Ainda se lembra de como era a vida antes dos telemóveis?, pergunta o Jornal Sol.
Claro que me lembro e só não digo que era mais feliz pois, na minha modestíssima opinião, os parâmetros da dita felicidade estão muito mais relacionados com factores que não têm nada a ver com os telemóveis ou com a tecnologia em geral.
Devo ao meu computador a facilidade e a simplicidade de organizar os meus rabiscos, sejam eles de conteúdo mais profissional ou simplesmente pessoal. Tenho uma, duas, três caixas de correio electrónico e guardo o que quero. O que não quero deito fora, sem ninguém dar por isso. As minhas fotos e imagens também estão muito mais facilmente guardadas. E até as fotografias da minha idade, a preto e branco, amarelecidas do tempo, "voam" por artes que dizem ser da tecnologia (que eu não entendo mas utilizo), voam dizia, para dentro deste quadrado.
É tudo assim, como dizem por aí, à distância de um clique! E estes cliques têm-me trazido coisas boas: restabeleceram-me comunicações, facilitaram-me e facilitam-me a vida.
Mas eu tinha uma vida antes da tecnologia. Era melhor, claro que era, porque eu tinha ainda muitos cabelos pretos, não tinha de olhar para cima para falar com os meus filhos e parecia que a vida era mesmo eterna.
Mas eu ainda vou mais longe do que a pergunta do Sol: eu ainda me lembro da vida sem telefones e sem televisão.
Não havia telefones em casa (eu não tinha!), mas havia nos CTT e havia selos e cartas e palavras.
E até havia "rádio-telefonia" para sabermos que como ia o mundo.
E para ouvir o romance Tide. O Tide resistiu ao tempo, mas o romance radiofónico não. Sucumbiu à tecnologia.
Talvez houvesse mais tempo e pouca necessidade de superar tudo a toda a hora, a todo o minuto, a todo o segundo. Havia talvez mais noção de definitivo, porque a linha do horizonte estava muito mais ao alcance da nossa imaginação. Agora está sempre além, nem que seja em fracções de segundo que só são mensuráveis graças a esta mesma tecnologia.
Toca o telefone a toda a hora, toca, toca...
Dizia a cantiga da moda há quarenta anos.
Agora é a mesma coisa, mas em pequeno e sem fios
Toca o telemóvel. A sério. É a minha mãe.
Sem telemóvel, estaríamos muito mais longe.
Assim, a voz da minha mãe dá-me os bons dias e as boas noites, todos os dias, todas as noites. E isso melhora os dias dela e os meus. As noites dela e as minhas.

O Sol, hoje, é que não apareceu por aqui.
Se eu soubesse o número dele, ligava-lhe a perguntar-lhe onde anda o vadio, em pleno mês de Julho?
Enganou-se no hemisfério, ou quê? Ou foi a votos?
Eu, por mim, voto no Sol!
Quando eu era criança, não havia SMS, mas havia uma lengalenga: Nossa Senhora da Conceição, faça sol e chuva não!!!