sábado, 8 de março de 2008

Hoje Há Aulas!

Hoje a aula é prática.
Hoje vamos falar de Verdade!
Na sua essência a Verdade é a mesma para todos nós.
Tal como o coração e outros órgãos, a Verdade de cada um é feita da mesma matéria prima, dos mesmos nervos e da mesma fibra.
Muda-se a cara, o tamanho, a voz, mas a verdade de cada um deve permanecer igual. Devemos permanecer fieis à nossa Verdade original. Àquela com que nascemos e traz genes dos nossos pais e dos nossos avós. Passá-la-emos aos nossos filhos e aos nossos netos, que a usarão sempre nos momentos mais importantes das suas vidas.
Hoje vamos experimentar a nossa Verdade! É uma aula prática!

Sim, sou Professora!

Isto, às vezes, parece uma missão impossível.
Tão impossível, que a máquina do tempo entra em funcionamento, de modo quase automático, permitindo a cada um de nós uma entrada num tempo onde o melhor de cada ser humano fica a morar, para sempre: a infância!
Ao professor foi dado um visto de permanência nesta Terra do Nunca. É esse visto e o passaporte que estão a ser danificados. Corre-se o sério risco de se perder o documento autêntico, o verdadeiro, o original, no meio de tanta papelada, por mais Muito Bons ou Excelentes que contenham!
Não ponho esperança em mais nada.
E se puser
há-de ser ambição tão desmedida
que não me caiba sequer
no que me resta de vida.

Foi um "professor" que me ensinou estes versos de Reinaldo Ferreira: o meu pai.
Foram os primeiros versos que aprendi, à saída da Terra do Nunca, da minha Terra do Nunca.
Hoje, com o passaporte carimbado de rugas, artroses e variações de estados de alma, afirmo, vaidosamente: Sim, sou Professora!
E depois?

sexta-feira, 7 de março de 2008

quinta-feira, 6 de março de 2008

Obrigada, Laura!

Obrigada, Laura, pelas palavras de compreensão. Diria que são de conforto, como se se tratasse de um momento especialmente doloroso para nós professores.
E tu sabes bem que isto é verdade: eu não quero desistir. Eu quero continuar.
Tenho um sonho: ainda hei-de ver o dia em que a acção ganhe ao papel esta guerra que é de vidas reais e não de faz de conta.
Neste momento eu não registo os contactos com os Encarregados de Educação, no âmbito da Direcção de Turma. Confio neles porque são meus companheiros (diz-se parceiros, não é?) na educação dos filhos. São meus aliados e não meus inimigos. Trabalhamos do mesmo lado da esperança, com olhos postos num ponto do horizonte onde, pensamos, se situa o futuro. Rejeito veementemente alistar-me nas fileiras dos que defendem o reino do papel, para provar o que fiz ou não fiz. Faço ou não faço, ajo ou não ajo, orientada pelo melhor que há dentro de mim.
Mais uma vez: obrigada, Laura!

quarta-feira, 5 de março de 2008

Para mais tarde... sorrir!

A aula começou e a Ana chegou, esbaforida, com o mal de amor gravado nas olheiras. Trazia pressas que não eram de aprender nem verbos nem fracções. Atirou a mochila para cima da carteira e sentou-se, junto à janela.
Do lado de lá do vidro, apareceu, magicamente, uma "mão cheia" de meninos quase rapazes que, indiferentes às regras, às campainhas, à presença das professoras na sala de aula, "puxavam" a Ana para o mundo lá-fora, com gestos e palavras com registos de urgências invisíveis aos olhos de quem já cresceu há muito tempo, muito tempo mesmo.
Uma das professoras saiu e indagou as razões:
- Ó Setora, eu vou explicar!- começou um, cheio da boa vontade de quem não pertence ao problema mas procura a solução. É assim: a Ana namora com este rapaz- pôs a mãos no peito do outro, indo assim direito à localização do amor, num corpo ainda pequeno- mas andaram a dizer que ela afinal namora com este.
O primeiro não conseguia esconder a raiva da possível traição. O segundo arvorava a indiferença de quem não tinha entrado na história, senão para incomodar alguém, esvaziando assim o seu próprio incómodo de crescer.
Era realmente um assunto muito grave e muito urgente, mas uma aula é uma aula e os futuros "crescidos" teriam de esperar pelo intervalo...
É que o amor dói. Dói mesmo! E crescer também dói muito.
Imagem daqui.
A Ana é um nome inventado!

segunda-feira, 3 de março de 2008

O Mostrengo ensinou-me uma página da História!
Ensinou-me aquela parte da coragem dos nossos antepassados que lhes permitia ir além dos seus próprios limites.
Não é que eu seja assim tão adepta destas coragens. A minha coragem de culto é a resistência.
Não vejo com bons olhos a coragem de mandar os outros fazer aquilo que eu temo.
Respeito os medos, todos os medos, desde o mais pequeno e insignificante ao medo que se ergue do perigo e do desconhecido.
Esse medo torna os homens maiores.
E isso eu aprendi com o Mostrengo de Fernando Pessoa.

O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
A roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,

E disse: «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo:

«El-Rei D. João Segundo!»
«De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,

Três vezes rodou imundo e grosso.
«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»

E o homem do leme tremeu, e disse:
«El-Rei D. João Segundo!»
Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,

E disse no fim de tremer três vezes:
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme

E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!»


El- Rei D. João Segundo nasceu em Lisboa, a 3 de Março de 1455.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Três anos?! Já?


O blog da Pitucha fez ontem três anos.
Não sei bem em que canto, esquina, avenida, rua, seja lá o que tiver sido, nos encontrámos na "aldeia global". Sei que a Pitucha hoje é a Pitucha, a minha sobrinha de Bruxelas, por quem sinto carinho e muita, muita admiração. Encontramo-nos na nuvem de Bruxelas, na "festança" dos porquinhos, nas prateleiras da Ti, nas Beiras da Laura, na estrada da Chuinguita, no espaço Azul da Azulinha... Trocamos a amizade aí e "em vida real" também , quando as distâncias assim o permitem.
A Pitucha é um sol radioso que brinca com as palavras à sombra da nuvem mais inspiradora de Bruxelas e da União toda.
Parabéns, Pitucha!

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

E navegando....

...a idade vai chegando!
E a idade tem uma coisa boa: a memória, uma espécie de arca onde se guarda tudo o que se viu, ouviu, leu, aprendeu.
Eu aprendi o Tejo, mesmo antes de chegar a Lisboa. Aprendi-o bem. Sabia de cor, de alguns versos.
Ao pé, conheci-o melhor.
Hoje vizinhamos, direi eu, armada em Mia Couto. E vizinhamos bem.
Ontem, encontrei-me com o Tejo nas ondas. Para lá e para cá.Se um dia o Cacilheiro for embora,
fica mais triste o coração da água,
e o povo de Lisboa dirá, como quem chora,
pouco Tejo, pouco Tejo e muita mágoa.(Ary dos Santos)

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Para que conste, de novo....

Assisto, incrédula, ou quase incrédula, à emissão de opiniões, formuladas por pessoas que em nada se identificam com este governo, elogiosas, rasgadamente elogiosas para a Ministra da Educação, a propósito da sua última intervenção pública no programa Prós e Contras.
Não estou aqui para "desconvencer" ninguém. Não me incomoda nada o juízo que outros fazem do meu juízo. Só lamento que as pessoas utilizem um problema que tem tido tratamento mediático do mais variado que há para mostrarem que não acreditam mesmo nos professores. São poucos os que vêm ter connosco e nos perguntam "afinal o que é que se passa mesmo?". Entendem o que querem entender dos discursos avulsos que aparecem na comunicação social e aproveitam para exorcizar traumas antigos de reguadas que lhes deixaram marcas na alma certamente. A minha também tem. Como dizia o José Gomes Ferreira, há sempre um professor que nos estraga a infância.
Há figuras a que não podemos escapar na vida, para além da mãe ou do pai. Uma delas é o professor. E aí é que está. Nem sempre esta coisa de aprender e ensinar corre às mil maravilhas. Hoje, o que se pede aos professores é que preencham de cautelas a tal relação pedagógica, para que no futuro não haja muitos a dizer o que disse o poeta e não atirem as culpas da má matemática ou do mau português para um qualquer ser humano que lhe tenha calhado em sorte.
E ainda acho mais graça, quando as pessoas emitem à minha frente as mais injuriosas opiniões acerca dos professores e acrescentam, "claro que isto não é para ti, que eu sei que tu és (elogio baratinho, dos trezentos)"!
Eu até acho que a Ministra mostrou bem o quanto não gosta desta classe a que alguém no Ministério classificou de professorzecos.
E foi disso que muitas pessoas gostaram muito! Infelizmente!

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

(...)

Quem quiser ver os flamingos, pode vir de catamarã até ao Montijo.
Mesmo ali, em pleno Cais do Seixalinho, paredes meias com a Base Aérea, eles gozam a sua natureza, numa elegante e calma indiferença a tudo o que os rodeia.
Belas lições as que a Natureza nos dá!

domingo, 24 de fevereiro de 2008

yesterday, when I was young....

Aznavour não foi exactamente o meu cantor embalador de sonhos. Quando ele era Rei e a música francesa Rainha, eu tinha a minha cabeça preenchida com o romantismo da Susaninha e achava as canções de Aznavour mais velhas do que eu. Gostava do som, mas as letras não me remetiam para a realidade dos doze anos.
Dói ouvir "La mamma".
On la réchauffe de baisers
On lui remonte ses oreillers
Elle va mourir, la mamma!

Il faut savoir fazia-me pensar e remetia-me para o desgosto, a separação, uma aparente inevitabilidade de todas as relações amorosas.
Hoje, entendo que a minha relação com a vida é uma relação amorosa e, hoje, tenho de aprender a lição:Il faut savoir, coûte que coûte, garder toute sa dignité,
Et, malgré ce qu'il nous en coute, s'en aller sans se retourner...

Agora, já ultrapassada a idade que o meu pai tinha na altura em que eu alimentava os meus sonhos com Cliff e Beatles e ele aprendia a vida com Aznavour, agora, eu compreendo as canções de Aznavour.
Yesterday, when I was young... The thousand dreams I dreamed, the splendid things I planned.....

Et mois je ne sais pas.
Pieguice domingueira, ponto final!
Aznavour tem a coragem de cantar em palco aos 83 anos. Bravo!!!!
Mais uma lição para aprender.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

He always understood

Oh, my papa, to me he was so wonderful
Oh, my papa, to me he was so good
No one could be, so gentle and so lovable
Oh, my papa, he always understood.

Gone are the days
when he could take me on his knee
And with a smile
he'd change my tears to laughter

Oh, my papa, so funny, so adorable
Always the clown so funny in his way

Oh, my papa, to me he was so wonderful
Deep in my heart I miss him so today.

Passaram três anos!

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Para que conste

Não temo a avaliação, pelos motivos que podem pensar alguns. Temo porque temo mesmo que, ao fim de 32 anos de ofício me venham dizer que eu faço isto e aquilo mal e me envergonhem à frente dos meus alunos, ou dos pais dos meus alunos, com quem, sinceramente até simpatizo.
("Converso" longas conversas com os pais dos meus alunos, na condição de DT, na pele de professora e na sub-pele de mãe/Encarregada de Educação que fui durante muito tempo. Sei que é difícil ser pai e ser mãe. Mais do que ser professor ou professora.)
Ninguém me ensinou a fazer melhor e o que até agora fiz não está de todo provado que tenha sido assim tão mau. Passados alguns anos sobre o convívio de sala de aula, após a tal relação pedagógica que está na moda "dizer sobre", muitos falam-me efusivamente, outros fingem que não me conhecem. É normal. Não podemos agradar a todos e isto é uma tarefa tão, tão delicada, que qualquer arranhãozito pode deixar cicatriz indelével.
Quando comecei a dar aulas tinha a juventude do meu lado e percebia-se que entre mim e os alunos não ia grande distância de vida. Só na responsabilidade dessa mesma vida e que havia diferenças evidentes. "Cresci" e eles continuaram da mesma idade, pois todos os anos há nova fornada. Eu continuei a crescer e eles continuaram pequenos. Mas nunca foram intransponíveis, o que eu receio, as distâncias, porque o nosso papel está bem definido: o meu é ensinar, vencendo as resistências de aprender matérias chatas que só vão ter utilidade daqui a vinte anos. O deles é resistir. Sobretudo resistir. E nem sempre a sintonia se consegue. Nem sempre se vencem as barreiras todas.
É massa humana que está em jogo, de um lado e do outro.
Não vou contar aqui histórias que vivo, todos os dias, com os meus alunos e com os pais, porque tenho pudor por eles, pais e alunos. Mas talvez seja por isso é que ninguém pode compreender que a avaliação vai matar o que existe de espontâneo e natural. Daqui para a frente vamos estudar muito bem o papel, para termos pelo menos Bom. Vamos ter os papelinhos todos em ordem, para o Senhor Avaliador (Soa a Seguros, Banca...) nos elogiar. Com tantos anos disto, não vamos correr grandes riscos em matéria de “correcção científica e didáctica”.
Os Senhores do ME vão gostar muito de muitos de nós. Mas os alunos e os pais? Não sei. Acho que não.
E eu não vou gostar muito de mim, quando vier embora e tomar consciência que nos últimos anos da minha carreira perdi os sonhos, larguei-os da mão como se diz por aí... Larguei-os do coração, mais exactamente!!!!
Para que conste, já que li hoje por aí, coisas bem feias a respeito do professores!
E não são do ME. Fará se fossem!!!

Não queria nada apresentar-me assim perante uma turma. Nem no Hallowe'en!

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Só encontrei os versos...

São de Vinicius e falam do Quotidiano, ou Cotidiano, como se escreve do lado de lá do mar...
Hay dias que no se lo que me pasa
Eu abro meu Neruda e apago o sol
Misturo poesia com cachaça
E acabo discutindo futebol
Mas não tem nada não, tenho o meu violão
Acordo de manhã, pão com manteiga
E muito, muito sangue no jornal
Aí a criançada toda chega
E eu chego achar Herodes natural
Mas não tem nada não, tenho o meu violão
Depois faço a loteca com a patroa
Quem sabe o nosso dia vai chegar
E rio porque rico ri à toa
Também não custa nada imaginar
Mas não tem nada não, tenho o meu violão
Aos sábados, em casa tomo um porre
E sonho soluções fenomenais
Mas quando o sono vem e a noite morre
O dia conta histórias sempre iguais
Mas não tem nada não, tenho o meu violão
Às vezes quero crer mas não consigo
É tudo uma total insensatez
Aí pergunto a Deus, escute amigo
Se foi pra desfazer, porque é que fez?
Mas não tem nada não, tenho o meu violão

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Jamais!

Sócrates mantém política educativa e diz que não governa para obter simpatias
E assim vai o mundo! Cada um tem os calos que merece, Sr Primeiro Ministro e este tipo de atitude é muito semelhante às atitudes dos meus alunos. Ele também não andam nas escola pelos meus lindos olhos. Ai não, não!
As suas palavras e a sua atitude para com os professores fazem-me doer os calos, aqueles que eu ganho todos os dias!
Por sinal, até tenho gosto em fazer o que faço. Mas há coisas que eu não entendo, mesmo com estes calos todos na alma.Por exemplo: os senhores dizem, isto é, mandam, mandam dizer que eu devo preocupar-me mais em enviar cartas a um Encarregado de Educação que eu não conheço, por causa de um aluno que eu também não conheço, que há anos que não põe o pé na escola e até sempre-a-mesma-fotografia-ou-fotocópia-da- fotografia já deve saber ler e escrever... dizia eu, preocupar-me com esses que já lá não estão, em vez de tratar dos que lá estão efectivamente, para estudar ou não, mas estão.
É que não se vê fim ao papel que é preciso gastar para fazer acontecer qualquer coisa.
Não foi o senhor (Já nem sei se devo escrever senhor com letra grande?!)que inventou o Simplex? Mas ainda não mandou para as escolas, pois não?
Já todos percebemos que anda zangado com o mundo, mas não se vingue nas crianças.
Já percebeu que é impossível aumentar o sucesso educativo sem ser à custa de um empurrãozito na nota. E haver quem seja capaz de defender um percurso de ignorância para os filhos dos outros é muito triste!
(Um dia perguntei a um médico, por sinal meu amigo, se estava muito preocupado com a saúde de um dos meus filhos. Ele explicou-me que se tratava do meu filho, por isso a minha preocupação era necessariamente diferente e maior do que a dele.)
Para os nossos filhos queremos professores dedicados, conscientes, competentes e felizes. Não está certo querermos uma coisa para nós e para os nossos e outra coisa para os outros e para os filhos dos outros. Esse é que seria um bom critério para aferir a grandeza das suas medidas e até a sua compatibilidade com a dignidade do ser humano! Não me interessa muito que seja simpático. Quero apenas que seja justo e que a dignidade não se afaste dos nossos meios, por muito estonteantes que sejam os fins.
Ah, é verdade!, há uma outra coisa que eu não entendo. Se era para acabar o Ensino Especial por que é que foi criando um grupo de docência só de Ensino Especial, no ano passado ou há dois anos, no máximo?
Por hoje, daqui, do Deserto de Jameh, é tudo!E não receie que não há muita gente a querer granjear a sua simpatia!

E porque hoje é domingo, dia de estar cansado...

Porque hoje é domingo, é dia de aludir ao cansaço, ao legítimo cansaço, tão legítimo, que foi Criado o Dia do Descanso. Ora o Dia do Descanso só faz sentido, se houver cansaço.
Mas o cansaço é normalmente expresso com um enfado que não o dignifica. E o nosso cansaço, resultando de um trabalho qualquer, merece ser dignificado e ser classificado como direito. O Direito de estar cansado. Com enfado, o cansaço não passa de um reles tédio.
Há quem esteja cansado de nada fazer e esse cansaço é doença, é maleita.
Há o cansaço de quem espera em vão. Esse cansaço também é um mau cansaço.
Vamos "ouvir" o que tem Álvaro de Campos a dizer sobre o cansaço, o dele, em tudo diferente do nosso, claro!
Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto —
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo...
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente; eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.

Já em tempos recordei aqui os domingos da minha adolescência e esses, sim, eram o repouso do guerreiro: praia, caril e matiné!

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Liberdades

"São apreendidos, em Lisboa, os jornais "A Paródia", "Novidades" e "O Liberal", por criticas ao Governo."
Não foi agora... Foi há cento e dois anos, neste dia, em que também se comemora uma tal Convenção de Badajoz que nos entregou o Algarve para sempre. (Há grandes pechinchas em Badajoz!). Este 16 de Fevereiro é de 1267. Doze anos mais tarde, o Rei Afonso III, o mesmo que foi a Badajoz "negociar" o Algarve, morria, no mesmo dia 16 de Fevereiro.Sobre a Paródia encontrei isto:
"Os portuguezes são essencialmente conservadores. Por muito que esta opinião possa surprehender o nosso collega Magalhães Lima, não é menos certo que se nós mudamos com frequencia de fato, nos recusamos obstinadamente a mudar de idéias, o que faz com que em Portugal a fortuna sorria aos alfayates como o Sr. Amieiro do que aos evangelistas como o Sr. Theophilo Braga.
Se somos inquestionavelmente um paiz de janotas, estamos longe de ser um paiz de reformadores. Assim, o nosso primeiro embaraço ao emprehender esta publicação é familiarisar o publico com a idéa de que já não se chama o António Maria o jornal que tem agora na mão, por que o publico, conservador e rotineiro, quereria ver perpetuado no tempo e na galhofa, aquelle titulo que ficou pertencendo a uma epocha que desapareceu e que por isso fez o seu tempo.
Porquê - o que era o António Maria? O António Maria, meus senhores, foi a regeneração, o Fontes e a sua Agua Circassiana, o Avila e o seu cachenez, o Sampaio e os seus pamphletos, o Arrobas e os seus editaes, o Passeio Publico e o lyrismo do Sr. Florencio Ferreira, a Srª Emilia das Neves, a «judia» e os Recreios Whitoyne, mundo findo, mundo morto, de sombras, espectros, mumias, onde só poderiamos estar á vontade sob a condição de termos desapparecido com elle, o que não é evidentemente um facto.
Ficarmos dentro do António Maria seria ficar dentro de um museu, na situação de um velho guarda mostrando á curiosidade do seu tempo os despojos de uma epocha passada. A parodia é outra coisa, como o tempo é outro. O António Maria foi um homem. Quando muito, foi uma família. A Parodia - dizemol-o sem receio de ser immodestos - somos nós todos.
A Parodia é a caricatura ao serviço da grande tristeza pública. E' a Dança da Bica no cemitério dos Prazeres."

domingo, 10 de fevereiro de 2008

A dúzia e mais duas...

São doze, isto é, uma dúzia...
Diz-se que à dúzia é mais barato, mas todos sabemos que o barato sai caro, logo, à dúzia é necessariamente tudo mais caro.
Não são provérbios, nem laranjas, nem ovos... São palavras. Doze palavras é o desafio.
Quais são então as palavras que me dão a tal margem para o sonho, de que fala um autor português?
(Eu depois digo o autor!)
E porque tudo começa nos sentidos, é das que me acertam no alvo dos sentidos que eu vou escolher.
A palavra azul e a palavra verde porque me preenchem paisagens, com mar e céu, com montanhas e árvores. Ponho uma onda no mar e o vento a soprar e a vida mexe-se, movimenta-se.... E depois chega o sol e chega a água e o prazer demora-se na pele...
Quem diz mar, diz rio e adúzia está aviada!
Foi a Pitucha que me desafiou, porque ela sabe que eu gosto de desafios, mesmo quando fico com a sensação de ter ficado aquém e não além do expectado... E vão mais duas palavras que eu também gosto, mas já não cabem na bagagem!
Obrigada, Pitucha!

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Lisboa à tona da luz do Tejo

Serve o presente para trazer a lume a cidade que recebe todos os anos mais olhares, vindos de longe para repousar as dúvidas no brilho do Tejo. Esta cidade é linda a valer!
Serve também para trazer não um, mas dois mestres da palavra que prestaram o seu tributo a Lisboa. Um, Cardoso Pires, que cita um outro, Fernando Assis Pacheco.
Passo eu a citar também!
"Ah, sim. "se fosse Deus parava o sol sobre Lisboa", escreveu Fernando Assis Pacheco num poema tonto de luz (a tão citada luz sempre imprevista). De acordo, mas uma cidade de caprichos como esta nunca o sol pode iluminar por igual. Tem de se lhe afeiçoar aos contornos e aos instintos desordenados, à sua placidez aqui, ao burburinho dos velhos bairros acolá, e é com esses desvelos que ele lhe dá cor singular."
Lisboa, Livro de Bordo, José Cardoso Pires, página 41.