servir: “Para viver trabalha como dançarino de salão, bailarino numa boite, empregado de fábrica”.
Regressa a Lisboa e a inquietação continua. Ganha a vida como desenhador, ilustrador de livros. Diz que se sente perdido porque a vida é curta perante o número de livros que ainda quer ler...Quem tem hoje estas inquietações?
Apetece convidar os artistas a não pactuarem com os padrões de cultura estabelecidos. Insurjam-se! Almada dizia “ É preciso criar a Pátria Portuguesa do séc. XX.” Nós precisamos de criar a do século XXI. Ainda estamos a tempo. Ainda agora começámos.
Onde terá nascido a rebeldia do homem que também escrevia a ternura de uma mãe que não tivera, a partir dos três anos de idade? “Mãe! Passa a tua mão pela minha cabeça! Quando tu passas a mão na minha cabeça é tudo tão verdade!” A mãe partiu, mas a sua ternura permaneceu, acalentando a alma e a imaginação do filho.
Eu também vou pegar numa pá, procurar um cágado igual ao da Zoologia...

Comunicado Oficial

Chora Que Logo Bebes apresenta felicitações ao Presidente da República Portuguesa, pelo seu aniversário natalício, desejando-lhe sinceramente um dia feliz.
Dexio-lhe aqui um quadro de uma pintora da minha terra.
É uma homenagem também à pintora, Maria da Luz, cujo sorriso e boas palavras tanto mimaram a minha infância.

Garbo fala!


"Garbo fala!" ou “Garbo talks ok!” como proclamou o jornal Variety, a 23 de Outubro de 1929.
Garbo fala, com uma voz baixa, rouca, ganhando assim a primeira nomeação para a Academia pelo trabalho em Ana Christie,com argumento baseado numa peça do dramaturgo americano Eugene O'Neil.
O cinema mudo é hoje uma fonte de documentação histórica e vemo-lo com olhos distantes. Mas houve esse tempo, em que o filme era bilegendado e uma composição musical preenchia o silêncio dessa então insuficiência da tecnologia.
Podemos imaginar o deslumbramento de uma "fita" com vozes, com falas.
Greta Garbo foi a portadora dessa maravilha para os amantes do cinema.
O sucesso foi tal que o mesmo filme foi produzido também em língua alemã, o que contribuiu ainda mais para a glória de Garbo.
Foi certamente o mais "especial" efeito especial!
Greta Garbo, Greta Lovisa Gustafson, nasceu há noventa e nove anos na Suécia.
A sua vida pública foi marcada pelo sucesso como actriz. A sua vida privada foi retocada pelo mistério, pelas especulações, que a actriz nunca se preocupou em confirmar ou desmentir. Reivindicava o direito à privacidade e foi o desejo dessa privacidade que a levou a abandonar cedo uma carreira tão cheia de brilho.
Morreu cidadã americana, mas as sua cinzas foram levadas para a Suécia, a terra fria de que sentia saudade.

quarta-feira, 15 de setembro de 2004

Uma família


"Van Gogh viveu durante algum tempo com Sien Hoornik, prostituta e mãe solteira. Esta cena familiar representa os dois filhos de Sien: uma menina de seis anos e um rapazinho de seis meses. Van Gogh adorava este "pequeno compaheiro" e apreciava a segurança desta família da qual ele fazia parte, com Sien e os seus filhos."

Um poema pertinente

os anos felizes

eu tlim ciências
tu tlim matemáticas
ele tlim trabalhos manuais
nós tlim recreio
vós tlim senhora
eles tlim castigo

Mário Cesariny


A propósito, Senhora Ministra, o ano lectivo começa amanhã!

Van Gogh

Lembrei-me de Van Gogh porque é um pintor que eu já visitei, no Museu, em Amesterdão, claro!
Eu já aqui confessei a minha absoluta inabilidade para artes. Mas há artes de que não é preciso ter profundo conhecimento para se gostar. Ou talvez tenha sido sentir. Senti um ambiente pincelado pela inquietude de uma alma e de um pensamento que guiou a mão, quando devia, sobre a tela, e quando não devia, para a mutilação inexplicável.

Uma escapadela

ao Museu Van Gogh, em Amesterdão.

Agatha, a Christie (15/9/1890 - 12/1/1976)

"Uma das melhores coisas que nos podem acontecer na vida é ter uma infância feliz."
É com esta frase que Agatha Christie começa a aua Autobiografia.
Fala do pai, homem "preguiçoso", mas que cultivava a arte de agradar e se interessava sinceramente pelo próximo.
(Será que a solidariedade pode ser uma opção para quem não tem de trabalhar para viver? Afinal o ócio não gera só vícios!)
Fala do seu casamento com Archibald Christie, um casamento cheio de amor que terminou em divórcio. Da amargura desse divórcio, sobressai a coincidência de tragédias pessoais inevitáveis e inexoráveis, que marcaram essa época da vida da escritora.
Fala de um tempo em que parecia ter perdido quase completamente todo o sentido da vida. Isso levou-a a uma aventura, a viagem do Expresso Oriente, onde reencontrou esse sentido.
Fala do segundo casamento com um jovem arqueólogo, mais novo catorze anos. Refere-se a Max como uma pessoa "maravilhosa", um homem "tranquilo e parco de palavras de comiseração".
Fala da filha Rosalind,única, nascida do primeiro casamento com Archie, como lhe chama ao longo da narrativa. Conta a imensa alegria do nascimento do neto Mathew e a tremenda dor da morte do genro, na segunda guerra.
Escrever sobre a própria vida implica essa mesma vida ir já em fase adiantada, em que muitos balanços já foram feitos, muitas contas saldadas e, em termos interiores, estar completa a preparação para a partilha e para a revelação.
Por isso, as autobiografias são normalmente fascinantes.
"Se nascesse outra vez, queria ser mulher - sempre", "disse ela".



terça-feira, 14 de setembro de 2004

Goodbye Grace Kelly!

"O papel natural da mulher é ser o pilar da família."
Parece ser esta uma daquelas frase que não faria sentido sublinhar se a vida de Grace Kelly tivesse tido um curso diferente.
Quando Grace se tornava célebre no mundo do cinema, a vida propôs-lhe trocar de papel, propôs-lhe o papel de mãe de família, de uma família real.
Não foi pois uma questão de supremacia de fama ou de poder de uma opção em relação a outra. Ambas são escolhas de sonho: ser princesa ou ser actriz.
Grace escolheu ser Princesa do Mónaco.
A 18 de Abril de 1956, Grace e o Príncipe Rainier do Mónaco casaram civilmente, no Palácio Real e, a 19 de Abril, religiosamente,na Catedral de S. Nicolau.
A cerimónia durou três horas e foi transmitida pela televisão, pela MGM, para trinta milhões de pessoas.
Nos contos de fadas teriam sido felizes para sempre.
Mas estamos na dimensão da vida: tiveram três filhos e, ao contrário dos contos de fadas, não foram felizes para sempre.
Não era fácil educar adolescentes, nos anos sessenta, ser mãe e Princesa.
A 14 de Setembro, num trágico acidente de viação, Grace morreu.
Contudo, o mundo não esqueceu uma das mais belas mulheres do cinema, a lindíssima Princesa Grace do Mónaco.

segunda-feira, 13 de setembro de 2004

Outra vez Mia Couto

Claro que Mia Couto é um dos meus autores preferidos.
Tenho até o presságio que será o próximo Nobel da Lusofonia!
Quem, como Mia, reinventa a língua?!
Mas, quem sou eu, para além de uma simples mas incondicional admiradora das palavras "invensonhadas" e "maravilhentadas" do escritor da minha terra?
Sou mesmo!
Ainda do "cronicando" recordo a história do “subexistente” Horácio, que, “de tanto esperar o amor, acabou por amar a espera” e suspirava “Às vezes tenho-me pena”.
Nesta crónica a surpresa no terreno da língua vem da reinvenção dos provérbios.
Começa logo por:“pela gravata morre o tímido”. Leiam e saberão porquê.
Neste caso são “improvérbios”: dá-se o braço, logo querem a mão; quem tudo perde tudo quer; juntar o inútil ao desagradável e no final sem contas o último a melhorar é aquele que ri.
Bem-haja Tito!

domingo, 12 de setembro de 2004

Setembro

Já disse aqui que o mês de Setembro perdeu algo de mágico.
Como a escola também perdeu a magia de antigamente, presumo que não foram aspectos da vida a perder fantasia, mas eu (provavelmente problema meu) que perdi os binóculos, os óculos, ou qualquer outro objecto que se interpunha entre o mundo e os meus olhos.
Para mim, Setembro é um mês de muita indefinição, pouco fantasiosa...
Os lojistas tentam disfarçar esse mal- estar, misturando os saldos com a nova colecção. Tenho pelo menos essa sensação.
Subjectividades!
É deprimente entrar numa loja nesta altura do ano.
À nossa vaga, muito vaga sensação de calor ou de frio, disfarçada pelos ares condicionados, junta-se a incerteza de que não nos apetece nada do que está ali, supostamente para ser comprado pelos compradores compulsivos, em que todos nos vamos tornando, com os excessos de excesso em que vivemos.
Num balcão semi-visível, semi escondido, um monte de qualquer coisa e o cartaz horrendo: tudo a 5€!!!! Técnicas de marketing, suponho!
Também de modo semi-visível e semi-escondido expõe-se a nova colecção.
Não se ostentam os preços. É preciso ir lá, ver bem com óculos de ver ao pé!
Só há coisas incertas e indefinidas em Setembro?
É um truque para iludir os pobres de um poder de compra que não existe?
Já não podem ir à praia.
A televisão é "a monotonia dos quatro canais", como me dizia outro dia um vendedor da TV Cabo.
Nada de jeito para fazer em Setembro, senão esperar pelo frio e pelas lãs, pelas tardes de domingo a ver televisão ou a a ler os suplementos dos jornais de fim-de-semana.
Bem, eu preparei para este domingo um conjunto de crónicas de António Lobo Antunes.
Dá para refrescar a alma. Ou aquecê-la. Depende do ar condicionado.
É só entrar na minha outra tasquita.

sábado, 11 de setembro de 2004

A magia que se esboroa

- A minha escola, especialmente na aldeia, a dos tempos pré-primários, a de minha tia Emília, era algo de mágico. Ir para lá era uma expedição mágica.
(Altino do Tojal)
Vou guardar esta entrevista preciosa e rara do escritor dos Putos ao jornal A Página.

Não é mais uma expedição mágica. Será culpa dos tempos?
Numa conversa televisiva em que participava o ex ministro David Justino, um professor, quase a desistir da utopia inevitável na bagagem de qualquer profissional do ramo , dizia que, antigamente, os alunos gostavam da escola, os professores gostavam da escola. E hoje? Quem é que gosta da escola?
Se calhar já nem o Senhor Ministro da Educação gosta da Escola?
Vamos pensar em conjunto?
Uns com os outros: vamos ensinar a pensar?
Vamos!
Mas...a maior parte de nós já perdeu o treino de pensar e o tempo para o fazer também.
O sentido do dever impõe-se, ao professor, claro!, e, quando damos conta, passaram anos e o nosso nível de exigência já está pela metade e os conteúdos leccionados pela terça parte.
Quem perde? Todos! Especialmente as nossas crianças que nunca conhecerão uma escola “a sério”.
Conhecem aquela escola simpática, pouco exigente, que os vai conduzir a um mero diploma do Ensino Básico. Ou talvez os ponha à porta da Faculdade, quem sabe?
Mas não lhes venha pedir contas, se não conseguirem sair de lá a tempo e horas de começar carreira profissional, antes dos cabelos brancos.


Apontamento de televisão...

...da pouca televisão que ainda dá gosto ver, porque é bem verdade o que se ouve: não dá nada de jeito.
Mas dá! De vez em quando, mas dá! Altas horas da madrugada.
A última insónia que preenchi com televisão foi boa.
"Estes difíceis amores". Uma conversa caseira, ou a fingir que é caseira, sobre assuntos que nos dizem respeito, porque fala de relações, ou antes, das relações amorosas.
Desta vez falou-se de um provável reforço do sistema imunitário no caso dos casados.
Os casados adoecem menos e controlam melhor as doenças crónicas. Sobretudo os homens!
O psi alerta que se está a falar de amostragens em que se lida com números elevados. Não é a Maria que é divorciada e que até tem uma saúde de ferro e o Joaquim que é casado e anda sempre doente.
O problema é que nestas coisas há sempre tendência para procurar aquilo que bate certo com o nosso caso.
Há sempre tendência para averiguar o caso particular, ou então o geral parece não fazer sentido.
De qualquer modo, vale sempre a pena ver como o professor Júlio Machado Vaz, sem cerimónias, quase deitado no sofá, ali à nossa frente, a falar de coisas que sentimos, pensamos, tememos e raramente dizemos...

sexta-feira, 10 de setembro de 2004

Restos de Colecção

Criei um blog/armazém de textos para não os perder, para não se volatizarem na net...
Ficarão guardados, bem guardados, em "Restos de Colecção".

Para o enriquecer fica a ideia de Spielberg, destacada da entrevista de hoje à Visão:" A resposta ao ódio é a educação".

quinta-feira, 9 de setembro de 2004

Apontamento de leitura

A crónica do escritor António Lobo Antunes publicada hoje, quinta feira, na Visão é de leitura obrigatória.
Fala de?
Fala de sentimentos contraditórios. Escondidos mas não envergonhados.
De sentimentos percebe ele, que é psi.
De palavras lindas de morrer percebe o escritor.
De vida, percebemos todos. Ou pensamos nós que percebemos!
De morte, ninguém percebe.
"Claro que chorei:por ele, por mim, pela incompreensível finitude da vida. Não somos feitos para a morte."
E porque não somos feitos para a morte agarramo-nos sempre às memórias, àquelas onde a juventude, o vigor, a beleza e a vida parecem estar e ficar para sempre...

terça-feira, 7 de setembro de 2004

Ou então: escreve sobre a paz...

Concurso Promovido pelo Distrito 115 Centro Sul de Lions Clubes
Alunos com idades entre os 11 e 13 anos, completados até 15 de Novembro.

Leiam o regulamento aqui

"Dê uma oportunidade à Paz"

Porque a Paz faz sempre sentido, Chora Que Logo Bebes revela, com muito gosto, a iniciativa do Lions Clube do Montijo de divulgação do Concurso "Cartaz para a Paz", promovido pelo Lions Club Internacional.
Professores, estejam atentos e leiam o regulamento aqui.

O princípio


A 7 de Setembro de 1876 foi publicada a "Cartilha Maternal ou Arte de Leitura", de João de Deus.
Há 128 anos! Há muitas gerações, portanto!

segunda-feira, 6 de setembro de 2004

Cento e cinco anos de vida

Emídio Guerreiro faz hoje cento e cinco anos.
Há muitos fenómenos de longevidade no mundo e, de vez em quando, as televisões, com os seus instintos "voyeuristas", assinalam (mal,a meu ver) os aniversários natalícios,à laia de fenómeno, exibindo os aspectos mais tristes desta etapa da vida: as diminuições dos sentidos e de outras autonomias.
Os jornais são mais sóbrios, felizmente. Alguns!
Ontem, a Pública, deu o exemplo do elevado respeito pela dignidade do homem, com uma entrevista a Emídio Guerreiro, de onde ressalta o pensamento intocado, perfeito, pleno de capacidades e de memórias de um homem que ultrapassou tão elevadas barreiras de tempo.
A minha homenagem a Emídio Guerreiro.
Ele sabe que o pensamento é o que fica para sempre, para cá de todos os limites.
Cultivou o pensamento. Enriqueceu-se e enriqueceu outros que com ele conviveram.
O meu agradecimento à Pública.
- "Ah, a vida do Prometeu é a maravilha da mitologia. Quando penso em Prometeu e me recordo que roubou ao Olimpo o fogo sagrado, para o dar ao homem, vejo nele o primeiro acto da liberdade humana. Um desafio que pagou caro, muito caro, com as vísceras a serem devoradas pelas aves de rapina. É o primeiro passo do homem para a liberdade. O primeiro acto de rebeldia, que é também a primeira afirmação de autonomia da vida humana, que não se limita a ser só vida, é também a razão da vida."

quinta-feira, 2 de setembro de 2004

Espaço de debate

Artigo de opinião publicado no Jornal do Montijo, em 19 de Agosto de 2004.

OBVIAMENTE, MANUEL ALEGRE!

Agora que a Comunicação Social foi convidada a presenciar todos os actos de campanha eleitoral interna no Partido Socialista e atendendo ao interesse que desperta no público em geral, o que se passa a nível dos grandes partidos, resolvi escrever este texto, em que posso exprimir não só uma vontade mas, de alguma maneira contribuir para a defesa de uma ideia da política, do que deve ser a política.
Num mundo tão mediatizado como o que vivemos, em que todos se pronunciam sobre a política e sobre os políticos e normalmente em termos pejorativos, sabe bem escrever um pouco sobre Manuel Alegre.
De facto, para quem gosta da política e não de se servir da política; para quem defende o primado das ideias e ideologias e não o da economia e o do dinheiro; para quem a política é uma arte e um dever e não uma oportunidade de carreira e uma obrigação; para quem os Partidos Políticos devem servir para a congregação de vontades e não para a imposição de vontades; para quem o espírito e a cultura são os grandes valores dos Homens e não os interesses mesquinhos de grupos de pressão, tem na candidatura de Manuel Alegre ao cargo de Secretário-Gral do Partido Socialista a solução correcta e justa para esta defesa de valores.
Quem como Manuel Alegre escreve “Pergunto ao vento que passa/notícias do meu País/E o vento cala a desgraça/E o vento nada me diz”, mostra não só a sua grandeza de alma como também o seu alto sentido dos valores nobres da vida e pelos quais vale a pena lutar.
Manuel Alegre é pois o símbolo do inconformismo e da independência de espírito que fazem dele por vezes uma pessoa incómoda e indomável (até a sua própria Federação de Coimbra já em tempos o ostracizou!), mas que por isso mesmo faz renascer em nós a esperança de que se volte ao bom caminho da solidariedade, da igualdade e da fraternidade tão arredio desta nossa política...
Com a gravidade da situação que ora se vive em Portugal, em que o que parece contar é o oportunismo dos que nunca trabalharam na vida e que sempre viveram à custa da política, sem qualquer pudor e sem escrúpulos, mais a candidatura de Manuel Alegre faz sentido como oposição frontal a todas estas práticas.
Memo a nível interno (do P.S., leia-se) Manuel Alegre é contra todas as burocracias e controles aparelhísticos, pois eles são castradores das vontades da maioria dos militantes de base que, em muitos locais, já estão a ser pressionados por “funcionários zelosos” do status quo, que andam em grande azáfama a recolher assinaturas para outra candidatura, não dando nem sequer tempo para que cada um pense e decida com liberdade e coragem o seu futuro!
Não posso, ao terminar, deixar de transcrever mais um pedacinho de Manuel Alegre: “Mesmo na noite mais triste/Em tempos de servidão/Há sempre alguém que resiste/Há sempre alguém que diz não!”, para concluir como comecei – OBVIAMENTE, MANUEL ALEGRE!

Jorge Mendonça Santos, militante do Partido Socialista


quarta-feira, 1 de setembro de 2004

Voltar à escola!

O calor de Setembro costuma ser um calor sedutor, pela temperatura que aquece mas não queima, pela luz que ilumina mas não cega, pelo brilho que transmite aos princípios e fins de dia...
Em tempos que já lá vão, Setembro era um mês de praia. Havia calma. Os turistas de Setembro não eram os apreciadores dos excessos de Agosto. Esses, normalmente, estavam de ressaca de corpo e de alma.
Agora Setembro é outro frenesi, mais um frenesi: voltar rapidamente e em força ao trabalho.
O que me apetecia agora era uma suave passagem do afã das férias para o outro afã...
Mas quem disse que isto tem de ser como se quer?
Foi você que pediu um Setembro sem sol, carregado, zangado, carrancudo???

terça-feira, 31 de agosto de 2004

Mais uma obra do pintor João Paulo

A viagem

Continuo em Moçambique. Não de corpo. De memória e coração.
Pelas artes e letras, a descobrir quase-envergonhada o que devia saber e não sei...
No entanto, vou encontrando pessoas que já foram minhas, num tempo distante!
É uma emoção forte, que estilhaça no espaço que eu não sei definir, porque o meu conhecimento, para tal, não dá. É um espaço facilmente "vencível", em termos práticos. Estou à distância de uma tecla de um passado semi-adormecido, anestesiado pela correria dos dias impiedosos e inexoráveis.
Não é este o espaço das lamentações.
Estou em Chora que Logo Bebes, ponto de partida.
Será um dia ponto de chegada.
Entretanto, é a viagem.
Encontrei o meu professor de Desenho: o pintor João Paulo.
Aqui deixo as palavras que lhe teria dito aos quinze anos, se, nessa altura, soubesse verbalizar o que então já sentia.
Eu sabia, sentia, que estava (estávamos todos) perante um mestre, um artista, alguém que tinha naquela forma de expressão a sua forma de expressão: era a sua natureza, feita de cores, traços. Ele sabia, no meu caso, que estava perante o grau zero do conhecimento e do talento nessa área.
Queria tanto agradecer-lhe nunca ter sentido qualquer forma de humilhação por isso!
Pelo contrário: lutou contra a minha ignorância, para além de todos os limites.
E, graças a essa sua luta, eu não "chumbei" a Desenho no exame de quinto ano. Os correctores da prova de exame devem ter visto na minha prova a sua determinação.
Como professora, lembro-me muitas vezes deste mestre.
O meu tributo é a tentativa séria de imitar o seu exemplo pedagógico!

segunda-feira, 30 de agosto de 2004

Mia Couto, a propósito de...

... nada! Ou talvez:muito!
Hoje viajei até às minhas origens, parei em Ma-shamba e lá encontrei um caminho que me levou a um conto/uma crónica do Cronicando, que prova que a beleza e a simplicidade andam sempre próximas, muito próximas!
Recordei o dia em que os meus olhos bateram num livro muito simples, mas diferente.
Ainda hoje não sei por que é que o achei diferente...
Chamava-se Cronicando e o nome do autor era totalmente desconhecido para mim!
Li-o com o prazer acrescido de descobrir uma língua dentro de outra.
Mantenho na memória o gosto que senti ao longo de todas as histórias de Cronicando,mas há uma especial:a do filho que dá à luz a mãe.
Chama-se o Filho da Morte e é uma história de morte e de vida, num campo de refugiados, “que se doseavam, na aplicação da tristeza.” Talvez por isso, por terem de dosear a tristeza, não fosse ela consumida em doses mortais, não se ocupavam muito dos mortos, nem mesmo neste caso, tratando-se de uma grávida.
“Estavam demasiado ocupados em sobrevivências.”
Mas a pele luzidia e volumosa teimava em atrair uma atenção qualquer e a morta entrou em trabalho de parto, porque naquele dia, naquele corpo, a vida “fez horas extraordinárias”.
Ninguém se mexeu!
Ninguém excepto a “cabistonta” Tazarina, que sofria de tremuras tais que nem a si própria parecia conseguir amparar-se. Mas foi ela que pegou e deu colo àquele ser que vinha do outro lado da vida e, com ela, o choro do recém nascido cessou. O corpo dela ganhou forma e volume quase instantaneamente. Apoderou-se dela a verdadeira maternidade: “os seios se volumavam, os olhos se maternizavam”. “Nunca se viu, dizem, mãe em tanta compostura.”
É impossível falar do texto, sem recorrer às próprias palavras do autor, pois não há no nosso vocabulário palavras que substituam as que ele inventa.
Maternizar significa tornar materno.
E foi o que aconteceu à Tazarina, ou melhor aos seus olhos, tornaram-se olhos de mãe.

domingo, 29 de agosto de 2004

A kiss is just a kiss...


A propósito de beijo, Ingrid Bergman, a mítica protagonista de Casablanca disse:
"Um beijo é uma partida adorável concebida pela natureza, para calar as palvras quando elas se tornam supérfluas."
A 29 de Agosto de 1915, nascia Ingrid Bergman, na Suécia, em Estocolmo.
A 29 de Agosto de 1982, no dia do seu aniversário, tal como Shakespeare, depois de uma pequenina festa de aniversário com os amigos mais próximos, morria Ingrid Bergman, em Chelsea, em Inglaterra, em paz com a vida, com a sua vida, que segundo confessara a um amigo, tinha valido a pena viver.
A infância de Ingrid foi marcada pela tragédia da morte dos pais, mas também pela indomável vontade de ser actriz.
Apesar da sua beleza e o seu ar algo enigmático, Ingrid não pretendia que os seus papéis na tela se consumissem na imagem da mulher idealizada. Mas os sucessos de bilheteira não foram os filmes em que interpretou uma freira, uma psiquiatra ou uma alcoólica. Uma das interpretações de sucesso de Ingrid Bergman que perpassa as gerações é precisamente a de Ilsa, a romântica mulher dividida entre o amor e o casamento, em Casablanca, com Humphrey Bogart.
A vida pessoal e amorosa da bela Ingrid foi sempre polémica e alvo da censura da hipócrita moral púlica. Ingrid ,nestas questões de coscovilhice habituou-se a dar-lhes a importância devida: nenhuma!
No entanto, no caso Bergman-Rosselini, o escândalo ultrapassou a barreira do espectáculo, tomou dimensões inimagináveis. Ingrid Berman foi humilhada pela classe política, nomeadamente pelo Senador Edward Johnson, que propôs uma medida específica para actores estrangeiros, de modo a poder expulsá-los, por atentado à moral pública.
O talento da actriz sobrepor-se-ia a este mal estar e o seu trabalho foi devidamente reconhecido pelos pares e acarinhado pelo público.
Os últimos anos de vida foram marcados pela luta contra o cancro, cujos primeiros avisos ignorou.
Depois lutou, à sua maneira, contra a ideia da morte:“As vítimas de cancro que não aceitam o destino, que não aprendem a conviver com ele, acabam por destruir o tempo que lhes resta.”, dizia.
Assim viveu durante oito anos.
O seu último trabalho foi a interpretação de Golda Meir na televisão: Uma Mulher Chamada Golda, em 1982.

sexta-feira, 27 de agosto de 2004

quinta-feira, 26 de agosto de 2004

"Para que fosses nosso..."

É bom voltar a casa, aos hábitos que nos sustentam o ano inteiro!
Não sei bem se gosto de férias, pelo menos destes modelos de férias que são impingidos com matizes de felicidade dourada, em pacotes diverosos, adequados aos diversos ordenados dos portugueses.
Quer gastar pouco? Vá à Tunísia. Vá ao Brasil. República Dominicana?! Excelente ideia. Encontra lá toda a gente do seu bairro, da sua repartição...
Quer gastar muito? Pode gastar à vontade? Vá até ao Algarve.
Convém falar Inglês, pois mesmo na piscina do aldeamento pode ser abordado noutra língua.Se o atenderem em Português correcto, sem o marafado sotaque, pergunte ao empregado a nacionalidade. Talvez ucraniano! Talvez romeno!
Convém ler, "pelo menos mais ou menos" a língua de nuestros hermanos. Revistas e jornais chegam de todo o lado, menos do "nosso lado"...
Mas há lá mar melhor que o Mar Português?!
Para cá de todas as humilhações, para cá de todas as soberanias, o mar é nosso.

quinta-feira, 12 de agosto de 2004

"I love Torga"

Dizia eu, numa caricatura de um jornal de turma, feito por alunos do oitavo ano a quem eu dava aulas de Português.
Devia "notar-se" muito a minha preferência.
Adolfo Coelho da Rocha, Miguel Torga para os livros, nasceu a 12 de Agosto de 1907, em S. Martinho de Anta, Trás- os- Montes e faleceu em Coimbra, a 17 de Janeiro de 1995. Deixou a sua vida escrita em duas grandes obras autobiográficas: A Criação do Mundo e Diário, este último é prosa, poesia, ensaio... São muitos os volumes de poesia E são também muitos os contos, deixando sempre visível a intenção de retratar um Portugal distante, sozinho e quase desconhecido.
Os Diários e a Criação do Mundo foram, de todas as obras, as que li mais vorazmente, em toda a minha vida.
Nunca nessas páginas encontrei certezas absolutas. Mas encontrei muitas explicações para os lados mais difíceis da vida.
"Como é sabido, ninguém conhece o dia de amanhã, e, pelo que me diz respeito, fui um mártir dessa incerteza."
Torga era assim: triste. Ou telúrico, como dizem os críticos literários.
Diz-se que era um homem inacessível, distante, pouco simpático, sobretudo quando vestia a farpela de escritor, em actos públicos.
Diz-se e pode ser verdade.
Mas, na privacidade dos livros entregou-se a todos, de alma e coração.



quarta-feira, 11 de agosto de 2004

Os cinco e as nossas vidas


Enid Blyton nasceu no fim do século dezanove, a 11 de Agosto de 1897, em Londres.
“Ela era uma criança, pensava como uma criança e escrevia como uma criança.” Um psicólogo, Michael Woods, concluía ser este o segredo do sucesso dos livros de Enid Blyton. Como qualquer criança, Enid Blyton conhecia o poder da fantasia. Ao longo de várias gerações e durante uma grande parte do século vinte, os seus livros contribuíram para um imaginário colectivo de fantasia, onde as forças do bem protagonizavam a vida.
Graças à sua escrita muitos têm ainda hoje a paixão da leitura.
Foi um começo feliz!

Se a tanto me ajudar o engenho...

Ana Sousa, exposição de pintura na Casa do Artista em Março de 2004

Querida Ana, olha um dos teus quadros aqui no nosso canto do mundo, em Chora que Logo Bebes.

segunda-feira, 9 de agosto de 2004

Balada para Jesse Owens, de Manuel Alegre

Em mil novecentos e trinta e seis
Hitler perdeu uma batalha
Tinha um Partido um Estado uma Nação
SS Gestapo Cruz Gamada tanques
soldados e botas para calçar
Em toda a terra o pensamento
Só não tinha ninguém para saltar
Oito metros e seis em comprimento

Tinha generais para mandar
E tinha generais para obedecer
Submarinos barcos porta-aviões
Quinta coluna espiões propaganda Tudo
Estava pronto para a conquista
De espaço vital mercados povos mundos
SÓ não havia ninguém para correr
Dez metros em dez segundos

Por isso em mil novecentos e trinta e seis
Hitler perdeu uma batalha
À quarta medalha de Jesse Owens
Virou as costas e saiu do Estádio
Tinha uma máquina de moer
Quem não fosse alemão ou ariano
Só não tinha arianos para vencer
Aquele negro americano

Publicado no Jornal "A Bola" de 5 de Janeiro de 1985

domingo, 8 de agosto de 2004

Dá para ACREDITAR


Que, nesta sala, os meninos brincam com brinquedos ou com alguém que lhes oferece o seu tempo e a sua esperança.
São os voluntários.
Alguns são Barnabés, ou seja, jovens que já passaram pela mesma experiência. Estão ali não só para dar esperança e testemunho da cura, mas também para ajudar a concretizar essa cura.
Os Barnabés até já acompanharam alguns meninos a Paris, à Disney.
Vale a pena falar e voltar a falar sobre este projecto de esperança e de vida!

A Inês tem que ganhar esta batalha!


A minha homenagem sincera à Inês: pela coragem e pela esperança que nos ensina com o exemplo de luta sem tréguas.
A minha homenagem aos pais, pelos mesmos motivos.
Também pelo exemplo.
Recebo a lição, com humildade.
Esta é também a lição do apelo solidário: em nome da Inês, em nome de todos os meninos e meninas que sofrem! Para a Inês e para todos os meninos e meninas que sofrem.

sexta-feira, 6 de agosto de 2004

Cruel lição de História (1945 - 6 de Agosto)

Foi lançada a Bomba Atómica sobre Hiroshima!

"A explosão libertou uma quantidade absurda de radiação e o mundo conheceu pela primeira vez a imagem do temido cogumelo atómico. Ao todo, morreram cerca de 300 mil pessoas em consequência directa do ataque. Quem não morreu queimado, esmagado ou pulverizado sofreu mais tarde com os efeitos da radiação - em geral, morte por cancro."


A fotografia mais triste do albúm da Humanidade!

Dois dias depois, Torga escrevia no seu Diário (Volume III):
"Em Hiroshima, onde a bomba atómica foi lançada, tudo quanto era vida, morreu. Por causa do fumo e da poeira que se levantaram, o mundo esteve de respiração suspensa, sem saber o que tinha acontecido. Mas hoje de manhã, os jornais, diligentes, já estavam senhores da realidade inteira. Não tinham morrido vinte, trinta ou quarenta mil, como era de temer. Para matar a ridicularia de quarenta mil pessoas não era necessário tanto sonho. Não, felizmente não se tratava de um desapontamento. Nem quarenta, enm sessenta, nem setenta mil mortos. isto só: todos os seres vivos liquidados!
A humanidade dobrou o jornal aliviada."

quinta-feira, 5 de agosto de 2004

Goodbye Norma Jean!

No Inverno de 1961, Marilyn Monroe é internada numa clínica psiquiátrica, mas o sofrimento de toda a sua vida só terminaria a 5 de Agosto de 62, quando misteriosamente, na sua casa de Brentwood, Califórnia, morreu ou apareceu morta, de acordo com versões diversas.
Tinha apenas 36 anos.
Morria a mulher mais desejada do mundo, provavelmente a mais mal-amada.
Nascia a lenda que ainda hoje mantém Marilyn no plano mais elevado das divas do cinema.
Podemos rever os seus filmes, mais de trinta, rever a sua imagem, mas jamais saberemos a resposta a uma pergunta que se impõe: “Quanta felicidade trazem, ou podem trazer à vida, a beleza, o sucesso e o dinheiro?”
Ela própria afirmou que em “Hollywood se pagava mil dólares por um beijo e cinquenta cêntimos por uma alma”.


quarta-feira, 4 de agosto de 2004

Zeca

Ouvi com emoção algumas cantigas cantadas pelo Zeca Afonso, no Coliseu.
Com emoção e com saudade.
Saudade de muitos tempos. Os mais antigos são os do Liceu António Enes, em Moçambique, Lourenço Marques, hoje Maputo. O Zeca era professor de Geografia. Os alunos eram os seus maiores fãs. Hoje, percebo ainda melhor o valor desta admiração. Mesmo os que não eram alunos do Zeca eram contagiados pelos outros. Ouvíamos as cantigas e votávamos para que ele ficasse em primeiro lugar num Top de um jornal. E ficava. Era a louca correria aos cupões: recorta, preenche e manda...
Valeu a pena! Cada um de nós ficou com essa marquinha de saudade individual, que desagua nesta foz imensa da saudade de todos. Porque a canção do Zeca chega a todos.
Obrigada Ouguela pela homenagem ao Zeca.

Ontem recebi uma visita especial

A Thita!
Veio, com simpatia, retribuir-me a visita que lhe fiz há uns tempos.
Obrigada, Thita!
Como devemos sempre oferecer alguma coisa às visitas, aqui fica um poema, feito por uma menina da minha escola (Raquel, 5º ano):
Se eu fosse
Se eu fosse o vento,
tirava do mundo o desalento...
Se eu fosse o Sol,
iluminava qualquer girassol...
Se eu fosse a água,
afogava toda a mágoa...
Se eu fosse a terra,
rolava sobre a serra...
Se eu fosse o luar,
punha todas as estrelas a brilhar...

Um beijinho, Thita

terça-feira, 3 de agosto de 2004

1492, 3 de Agosto

Uma das mais famosas viagens da História, começou a a 3 de Agosto.
1492 Colombo parte de Palos, rumo à Índia.
Apareceram-lhe terras pelo caminho: as Américas.

Mapa-Múndi de Juan de la Cosa, princípio do século XVI

Cristovão Colombo, o marinheiro genovês que conseguiu convencer os reis católicos a "embarcar" na aventura da descoberta de um determinado caminho marítimo para a Índia. Descobriu a América. Não lhe valeu de muito, já que a história conta que uns anos mais tarde, a 20 de Maio de 1506, morre em Valladolid, "abandonado e esquecido".

"Teimosos"? Ou pobres...?

Derrocada de um prédio em Lisboa.

Mais saudades da Guidinha

Desta vez são as saudades do Molin!

segunda-feira, 2 de agosto de 2004

Saudade da Guidinha- artigo da Capital, de Rogério Rodrigues

Carta aberta ao pai da guidinha
Mas tenho a boa novidade o teu felizmente há luar dá-se nas escolas quem estraga tudo são os resumos que a rapaziada não está para ler a peça toda nem representá-la hoje nem feliz nem infelizmente há luar muito embora estejamos em Agosto e não em Outubro da execução do freire de andrade cujo delator foi um tal morais sarmento estamos em agosto e há um luar pleno uma lua cheia não sei se se pode dizer plenilúnio

Escolheste o silêncio eterno luís mas eu tenho saudades tuas porque escolheste paraísos sem mágoas menos artificiais e menos fiscais eu tenho saudades tuas sttau escolheste o esquecimento teu e dos outros mas eu continuo a lembrar-te luís sttau monteiro quando não sei se sabes que por aqui as notícias não são de todo agradáveis e a tua guidinha que sempre trataste com tanto carinho e amor foi a um pronto a escrever e comprou um sortido de maiúsculas vírgulas e pontos para se reciclar e fazer cozinhados da grande culinária social esquecendo-se de ti e adoptando outro nome o que é uma ingratidão mas conduta atitude como se diz agora normal correcta em dia luís isto está muito pior do que tu o deixaste já não a tua elegância mesmo de chinelos e dedos amarelecidos pelo tabaco tanto podias entrar no tavares rico como na tasca do joão na luz soriano onde partilhávamos uma garrafa de gin cuja marca já não aparece tower london um aviso do mal que a bebida das velhas inglesas fazia essa cadeia que nem sequer dispensavas no bacalhau com grão no solar do loreto luís estamos no crepúsculo até a guidinha nos abandona transformada em santanete que tu nem imaginas o que está a acontecer no país de que tanto gostavas e tanto detestavas na tua educação british filho de embaixador em londres meu adorável mentiroso tão mentiroso que te enganavas a ti próprio e nem de propósito estavas desiludido com a esquerda e a esquerda dava-te razões para estares desiludido e hoje estarias desiludido com todos que a guidinha deixou-te em maus lençóis apanhada agora a escrever novelas e já meio tia no algarve a quem não perguntam o que está a ler mas sim o que está a escrever este país está assim luís nem tu imaginas os que já morreram a não ser que estejam na tua companhia e aí o caso já muda de figura mas como sabes há muito eu não acredito nestas coisas de convívio eterno em que é proibida a má língua e maledicência portanto o melhor é que estejas sozinho não saibas nada do que se diz e vê no telejornal porque se eu por acaso numa comunicação mediúnica com o apoio da natália correia te anunciasse que santana lopes é primeiro-ministro e te alinhasse a nomenclatura governativa mandavas-me para o pasto de cambronne e dizias que eu tinha enlouquecido e eu respondia-te luís não fui eu que enlouqueci alguém enlouqueceu por mim e isto ainda não é tudo com assessoras no egipto lulus e lilis nas maldivas ou no bengladesh e guerras de alecrim e manjerona expressões que a guidinha não usava que ela era mais para a frentex e que hoje também se não usa porque em inglês é que tudo resulta mas eu escrevo-te assim não para te deprimir nem denunciar o teu conforto celestial muito menos para te informar que no ps ninguém se entende muito embora tu nunca tivesses pertencido a qualquer partido antes e apenas do reviralho daquilo que não estava bem não sabendo tu o que estaria melhor franco atirador de uma figa estando os teus melhores amigos no que é hoje o ps nunca foste ouvido nem achado mas tenho a boa novidade o teu felizmente há luar dá-se nas escolas quem estraga tudo são os resumos que a rapaziada não está para ler a peça toda nem representá-la hoje nem feliz nem infelizmente há luar muito embora estejamos em agosto e não em outubro da execução do freire de andrade cujo delator foi um tal morais sarmento estamos em agosto e há um luar pleno uma lua cheia não sei se se pode dizer plenilúnio acho que os foguetes vão ser proibidos por causa dos incêndios e o teu amigo de longa data jorge sampaio não se está a portar lá muito bem isso na opinião sempre subjectiva daqueles que votaram nele e nos quais me incluo pelo que vai alguma tristeza neste país e a esquerda está a fazer a cama no desconforto olha luís vou deixar-te que já estou atrasado para a vida a vidinha este correr das horas esta impertinência do tempo que nos quer iludir e eu não quero acabar esta carta em tristeza que um homem não chora mas também não é de ferro luís estejamos prontos para este abraço entre algodão e rama e fumo de tabaco como putos apanhados em falso que agora já quase é crime fumar que eu não sei se aí te deixam acompanhar o gin com um cigarro e tens um grupo de amigos como em campo d’ourique para saborear a tua imaginação gastronómica com o melo lapa o brun do canto e o este então miúdo que mal se assina tão trémulo está de saudade e de inquietação do futuro.

Saudade da Guidinha

Quem se lembra da Guidinha? Quem se lembra de Luís de Sttau Monteiro?
Em tempos que já lá vão (vão mesmo? ou é ilusão da nossa vontade?), não se podia escrever “à descarada”, a dizer mal do governo ou de outros senhores importantes, ou do estado das coisas. E qualquer pequeno atentado ao pudor hipócrita da moral pública podia valer um castigo pesado, não pecuniário, mas pago em liberdade, o que era bem pior. E, em termos de hipocrisia e moral pública, hoje, infelizmente, continuamos a não estar muito bem, receio...
Assim, disfarçadamente, para fugir o mais possível ao lápis azul e respectivas consequências, publicavam-se textos, que iludiam os donos do lápis azul, pois tinham o aspecto inocente e infantil de redacção. Quando percebiam que as redacções de inocente não tinham nada, era tarde.
As redacções da Guidinha remetem-nos para as vivências reais, duma família média-baixa , económica, cultural e socialmente falando. A Guidinha é uma criança traquina e quando é apanhada a fazer qualquer maldade, não diz a verdade sobre a identidade dos seus pais. Depois, diverte-se imenso com a confusão que gera, já que os pais, arranjados à pressa, são dois homens...A Guidinha já previa que trinta anos mais tarde o problema descia (ou subia?) à Assembleia da Republica e que todos os intelectuais, e não só, iam gastar muita massa cinzenta a debater o problema das uniões de facto.
(Deixem-me abrir um parênteses: Sttau Monteiro daria hoje um bom contributo para a discussão. Nunca foi um intelectual de moda. Foi sempre um homem que defendeu com coragem os seus pontos de vista, doesse a quem doesse. Não se veja nesta passagem qualquer preconceito. Ele viveu acima dos preconceitos e isso nem sempre lhe valeu a simpatia dos outros .)
Mas esta não é a única realidade que sai das redacções da Guidinha para os nossos dias, assim, quase sem tirar nem pôr...São os créditos, ainda sem cartão, mas já a malvada mania de se ter, ter, ter, sem pensar no ser. São as famílias quase pobres que não assumem as dificuldades do dia a dia.
São hilariantes as redacções da Guidinha! Por exemplo, quando a Guidinha se refere aos inconvenientes das modernas fechaduras, minúsculas, com buracos muito mais difíceis de espreitar. Impossíveis mesmo! É que a Guidinha representa muito bem um tipo de gente, que havia e não deixou de haver: os que gostam muito de saber da vida alheia. E defende a curiosidade, como atitude científica, com todas as forças. Cita a professora, que “diz que a ciência é filha da curiosidade” e afirma, corajosa, que vai continuar a espreitar pelos buracos das fechaduras.
A Guidinha é uma menina esperta, com o sentido de justiça que as crianças têm, mas espartilhada pelas insuficiências todas da sua classe. A Guidinha leva “bumba no toutiço” por dá cá aquela palha, à conta da frustração do pai, que se chama José e é escravo, de trabalho (subentenda- se), empregado de escritório, que receia não receber a gratificação no Natal, para comprar o peru.
Uma das coisas que a Guidinha não suportava era a eterna mentira em que a obrigavam a viver. Tretas, chamava-lhe. Uma delas era o Pai Natal. Um Pai Natal não oferece compêndios (era este o nome dos actuais manuais escolares) de Ciências Naturais! Um Pai Natal não traz do Céu uma camisola dos saldos da Rua dos Fanqueiros. Aí põe-se o problema do Céu ser a Rua dos Fanqueiros!
Hoje o Céu mudou de sítio, mudou-se para um dos modernos Centros Comerciais, mas a mentira é igual. Consome-se o Céu, em meia dúzia de compras.
A Guidinha esteve sempre lá, no suplemento “A Mosca” do Diário de Lisboa, para denunciar tudo, como quem não entende nada de coisa nenhuma.
E que falta faz a Guidinha hoje, aqui!
Hoje, alguém o recorda na Capital

O candidato invadido

O poeta, à luz das palavras de Francisco Lucas Pires, na Capital.
Mesmo quem tem por norma desconfiar dos poetas terá escutado com bons ouvidos o discurso de Manuel Alegre na passada quinta-feira. Um discurso com ideias sérias, estruturadas – das quais certamente se pode discordar, mas que são produto de uma reflexão cuidada –, e fórmulas próprias, claras, numa linguagem que não se refugia em ambiguidades ou nos chavões cinzentos do politiquês corrente. Um discurso que, só por si, o demarca do ambiente geral da política de hoje, em que banalidades repetidas até à exaustão são tomadas por “pensamento político” e sobrolhos franzidos para as fotografias por “poses de Estado”, em que se confunde bronzeados sorrisos de plástico com carácter ou espírito de liderança ou algo do género.
Atacando o “bloco central dos interesses”, o perigo do esvaziamento pelo centrismo, o caciquismo dos aparelhos, Manuel Alegre vem também afirmar-se, pela palavra, contra os políticos formados à sombra da imagem, deixando recados para fora e para dentro do PS. Concorde-se ou não, é admirável a generosidade e ousadia deste histórico que avança assim, com um discurso virado para a frente, sem medo nem da expressão “socialismo” nem da outra, “modernidade”. A vitória é quase impossível. Mas, pelo seu significado neste momento difícil da política portuguesa – como vitória das ideias e da palavra contra a política-espectáculo –, seria sem dúvida um bom sinal. É esperar para ver. Numa altura em que todos nos sentimos “invadidos pelos acontecimentos”, quem sabe se o dono da frase não acha um caminho?

domingo, 1 de agosto de 2004

Paris, no mês de Agosto. E Lisboa?

De larmes et de rires
Etait fait notre amour
Qui redoutant le pire
Vivait au jour le jour
Chaque rue, chaque pierre
Semblaient n'être qu'à nous
Nous étions seuls sur terre
A Paris au mois d'août
(da canção de Charles Aznavour)

Lisboa, em Agosto, emite uma luz diferente.
Dizem que está cheia de mochilas e as caras têm quase todas uma máquina fotográfica à frente.