Trabalho no arame: uma turma de Ciências, para mim, que sou professora de Inglês!
Meninos que não são meus alunos e que, provavelmente, não voltarei a ver mais, a não ser que a professora de Ciências volte a faltar, no mesmo dia da semana, à mesma hora.

Entre outras coisas, o Sr Secretário de Estado disse, a este respeito, o seguinte: "É preciso aumentar o tempo de contacto entre os professores e os alunos, pois em termos internacionais Portugal não está bem."
Eu pensava que era preciso aumentar o contacto com os meus alunos, para os conhecer melhor, já que são quase uma centena deles. Agora, com os outros?
Acrescentou qualquer coisa como "o nível de degradação a que chegou esta questão no sistema educativo português". E a culpa, é dos professores? Não há responsabilidades noutros sectores da sociedade, noutras estruturas que não sejam a escola? E é com a imposição de medidas não pensadas em conjunto que se vai ultrapassar a questão do "nível"?

O Sr Secretário de Estado admite que se questionem as condições. Mas para a melhoria dessas condições que passam por instalações, mobiliário, material, conforto, o que é que se faz?
E não me venham dizer que o professor resiste a tudo porque não é verdade. Não é apenas uma questão de boa ou má disposição. O professor é gente e não tem nervos de ferro. Tem um corpo que acusa o desgaste com o passar dos anos, como nas outras profissões.

Tenho quase cinquenta e quatro anos. Dou aulas a alunos de dez e onze anos, que não me permitem que me sente numa carteira e debite a matéria. Tenho de andar no meio deles. Tenho de me mexer (e muito!) para controlar o ritmo da aula. Não posso deixar a alma cá fora da sala de aula, presa aos anseios normais da minha outra vida de mulher, de mãe, de amiga, de filha...
Tenho a certeza que cumpriria melhor a minha função se me poupassem a determinados números de prestidigitação, se me continuassem a dar a liberdade que até aqui me deram de responsavelmente correr os riscos todos com os meus alunos, sendo por isso inevitavelmente avaliada, por eles e pelos Encarregados de Educação.
A escola não é um espaço de crianças silenciosas e escondidas, de modo a não incomodar os crescidos, com as brincadeiras ruidosas dos recreios. A escola, como a própria aula, pressupõe a alternância de momentos mais calmos, favoráveis à concentração e de outros, mais de acordo com a necessária libertação das energias próprias de quem tem sete, dez, quinze anos, ou mais até.
Há aqui qualquer coisa que me escapa, quando reflicto sobre os verdadeiros objectivos desta política de educação.
Mas também é verdade que eu não percebo nada de política!








































