sábado, 7 de maio de 2005

O carteiro

Nem a todos é concedido distribuir vidas todos os dias, transportar amores e desamores, para lá e para cá.
Nem a todos, mas ao carteiro, sim!
Deixa assim a profissão de ser uma qualquer, menor e mal remunerada, para ser uma condição, em que só poucos se podem incluir.
7 de Maio de 1800 - O Superintendente-Geral dos Correios de Portugal, José Diogo de Mascarenhas, criou o lugar de "portador", hoje designado por carteiro.
Foi esta efeméride, que me trouxe à cabeça e às teclas o outro carteiro, o de Neruda, o de Skármeta.
"O carteiro de Pablo Neruda"! Como eu gostei de ler esse livro!
Gostei tanto do livro que não cheguei a ver o filme, não fosse aquela emoção imaculada degenerar em conclusões, definições e coisas assim muito certinhas que são certas, apenas certas, literariamente correctas para abusar do chavão do correcto.
Até apetece dizer como o herói de Skármeta: "Poça! Como eu gostava de ser poeta!", ao que o poeta, Neruda, claro!, respondeu que é muito mais original, no Chile, ser carteiro do que poeta.“Pelo menos andas muito e não engordas.”
Aqui está um argumento que já não é.
Eu ainda sou do tempo do carteiro a pé e do carteiro de bicicleta, com uma buzina a fazer-se anunciar...
sépia cartas

sexta-feira, 6 de maio de 2005

Os sonhos

Freud desenvolveu as suas teorias sobre o significado dos sonhos.
Certo, certo é que há pessoas que sonham muito e outras nem por isso.
Certo, certo é que os sonhos nos devolvem medos que arrumamos em sítios que julgamos impossíveis de descobrir.
Certo, certo é que os sonhos não são dominados pela nossa vontade.
Certo, certo é que todos estes domínios são domínios onde a minha ignorância absoluta se faz sentir, mas onde Freud recolheu matéria para extenso e valioso trabalho.
Sigmund Freud nasceu há cento e quarenta e nove anos, a 6 de Maio de 1856, em Freiberg, Moravia, República Checa.

imagem daqui
Tenho muito respeitinho pelas coisas que desconheço...

Meditar


Esta fotografia é da Teresa.
A ler: os poemas da Hermínia!

Ó pra ele!

King Lion- disney
Acho que desta vez o leão é mesmo rei! E não vai nu!
Leva vestida a esperança, que também é verde, de dar a todos, mas especialmente aos meus leões a alegria de ser CAMPEÃO!!!
Um beijinho para o Pedro, que veio reclamar eu ainda não ter assinalado esta vitória tão suada e tão merecida!
Pedro, vês o que fizeste quando me ensinaste a mexer nos blogs?!
An enchanted moment...

quinta-feira, 5 de maio de 2005

Magia

50 anos foto do jornal Público, 5 de Maio
As celebrações dos cinquenta anos da Disneyland tiveram o seu início oficial hoje, na Califórnia, o lugar onde a "magia eterna começa".
A passagem pelas terras da fantasia deixa marcas indeléveis.A visita a estes lugares onde a nossa infância reaparece e se reinventa, também nos deixa um doce sabor algures dentro de nós.
Este (blog) é um lugar inspirado por alguém que também foi tocado por essa magia: o meu pai.
Não podia deixar passar esta celebração sem o recordar.
Ao levar a fantasia para as paredes do hospital, acreditou certamente que iria aliviar as feridas de quem olhasse para essas paredes.
A fantasia é uma pátria de todos os homens bons, tenham eles a idade que tiverem.
papa disney
A foto da festa é do Público.

os fenos...


Quase não sendo doença e,sendo, não tem gravidade por aí além, o mau estar provocado pelas alergias da época pode causar sérios danos...
Perto da minha casa há um parque muito bonito, mas neste momento eu não quero nada com a natureza!

Passo a vida agarrada aos lenços e os meus olhos parece que passaram por uma cena de luta livre...
Mau dia para celebrar a cortesia ao volante!!!

quarta-feira, 4 de maio de 2005

Dia da Cortesia ao Volante


Todos conhecemos os números da sinistralidade.
Vale a pena aderir todos os dias a esta ideia!
Clique na imagem para saber mais.

Once upon a time, there was a very thin lady...


Já é a terceira vez que trago aqui, a este palco, uma das actrizes que eu mais admirei na minha adolescência: Audrey Hepburn.
Primeiro, porque eu queria ser assim como ela: magra e elegante. Quando um dia aprofundei as razões de tal magreza, senti um arrepio na alma.
Tinha sido fome!!!
Ao longo da vida, fui admirando a actriz e a mulher que permanecia bonita, apesar dos anos, apesar das rugas.
E ainda por cima, dedicou-se a uma causa que a todos nos diz muito: as crianças.
A elas se dedicou nos últimos anos de vida, levando-lhes esperança e mostrando ao mundo as realidades que o mundo tantas vezes esquece. O seu trabalho ao serviço das crianças na Unicef valeu-lhe uma condecoração máxima nos Estados Unidos. Mas penso que para ela, a máxima retribuição vinha das próprias crianças.
Tive sorte, pois a vida deu-me oportunidade de escrever e publicar (no jornal do Montijo) uma pequena biografia, onde podia expressar essa minha admiração e, se possível, transmiti-la.
Audrey, ou antes, Edda Van Heemstra Hepburn-Ruston, nasceu a 4 de Maio de 1929, em Bruxelas e morreu na Suiça, a 20 de Janeiro de 1993.

terça-feira, 3 de maio de 2005

A avó Golda


imagem daqui
Esta imagem é muito semelhante à que aparece nos arquivos da minha memória, quando penso em Golda Meir: uma mulher com ar de avó, ou seja, uma mulher com ar bondoso e inteligente.
É assim que eu me lembro dela, com as muitas rugas, os cabelos desalinhados e muito salpicados de branco e o tal olhar bondoso e inteligente.
Vejo, nos lugares onde procuro estas coisas, que hoje faria anos, muitos anos, cento e sete. E penso com os meus botões o mesmo que penso dos meus avós: se estas pessoas se mantêm tão nítidas na nossa recordação, é porque foram brilhantes, excepcionais.
Socorro-me das palavras de Inês Pedrosa: "Uma mulher que inventou um país e teve coragem de o tornar real."
Para escrever estas poucas linhas, estive a reler "Golda Meir, a rapariga que inventou um país", a biografia da Golda Meir incluída no conjunto das biografias de vinte mulheres do século vinte.
Aconselho a leitura pelas mulheres e pela escrita da Inês Pedrosa, de que eu gosto muito.
Consegui encontrar, ainda na biografia da Inês Pedrosa, algo de muito importante para as interpretações das minhas memórias: Golda Meir levava muito a sério o seu papel de avó, de tal modo que chegou a recusar o segundo lugar na hierarquia do Estado de Israel, com a argumentação de que "preferia ser avó (de cinco netos) a tempo inteiro do que ministra em part-time."
O essencial de Golda Meir está nessa biografia.
Tudo o que se pode dizer de Golda Meir está escrito na História!

segunda-feira, 2 de maio de 2005

O dia de hoje que já é noite

O dia de hoje já está a acabar...
No entanto, não quero que acabe sem antes deixar aqui "uma referência à referência" das mães do meu tempo.
Nada a ver com o dia de ontem. Tem mais a ver com todos os dias: todos os dias nascem crianças, todos os dias nascem mães.
Ser mãe no sentido prático do termo tem que se lhe diga. Sobretudo quando se nasce mãe pela primeira vez.
Quando os meus filhos me deram à luz, de acordo com a lógica do Mia Couto, havia um manual que nos tirava as dúvidas todas: o livro do Dr Spock.
O que eu tenho em casa, com a idade do meu filho mais velho e, depois de ter passado pela educação de duas crianças e pela boca do meu cão, está um pouco gasto. Gastou-se-lhe a capa, por exemplo! Mas o título está lá: "Comment Soigner et eduquer son enfant". Edições Marabout.
(Aposto que comprei a edição francesa porque era a mais barata!)
É assim que o Doutor Spock se torna um importante interveniente na educação dos meus filhos. Desde o umbigo aos primeiros passos, passando pelas papas e sopas, está lá tudo o que diz respeito a esta fase de bebé.
Mas o melhor ainda está para vir. Os conselhos do Dr Spock vão até à escola, entram mesmo na adolescência e falam de coisas como a violência transmitida na televisão, no cinema e na banda desenhada...
Estamos todos a sorrir e a pensar que isto é mesmo coisa de século passado, muito passado mesmo!
O Dr Spock nasceu há cento e dois anos (2 de Maio de 1903) e morreu há sete (15 de Março de 1998). A sua vida percorre o século vinte quase todo e a sua acção e ensinamentos percorreram-no também, em grande parte.
Pela parte que me toca, Thank you Doctor Spock! Ou deverei dizer merci, já que nunca o abordei noutra língua que não o francês?

Imagem daqui.

domingo, 1 de maio de 2005

Dia das Mães

Um filho afinal é quem dá à luz a mãe. Mia Couto, Cronicando.
Um beijinho para as mães todas, biológicas, adoptadas, adoptivas, de leite... e todas as que fazem esse papel, sem nenhum papel passado, só por pura generosidade!!!

Tela de Álvaro de Bautista
(Mais umas linhas sobre a Tsarina aqui.)

Porque convém lembrar...

Coimbra, 1 de Maio de 1974
Colossal cortejo pelas ruas da cidade. Uma explosão gregária de alegria indutiva a desfilar diante das forças da repressão remetidas aos quartéis.
- Mais bonito do que a Rainha Santa... – dizia uma popular.
Segui o caudal humano, calado, a ouvir vivas e morras, travado por não sei que incerteza, sem poder vibrar com o entusiasmo que me rodeava, na recôndita e vã esperança de ser contagiado. Há horas que são de todos. Porque não havia aquela de ser também a minha? Mas não. Dentro de mim ressoava apenas uma pergunta: em que oceano de bom senso iria desaguar aquele delírio? Que ocultada e avisada abnegação estaria pronta para guiar no caminho da história a cegueira daquela confiança?
A velhice é isto: ou se chora sem motivo, ou os olhos ficam secos de lucidez.

... mesmo através de memória de alguém, Miguel Torga, que não ficava diferente, nem indiferente, perante as coisas.
Aqui, nesta página do Diário, está a alegria que vimos em quase todos os que saíram nesse dia soalheiro, como o de hoje.
Mas está também a reflexão prudente de quem se habitua a ver a vida pelos lados todos.
Nem lhe chamarei lucidez, mas tão somente "sensatez", já que a mim me agrada mais.
soares e cunhal
Imagem do Jornal Expresso/Instituto Camões
(Pelo menos em Lisboa o dia foi soalheiro há trinta e um anos. E hoje? Também?
No Algarve, de onde cheguei há pouco, cinzentava e chovia uma chuva tímida que não atrasa nem adianta para o drama da seca!)

sexta-feira, 29 de abril de 2005

Na berlinda

Hoje "Xicuembo" está na berlinda. Há muito tempo que não usava a expressão "estar na berlinda"...
Nem sei porquê.
Talvez não tenha precisado, mas hoje precisei e cá estava, prontinha a sair do pensamento para as teclas e das teclas para o ecrã e, aí, a causar-me uma certa estranheza. E agora é estranheza da própria estranheza! E vou andar aqui meio dia e não chego ao que interessa.
Xicuembo, além de ser o nome do próximo best-seller, é também nome de blog onde vou, rotineiramente, espreitar a escrita do Carlos.
Há dois dias atrás, deparei com um nome de um autor e de um livro que me trouxe recoradações gratas de leituras antigas. Muito antigas mesmo! Olhai os Lírios do Campo!
Olhai os Lírios do Campo foi o primeiro livro de gente crescida que li. Eu ainda não era crescida. Não o percebi, com certeza. Voltei a lê-lo e desta vez entendi. Gostei tanto que o voltei a ler. Este é se calhar o único livro que "treli".
Claro que o texto do Carlos não era sobre este autor, nem sobre este livro, nem sei bem se era sobre o que o título anunciava: Sobre a ironia e o nada, com curva no Alto Maé !
Eu fico no Alto-Maé, pois parece-me que era aqui que eu morava, quando li "os lírios" pela segunda vez.
Um dia, numa crónica da Nova Gazeta, recordei assim este livro:
Há um dia na nossa vida em que alteamos o salto do sapato, mudamos o penteado, usamos a nossa própria chave de casa... por aí adiante.
Isto é: há mesmo um dia, em que deixamos de ser crianças. Aparentemente, de um momento para o outro, como se isso não fosse um processo, por vezes tão demorado, que nos pode tomar conta da vida inteira!
E houve esse dia em que achei que as leituras de criança deviam ser postas de lado e devia começar a ler livros de pessoas crescidas.
( Como eu estava enganada! Continuo a ler livros de crianças. E gosto.)
Então, aos treze anos, escolhi o livro que devia marcar a minha maioridade “literária”: Olhai os lírios do campo, de Erico Veríssimo.

Obrigada, Carlos, por me linkares a memória para o momento em que, literariamente, ainda que em termos passivos, decidi perder a inocência!
(Claro que também li os Patinhas todos. Quem não leu?)
Vou guardar a recensão dos Lírios na tal gaveta onde guardo as coisas-mais-de- cerimónia!!!

quinta-feira, 28 de abril de 2005

Xicuembo

xicuembo
Xicuembo não é uma palavra qualquer. Soa a feitiço e a jura.
Agora Xicuembo é também nome de livro. Continua próximo do feitiço e da jura.
Parabéns, Carlos! Lá estarei, em Junho. Juro!

quarta-feira, 27 de abril de 2005

ba da ba da da da da da da

Quem pode esquecer o clássico "Un homme une femme", Anouk Aimée, Jean-Louis Trintignant, badabadadadadadada também inesquecível e um realizador como Claude Lelouch?

Anouk Aimée completa hoje setenta e três anos.
"A Cannes, je n'ai jamais vu depuis un accueil pareil. C'était le délire dans la salle. Aux États Unis, c'était inimaginable. Le film a été couvert de récompenses : quatre nominations aux Oscars (meilleur film étranger, meilleur scénario, meilleure musique et meilleure interprète féminine)."
Estas são palavras de contentamento da actriz que reflectem o sucesso do filme no seu tempo e, provavelmente,sempre.

Pelo menos este som é eterno...
Cést une belle histoire!

terça-feira, 26 de abril de 2005

Por falar em Liberdade e isso...


No dia 26 de Abril de 1994 realizaram-se as primeiras eleições para todos, na África do Sul!
"Quando me dirigi para o local de voto, pensava nos heróis que tinham tombado para que eu pudesse estar onde estava naquele dia..."
(página 683, da Autobiografia de Nelson Mandela)

Primeiro sol

primeiro sol da manhã
Este dia nasceu assim!
Bem mais promissor do que as várias "achegas" do Público, com o título "Diz-se",onde pode ler-se:
"O passar dos anos esbate a nostalgia militante associada à Revolução dos Cravos. E ainda que se repitam os festejos e as cerimónias oficiais com os discursos do costume, o dia [25 de Abril] é cada vez mais um feriado para se gozar e muito menos uma data para comemorar."
Pedro Rolo Duarte
Diário de Notícias, 25-04-05


"A efeméride [do 25 de Abril] é celebrada com modos cada vez mais engravatados, apesar de algumas resistências que, com o tempo, se tornarão folclores de época."
Tiago Rodrigues

"Talvez ainda haja uns fogachos saudosistas, mas o implacável avançar do tempo condena o 25 de Abril a tornar-se num feriado institucional e desinfectado de quaisquer alegrias, como o 5 de Outubro."
Idem, ibidem


"Às gerações que não fizeram ou viveram o 25 de Abril, cabe agora o enorme desafio de combater o cheiro a derrota e a decadência."
Luís Osório
Idem


Um dia os cravos vão mesmo murchar, "o dia inicial, inteiro e limpo" deixará de ser lembrado por um presidente emocionado.
Não haverá mais lágrimas na voz de ninguém e talvez tudo isto faça,algum dia,sentido,também...

segunda-feira, 25 de abril de 2005

"Onde é que estavas no vinte e cinco de Abril?"

Tenho um sonho recorrente: sonho com o Baptista Bastos, a repetir a pergunta que fazia a todos os entrevistados, num dos seus programas da Sic: “Onde é que tu estavas no 25 de Abril?”
Esta noite, sonhei que ele me dirigia a pergunta a mim: “Madalena, onde é que tu estavas no 25 de Abril?” Ainda tentei ignorá-lo, porque pensei tratar-se de um Herman Sic Especial. Mas ele insistiu, insistiu e eu acabei por lhe responder, por lhe contar.
BB, estava naquele estado intermédio, entre a esperança e o medo.
Estava na Faculdade de Letras de Lisboa, no quarto ano de Germânicas.
Tinha visto, pouco tempo antes, a polícia de choque entrar pelas janelas do bar da faculdade e desatar à bastonada...
Esse foi um dos dias do medo!
Vi, nesse mesmo dia, dois professores da Faculdade, ao lado dos estudantes. Um deles fora atingido pelos bastões e sangrava. Eram dois homens, cujo prestígio, o tempo mais e mais engrandecerá: David Mourão Ferreira, o professor, o poeta, o escritor; Lindley Cintra, Professor Doutor, eminente linguista.
Esse foi também um dos dias da esperança!
No dia vinte e cinco de Abril eu ia ter aulas com o Professor Doutor Fernando Moser. Recordo-o com muita saudade. Recordo a sua sabedoria imensa e a sua humanidade. Lembro-me dele a propósito de “linguagem caseira”. As coisas mais difíceis tornavam-se fáceis, porque ele traduzia tudo para “linguagem caseira”. Para ele, um aluno era o aluno.
Eu era estudante e casadinha de fresco. Dividia o meu tempo entre a faculdade e a aprendizagem da lida da casa (a lida da casa é que correu mal, ainda hoje corre! Nunca aprendi a ser uma dona-de-casa a sério!).
Aliás, os dois éramos estudantes. Morávamos num apartamento alugado, três assoalhadas, em Odivelas.
A diferença para as cinco assoalhadas sonhadas era duzentos escudos, o que era muito dinheiro. Dava para vinte e nove sessões clássicas no Monumental, segundo balcão ( oito escudos).
E era preciso fazer opções!!!!
Mobiliário e electrodomésticos: o indispensável!
Vivemos intensamente a tal esperança de um “país livre”, sem “mordaças” nem cães-polícia nas imediações das faculdades, sem “gorilas”, sem guerra colonial, para onde iriam os nossos namorados, os nossos maridos, os nossos irmãos...
A esperança traz sempre o medo a reboque.
Tivemos medo: que tudo voltasse atrás, que tudo desse para o torto. E do futuro, esse desconhecido!
Acordei com uma sensação estranha.
Esse futuro já cá está. É hoje!
São trinta e um anos a celebrar a generosidade, o despojamento de um homem como o Capitão Salgueiro Maia, o super-herói das nossas memórias de Abril!

Doce de mar às camadas

às camadas
Hoje o mar estava assim, como um doce que se serve, às camadas...
Primeira camada: a areia molhada, mas já saudosa de mar;
segunda camada: aquela em que a areia já é mar e o mar já é areia;
terceira camada: a espuma antiga entremeada de areia (ainda areia?);
quarta camada: mar frio e verdadeiro, límpido e breve;
quinta camada: a explosão, a força toda que a onda traz e da qual se desfaz, nesta zona de rebentação;
depois vem a camada de mar profundo e longo, em escuridão graduada, até ao fim, até ao céu...
O céu parece ser sempre o limite. Até para o mar!

sábado, 23 de abril de 2005

Bocage e o Dia Mundial do Livro


O nosso Bocage vai ser homenageado em Setúbal, iniciativa da Câmara Municipal da sua cidade berço, no âmbito de outras comemorações que ainda virão, espera-se, por ocasião do bicentenário da sua morte.
Para além de poeta brilhante clássico, mais na forma do que no conteúdo (pré-romântico), Bocage foi um boémio na Lisboa do seu tempo e, sobre ele, se contam variados episódios que fazem parte do nosso anedotário lusitano.
De Bocage, a minha preferência vai para o soneto ditado na hora da morte, não pelo aspecto da conversão, mas pela representação da luta de forças interiores que certamente acontecem neste momento e que em mais nenhum registo encontrei de modo tão belo e tão lúcido!

Já Bocage não sou! . . . À cova escura
Meu estro vai parar desfeito em vento . . .
Eu aos Céus ultrajei! O meu tormento
Leve me torne sempre a terra dura.

Conheço agora já quão vã figura
Em prosa e verso fez meu louco intento.
Musa! . . . Tivera algum merecimento,
Se um raio de razão seguisse, pura!

Eu me arrependo; a língua quase fria
Brade em alto pregão à mocidade,
Que atrás do som fantástico corria:

"Outro aretino fui . . . A santidade
Manchei . . . Oh!, se me creste, gente ímpia,
Rasga meus versos, crê na Eternidade!"



Clique na imagem, para saber mais!