Aguenta-te!
É bem "nosso", masculinamente falando, apelar à coragem, em caso de qualquer dor, mas principalmente da dor misturada da doença. "Aguenta-te" é coisa de homem para homem. As mulheres têm outras fórmulas, tais como: tens de ser forte, por exemplo!Como se a força não fosse já uma realidade.... Eu, por mim, prefiro o "aguenta-te" e, depois de ler a habitual crónica da Visão, ainda "prefiro" mais!
O Escritor evoca os avós como eu também faço. (Que vaidade, ou melhor, que pretensão,ser parecida com o Escritor!!!!) Não sei se é só orgulho. Será talvez também um arrependimento de não lhes ter dado atenção, mais atenção, não lhes ter feito mais companhia no fim das vidas. O verde dos olhos da minha avó dá-me o perdão todas as manhãs e todas as noites. Dá-me o perdão e dá-me a bênção. Eu sei. Eu sinto. O retrato do meu avô é mais silencioso. Talvez tenha alguém a dizer-lhe também: aguenta-te!
O avô do L.A. não "se aguentava" com as trovoadas e punha-se deslumbrado à janela a olhar os relâmpagos a estilhaçarem os céus. O meu avô era a bola que não lhe permitia aguentar-se. Olhava para a telefonia como quem está a ver o jogo. Não desviava os olhos do aparelho de rádio como se ouvisse o relato com os olhos. E, muitas vezes , só para assistirmos ao espectáculo da emoção à solta, falávamos com ele e ele zangava-se. Levantava um pouco os braços, cerrava as mãos e estremecia ligeiramente, pedindo que o deixássemos em paz, para seguir o jogo. Era o rubro da sua indignação! Era o ponto mais alto da sua violência. Nem um bebé de colo consegue atingir tanta brandura, no auge da contrariedade!
Nem sei a que propósito vem isto tudo, para além de ter sido ontem a data do aniversário deste meu avô Gouveia, um monárquico perseguido e castigado que me deixou em herança um nariz de respeito e o gosto pela "Cidade e as Serras".
segunda-feira, 21 de abril de 2008
quarta-feira, 16 de abril de 2008
Posso pedir um post?
A Célia pediu e eu quero fazer-lhe a vontade já, porque, a um mais novo, nunca se nega um desejo. :)
domingo, 13 de abril de 2008
Hoje disseram-me isto:
"Para o optimista todas as portas têm maçanetas e dobradiças, para o pessimista todas as portas têm trincos e fechaduras." William Arthur Ward
sábado, 12 de abril de 2008
Figuras de estilo
O paradoxo anda por aí. Anda nas páginas dos livros, nos lugares que se colam à nossa história, à nossa memória e ao nosso prazer de olhar. O sentido bélico confronta-se com o azul do rio, brumoso, mas sempre belo. Nem um nem outro se anulam. Nem o azul dispara, nem o canhão se dilui. Será eterno este confronto?
Será, pois. Até a vida tem coisas destas. Paradoxos, antíteses, tristezas e alegrias que surpreendentemente se harmonizam, em nome do bem comum.
Fotografia- Castelo de S. Jorge, 6 de Abril
segunda-feira, 7 de abril de 2008
Dia da Mulher Moçambicana
O tempo não está para cravos, "dizem-me alguns com olhos lassos"
procurando nos meus olhos
"ironias e cansaços".
E quando lhes desvendo os meus regaços,
"São cravos, Senhores, são cravos",
"E" não "cruzo os braços",
nem vou por ali.
O meu caminho é feito dos meus próprios passos.
O meu poema é feito com versos emprestados
e o meu pensamento é feito com os meus cravos,
cansados, mas não vencidos.
Porque os cravos jamais serão vencidos!
Hoje pego num molho e deixo-os voar ao vento que sopra bem forte.
Voarão bem alto e longe, celebrando a memória de Josina Machel e a de todas as mulher moçambicanas!
domingo, 6 de abril de 2008
Abril, Lisboa, domingo à tarde
sábado, 5 de abril de 2008
sexta-feira, 4 de abril de 2008
I have a dream
I have a dream that one day on the red hills of Georgia, the sons of former slaves and the sons of former slave owners will be able to sit down together at the table of brotherhood.
I have a dream that one day even the state of Mississippi, a state sweltering with the heat of injustice, sweltering with the heat of oppression, will be transformed into an oasis of freedom and justice.
I have a dream that my four little children will one day live in a nation where they will not be judged by the color of their skin but by the content of their character.
I have a dream today!
Martin Luther King (assassinado a 4 de Abril de 1968)
Observação da memória - Quando eu comecei a dar aulas, em 75/76, este texto fazia parte de um manual de Inglês.
I have a dream that one day even the state of Mississippi, a state sweltering with the heat of injustice, sweltering with the heat of oppression, will be transformed into an oasis of freedom and justice.
I have a dream that my four little children will one day live in a nation where they will not be judged by the color of their skin but by the content of their character.
I have a dream today!
Martin Luther King (assassinado a 4 de Abril de 1968)
Observação da memória - Quando eu comecei a dar aulas, em 75/76, este texto fazia parte de um manual de Inglês.
quinta-feira, 3 de abril de 2008
Que é feito do mês de Abril
que nos circulou pelas veias?
Que é feito das ruas cheias
quando o sol era um balão
e andava tudo ao contrário
e as estátuas vinham ao chão
e o sonho era o nosso horário?
Que é feito do mês do sonho
quando o sonho era concreto
e tinha formas de casas
portas abertas
e pão
quando o sonho que sonhávamos
era um sonho colectivo
parido pela multidão?
Foi então
num país
de repente sem fronteira
foi a feira
a desgarrada
foi o espanto dos abraços
na arquitectura sem margem
duma terra a conquistar.
Foi um país que acordou
com planícies no olhar
e a concertina a tocar
dentro do peito.
Que é feito do mês de Abril?
Soldados a quem dissemos
amigos eh! pá irmãos
operários que descobriram
um espaço para além das mãos
e as mulheres trabalhadeiras
que rasgaram seus vestidos
para as bandeiras de alegria
com que Abril foi envolvido.
Que é feito do mês de Abril?
Foi um país impaciente
que de pé se pôs em flor
foi o riso das guitarras
cansadas de choro e dor
foi a alegria fabril
foi a força da razão.
Não esqueças o mês de Abril!
Não esqueças que és multidão!
José Fanha
E o mês de Abril será sempre a homenagem a Salgueiro Maia. Foi ele o autor do mês.
Deixou-se morrer num Abril já longe!
Obrigada, Capitão!
terça-feira, 1 de abril de 2008
Este dia não é das mentiras!
Este é o dia das verdades e já disse isto, pelo menos, 33 vezes, na vida.
Ontem um aluno, um "pestinha", por sinal, perguntou-me qual tinha sido o dia mais feliz da minha vida. Respondi-lhe que tenho dois dias mais felizes. Um deles foi o dia 1 de Abril de 1975. Claro que ele quis saber a razão. E eu satisfiz-lhe mais esta curiosidade: o nascimento do meu filho mais velho.
Foste tu que nasceste mas fui eu que me senti rainha!
Parabéns, Diogo!
Se estivesse nas nossas mãos, todos os teus caminhos seriam aplanados de dificuldades. Não está nas nossas mãos mas está no nosso coração o orgulho de te vermos fazê-lo, por ti, orientado pelos mesmos "nortes" que nos mostraram também o caminho.
O teu pai costuma dizer, a propósito dos teus avós, que eles lhe ensinaram o caminho da verdade e não o do interesse. Esperemos que tenhamos sabido fazer o mesmo!
Parabéns, filho!
Ontem um aluno, um "pestinha", por sinal, perguntou-me qual tinha sido o dia mais feliz da minha vida. Respondi-lhe que tenho dois dias mais felizes. Um deles foi o dia 1 de Abril de 1975. Claro que ele quis saber a razão. E eu satisfiz-lhe mais esta curiosidade: o nascimento do meu filho mais velho.
Foste tu que nasceste mas fui eu que me senti rainha!
Parabéns, Diogo!
Se estivesse nas nossas mãos, todos os teus caminhos seriam aplanados de dificuldades. Não está nas nossas mãos mas está no nosso coração o orgulho de te vermos fazê-lo, por ti, orientado pelos mesmos "nortes" que nos mostraram também o caminho.
O teu pai costuma dizer, a propósito dos teus avós, que eles lhe ensinaram o caminho da verdade e não o do interesse. Esperemos que tenhamos sabido fazer o mesmo!
Parabéns, filho!
segunda-feira, 31 de março de 2008
Amanhã
Levamos todos nos nossos nervos a saturação do vídeo e dos comentários ao vídeo.
Ninguém fica igual depois deste episódio e do reconhecimento da sociedade em geral de que há violência nas escolas. O que íamos contando aqui e ali era interpretado como incompetência dos professores, incapacidade para disciplinar uma turma e as vozes que se levantavam eram ignoradas. Mithá Ribeiro escreveu muito sobre a indisciplina. Eu estive em duas conferências em que o ouvi falar da sua experiência e das suas ideias de combate à indisciplina. Claro que as suas ideias eram impopulares para quem não quer levantar ondas e tem medo.
E chegamos finalmente ao MEDO!
Quem é que tem medo e de que é que se tem medo?
Os órgãos das escola têm medo de não cumprir. É razoável que se sintam assim, pois nem todos temos de estar dispostos a apanhar com um processo em cima.
Depois há o medo dos professores: a imagem que passa de um professor que tem turmas indisciplinadas é a da incompetência do próprio professor. Acresce a este medo o da retaliação dos alunos e das famílias dos alunos. E há ainda o medo de confessar o medo, de admitir a fragilidade da nossa humanidade. Caramba, apetece gritar: somos professores. Não somos domadores de feras!
Amanhã levamos muitas expectativas e poucas certezas. Já muito por aí se disse que nada vai mudar. E, se não mudar nada e já amanhã, não muda nunca. Amanhã uns e outros vão medir o pulso à situação e...
Ninguém fica igual depois deste episódio e do reconhecimento da sociedade em geral de que há violência nas escolas. O que íamos contando aqui e ali era interpretado como incompetência dos professores, incapacidade para disciplinar uma turma e as vozes que se levantavam eram ignoradas. Mithá Ribeiro escreveu muito sobre a indisciplina. Eu estive em duas conferências em que o ouvi falar da sua experiência e das suas ideias de combate à indisciplina. Claro que as suas ideias eram impopulares para quem não quer levantar ondas e tem medo.
E chegamos finalmente ao MEDO!
Quem é que tem medo e de que é que se tem medo?
Os órgãos das escola têm medo de não cumprir. É razoável que se sintam assim, pois nem todos temos de estar dispostos a apanhar com um processo em cima.
Depois há o medo dos professores: a imagem que passa de um professor que tem turmas indisciplinadas é a da incompetência do próprio professor. Acresce a este medo o da retaliação dos alunos e das famílias dos alunos. E há ainda o medo de confessar o medo, de admitir a fragilidade da nossa humanidade. Caramba, apetece gritar: somos professores. Não somos domadores de feras!
Amanhã levamos muitas expectativas e poucas certezas. Já muito por aí se disse que nada vai mudar. E, se não mudar nada e já amanhã, não muda nunca. Amanhã uns e outros vão medir o pulso à situação e...
domingo, 30 de março de 2008
Se fôssemos nós a dizer isto...
"É mais um produto da enxurrada permanente de leis, normas e regras que se abate sobre as escolas e a sociedade. É um dos mais monstruosos documentos jamais produzidos pela administração pública portuguesa. Mal escrito, por vezes incompreensível, repete-se na afirmação de virtudes. Faz afirmações absolutamente disparatadas, como, por exemplo, quando considera que "a assiduidade (...) implica uma atitude de empenho intelectual e comportamental adequada..."! Cria deveres inéditos aos alunos, tais como o de se "empenhar na sua formação integral"; o de "guardar lealdade para com todos os membros da comunidade educativa"; ou o de "contribuir para a harmonia da convivência escolar". E também os obriga a conhecer e cumprir este "estatuto do aluno", naquele que deve ser o pior castigo de todos! Quanto aos direitos dos alunos, são os mais abrangentes e absurdos que se possa imaginar, incluindo os de participar na elaboração de regulamentos e na gestão e administração da escola, assim como de serem informados sobre os critérios da avaliação, os objectivos dos programas, dos cursos e das disciplinas, o modo de organização do plano de estudos, a matrícula, o abono de família e tudo o que seja possível inventar, incluindo as normas de segurança dos equipamentos e os planos de emergência!"
Mas quem disse foi António Barreto, uma autoridade em termos de pensamento e, especialmente, nas coisas da Educação, já que em tempos muito idos, o PS teve um Governo-Sombra (o nome assusta!) e António Barreto era o Ministro da Educação desse Governo-Sombra. E, como não tinha nenhuma obrigação governativa, a sua ideia da coisa prática estava muito mais próxima do bom do que daqueles que sobem às alturas da 5 de Outubro. Mesmo que não tivesse sido Ministro-Sombra, numa terra onde os fazedores de opinião são uma classe respeitável, é sempre importante que eles digam o que nós não podemos dizer, sem sermos imediatamente apelidados de palermas com pretensão a pensadores.
Este Estatuto do Aluno, de que fala AB, foi publicado em Janeiro. Com o curso normal das vidas das escolas, só podia ser aplicável um mês depois, após a apreciação pelos órgãos, nomeadamente o Conselho Pedagógico. Quando as coisas passaram para quem lida com elas na prática da realidade, os professores e os Directores de Turma, as estruturas superiores perceberam que não podiam reprovar um aluno em finais de Fevereiro com efeitos retroactivos desde Janeiro. E, no dia 29 de Fevereiro, o Estatuto do Aluno foi suspenso em todas as escolas, por obediência a uma circular emanada do ME.
E assim vai o mundo, como dizia o vozeirão dos documentários que precediam a fita principal nas tardes ou noites de cinema...
A crónica de António Barreto vai ser guardada no sítio do costume.
Mas quem disse foi António Barreto, uma autoridade em termos de pensamento e, especialmente, nas coisas da Educação, já que em tempos muito idos, o PS teve um Governo-Sombra (o nome assusta!) e António Barreto era o Ministro da Educação desse Governo-Sombra. E, como não tinha nenhuma obrigação governativa, a sua ideia da coisa prática estava muito mais próxima do bom do que daqueles que sobem às alturas da 5 de Outubro. Mesmo que não tivesse sido Ministro-Sombra, numa terra onde os fazedores de opinião são uma classe respeitável, é sempre importante que eles digam o que nós não podemos dizer, sem sermos imediatamente apelidados de palermas com pretensão a pensadores.
Este Estatuto do Aluno, de que fala AB, foi publicado em Janeiro. Com o curso normal das vidas das escolas, só podia ser aplicável um mês depois, após a apreciação pelos órgãos, nomeadamente o Conselho Pedagógico. Quando as coisas passaram para quem lida com elas na prática da realidade, os professores e os Directores de Turma, as estruturas superiores perceberam que não podiam reprovar um aluno em finais de Fevereiro com efeitos retroactivos desde Janeiro. E, no dia 29 de Fevereiro, o Estatuto do Aluno foi suspenso em todas as escolas, por obediência a uma circular emanada do ME.
E assim vai o mundo, como dizia o vozeirão dos documentários que precediam a fita principal nas tardes ou noites de cinema...
A crónica de António Barreto vai ser guardada no sítio do costume.
sábado, 29 de março de 2008
A Ponte Vasco da Gama
Chamo-lhe, normalmente, a Ponte do Meu Contentamento. Não é por acaso.Esta Ponte encurtou-me as aflições e para ser perfeita só lhe falta mesmo o respeito de alguns, em termos de velocidades inúteis e desadequadas, numa pista que é de beleza feita e de que se usufrui mais, a menos quilómetros à hora.
Quando eu vim morar para o Montijo, por razões de trabalho, a cidade era autónoma, tinha a sua vida própria e para as pessoas da terra isso era motivo de um orgulho imenso. O Montijo era uma pátria, com os seus costumes e tradições. Por isso resistiu à Ponte com alguma força. A ideia da Ponte desuniu, tendo sido postas a circular petições a favor da construção da ponte e contra a construção da ponte. Quer uns, quer outros, sabiam que a Ponte ia mudar a vida desta cidade e uns sobressaíam o lado mau e outros o bom, o da comunicação mais fácil com Lisboa.
O rio sempre foi uma maneira de combater a distância. Bela, porém de longa duração.
Os cacilheiros demoravam perto de uma hora a fazer a viagem. Mas essa hora era aproveitada ao máximo: leitura, estudo, convívio, jogos de cartas. O Cais dos Vapores tinha vida, apesar das condições do cais propriamente dito. Havia um sino que anunciava a chegada do barco em dias de nevoeiro cerrado. A espera fazia-se numa casa de rudimentar construção e minúscula. Os mais novos e saudáveis faziam a sua espera do lado de fora, à chuva, ao vento e ao sol. A própria viagem podia ser feita num convés (acho que é o termo certo), apreciando-se a beleza do rio, onde até se podia fumar.
Antes da Ponte, chegou o catamarã. O Cais dos Vapores modernizou-se. O casinhoto deu lugar a uma construção "modernaça", mas pouco confortável. Enfim, sempre cabia lá mais gente. E os barcos, ao pé dos antepassados cacilheiros, eram um luxo. O tempo ficou por metade e os prazeres da viagem também. São as facturas do tempo que passamos a vida a pagar.
Depois, a 29 de Março de 1998, nasceu a Ponte Vasco Da Gama. O mundo de Lisboa e arredores desaguou nesta margem e neste lugar e eu não consegui passar a ponte nesse dia. Só no dia seguinte, de manhãzinha.
Percorro hoje a distância da ponte com o mesmo encantamento com que percorri no primeiro dia. A viagem é sempre diferente e sempre marcada pela beleza imutável do rio.
A vida mudou. As pátrias dos de lá e dos de cá uniram-se. A cidade cresceu. Felizmente os prédios não cresceram em altura. Mantém-se a altura dos quatro andares e as excepções já estavam cá antes da ponte. O comércio tradicional respira com muita dificuldade e outras instituições também. É outro dos preços a pagar. Este é talvez o mais amargo.
sexta-feira, 28 de março de 2008
A Caixinha das Surpresas
Acordo todos os dias com um dos noticiários da TSF. É "por querer" e, por isso, não me posso queixar. Às tantas, já estou viciada na adrenalina provocada pelas surpresas de cada manhã. Mas, como estou muito ensonada e os meus neurónios também, a informação demora a chegar ao Centro de Processamento e, naquela semi-lucidez que condiz com as brumas de uma manhã que se preze, o meu entendimento vagueia à procura de uma luz, à luz da qual possa compreender o que se está a passar.Será que as surpresas da TSF são mesmo uma "táctica" para me dissuadir de enveredar por inúteis existencialismos matinais? Embalada pela não-notícia, às vezes, readormeço. Às vezes, não.
Hoje, já não sei se foi o divórcio de Menezes, se o de Sócrates, se o IVA, se a nova travessia...
Não vale a pena saber, pois ao longo do dia a notícia muda, cresce, evolui e não nos devemos prender a saudosismos provocados pelas notícias das sete, oito ou oito e tal da manhã....
quinta-feira, 27 de março de 2008
Ler, escrever e ver o mar
Tenho para mim que ler e escrever são duas terapias eficazes para combater alguns males de espírito, daqueles que se instalam traiçoeiramente em qualquer alma mais ou menos avisada. Que isto das tristezas e afins é um pouco como os males do corpo: prevenir é importante, mas não é tudo.
Além disso, dizem os sábios que os males do corpo também são muito mais facilmente combatíveis com uma boa saúde mental.Seja ou não totalmente verdadeira a ideia, faz algum sentido.
Outra das minhas vacinas contra a tristeza é a contemplação do mar. Tenho de "tomar a vacina" sem falhar nenhum reforço, senão lá se vai o efeito.
O mar, porquê? Não sei se é por ser imenso! Os sentidos todos se perdem de vista perante um mar que aparece pequenino aos nossos pés e cresce, cresce até não mais se ver, perdendo-se completamente numa linha que o separa do céu.
Hoje essa linha está desenhada em prata, mistura preciosa feita de nuvens baixas, mar azul intenso e um brilho persistente quase a rebentar em raios de sol. Ou não! Quem sabe?
Eu não! Que eu não sei nada, ou melhor, sei que nada sei.
Além disso, dizem os sábios que os males do corpo também são muito mais facilmente combatíveis com uma boa saúde mental.Seja ou não totalmente verdadeira a ideia, faz algum sentido.
Outra das minhas vacinas contra a tristeza é a contemplação do mar. Tenho de "tomar a vacina" sem falhar nenhum reforço, senão lá se vai o efeito.
O mar, porquê? Não sei se é por ser imenso! Os sentidos todos se perdem de vista perante um mar que aparece pequenino aos nossos pés e cresce, cresce até não mais se ver, perdendo-se completamente numa linha que o separa do céu.
Hoje essa linha está desenhada em prata, mistura preciosa feita de nuvens baixas, mar azul intenso e um brilho persistente quase a rebentar em raios de sol. Ou não! Quem sabe?
Eu não! Que eu não sei nada, ou melhor, sei que nada sei.
quarta-feira, 26 de março de 2008
Ainda a questão do respeito
Afinal, continua a falar-se demais na professora, como se não fosse alguém com nome e rosto. E eu continuo a sentir que o respeito desapareceu dos códigos de conduta de muitos e muito dignos representantes da nossa dita classe média, intelectualizada, pensante e portadora de valores, com obrigação de os transmitir aos outros, mais novos ou não.
A Isabel deixou este comentário. Peço autorização para reproduzir aqui: (...) considero eticamente discutível a divulgação (ainda por cima até à exaustão) do vídeo pela comunicação social. A professora não é uma mera figura simbólica, tem rosto, é uma pessoa. Se lhe pediram autorização e a deu, tudo bem. Mas duvido, e, então, como se vai agora ensinar os jovens que não se deve (creio até que é proibido por lei) publicar filmes de espaços não públicos sem autorização dos filmados? Hoje são aulas, amanhã vai um garoto de telemóvel a casa de um amigo, filma uma cena familiar a que assiste e publica no YouTube ou noutro sítio qualquer, e se depois argumenta que a comunicação social também já fez divulgações dessas para todo o país, que lhes respondem os educadores?
(O caso podia ter sido descrito; usar o vídeo acho discutível. E a primeira condição para que os putos reconheçam autoridade nos adultos e os respeitem é que estes dêem o exemplo nomeadamente de respeito)
As más surpresas sobre o tratamento deste assunto vão surgindo um pouco por todo o lado. Eu já vivi, dentro da escola e dentro da sala de aula, situações muito difíceis que nunca irei contar em espaços públicos. Tenho, por isso, uma noção do respeito e da solidariedade que faz falta a esta professora e a todos nós professores.
E não pensemos que as responsabilidades se confinam às famílias, nomeadamente aos pais. Nós também lidamos com os pais e não os temos como inimigos, como adversários. Eles também se debatem com angústias e, muitas vezes, com um imenso sentimento de vergonha, que só os mais fortes conseguem ultrapassar, sem magoar ninguém pelo caminho.
É a sociedade em geral que está a não-educar para o respeito. E a abusiva transmissão do vídeo agudiza a dor da humilhação. Na pessoa desta professora, há uma humilhação colectiva.
Felizmente, posso ir à janela e apanhar a nesga de mar que me coube em sorte e, se apurar a atenção para os sons que me chegam, consigo ouvir o vento e as gaivotas.
A Isabel deixou este comentário. Peço autorização para reproduzir aqui: (...) considero eticamente discutível a divulgação (ainda por cima até à exaustão) do vídeo pela comunicação social. A professora não é uma mera figura simbólica, tem rosto, é uma pessoa. Se lhe pediram autorização e a deu, tudo bem. Mas duvido, e, então, como se vai agora ensinar os jovens que não se deve (creio até que é proibido por lei) publicar filmes de espaços não públicos sem autorização dos filmados? Hoje são aulas, amanhã vai um garoto de telemóvel a casa de um amigo, filma uma cena familiar a que assiste e publica no YouTube ou noutro sítio qualquer, e se depois argumenta que a comunicação social também já fez divulgações dessas para todo o país, que lhes respondem os educadores?
(O caso podia ter sido descrito; usar o vídeo acho discutível. E a primeira condição para que os putos reconheçam autoridade nos adultos e os respeitem é que estes dêem o exemplo nomeadamente de respeito)
As más surpresas sobre o tratamento deste assunto vão surgindo um pouco por todo o lado. Eu já vivi, dentro da escola e dentro da sala de aula, situações muito difíceis que nunca irei contar em espaços públicos. Tenho, por isso, uma noção do respeito e da solidariedade que faz falta a esta professora e a todos nós professores.
E não pensemos que as responsabilidades se confinam às famílias, nomeadamente aos pais. Nós também lidamos com os pais e não os temos como inimigos, como adversários. Eles também se debatem com angústias e, muitas vezes, com um imenso sentimento de vergonha, que só os mais fortes conseguem ultrapassar, sem magoar ninguém pelo caminho.
É a sociedade em geral que está a não-educar para o respeito. E a abusiva transmissão do vídeo agudiza a dor da humilhação. Na pessoa desta professora, há uma humilhação colectiva.
Felizmente, posso ir à janela e apanhar a nesga de mar que me coube em sorte e, se apurar a atenção para os sons que me chegam, consigo ouvir o vento e as gaivotas.
segunda-feira, 24 de março de 2008
Porque é que tens um blog?
Porque é que tens um blog?, pergunta-me a Laura.
Se queres que te diga das verdadeiras razões, vais ter de me desculpar algum esquecimento que o tempo poisou sobre a minha memória, pois nestes três anos, quase quatro de Chora que Logo Bebes aconteceu tanto na minha vida, que as razões primeiras se entrelaçam em razões adquiridas e não conseguirei enumerar todas, sem perder um pouco o fio à meada.
Começa tudo num site chamado Pastilhas, criado pela imaginação avassaladoramente milionária do MEC. A metáfora básica era a de um consultório médico e a vida do site desenvolvia-se à imagem da vida de um consultório médico. Com Urgências. Mas este Serviço Nacional de saúde acabou por acabar, como tudo na vida, não tanto por ser bom, mas mais por ser isso mesmo: cheio de vida.
Era tão difícil ter um espaço na net, que o patrocinador primeiro acabou por obrigar os "doentes" a pagar uma taxa moderadora. Já se viu proceder ao pagamento de uma taxa moderadora, com alegria? Eu já vi!
Mas as coisas nem com taxa moderadora se resolveram e o consultório deixou de ter o Doutor, às terças-feiras. Depois deixou de ter Doutor e passou a regime de voluntariado. E foi acabando.
Mas à medida que acabava, nascia a Blogosfera e os pacientes com mais talento e mais assunto, abriam os seus espaços próprios e interagiam assim, não abandonado contudo o espaço Pastilhas, onde deixavam cópia dos melhores achados da Blogosfera, a que chamavam pérolas e bem.
Mantive-me espectadora durante muito tempo. Não que não tivesse vontade de participar! Mas temia envolver-me em polémicas inúteis que me desgastariam até à alma, porque, de algum modo me conheço e (confesso!) não sei aguentar uma polémica, sobretudo na vida virtual, por muita razão que sinta. Sou muito "má" nisso.(Fica o aviso!)
O tempo foi passando.
Quase todos os Pastilhas tinham o seu blog. Comecei a aventurar-me em casas alheias e o gosto pela Blogologia foi aumentando. Até que um "sobrinho" (Eu era a Super-Tia!) se prontificou a ajudar-me a construir um blog, com a minha identidade verdadeira e completamente "de verdade".
Obrigada, Pedro! Não sei se já te restabeleceste da "febre de sábado à noite" de Faro? Um beijinho para ti e para as tuas princesas. Obrigada, Eduardo, Titas, Zazie, Papoilinda, Charlotte, Renata e Renata Tangerina,JMF, Tito Casquinha...
É por isso que eu tenho um blog: para estar por aqui, com boas companhias!
Disse, Laurinha?
Se queres que te diga das verdadeiras razões, vais ter de me desculpar algum esquecimento que o tempo poisou sobre a minha memória, pois nestes três anos, quase quatro de Chora que Logo Bebes aconteceu tanto na minha vida, que as razões primeiras se entrelaçam em razões adquiridas e não conseguirei enumerar todas, sem perder um pouco o fio à meada.
Começa tudo num site chamado Pastilhas, criado pela imaginação avassaladoramente milionária do MEC. A metáfora básica era a de um consultório médico e a vida do site desenvolvia-se à imagem da vida de um consultório médico. Com Urgências. Mas este Serviço Nacional de saúde acabou por acabar, como tudo na vida, não tanto por ser bom, mas mais por ser isso mesmo: cheio de vida.
Era tão difícil ter um espaço na net, que o patrocinador primeiro acabou por obrigar os "doentes" a pagar uma taxa moderadora. Já se viu proceder ao pagamento de uma taxa moderadora, com alegria? Eu já vi!
Mas as coisas nem com taxa moderadora se resolveram e o consultório deixou de ter o Doutor, às terças-feiras. Depois deixou de ter Doutor e passou a regime de voluntariado. E foi acabando.
Mas à medida que acabava, nascia a Blogosfera e os pacientes com mais talento e mais assunto, abriam os seus espaços próprios e interagiam assim, não abandonado contudo o espaço Pastilhas, onde deixavam cópia dos melhores achados da Blogosfera, a que chamavam pérolas e bem.
Mantive-me espectadora durante muito tempo. Não que não tivesse vontade de participar! Mas temia envolver-me em polémicas inúteis que me desgastariam até à alma, porque, de algum modo me conheço e (confesso!) não sei aguentar uma polémica, sobretudo na vida virtual, por muita razão que sinta. Sou muito "má" nisso.(Fica o aviso!)
O tempo foi passando.
Quase todos os Pastilhas tinham o seu blog. Comecei a aventurar-me em casas alheias e o gosto pela Blogologia foi aumentando. Até que um "sobrinho" (Eu era a Super-Tia!) se prontificou a ajudar-me a construir um blog, com a minha identidade verdadeira e completamente "de verdade".
Obrigada, Pedro! Não sei se já te restabeleceste da "febre de sábado à noite" de Faro? Um beijinho para ti e para as tuas princesas. Obrigada, Eduardo, Titas, Zazie, Papoilinda, Charlotte, Renata e Renata Tangerina,JMF, Tito Casquinha...
É por isso que eu tenho um blog: para estar por aqui, com boas companhias!
Disse, Laurinha?
domingo, 23 de março de 2008
Uma questão de respeito
Por uma questão de respeito, e tão-somente por respeito, penso que o acontecimento da Escola devia deixar de ser aproveitado, sobretudo pela classe política, que tem, no mínimo, uma grande parte de responsabilidade sobre o que está a acontecer nas nossas instituições, sejam elas escolas ou outras.
Pelos jornais e televisões, também.
O que tinha de ser dito já foi dito. Se foi dito, com seriedade e com a preocupação inerentes a um incidente tão grave, e em momento próprio, foi bem dito.
Agora, passados que são já alguns dias sobre o acontecimento, dissecá-lo até às vísceras é, para mim, uma enorme falta de respeito para com a professora.
Quando não há já nada para dizer, as televisões passam em rodapé, nos vários noticiários, que "a professora agredida está em casa". Onde é que havia de estar?
A verdadeira compreensão e solidariedade para com a professora passam agora por uma atitude de contenção da ânsia de comentar, inutilmente, o comentado.
Pelos jornais e televisões, também.
O que tinha de ser dito já foi dito. Se foi dito, com seriedade e com a preocupação inerentes a um incidente tão grave, e em momento próprio, foi bem dito.
Agora, passados que são já alguns dias sobre o acontecimento, dissecá-lo até às vísceras é, para mim, uma enorme falta de respeito para com a professora.
Quando não há já nada para dizer, as televisões passam em rodapé, nos vários noticiários, que "a professora agredida está em casa". Onde é que havia de estar?
A verdadeira compreensão e solidariedade para com a professora passam agora por uma atitude de contenção da ânsia de comentar, inutilmente, o comentado.
sábado, 22 de março de 2008
Escolas e tempos
"A velha escola do Senhor Botelho. Mais sol, mais higiene, menos gramática e menos palmatoadas." Miguel Torga, Dezembro de 1976.
Pink Floyd- 1979
"A dita aluna berrou e agrediu a professora. Não a deixou sair da sala. À volta, a turma ria e comentava: "Olha que a velha vai cair!", por exemplo. No fim, já havia um molho tumultuário e confuso, que outra criancinha prestavelmente filmava e que dali a pouco apareceu no YouTube e, a seguir, na televisão. Convém acrescentar que a professora era pequena e frágil e a aluna alta, anafada e forte. A brutalidade da coisa constrangia." Vasco Pulido Valente, Março 2008
Pink Floyd- 1979
"A dita aluna berrou e agrediu a professora. Não a deixou sair da sala. À volta, a turma ria e comentava: "Olha que a velha vai cair!", por exemplo. No fim, já havia um molho tumultuário e confuso, que outra criancinha prestavelmente filmava e que dali a pouco apareceu no YouTube e, a seguir, na televisão. Convém acrescentar que a professora era pequena e frágil e a aluna alta, anafada e forte. A brutalidade da coisa constrangia." Vasco Pulido Valente, Março 2008
sexta-feira, 21 de março de 2008
Hoje é dia da Poesia!
Se é um poema fraterno que pedis,
arrancai-o de mim, escavando-lhe a raiz,
E plantai-o no vosso coração.
Nunca pegou nenhum? Tão infeliz
era o terreno da plantação!
Miguel Torga
arrancai-o de mim, escavando-lhe a raiz,
E plantai-o no vosso coração.
Nunca pegou nenhum? Tão infeliz
era o terreno da plantação!
Miguel Torga
quinta-feira, 20 de março de 2008
There's a tiny person on that speck that needs my help!
Acabamos sempre a acreditar que pode haver, no meio de um imenso Universo, um ser maravilhosamente bom que se digne ajudar o mais humilde, ou o mais humilhado!, representante da humanidade. Nem precisa de ser humano para representar a humanidade.Basta notar-se que precisa de ajuda.
E se houver por perto alguém com uma generosidade do tamanho de um elefante, o grande banquete universal é sonho certo!
Tenho de ver este filme!
Imagem do jornal Público!
(...)
Antonio Muñoz Molina: "Los grandes beneficiados de la emancipación da la mujer somos los hombres."
Eu já tinha dado por isso...
Eu já tinha dado por isso...
quarta-feira, 19 de março de 2008
"Era só o que faltava"
Ou "Era só o que mais faltava", foi a expressão utilizada pela Ministra da Educação no Parlamento, esta tarde, para rebater o argumento de que as notas dos alunos não devem contar para a avaliação dos professores.
Afinal, de que é que falamos, quando falamos de aprender e ensinar?
Há tanta coisa para falar, antes de falar das notas.
Reportando-me à minha realidade, o que me preocupa neste momento é a disciplina.
Outra das minhas preocupações, repito que me reporto à minha realidade, é o recreio. E até me atrevo a dizer que anda tudo ligado.
As palavras que mais se ouvem nos recreios são palavras obscenas, que vão além do calão mais frequente. É a violência verbal, que seria considerada apenas gratuita, se não fossem meninos e meninas que largaram as fraldas há menos de uma dúzia de anos a dizê-las, a gritá-las.
As nossas crianças estão a desaprender a brincadeira saudável da liberdade do recreio. Sei que é um lirismo, mas os recreios deviam significar a liberdade e não significam. O "recreio" é um stress: para comprar a senha do almoço, a cartolina para o trabalho de AP, para telefonar e mandar mensagens do telemóvel, para chegar à máquina das gulodices, com umas águas para disfarçar. Tudo isto entremeado de palavrão sim, palavrão sim.
A violência do recreio é um indicador a não subestimar de uma juventude que não sabe o que é que o futuro lhe reserva. Então, pelo sim pelo não, esmaga já a semente de liberdade, artilha-a de espinhos e aprende a atirar para o ar, sem querer saber quem vai apanhar com a bala e, muito menos, onde.
Estas palavras entram pelos ouvidos, atravessam a cabeça, mas é normalmente no coração que deixam marca. Mas a marca, em alguns, faz calo. E já nem dói. E isso é que está mal. É a estima individual a morrer aos poucos, vítima destas guerras que não têm educação nenhuma.
Muito menos nota.
Eu posso dar aos meus alunos os cincos todos, Senhora Ministra. Não custa nada. Mas uma grande parte do ser humano constrói-se a partir da auto-estima, que não se esgota numa nota. E, a julgar pelos recreios, a auto-estima está em crise na educação das nossas crianças. A auto-estima imprime-se na humanidade e na sensibilidade de um aluno, determinando-lhe um futuro.
Se não os educarmos para a liberdade e para o respeito, nada feito!
Afinal, de que é que falamos, quando falamos de aprender e ensinar?
Há tanta coisa para falar, antes de falar das notas.
Reportando-me à minha realidade, o que me preocupa neste momento é a disciplina.
Outra das minhas preocupações, repito que me reporto à minha realidade, é o recreio. E até me atrevo a dizer que anda tudo ligado.
As palavras que mais se ouvem nos recreios são palavras obscenas, que vão além do calão mais frequente. É a violência verbal, que seria considerada apenas gratuita, se não fossem meninos e meninas que largaram as fraldas há menos de uma dúzia de anos a dizê-las, a gritá-las.
As nossas crianças estão a desaprender a brincadeira saudável da liberdade do recreio. Sei que é um lirismo, mas os recreios deviam significar a liberdade e não significam. O "recreio" é um stress: para comprar a senha do almoço, a cartolina para o trabalho de AP, para telefonar e mandar mensagens do telemóvel, para chegar à máquina das gulodices, com umas águas para disfarçar. Tudo isto entremeado de palavrão sim, palavrão sim.
A violência do recreio é um indicador a não subestimar de uma juventude que não sabe o que é que o futuro lhe reserva. Então, pelo sim pelo não, esmaga já a semente de liberdade, artilha-a de espinhos e aprende a atirar para o ar, sem querer saber quem vai apanhar com a bala e, muito menos, onde.
Estas palavras entram pelos ouvidos, atravessam a cabeça, mas é normalmente no coração que deixam marca. Mas a marca, em alguns, faz calo. E já nem dói. E isso é que está mal. É a estima individual a morrer aos poucos, vítima destas guerras que não têm educação nenhuma.
Muito menos nota.
Eu posso dar aos meus alunos os cincos todos, Senhora Ministra. Não custa nada. Mas uma grande parte do ser humano constrói-se a partir da auto-estima, que não se esgota numa nota. E, a julgar pelos recreios, a auto-estima está em crise na educação das nossas crianças. A auto-estima imprime-se na humanidade e na sensibilidade de um aluno, determinando-lhe um futuro.
Se não os educarmos para a liberdade e para o respeito, nada feito!
sábado, 15 de março de 2008
Até tu, MEC...
...envelheceste!
O MEC é uma referência muito importante para a minha geração. Ele pensava as coisas que se passavam à nossa volta, que aconteciam e dizia-as com naturalidade, sem pudores nem despudores, construindo assim uma espécie de consciência dos trintinhos e trintões de então.
Não havia Internet, mas havia o Expresso ao sábado de manhã, para ler sofregamente a crónica dos tempos que corriam, num estilo que era novo, desabrido, a rondar os limites, sem os ultrapssar, deixando-nos o apetite "aberto" para a semana seguinte.
(Abrir o apetite é uma expresão um pouco mais velha do que o MEC e faz-nos nascer na boca o sabor do óleo de fígado de bacalhau de má mémória!!!)
Era o tempo das amplas liberdades democráticas e das primeiras preocupações com as doenças que vinham de longe, como a Sida, tão poderosamente perigosas que derrubavam mitos, como o galã mais irresistível da tela: Rock Hudson. Era o tempo das primeiras proibições do fumo. Era o princípio do fundamentalismo: "Fume Menos, Leia Mais" é um slogan de que não me lembro, mas está nas crónicas do MEC. Daqui ao "Não se embebede tanto- Compre pilhas Tudor" e outras ridículas hipóteses de frases publicitárias foi um segundo. A critividade do MEC esteve sempre ao serviço da crítica social "à maneira de Gil Vicente", como dizem os que fazem hoje esse papel.
O MEC era novo, irreverente, tinha orelhas de abano e um tique horrível para quem o via em vez de ler. Mas era incontornável na sua capacidade de criticar, criticando-se a si mesmo, coerentemente, já que parte de si sofreu sempre de um portuguesismo agudo. A parte mais britânica é que o punha a funcionar, penso eu!
Anteontem o MEC voltou às colunas dos jornais. Do Público. Curiosamente, o jornal sobre o qual escreveu algumas amargas linhas na Causa das Coisas. Considerando que "A democracia, na política é um bom conceito" e que "Nas artes, em contrapartida, é uma boa chatice", o MEC golpeia a vaidade do jornal acabado de nascer.
Isso deve ter sido muito bom para o Público e possivelmente manteve os jornalistas preocupados com os críticos e assim obrigados a uma qualidade jornalistica minimamente aceitável para os leitores pensantes.
O MEC tem escrito por aí noutros jornais não tão diários nem tão lidos como o Público. Estou convencida de que agora vai ficar mais visto e mais lido. E isso é bom. A escrita do MEC mantém as marcas dos "loucos anos oitenta" e faz-nos reviver essa consciência perdida.
Mesmo mais gordinho e mais velhote, o MEC é um verdadeiro óleo fígado de bacalhau para o nosso pensamento. Depois de o lermos, apetece pensar.
Gusrdei aqui as duas primeirs crónicas desta era século vinte e um.
Não havia Internet, mas havia o Expresso ao sábado de manhã, para ler sofregamente a crónica dos tempos que corriam, num estilo que era novo, desabrido, a rondar os limites, sem os ultrapssar, deixando-nos o apetite "aberto" para a semana seguinte.
(Abrir o apetite é uma expresão um pouco mais velha do que o MEC e faz-nos nascer na boca o sabor do óleo de fígado de bacalhau de má mémória!!!)
Era o tempo das amplas liberdades democráticas e das primeiras preocupações com as doenças que vinham de longe, como a Sida, tão poderosamente perigosas que derrubavam mitos, como o galã mais irresistível da tela: Rock Hudson. Era o tempo das primeiras proibições do fumo. Era o princípio do fundamentalismo: "Fume Menos, Leia Mais" é um slogan de que não me lembro, mas está nas crónicas do MEC. Daqui ao "Não se embebede tanto- Compre pilhas Tudor" e outras ridículas hipóteses de frases publicitárias foi um segundo. A critividade do MEC esteve sempre ao serviço da crítica social "à maneira de Gil Vicente", como dizem os que fazem hoje esse papel.
O MEC era novo, irreverente, tinha orelhas de abano e um tique horrível para quem o via em vez de ler. Mas era incontornável na sua capacidade de criticar, criticando-se a si mesmo, coerentemente, já que parte de si sofreu sempre de um portuguesismo agudo. A parte mais britânica é que o punha a funcionar, penso eu!
Anteontem o MEC voltou às colunas dos jornais. Do Público. Curiosamente, o jornal sobre o qual escreveu algumas amargas linhas na Causa das Coisas. Considerando que "A democracia, na política é um bom conceito" e que "Nas artes, em contrapartida, é uma boa chatice", o MEC golpeia a vaidade do jornal acabado de nascer.
Isso deve ter sido muito bom para o Público e possivelmente manteve os jornalistas preocupados com os críticos e assim obrigados a uma qualidade jornalistica minimamente aceitável para os leitores pensantes.
O MEC tem escrito por aí noutros jornais não tão diários nem tão lidos como o Público. Estou convencida de que agora vai ficar mais visto e mais lido. E isso é bom. A escrita do MEC mantém as marcas dos "loucos anos oitenta" e faz-nos reviver essa consciência perdida.
Mesmo mais gordinho e mais velhote, o MEC é um verdadeiro óleo fígado de bacalhau para o nosso pensamento. Depois de o lermos, apetece pensar.
Gusrdei aqui as duas primeirs crónicas desta era século vinte e um.
quinta-feira, 13 de março de 2008
O remédio do dia seguinte!
Mas... há sempre o remédio do dia seguinte:

Importante - uél cãme a um novo espaço cultural: É uma espécie de Chuinga's.
Tem uma espécie de iniciativas muito modernas. A saber: uma excursão de camioneta à manif de desagravo do Sr José. (Pode ser uma daquelas viaturas que não chegaram a Lisboa, que a autoridade reteve em Aveiras?). A Dé também vai e é uma espécie de senhora como "deve-de-ser". Não tem nada a ver com essa gente que por tudo e por nada vem para a rua gritar contra os senhores governantes, esses pobres sacrificados pelo bem comum. Nada disso!
Logo, nada a temer!
Nada a temer, a não ser o próprio Sr José!
Mas, atenção, sobre este novo lugar, não contem nada à Autoridade de Segurança Alimentar e Económica.(Vai assim com o nome todo porque o nickname é muito conhecido e pode levantar suspeitas!)
Não vale monopolizar as brincadeiras às queixinhas, que isso não é bonito. Há mais quem queira brincar.
Sugestão extra - Se quiser jogar o jogo das queixinhas à ASAE, pode dizer que, há uma escola onde "anda" uma prof de Inglês fora de prazo. Se eu fosse o Jorge Gabriel aproveitava esta "dica" para o concurso.
(Este é daqueles jogos que não se pode brincar sozinho. Não posso ser eu a queixar-me de mim à ASAE. Ou posso?)

Importante - uél cãme a um novo espaço cultural: É uma espécie de Chuinga's.
Tem uma espécie de iniciativas muito modernas. A saber: uma excursão de camioneta à manif de desagravo do Sr José. (Pode ser uma daquelas viaturas que não chegaram a Lisboa, que a autoridade reteve em Aveiras?). A Dé também vai e é uma espécie de senhora como "deve-de-ser". Não tem nada a ver com essa gente que por tudo e por nada vem para a rua gritar contra os senhores governantes, esses pobres sacrificados pelo bem comum. Nada disso!
Logo, nada a temer!
Nada a temer, a não ser o próprio Sr José!
Mas, atenção, sobre este novo lugar, não contem nada à Autoridade de Segurança Alimentar e Económica.(Vai assim com o nome todo porque o nickname é muito conhecido e pode levantar suspeitas!)
Não vale monopolizar as brincadeiras às queixinhas, que isso não é bonito. Há mais quem queira brincar.
Sugestão extra - Se quiser jogar o jogo das queixinhas à ASAE, pode dizer que, há uma escola onde "anda" uma prof de Inglês fora de prazo. Se eu fosse o Jorge Gabriel aproveitava esta "dica" para o concurso.
(Este é daqueles jogos que não se pode brincar sozinho. Não posso ser eu a queixar-me de mim à ASAE. Ou posso?)
quarta-feira, 12 de março de 2008
Esta escola não é para velhos!
A vida tem um sentido único.
Ninguém volta ao que já passou, diz a Cantiga do Pastor.
Além de irrepetível, a vida é irreversível. Nada que alguém possa lamentar não ter tido já prova, por vezes amarga.
Um dia, tive de escolher para os meus filhos uma das duas escolas: a pública e a privada. Escolhi a pública pois, apesar de eu estar na altura a dar aulas no ensino privado, considerei que não podia desperdiçar para os meus filhos a aprendizagem de vida que a escola pública proporcionava. Queria que os meus filhos conquistassem "os olhos de ver o mundo" e a sabedoria vivida do Zé Pimpão.
Os meus filhos cresceram e eu, em momento algum, lamentei a escolha. Tiveram todo o género de professores e isso enriqueceu-os. Diferentes, porém ligados pelo entusiasmo, o enorme orgulho e a imensa responsabilidade de terem nas mãos o futuro. Nesta escola, os meus filhos aprenderam a respeitar a diferença e a defender as suas próprias ideias. Aprenderam a pensar, porque era tão natural ensinar a pensar como ensinar a ler e a escrever.
Talvez seja sinal de velhice sentir saudade ao pensar nesta escola que foi a minha na minha idade dourada. Não é "talvez". É mesmo "é". O figurino que a moda actual dita não me serve. O novo figurino exige que todos os professores vistam as mesmas medidas. É mais uma ditadura que vem juntar-se à da magreza, da beleza com "botox", da juventude e até à da saúde perfeita.
Nem este país é para velhos, nem esta escola não é para velhos!
Ninguém volta ao que já passou, diz a Cantiga do Pastor.
Além de irrepetível, a vida é irreversível. Nada que alguém possa lamentar não ter tido já prova, por vezes amarga.
Um dia, tive de escolher para os meus filhos uma das duas escolas: a pública e a privada. Escolhi a pública pois, apesar de eu estar na altura a dar aulas no ensino privado, considerei que não podia desperdiçar para os meus filhos a aprendizagem de vida que a escola pública proporcionava. Queria que os meus filhos conquistassem "os olhos de ver o mundo" e a sabedoria vivida do Zé Pimpão.
Os meus filhos cresceram e eu, em momento algum, lamentei a escolha. Tiveram todo o género de professores e isso enriqueceu-os. Diferentes, porém ligados pelo entusiasmo, o enorme orgulho e a imensa responsabilidade de terem nas mãos o futuro. Nesta escola, os meus filhos aprenderam a respeitar a diferença e a defender as suas próprias ideias. Aprenderam a pensar, porque era tão natural ensinar a pensar como ensinar a ler e a escrever.
Talvez seja sinal de velhice sentir saudade ao pensar nesta escola que foi a minha na minha idade dourada. Não é "talvez". É mesmo "é". O figurino que a moda actual dita não me serve. O novo figurino exige que todos os professores vistam as mesmas medidas. É mais uma ditadura que vem juntar-se à da magreza, da beleza com "botox", da juventude e até à da saúde perfeita.
Nem este país é para velhos, nem esta escola não é para velhos!
terça-feira, 11 de março de 2008
domingo, 9 de março de 2008
O dia em que o povo saiu à rua
Parafraseando a cantiga dos Green Windows, o povo saiu à rua, com a razão que costumava ter.
O sol não chegou a dissipar as nuvens sobre Lisboa! As dúvidas de que os professores se movem pela restauração da dignidade do seu ofício, essas ter-se-ão dissolvido na mole humana desceu a Avenida que tem por nome a razão máxima de todas as causas.
Só há dignidade, se houver liberdade.
Eu queria ter a liberdade de escolher não participar nesta farsa de avaliar colegas meus que sabem tanto ou mais do que eu. Eu quero ter a liberdade de continuar a aprender com eles e com elas, como sempre fizemos, dentro do espírito da partilha de experiências que fez culto entre nós.
A Senhora Ministra disse na Grande Entrevista que os professores estavam a trabalhar "entusiasmados" na avaliação. Ontem, falou em insatisfação dos professores, numa entrevista à TSF. Em que é que ficamos Senhora Ministra? Um dia estamos entusiasmados a "fabricar grelhas" até às tantas, para, no dia seguinte, derramarmos a nossa insatisfação na Avenida da Liberdade?
Eu quero ter a liberdade de propor ao Conselho de Turma níveis justos para os meus alunos, descontamindaos do medo de não estar a cumprir metas de ficção, por causa da avaliação. Eu quero que os alunos e eu percebamos a nossa verdade e que alinhemos juntos na defesa dos seus próprios interesses! Eu quero os pais a falar comigo, sempre que for preciso, com os corações nas mãos, os deles e o meu, que somos todos partes da mesma solução de sucesso de vida!
Eu quero liberdade, verdade e dignidade!
O sol não chegou a dissipar as nuvens sobre Lisboa! As dúvidas de que os professores se movem pela restauração da dignidade do seu ofício, essas ter-se-ão dissolvido na mole humana desceu a Avenida que tem por nome a razão máxima de todas as causas.
Só há dignidade, se houver liberdade.
Eu queria ter a liberdade de escolher não participar nesta farsa de avaliar colegas meus que sabem tanto ou mais do que eu. Eu quero ter a liberdade de continuar a aprender com eles e com elas, como sempre fizemos, dentro do espírito da partilha de experiências que fez culto entre nós.
A Senhora Ministra disse na Grande Entrevista que os professores estavam a trabalhar "entusiasmados" na avaliação. Ontem, falou em insatisfação dos professores, numa entrevista à TSF. Em que é que ficamos Senhora Ministra? Um dia estamos entusiasmados a "fabricar grelhas" até às tantas, para, no dia seguinte, derramarmos a nossa insatisfação na Avenida da Liberdade?
Eu quero ter a liberdade de propor ao Conselho de Turma níveis justos para os meus alunos, descontamindaos do medo de não estar a cumprir metas de ficção, por causa da avaliação. Eu quero que os alunos e eu percebamos a nossa verdade e que alinhemos juntos na defesa dos seus próprios interesses! Eu quero os pais a falar comigo, sempre que for preciso, com os corações nas mãos, os deles e o meu, que somos todos partes da mesma solução de sucesso de vida!
Eu quero liberdade, verdade e dignidade!
sábado, 8 de março de 2008
Hoje Há Aulas!
Hoje a aula é prática.
Hoje vamos falar de Verdade!
Na sua essência a Verdade é a mesma para todos nós.
Tal como o coração e outros órgãos, a Verdade de cada um é feita da mesma matéria prima, dos mesmos nervos e da mesma fibra.
Muda-se a cara, o tamanho, a voz, mas a verdade de cada um deve permanecer igual. Devemos permanecer fieis à nossa Verdade original. Àquela com que nascemos e traz genes dos nossos pais e dos nossos avós. Passá-la-emos aos nossos filhos e aos nossos netos, que a usarão sempre nos momentos mais importantes das suas vidas.
Hoje vamos experimentar a nossa Verdade! É uma aula prática!
Hoje vamos falar de Verdade!
Na sua essência a Verdade é a mesma para todos nós.
Tal como o coração e outros órgãos, a Verdade de cada um é feita da mesma matéria prima, dos mesmos nervos e da mesma fibra.
Muda-se a cara, o tamanho, a voz, mas a verdade de cada um deve permanecer igual. Devemos permanecer fieis à nossa Verdade original. Àquela com que nascemos e traz genes dos nossos pais e dos nossos avós. Passá-la-emos aos nossos filhos e aos nossos netos, que a usarão sempre nos momentos mais importantes das suas vidas.
Hoje vamos experimentar a nossa Verdade! É uma aula prática!
Sim, sou Professora!
Isto, às vezes, parece uma missão impossível.
Tão impossível, que a máquina do tempo entra em funcionamento, de modo quase automático, permitindo a cada um de nós uma entrada num tempo onde o melhor de cada ser humano fica a morar, para sempre: a infância!
Ao professor foi dado um visto de permanência nesta Terra do Nunca. É esse visto e o passaporte que estão a ser danificados. Corre-se o sério risco de se perder o documento autêntico, o verdadeiro, o original, no meio de tanta papelada, por mais Muito Bons ou Excelentes que contenham!
Não ponho esperança em mais nada.
E se puser
há-de ser ambição tão desmedida
que não me caiba sequer
no que me resta de vida.
Foi um "professor" que me ensinou estes versos de Reinaldo Ferreira: o meu pai.
Foram os primeiros versos que aprendi, à saída da Terra do Nunca, da minha Terra do Nunca.
Hoje, com o passaporte carimbado de rugas, artroses e variações de estados de alma, afirmo, vaidosamente: Sim, sou Professora!
E depois?
Tão impossível, que a máquina do tempo entra em funcionamento, de modo quase automático, permitindo a cada um de nós uma entrada num tempo onde o melhor de cada ser humano fica a morar, para sempre: a infância!
Ao professor foi dado um visto de permanência nesta Terra do Nunca. É esse visto e o passaporte que estão a ser danificados. Corre-se o sério risco de se perder o documento autêntico, o verdadeiro, o original, no meio de tanta papelada, por mais Muito Bons ou Excelentes que contenham!
Não ponho esperança em mais nada.
E se puser
há-de ser ambição tão desmedida
que não me caiba sequer
no que me resta de vida.
Foi um "professor" que me ensinou estes versos de Reinaldo Ferreira: o meu pai.
Foram os primeiros versos que aprendi, à saída da Terra do Nunca, da minha Terra do Nunca.
Hoje, com o passaporte carimbado de rugas, artroses e variações de estados de alma, afirmo, vaidosamente: Sim, sou Professora!
E depois?
sexta-feira, 7 de março de 2008
quinta-feira, 6 de março de 2008
Obrigada, Laura!
Obrigada, Laura, pelas palavras de compreensão. Diria que são de conforto, como se se tratasse de um momento especialmente doloroso para nós professores.
E tu sabes bem que isto é verdade: eu não quero desistir. Eu quero continuar.
Tenho um sonho: ainda hei-de ver o dia em que a acção ganhe ao papel esta guerra que é de vidas reais e não de faz de conta.
Neste momento eu não registo os contactos com os Encarregados de Educação, no âmbito da Direcção de Turma. Confio neles porque são meus companheiros (diz-se parceiros, não é?) na educação dos filhos. São meus aliados e não meus inimigos. Trabalhamos do mesmo lado da esperança, com olhos postos num ponto do horizonte onde, pensamos, se situa o futuro. Rejeito veementemente alistar-me nas fileiras dos que defendem o reino do papel, para provar o que fiz ou não fiz. Faço ou não faço, ajo ou não ajo, orientada pelo melhor que há dentro de mim.
Mais uma vez: obrigada, Laura!
E tu sabes bem que isto é verdade: eu não quero desistir. Eu quero continuar.
Tenho um sonho: ainda hei-de ver o dia em que a acção ganhe ao papel esta guerra que é de vidas reais e não de faz de conta.
Neste momento eu não registo os contactos com os Encarregados de Educação, no âmbito da Direcção de Turma. Confio neles porque são meus companheiros (diz-se parceiros, não é?) na educação dos filhos. São meus aliados e não meus inimigos. Trabalhamos do mesmo lado da esperança, com olhos postos num ponto do horizonte onde, pensamos, se situa o futuro. Rejeito veementemente alistar-me nas fileiras dos que defendem o reino do papel, para provar o que fiz ou não fiz. Faço ou não faço, ajo ou não ajo, orientada pelo melhor que há dentro de mim.
Mais uma vez: obrigada, Laura!
quarta-feira, 5 de março de 2008
Para mais tarde... sorrir!
Do lado de lá do vidro, apareceu, magicamente, uma "mão cheia" de meninos quase rapazes que, indiferentes às regras, às campainhas, à presença das professoras na sala de aula, "puxavam" a Ana para o mundo lá-fora, com gestos e palavras com registos de urgências invisíveis aos olhos de quem já cresceu há muito tempo, muito tempo mesmo.
Uma das professoras saiu e indagou as razões:
- Ó Setora, eu vou explicar!- começou um, cheio da boa vontade de quem não pertence ao problema mas procura a solução. É assim: a Ana namora com este rapaz- pôs a mãos no peito do outro, indo assim direito à localização do amor, num corpo ainda pequeno- mas andaram a dizer que ela afinal namora com este.
O primeiro não conseguia esconder a raiva da possível traição. O segundo arvorava a indiferença de quem não tinha entrado na história, senão para incomodar alguém, esvaziando assim o seu próprio incómodo de crescer.
Era realmente um assunto muito grave e muito urgente, mas uma aula é uma aula e os futuros "crescidos" teriam de esperar pelo intervalo...
É que o amor dói. Dói mesmo! E crescer também dói muito.
Imagem daqui.
A Ana é um nome inventado!
segunda-feira, 3 de março de 2008
O Mostrengo ensinou-me uma página da História!
Ensinou-me aquela parte da coragem dos nossos antepassados que lhes permitia ir além dos seus próprios limites.
Não é que eu seja assim tão adepta destas coragens. A minha coragem de culto é a resistência.
Não vejo com bons olhos a coragem de mandar os outros fazer aquilo que eu temo.
Respeito os medos, todos os medos, desde o mais pequeno e insignificante ao medo que se ergue do perigo e do desconhecido.
Esse medo torna os homens maiores.
E isso eu aprendi com o Mostrengo de Fernando Pessoa.
O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
A roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse: «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo:
«El-Rei D. João Segundo!»
«De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso.
«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»
E o homem do leme tremeu, e disse:
«El-Rei D. João Segundo!»
Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!»
El- Rei D. João Segundo nasceu em Lisboa, a 3 de Março de 1455.
Ensinou-me aquela parte da coragem dos nossos antepassados que lhes permitia ir além dos seus próprios limites.
Não é que eu seja assim tão adepta destas coragens. A minha coragem de culto é a resistência.
Não vejo com bons olhos a coragem de mandar os outros fazer aquilo que eu temo.
Respeito os medos, todos os medos, desde o mais pequeno e insignificante ao medo que se ergue do perigo e do desconhecido.
Esse medo torna os homens maiores.
E isso eu aprendi com o Mostrengo de Fernando Pessoa.
O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
A roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse: «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo:
«El-Rei D. João Segundo!»
«De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso.
«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»
E o homem do leme tremeu, e disse:
«El-Rei D. João Segundo!»
Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!»
El- Rei D. João Segundo nasceu em Lisboa, a 3 de Março de 1455.
sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008
Três anos?! Já?
O blog da Pitucha fez ontem três anos.
Não sei bem em que canto, esquina, avenida, rua, seja lá o que tiver sido, nos encontrámos na "aldeia global". Sei que a Pitucha hoje é a Pitucha, a minha sobrinha de Bruxelas, por quem sinto carinho e muita, muita admiração. Encontramo-nos na nuvem de Bruxelas, na "festança" dos porquinhos, nas prateleiras da Ti, nas Beiras da Laura, na estrada da Chuinguita, no espaço Azul da Azulinha... Trocamos a amizade aí e "em vida real" também , quando as distâncias assim o permitem.
A Pitucha é um sol radioso que brinca com as palavras à sombra da nuvem mais inspiradora de Bruxelas e da União toda.
Parabéns, Pitucha!
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008
E navegando....
...a idade vai chegando!
E a idade tem uma coisa boa: a memória, uma espécie de arca onde se guarda tudo o que se viu, ouviu, leu, aprendeu.
Eu aprendi o Tejo, mesmo antes de chegar a Lisboa. Aprendi-o bem. Sabia de cor, de alguns versos.
Ao pé, conheci-o melhor.
Hoje vizinhamos, direi eu, armada em Mia Couto. E vizinhamos bem.
Ontem, encontrei-me com o Tejo nas ondas. Para lá e para cá.
Se um dia o Cacilheiro for embora,
fica mais triste o coração da água,
e o povo de Lisboa dirá, como quem chora,
pouco Tejo, pouco Tejo e muita mágoa.(Ary dos Santos)
E a idade tem uma coisa boa: a memória, uma espécie de arca onde se guarda tudo o que se viu, ouviu, leu, aprendeu.
Eu aprendi o Tejo, mesmo antes de chegar a Lisboa. Aprendi-o bem. Sabia de cor, de alguns versos.
Ao pé, conheci-o melhor.
Hoje vizinhamos, direi eu, armada em Mia Couto. E vizinhamos bem.
Ontem, encontrei-me com o Tejo nas ondas. Para lá e para cá.
Se um dia o Cacilheiro for embora,fica mais triste o coração da água,
e o povo de Lisboa dirá, como quem chora,
pouco Tejo, pouco Tejo e muita mágoa.(Ary dos Santos)
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008
Para que conste, de novo....
Assisto, incrédula, ou quase incrédula, à emissão de opiniões, formuladas por pessoas que em nada se identificam com este governo, elogiosas, rasgadamente elogiosas para a Ministra da Educação, a propósito da sua última intervenção pública no programa Prós e Contras.
Não estou aqui para "desconvencer" ninguém. Não me incomoda nada o juízo que outros fazem do meu juízo. Só lamento que as pessoas utilizem um problema que tem tido tratamento mediático do mais variado que há para mostrarem que não acreditam mesmo nos professores. São poucos os que vêm ter connosco e nos perguntam "afinal o que é que se passa mesmo?". Entendem o que querem entender dos discursos avulsos que aparecem na comunicação social e aproveitam para exorcizar traumas antigos de reguadas que lhes deixaram marcas na alma certamente. A minha também tem. Como dizia o José Gomes Ferreira, há sempre um professor que nos estraga a infância.
Há figuras a que não podemos escapar na vida, para além da mãe ou do pai. Uma delas é o professor. E aí é que está. Nem sempre esta coisa de aprender e ensinar corre às mil maravilhas. Hoje, o que se pede aos professores é que preencham de cautelas a tal relação pedagógica, para que no futuro não haja muitos a dizer o que disse o poeta e não atirem as culpas da má matemática ou do mau português para um qualquer ser humano que lhe tenha calhado em sorte.
E ainda acho mais graça, quando as pessoas emitem à minha frente as mais injuriosas opiniões acerca dos professores e acrescentam, "claro que isto não é para ti, que eu sei que tu és (elogio baratinho, dos trezentos)"!
Eu até acho que a Ministra mostrou bem o quanto não gosta desta classe a que alguém no Ministério classificou de professorzecos.
E foi disso que muitas pessoas gostaram muito! Infelizmente!
Não estou aqui para "desconvencer" ninguém. Não me incomoda nada o juízo que outros fazem do meu juízo. Só lamento que as pessoas utilizem um problema que tem tido tratamento mediático do mais variado que há para mostrarem que não acreditam mesmo nos professores. São poucos os que vêm ter connosco e nos perguntam "afinal o que é que se passa mesmo?". Entendem o que querem entender dos discursos avulsos que aparecem na comunicação social e aproveitam para exorcizar traumas antigos de reguadas que lhes deixaram marcas na alma certamente. A minha também tem. Como dizia o José Gomes Ferreira, há sempre um professor que nos estraga a infância.
Há figuras a que não podemos escapar na vida, para além da mãe ou do pai. Uma delas é o professor. E aí é que está. Nem sempre esta coisa de aprender e ensinar corre às mil maravilhas. Hoje, o que se pede aos professores é que preencham de cautelas a tal relação pedagógica, para que no futuro não haja muitos a dizer o que disse o poeta e não atirem as culpas da má matemática ou do mau português para um qualquer ser humano que lhe tenha calhado em sorte.
E ainda acho mais graça, quando as pessoas emitem à minha frente as mais injuriosas opiniões acerca dos professores e acrescentam, "claro que isto não é para ti, que eu sei que tu és (elogio baratinho, dos trezentos)"!
Eu até acho que a Ministra mostrou bem o quanto não gosta desta classe a que alguém no Ministério classificou de professorzecos.
E foi disso que muitas pessoas gostaram muito! Infelizmente!
terça-feira, 26 de fevereiro de 2008
(...)
domingo, 24 de fevereiro de 2008
yesterday, when I was young....
Aznavour não foi exactamente o meu cantor embalador de sonhos. Quando ele era Rei e a música francesa Rainha, eu tinha a minha cabeça preenchida com o romantismo da Susaninha e achava as canções de Aznavour mais velhas do que eu. Gostava do som, mas as letras não me remetiam para a realidade dos doze anos.
Dói ouvir "La mamma".
On la réchauffe de baisers
On lui remonte ses oreillers
Elle va mourir, la mamma!
Il faut savoir fazia-me pensar e remetia-me para o desgosto, a separação, uma aparente inevitabilidade de todas as relações amorosas.
Hoje, entendo que a minha relação com a vida é uma relação amorosa e, hoje, tenho de aprender a lição:Il faut savoir, coûte que coûte, garder toute sa dignité,
Et, malgré ce qu'il nous en coute, s'en aller sans se retourner...
Agora, já ultrapassada a idade que o meu pai tinha na altura em que eu alimentava os meus sonhos com Cliff e Beatles e ele aprendia a vida com Aznavour, agora, eu compreendo as canções de Aznavour.
Yesterday, when I was young... The thousand dreams I dreamed, the splendid things I planned.....
Et mois je ne sais pas.
Pieguice domingueira, ponto final!
Aznavour tem a coragem de cantar em palco aos 83 anos. Bravo!!!!
Mais uma lição para aprender.
Dói ouvir "La mamma".
On la réchauffe de baisers
On lui remonte ses oreillers
Elle va mourir, la mamma!
Il faut savoir fazia-me pensar e remetia-me para o desgosto, a separação, uma aparente inevitabilidade de todas as relações amorosas.
Hoje, entendo que a minha relação com a vida é uma relação amorosa e, hoje, tenho de aprender a lição:Il faut savoir, coûte que coûte, garder toute sa dignité,
Et, malgré ce qu'il nous en coute, s'en aller sans se retourner...
Agora, já ultrapassada a idade que o meu pai tinha na altura em que eu alimentava os meus sonhos com Cliff e Beatles e ele aprendia a vida com Aznavour, agora, eu compreendo as canções de Aznavour.
Yesterday, when I was young... The thousand dreams I dreamed, the splendid things I planned.....
Et mois je ne sais pas.
Pieguice domingueira, ponto final!
Aznavour tem a coragem de cantar em palco aos 83 anos. Bravo!!!!
Mais uma lição para aprender.
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008
He always understood
Oh, my papa, to me he was so wonderful
Oh, my papa, to me he was so good
No one could be, so gentle and so lovable
Oh, my papa, he always understood.
Gone are the days
when he could take me on his knee
And with a smile
he'd change my tears to laughter
Oh, my papa, so funny, so adorable
Always the clown so funny in his way
Oh, my papa, to me he was so wonderful
Deep in my heart I miss him so today.
Passaram três anos!
Oh, my papa, to me he was so good
No one could be, so gentle and so lovable
Oh, my papa, he always understood.
Gone are the days
when he could take me on his knee
And with a smile
he'd change my tears to laughter
Oh, my papa, so funny, so adorable
Always the clown so funny in his way
Oh, my papa, to me he was so wonderful
Deep in my heart I miss him so today.
Passaram três anos!
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008
Para que conste
Não temo a avaliação, pelos motivos que podem pensar alguns. Temo porque temo mesmo que, ao fim de 32 anos de ofício me venham dizer que eu faço isto e aquilo mal e me envergonhem à frente dos meus alunos, ou dos pais dos meus alunos, com quem, sinceramente até simpatizo.
("Converso" longas conversas com os pais dos meus alunos, na condição de DT, na pele de professora e na sub-pele de mãe/Encarregada de Educação que fui durante muito tempo. Sei que é difícil ser pai e ser mãe. Mais do que ser professor ou professora.)
Ninguém me ensinou a fazer melhor e o que até agora fiz não está de todo provado que tenha sido assim tão mau. Passados alguns anos sobre o convívio de sala de aula, após a tal relação pedagógica que está na moda "dizer sobre", muitos falam-me efusivamente, outros fingem que não me conhecem. É normal. Não podemos agradar a todos e isto é uma tarefa tão, tão delicada, que qualquer arranhãozito pode deixar cicatriz indelével.
Quando comecei a dar aulas tinha a juventude do meu lado e percebia-se que entre mim e os alunos não ia grande distância de vida. Só na responsabilidade dessa mesma vida e que havia diferenças evidentes. "Cresci" e eles continuaram da mesma idade, pois todos os anos há nova fornada. Eu continuei a crescer e eles continuaram pequenos. Mas nunca foram intransponíveis, o que eu receio, as distâncias, porque o nosso papel está bem definido: o meu é ensinar, vencendo as resistências de aprender matérias chatas que só vão ter utilidade daqui a vinte anos. O deles é resistir. Sobretudo resistir. E nem sempre a sintonia se consegue. Nem sempre se vencem as barreiras todas.
É massa humana que está em jogo, de um lado e do outro.
Não vou contar aqui histórias que vivo, todos os dias, com os meus alunos e com os pais, porque tenho pudor por eles, pais e alunos. Mas talvez seja por isso é que ninguém pode compreender que a avaliação vai matar o que existe de espontâneo e natural. Daqui para a frente vamos estudar muito bem o papel, para termos pelo menos Bom. Vamos ter os papelinhos todos em ordem, para o Senhor Avaliador (Soa a Seguros, Banca...) nos elogiar. Com tantos anos disto, não vamos correr grandes riscos em matéria de “correcção científica e didáctica”.
Os Senhores do ME vão gostar muito de muitos de nós. Mas os alunos e os pais? Não sei. Acho que não.
E eu não vou gostar muito de mim, quando vier embora e tomar consciência que nos últimos anos da minha carreira perdi os sonhos, larguei-os da mão como se diz por aí... Larguei-os do coração, mais exactamente!!!!
Para que conste, já que li hoje por aí, coisas bem feias a respeito do professores!
E não são do ME. Fará se fossem!!!

Não queria nada apresentar-me assim perante uma turma. Nem no Hallowe'en!
("Converso" longas conversas com os pais dos meus alunos, na condição de DT, na pele de professora e na sub-pele de mãe/Encarregada de Educação que fui durante muito tempo. Sei que é difícil ser pai e ser mãe. Mais do que ser professor ou professora.)
Ninguém me ensinou a fazer melhor e o que até agora fiz não está de todo provado que tenha sido assim tão mau. Passados alguns anos sobre o convívio de sala de aula, após a tal relação pedagógica que está na moda "dizer sobre", muitos falam-me efusivamente, outros fingem que não me conhecem. É normal. Não podemos agradar a todos e isto é uma tarefa tão, tão delicada, que qualquer arranhãozito pode deixar cicatriz indelével.
Quando comecei a dar aulas tinha a juventude do meu lado e percebia-se que entre mim e os alunos não ia grande distância de vida. Só na responsabilidade dessa mesma vida e que havia diferenças evidentes. "Cresci" e eles continuaram da mesma idade, pois todos os anos há nova fornada. Eu continuei a crescer e eles continuaram pequenos. Mas nunca foram intransponíveis, o que eu receio, as distâncias, porque o nosso papel está bem definido: o meu é ensinar, vencendo as resistências de aprender matérias chatas que só vão ter utilidade daqui a vinte anos. O deles é resistir. Sobretudo resistir. E nem sempre a sintonia se consegue. Nem sempre se vencem as barreiras todas.
É massa humana que está em jogo, de um lado e do outro.
Não vou contar aqui histórias que vivo, todos os dias, com os meus alunos e com os pais, porque tenho pudor por eles, pais e alunos. Mas talvez seja por isso é que ninguém pode compreender que a avaliação vai matar o que existe de espontâneo e natural. Daqui para a frente vamos estudar muito bem o papel, para termos pelo menos Bom. Vamos ter os papelinhos todos em ordem, para o Senhor Avaliador (Soa a Seguros, Banca...) nos elogiar. Com tantos anos disto, não vamos correr grandes riscos em matéria de “correcção científica e didáctica”.
Os Senhores do ME vão gostar muito de muitos de nós. Mas os alunos e os pais? Não sei. Acho que não.
E eu não vou gostar muito de mim, quando vier embora e tomar consciência que nos últimos anos da minha carreira perdi os sonhos, larguei-os da mão como se diz por aí... Larguei-os do coração, mais exactamente!!!!
Para que conste, já que li hoje por aí, coisas bem feias a respeito do professores!
E não são do ME. Fará se fossem!!!

Não queria nada apresentar-me assim perante uma turma. Nem no Hallowe'en!
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008
Só encontrei os versos...
São de Vinicius e falam do Quotidiano, ou Cotidiano, como se escreve do lado de lá do mar...
Hay dias que no se lo que me pasa
Eu abro meu Neruda e apago o sol
Misturo poesia com cachaça
E acabo discutindo futebol
Mas não tem nada não, tenho o meu violão
Acordo de manhã, pão com manteiga
E muito, muito sangue no jornal
Aí a criançada toda chega
E eu chego achar Herodes natural
Mas não tem nada não, tenho o meu violão
Depois faço a loteca com a patroa
Quem sabe o nosso dia vai chegar
E rio porque rico ri à toa
Também não custa nada imaginar
Mas não tem nada não, tenho o meu violão
Aos sábados, em casa tomo um porre
E sonho soluções fenomenais
Mas quando o sono vem e a noite morre
O dia conta histórias sempre iguais
Mas não tem nada não, tenho o meu violão
Às vezes quero crer mas não consigo
É tudo uma total insensatez
Aí pergunto a Deus, escute amigo
Se foi pra desfazer, porque é que fez?
Mas não tem nada não, tenho o meu violão
Hay dias que no se lo que me pasa
Eu abro meu Neruda e apago o sol
Misturo poesia com cachaça
E acabo discutindo futebol
Mas não tem nada não, tenho o meu violão
Acordo de manhã, pão com manteiga
E muito, muito sangue no jornal
Aí a criançada toda chega
E eu chego achar Herodes natural
Mas não tem nada não, tenho o meu violão
Depois faço a loteca com a patroa
Quem sabe o nosso dia vai chegar
E rio porque rico ri à toa
Também não custa nada imaginar
Mas não tem nada não, tenho o meu violão
Aos sábados, em casa tomo um porre
E sonho soluções fenomenais
Mas quando o sono vem e a noite morre
O dia conta histórias sempre iguais
Mas não tem nada não, tenho o meu violão
Às vezes quero crer mas não consigo
É tudo uma total insensatez
Aí pergunto a Deus, escute amigo
Se foi pra desfazer, porque é que fez?
Mas não tem nada não, tenho o meu violão
domingo, 17 de fevereiro de 2008
Jamais!
Sócrates mantém política educativa e diz que não governa para obter simpatias
E assim vai o mundo! Cada um tem os calos que merece, Sr Primeiro Ministro e este tipo de atitude é muito semelhante às atitudes dos meus alunos. Ele também não andam nas escola pelos meus lindos olhos. Ai não, não!
As suas palavras e a sua atitude para com os professores fazem-me doer os calos, aqueles que eu ganho todos os dias!
Por sinal, até tenho gosto em fazer o que faço. Mas há coisas que eu não entendo, mesmo com estes calos todos na alma.Por exemplo: os senhores dizem, isto é, mandam, mandam dizer que eu devo preocupar-me mais em enviar cartas a um Encarregado de Educação que eu não conheço, por causa de um aluno que eu também não conheço, que há anos que não põe o pé na escola e até sempre-a-mesma-fotografia-ou-fotocópia-da- fotografia já deve saber ler e escrever... dizia eu, preocupar-me com esses que já lá não estão, em vez de tratar dos que lá estão efectivamente, para estudar ou não, mas estão.
É que não se vê fim ao papel que é preciso gastar para fazer acontecer qualquer coisa.
Não foi o senhor (Já nem sei se devo escrever senhor com letra grande?!)que inventou o Simplex? Mas ainda não mandou para as escolas, pois não?
Já todos percebemos que anda zangado com o mundo, mas não se vingue nas crianças.
Já percebeu que é impossível aumentar o sucesso educativo sem ser à custa de um empurrãozito na nota. E haver quem seja capaz de defender um percurso de ignorância para os filhos dos outros é muito triste!
(Um dia perguntei a um médico, por sinal meu amigo, se estava muito preocupado com a saúde de um dos meus filhos. Ele explicou-me que se tratava do meu filho, por isso a minha preocupação era necessariamente diferente e maior do que a dele.)
Para os nossos filhos queremos professores dedicados, conscientes, competentes e felizes. Não está certo querermos uma coisa para nós e para os nossos e outra coisa para os outros e para os filhos dos outros. Esse é que seria um bom critério para aferir a grandeza das suas medidas e até a sua compatibilidade com a dignidade do ser humano! Não me interessa muito que seja simpático. Quero apenas que seja justo e que a dignidade não se afaste dos nossos meios, por muito estonteantes que sejam os fins.
Ah, é verdade!, há uma outra coisa que eu não entendo. Se era para acabar o Ensino Especial por que é que foi criando um grupo de docência só de Ensino Especial, no ano passado ou há dois anos, no máximo?
Por hoje, daqui, do Deserto de Jameh, é tudo!E não receie que não há muita gente a querer granjear a sua simpatia!
E assim vai o mundo! Cada um tem os calos que merece, Sr Primeiro Ministro e este tipo de atitude é muito semelhante às atitudes dos meus alunos. Ele também não andam nas escola pelos meus lindos olhos. Ai não, não!
As suas palavras e a sua atitude para com os professores fazem-me doer os calos, aqueles que eu ganho todos os dias!
Por sinal, até tenho gosto em fazer o que faço. Mas há coisas que eu não entendo, mesmo com estes calos todos na alma.Por exemplo: os senhores dizem, isto é, mandam, mandam dizer que eu devo preocupar-me mais em enviar cartas a um Encarregado de Educação que eu não conheço, por causa de um aluno que eu também não conheço, que há anos que não põe o pé na escola e até sempre-a-mesma-fotografia-ou-fotocópia-da- fotografia já deve saber ler e escrever... dizia eu, preocupar-me com esses que já lá não estão, em vez de tratar dos que lá estão efectivamente, para estudar ou não, mas estão.
É que não se vê fim ao papel que é preciso gastar para fazer acontecer qualquer coisa.
Não foi o senhor (Já nem sei se devo escrever senhor com letra grande?!)que inventou o Simplex? Mas ainda não mandou para as escolas, pois não?
Já todos percebemos que anda zangado com o mundo, mas não se vingue nas crianças.
Já percebeu que é impossível aumentar o sucesso educativo sem ser à custa de um empurrãozito na nota. E haver quem seja capaz de defender um percurso de ignorância para os filhos dos outros é muito triste!
(Um dia perguntei a um médico, por sinal meu amigo, se estava muito preocupado com a saúde de um dos meus filhos. Ele explicou-me que se tratava do meu filho, por isso a minha preocupação era necessariamente diferente e maior do que a dele.)
Para os nossos filhos queremos professores dedicados, conscientes, competentes e felizes. Não está certo querermos uma coisa para nós e para os nossos e outra coisa para os outros e para os filhos dos outros. Esse é que seria um bom critério para aferir a grandeza das suas medidas e até a sua compatibilidade com a dignidade do ser humano! Não me interessa muito que seja simpático. Quero apenas que seja justo e que a dignidade não se afaste dos nossos meios, por muito estonteantes que sejam os fins.
Ah, é verdade!, há uma outra coisa que eu não entendo. Se era para acabar o Ensino Especial por que é que foi criando um grupo de docência só de Ensino Especial, no ano passado ou há dois anos, no máximo?
Por hoje, daqui, do Deserto de Jameh, é tudo!E não receie que não há muita gente a querer granjear a sua simpatia!
E porque hoje é domingo, dia de estar cansado...
Porque hoje é domingo, é dia de aludir ao cansaço, ao legítimo cansaço, tão legítimo, que foi Criado o Dia do Descanso. Ora o Dia do Descanso só faz sentido, se houver cansaço.
Mas o cansaço é normalmente expresso com um enfado que não o dignifica. E o nosso cansaço, resultando de um trabalho qualquer, merece ser dignificado e ser classificado como direito. O Direito de estar cansado. Com enfado, o cansaço não passa de um reles tédio.
Há quem esteja cansado de nada fazer e esse cansaço é doença, é maleita.
Há o cansaço de quem espera em vão. Esse cansaço também é um mau cansaço.
Vamos "ouvir" o que tem Álvaro de Campos a dizer sobre o cansaço, o dele, em tudo diferente do nosso, claro!
Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto —
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo...
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente; eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.
Já em tempos recordei aqui os domingos da minha adolescência e esses, sim, eram o repouso do guerreiro: praia, caril e matiné!
Mas o cansaço é normalmente expresso com um enfado que não o dignifica. E o nosso cansaço, resultando de um trabalho qualquer, merece ser dignificado e ser classificado como direito. O Direito de estar cansado. Com enfado, o cansaço não passa de um reles tédio.
Há quem esteja cansado de nada fazer e esse cansaço é doença, é maleita.
Há o cansaço de quem espera em vão. Esse cansaço também é um mau cansaço.
Vamos "ouvir" o que tem Álvaro de Campos a dizer sobre o cansaço, o dele, em tudo diferente do nosso, claro!
Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto —
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo...
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente; eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.
Já em tempos recordei aqui os domingos da minha adolescência e esses, sim, eram o repouso do guerreiro: praia, caril e matiné!
sábado, 16 de fevereiro de 2008
Liberdades
"São apreendidos, em Lisboa, os jornais "A Paródia", "Novidades" e "O Liberal", por criticas ao Governo."
Não foi agora... Foi há cento e dois anos, neste dia, em que também se comemora uma tal Convenção de Badajoz que nos entregou o Algarve para sempre. (Há grandes pechinchas em Badajoz!). Este 16 de Fevereiro é de 1267. Doze anos mais tarde, o Rei Afonso III, o mesmo que foi a Badajoz "negociar" o Algarve, morria, no mesmo dia 16 de Fevereiro.
Sobre a Paródia encontrei isto:
"Os portuguezes são essencialmente conservadores. Por muito que esta opinião possa surprehender o nosso collega Magalhães Lima, não é menos certo que se nós mudamos com frequencia de fato, nos recusamos obstinadamente a mudar de idéias, o que faz com que em Portugal a fortuna sorria aos alfayates como o Sr. Amieiro do que aos evangelistas como o Sr. Theophilo Braga.
Se somos inquestionavelmente um paiz de janotas, estamos longe de ser um paiz de reformadores. Assim, o nosso primeiro embaraço ao emprehender esta publicação é familiarisar o publico com a idéa de que já não se chama o António Maria o jornal que tem agora na mão, por que o publico, conservador e rotineiro, quereria ver perpetuado no tempo e na galhofa, aquelle titulo que ficou pertencendo a uma epocha que desapareceu e que por isso fez o seu tempo.
Porquê - o que era o António Maria? O António Maria, meus senhores, foi a regeneração, o Fontes e a sua Agua Circassiana, o Avila e o seu cachenez, o Sampaio e os seus pamphletos, o Arrobas e os seus editaes, o Passeio Publico e o lyrismo do Sr. Florencio Ferreira, a Srª Emilia das Neves, a «judia» e os Recreios Whitoyne, mundo findo, mundo morto, de sombras, espectros, mumias, onde só poderiamos estar á vontade sob a condição de termos desapparecido com elle, o que não é evidentemente um facto.
Ficarmos dentro do António Maria seria ficar dentro de um museu, na situação de um velho guarda mostrando á curiosidade do seu tempo os despojos de uma epocha passada. A parodia é outra coisa, como o tempo é outro. O António Maria foi um homem. Quando muito, foi uma família. A Parodia - dizemol-o sem receio de ser immodestos - somos nós todos.
A Parodia é a caricatura ao serviço da grande tristeza pública. E' a Dança da Bica no cemitério dos Prazeres."
Não foi agora... Foi há cento e dois anos, neste dia, em que também se comemora uma tal Convenção de Badajoz que nos entregou o Algarve para sempre. (Há grandes pechinchas em Badajoz!). Este 16 de Fevereiro é de 1267. Doze anos mais tarde, o Rei Afonso III, o mesmo que foi a Badajoz "negociar" o Algarve, morria, no mesmo dia 16 de Fevereiro.
Sobre a Paródia encontrei isto:"Os portuguezes são essencialmente conservadores. Por muito que esta opinião possa surprehender o nosso collega Magalhães Lima, não é menos certo que se nós mudamos com frequencia de fato, nos recusamos obstinadamente a mudar de idéias, o que faz com que em Portugal a fortuna sorria aos alfayates como o Sr. Amieiro do que aos evangelistas como o Sr. Theophilo Braga.
Se somos inquestionavelmente um paiz de janotas, estamos longe de ser um paiz de reformadores. Assim, o nosso primeiro embaraço ao emprehender esta publicação é familiarisar o publico com a idéa de que já não se chama o António Maria o jornal que tem agora na mão, por que o publico, conservador e rotineiro, quereria ver perpetuado no tempo e na galhofa, aquelle titulo que ficou pertencendo a uma epocha que desapareceu e que por isso fez o seu tempo.
Porquê - o que era o António Maria? O António Maria, meus senhores, foi a regeneração, o Fontes e a sua Agua Circassiana, o Avila e o seu cachenez, o Sampaio e os seus pamphletos, o Arrobas e os seus editaes, o Passeio Publico e o lyrismo do Sr. Florencio Ferreira, a Srª Emilia das Neves, a «judia» e os Recreios Whitoyne, mundo findo, mundo morto, de sombras, espectros, mumias, onde só poderiamos estar á vontade sob a condição de termos desapparecido com elle, o que não é evidentemente um facto.
Ficarmos dentro do António Maria seria ficar dentro de um museu, na situação de um velho guarda mostrando á curiosidade do seu tempo os despojos de uma epocha passada. A parodia é outra coisa, como o tempo é outro. O António Maria foi um homem. Quando muito, foi uma família. A Parodia - dizemol-o sem receio de ser immodestos - somos nós todos.
A Parodia é a caricatura ao serviço da grande tristeza pública. E' a Dança da Bica no cemitério dos Prazeres."
domingo, 10 de fevereiro de 2008
A dúzia e mais duas...
São doze, isto é, uma dúzia...
Diz-se que à dúzia é mais barato, mas todos sabemos que o barato sai caro, logo, à dúzia é necessariamente tudo mais caro.
Não são provérbios, nem laranjas, nem ovos... São palavras. Doze palavras é o desafio.
Quais são então as palavras que me dão a tal margem para o sonho, de que fala um autor português?
(Eu depois digo o autor!)
E porque tudo começa nos sentidos, é das que me acertam no alvo dos sentidos que eu vou escolher.
A palavra azul e a palavra verde porque me preenchem paisagens, com mar e céu, com montanhas e árvores. Ponho uma onda no mar e o vento a soprar e a vida mexe-se, movimenta-se.... E depois chega o sol e chega a água e o prazer demora-se na pele...
Quem diz mar, diz rio e adúzia está aviada!
Foi a Pitucha que me desafiou, porque ela sabe que eu gosto de desafios, mesmo quando fico com a sensação de ter ficado aquém e não além do expectado... E vão mais duas palavras que eu também gosto, mas já não cabem na bagagem!
Obrigada, Pitucha!
Diz-se que à dúzia é mais barato, mas todos sabemos que o barato sai caro, logo, à dúzia é necessariamente tudo mais caro.
Não são provérbios, nem laranjas, nem ovos... São palavras. Doze palavras é o desafio.
Quais são então as palavras que me dão a tal margem para o sonho, de que fala um autor português?
(Eu depois digo o autor!)
E porque tudo começa nos sentidos, é das que me acertam no alvo dos sentidos que eu vou escolher.
A palavra azul e a palavra verde porque me preenchem paisagens, com mar e céu, com montanhas e árvores. Ponho uma onda no mar e o vento a soprar e a vida mexe-se, movimenta-se.... E depois chega o sol e chega a água e o prazer demora-se na pele...
Quem diz mar, diz rio e adúzia está aviada!
Foi a Pitucha que me desafiou, porque ela sabe que eu gosto de desafios, mesmo quando fico com a sensação de ter ficado aquém e não além do expectado... E vão mais duas palavras que eu também gosto, mas já não cabem na bagagem!
Obrigada, Pitucha!
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008
Lisboa à tona da luz do Tejo
Serve o presente para trazer a lume a cidade que recebe todos os anos mais olhares, vindos de longe para repousar as dúvidas no brilho do Tejo. Esta cidade é linda a valer!Serve também para trazer não um, mas dois mestres da palavra que prestaram o seu tributo a Lisboa. Um, Cardoso Pires, que cita um outro, Fernando Assis Pacheco.
Passo eu a citar também!
"Ah, sim. "se fosse Deus parava o sol sobre Lisboa", escreveu Fernando Assis Pacheco num poema tonto de luz (a tão citada luz sempre imprevista). De acordo, mas uma cidade de caprichos como esta nunca o sol pode iluminar por igual. Tem de se lhe afeiçoar aos contornos e aos instintos desordenados, à sua placidez aqui, ao burburinho dos velhos bairros acolá, e é com esses desvelos que ele lhe dá cor singular."
Lisboa, Livro de Bordo, José Cardoso Pires, página 41.
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008
Políticas
Eu não percebo nada de política. E não digo isto para fingir ou para me contraporem com aqueles argumentos habituais de que tudo é político e coisa assim. Eu não percebo mesmo nada.
Presumo que a política seja um cozinhado universal de interesses económicos, sociais e culturais. Mas, vai daí e vejo que cada um olha para o seu umbigo e a universalidade que reclamamos e quando a reclamamos é só também porque ela nos serve em termos individuais.
Isto sou eu a pensar...
É que pensar todos pensamos e temos referências de pensamento que vêm dos recônditos da História. Uns mais antigos e outros mais recentes, porque eu própria já assisti e vivi a História.
Dos tempos da Faculdade, dos estudos propriamente ditos, trouxe uma referência muito importante: Thomas More. Não pela Utopia, mas pelo exemplo de uma só palavra. Sem desafios, sem exaltações, apenas a coerência que lhe custou a vida.
Dos tempos mais modernos temos também exemplos: Gandhi, cujas magras vestes deram corpo à Alma Grande; Mandela e o exemplo de que o homem é realmente livre por dentro e não há ódio nem ressentimento que possam corromper a sua liberdade, quando é genuína, verdadeira.
E, cá dentro, também vou alimentando a esperança de dias melhores para os meus filhos e para os meus netos, com a memória permanente de alguns, como Salgueiro Maia, por exemplo que, desinteressadamente, contribuíram para o sonho do "dia mais claro" que a poetisa Sophia cantou nos seus versos, ela própria o exemplo da dignidade como sentido único de vida.
E, aproximando-se os dias das eleições americanas, inevitavelmente, o meu instinto segue o pensamento de Obama e só quero dizer aqui o quanto me repugnou um senhor candidato que usou a palavra "Change" para ridicularizar o seu rival e levantar suspeitas sobre o seu verdadeiro intento de Mudança.
Será isso Política?
Pelo menos, em Portugal, ainda deixamos essa tarefa aos humoristas!
Repito que o que eu quero mesmo é um mundo melhor para os meus netos. Eles ainda não chegaram. Estão à espera, tenho a certeza, numa estação espacial. Espero que apanhem a carreira 2008 e que a indicação do destino seja "Mundo Melhor" (via Portugal).
Devem ter depois de apanhar um táxi para o castelo de S. Jorge ou o catamarã para o Montijo. Mas se combinarmos bem, talvez se arranje uma boleia!

Pensando melhor, há também a possibilidade de apanhar o Camelo para o Deserto de Jameh!
Presumo que a política seja um cozinhado universal de interesses económicos, sociais e culturais. Mas, vai daí e vejo que cada um olha para o seu umbigo e a universalidade que reclamamos e quando a reclamamos é só também porque ela nos serve em termos individuais.
Isto sou eu a pensar...
É que pensar todos pensamos e temos referências de pensamento que vêm dos recônditos da História. Uns mais antigos e outros mais recentes, porque eu própria já assisti e vivi a História.
Dos tempos da Faculdade, dos estudos propriamente ditos, trouxe uma referência muito importante: Thomas More. Não pela Utopia, mas pelo exemplo de uma só palavra. Sem desafios, sem exaltações, apenas a coerência que lhe custou a vida.
Dos tempos mais modernos temos também exemplos: Gandhi, cujas magras vestes deram corpo à Alma Grande; Mandela e o exemplo de que o homem é realmente livre por dentro e não há ódio nem ressentimento que possam corromper a sua liberdade, quando é genuína, verdadeira.
E, cá dentro, também vou alimentando a esperança de dias melhores para os meus filhos e para os meus netos, com a memória permanente de alguns, como Salgueiro Maia, por exemplo que, desinteressadamente, contribuíram para o sonho do "dia mais claro" que a poetisa Sophia cantou nos seus versos, ela própria o exemplo da dignidade como sentido único de vida.
E, aproximando-se os dias das eleições americanas, inevitavelmente, o meu instinto segue o pensamento de Obama e só quero dizer aqui o quanto me repugnou um senhor candidato que usou a palavra "Change" para ridicularizar o seu rival e levantar suspeitas sobre o seu verdadeiro intento de Mudança.
Será isso Política?
Pelo menos, em Portugal, ainda deixamos essa tarefa aos humoristas!
Repito que o que eu quero mesmo é um mundo melhor para os meus netos. Eles ainda não chegaram. Estão à espera, tenho a certeza, numa estação espacial. Espero que apanhem a carreira 2008 e que a indicação do destino seja "Mundo Melhor" (via Portugal).
Devem ter depois de apanhar um táxi para o castelo de S. Jorge ou o catamarã para o Montijo. Mas se combinarmos bem, talvez se arranje uma boleia!

Pensando melhor, há também a possibilidade de apanhar o Camelo para o Deserto de Jameh!
quarta-feira, 30 de janeiro de 2008
Violenta interrupção
"Sentei-me para escrever um texto saudoso e álacre sobre a Ava Gardner."
Desde a Pedra Filosofal que não ouvia ou lia a palavra "álacre"! E faz-me falta ouvir estas palavras que cristalinamente resistem à moda e ao tempo e não se transformam em "porreiro" ou palavras do género.
Dizia eu que comecei a ler o BB com o entusiasmo do costume, pois a certeza é sempre a de me deliciar com as palavras e com o pensamento. Sobre a Ava Gardner, ainda por cima, uma das divas que escapou às minhas mini-biografias no jornal da terra.

O escritor diz que se preparava pois para se comover, escrevendo; e eu preparava-me para me comover, lendo.
Mas fomos interrompidos: ele, em directo e eu em diferido, mas mesmo assim não menos violentamente "pelo eco do oco".
Haja quem mantenha a coragem de dizer o que deve ser dito, quem ouse chamar as coisas pelos nomes! Obrigada, B.B.!
Desde a Pedra Filosofal que não ouvia ou lia a palavra "álacre"! E faz-me falta ouvir estas palavras que cristalinamente resistem à moda e ao tempo e não se transformam em "porreiro" ou palavras do género.
Dizia eu que comecei a ler o BB com o entusiasmo do costume, pois a certeza é sempre a de me deliciar com as palavras e com o pensamento. Sobre a Ava Gardner, ainda por cima, uma das divas que escapou às minhas mini-biografias no jornal da terra.

O escritor diz que se preparava pois para se comover, escrevendo; e eu preparava-me para me comover, lendo.
Mas fomos interrompidos: ele, em directo e eu em diferido, mas mesmo assim não menos violentamente "pelo eco do oco".
Haja quem mantenha a coragem de dizer o que deve ser dito, quem ouse chamar as coisas pelos nomes! Obrigada, B.B.!
Surpreendências!
terça-feira, 29 de janeiro de 2008
A cultura, para temperar...
Mais de cem trabalhos da pintora portuguesa Paula Rego vão estar em exposição a partir de sexta-feira no Museu Nacional das Mulheres nas Artes em Washington.

"A native of Portugal who lives in London, Rego uses her art to explore the precariousness of human emotions and the complexity of life’s experiences."

"A native of Portugal who lives in London, Rego uses her art to explore the precariousness of human emotions and the complexity of life’s experiences."
A curto prazo
Todos estaremos assim, como os versos deste poema de António Ramos Rosa, que li aqui.
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço
Caminhamos a passos de gigante para este cansaço da jornada vã, dos dias cheios de nada que valha a pena, quando a felicidade de ser pessoa é um objectivo da vida, ainda por cima quando se sabe que a prática diária pura e simples do exercício da nossa profissão nos traz à rede momentos quase perfeitos. Que mais poderíamos desejar?
Eu não quero mesmo ir sentar-me nas aulas dos meus colegas mais novos, se não for para reaprender com eles sonhos que eu já gastei. Não renego cegamente a avaliação, mas rejeito este modelo que se baseia uma vez mais numa burocracia gigantesca que vai parir uma máquina demolidora de entusiasmo verdadeiro, que vai triturar as relações pessoais.
Muitos são os que estão tão cansados de funcionar que não aguentam mais nada e vão embora. Desistem, em nome de mínimos de dignidade e sentido de vida que querem preservar. Não desistiriam se pudessem ser ouvidos com atenção que lhes merecem os mais de trinta anos de sala de aula, de quadro de ardósia e giz, de livros e cadernos...
Basta ler (ou reler) o Diário de Sebastião da Gama, para realmente perceber o que é ser professor e o quanto se afastam estes senhores que nos governam dos momentos perfeitos de humanidade contados nos Diário.
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço?
Porque este não é o cansaço bom do trabalho que nasce na nossa mente e passa para as nossas mãos!
(Professora daqui)
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço
Caminhamos a passos de gigante para este cansaço da jornada vã, dos dias cheios de nada que valha a pena, quando a felicidade de ser pessoa é um objectivo da vida, ainda por cima quando se sabe que a prática diária pura e simples do exercício da nossa profissão nos traz à rede momentos quase perfeitos. Que mais poderíamos desejar?
Eu não quero mesmo ir sentar-me nas aulas dos meus colegas mais novos, se não for para reaprender com eles sonhos que eu já gastei. Não renego cegamente a avaliação, mas rejeito este modelo que se baseia uma vez mais numa burocracia gigantesca que vai parir uma máquina demolidora de entusiasmo verdadeiro, que vai triturar as relações pessoais.
Muitos são os que estão tão cansados de funcionar que não aguentam mais nada e vão embora. Desistem, em nome de mínimos de dignidade e sentido de vida que querem preservar. Não desistiriam se pudessem ser ouvidos com atenção que lhes merecem os mais de trinta anos de sala de aula, de quadro de ardósia e giz, de livros e cadernos...
Basta ler (ou reler) o Diário de Sebastião da Gama, para realmente perceber o que é ser professor e o quanto se afastam estes senhores que nos governam dos momentos perfeitos de humanidade contados nos Diário.
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço?
Porque este não é o cansaço bom do trabalho que nasce na nossa mente e passa para as nossas mãos!
(Professora daqui)
domingo, 27 de janeiro de 2008
E a gente acorde finalmente em Portugal
Foi este verso de Manuel Alegre que me acordou dos reles pesadelos que adamastores de trazer por casa nos infligem, estragando-nos não só as noites ou os dias, mas sim a capacidade de sonhar sempre sempre um Mundo Melhor. Eu não quero deixar de sonhar um mundo mais justo, mais fraterno, mais solidário, mais azul ou mais verde... Enfim, com mais cor! Seja ela qual for a cor do nosso contentamento. Eu quero sonhar!
E o poeta, que nos empresta o sonho nas suas palavras, para nos dar força de seguir em frente, ganhou um prémio.
(E eu, tão distraída que ando, nem percebi. Só ouvi o que não devo ouvir: desgraças!)
De agora em diante vou virar os meus sentidos para a poesia. Redentora e salvadora. Sim. É isso que eu sinto e ainda posso dizê-lo! E ainda posso dizê-lo com ganas de liberdade.
E leio...
Trago em mim uma nau S. Gabriel.
De verso em verso vai e não sossega
sobre os dias navega à flor da pele
trago em mim uma nau que nunca chega.
E um súbito acordar é um rumor
um ficar distraído e partir para
os teus olhos que ficam além da cor.
Trago em mim uma nau que nunca pára.
Trago em mim uma nau que me carrega
como se eu próprio fosse o Oriente
trago em mim uma nau que não sossega.
Ela só deixa um rastro no papel
e o que ela busca é sempre o que é ausente.
Trago em mim uma nau S. Gabriel.

Imagem daqui
E o poeta, que nos empresta o sonho nas suas palavras, para nos dar força de seguir em frente, ganhou um prémio.
(E eu, tão distraída que ando, nem percebi. Só ouvi o que não devo ouvir: desgraças!)
De agora em diante vou virar os meus sentidos para a poesia. Redentora e salvadora. Sim. É isso que eu sinto e ainda posso dizê-lo! E ainda posso dizê-lo com ganas de liberdade.
E leio...
Trago em mim uma nau S. Gabriel.
De verso em verso vai e não sossega
sobre os dias navega à flor da pele
trago em mim uma nau que nunca chega.
E um súbito acordar é um rumor
um ficar distraído e partir para
os teus olhos que ficam além da cor.
Trago em mim uma nau que nunca pára.
Trago em mim uma nau que me carrega
como se eu próprio fosse o Oriente
trago em mim uma nau que não sossega.
Ela só deixa um rastro no papel
e o que ela busca é sempre o que é ausente.
Trago em mim uma nau S. Gabriel.

Imagem daqui
quinta-feira, 24 de janeiro de 2008
Poderes
É estranho. Continuo a gostar de ser professora! Está tudo contra, mas eu sinto que aquela é a minha pele. Gosto de estar na escola, mesmo quando me esgoto e me canso com Pedagógicos que se estendem até às nove da noite, ou outras reuniões cujo proveito é sempre de pôr em causa.
Gosto, pronto!
Mas há uma coisa que me irrita, enerva e desmotiva: o poder do papel. Vivo no reino do papel e o seu poder é absolutíssimo.
Por exemplo: o plano de recuperação é um papel. Assinado pelos pais e pelo director de turma, mas não deixa de ser um papel. O papel defende os professores todos, caso o aluno venha a reprovar, ou a ficar retido, como preferirem. O papel tem o poder de evitar a maior "chatice" do mundo. O papel tem poder e isso sim é que me desgosta. A minha intenção, o meu desejo, a minha vontade e até a minha acção não valem nada ao pé do papel. O papel vale sempre mais do que eu!
Este é talvez um passo em direcção à desumanização de uma instituição que devia ser, quase que por definição apenas, o oposto.
Como será o futuro destes meninos e meninas educados sob o signo do papel?
O papel sobreviver-me-á e isso é incontornável. Será por isso que o papel vale mais do que a minha palavra?
Imagem daqui
Gosto, pronto!
Mas há uma coisa que me irrita, enerva e desmotiva: o poder do papel. Vivo no reino do papel e o seu poder é absolutíssimo.
Por exemplo: o plano de recuperação é um papel. Assinado pelos pais e pelo director de turma, mas não deixa de ser um papel. O papel defende os professores todos, caso o aluno venha a reprovar, ou a ficar retido, como preferirem. O papel tem o poder de evitar a maior "chatice" do mundo. O papel tem poder e isso sim é que me desgosta. A minha intenção, o meu desejo, a minha vontade e até a minha acção não valem nada ao pé do papel. O papel vale sempre mais do que eu!
Este é talvez um passo em direcção à desumanização de uma instituição que devia ser, quase que por definição apenas, o oposto.
Como será o futuro destes meninos e meninas educados sob o signo do papel?
O papel sobreviver-me-á e isso é incontornável. Será por isso que o papel vale mais do que a minha palavra?
Imagem daqui
terça-feira, 22 de janeiro de 2008
Faltas justificadas
Acertou: ainda estou a comer Bolo-Rei... Aliás, o bolo que eu compro na Pastelaria Anjo Doce (Com se os anjos pudessem ser outra coisa senão doces?), chama-se Bolo-Rainha e é irresistível.
Está difícil arrumar o Natal cá em casa: ele é árvore, ele é prendas, ele é bolos...
"Ele foi" uma pequena avaria no coração verde do Leão Grande que já passou!
Uff, não ganhei para o susto! Mas agora temos o Coração de Leão outra vez cheio de energia para discutir futebol, política e outras emoções de terceiro grau.
Obrigada a todos pelo cuidado que foram manifestando ao longo da ausência!
Está difícil arrumar o Natal cá em casa: ele é árvore, ele é prendas, ele é bolos...
"Ele foi" uma pequena avaria no coração verde do Leão Grande que já passou!
Uff, não ganhei para o susto! Mas agora temos o Coração de Leão outra vez cheio de energia para discutir futebol, política e outras emoções de terceiro grau.
Obrigada a todos pelo cuidado que foram manifestando ao longo da ausência!
domingo, 6 de janeiro de 2008
quinta-feira, 3 de janeiro de 2008
Cheios de sorte
Um dia é Natal, no outro é Fim de Ano, Reveillon mais ou menos, e, logo a seguir, Dia de Ano Novo. No dia seguinte, já há outra coisa para entreter o nosso pensamento: o famoso "Paris-Dakar", que já vai em "Lisboa-Dakar" e já foi "Portimão-Dakar".
(A malta tem sorte, pá!)
E com o patrocínio do Euromilhões, jogo da Casa da Misericórdia.
(Já não se chama Santa Casa, pois não?)
"Entretém-te", diz o Zé Mário Branco, no FMI. O que é preciso é estarmos todos muito entretidos, enquanto se fecham hospitais, enquanto se decide acerca de um problema maior para as nossas vidas, o problema do nome dos santos nas instituições e, daqui a pouco, nas freguesias e outros lugares, enquanto a esperança, que devíamos respirar a plenos pulmões, vai murchando, em cada fim de dia....
Siga o Rally, para gozo de muitos! Sem acidentes, claro!
(A malta tem sorte, pá!)
E com o patrocínio do Euromilhões, jogo da Casa da Misericórdia.
(Já não se chama Santa Casa, pois não?)
"Entretém-te", diz o Zé Mário Branco, no FMI. O que é preciso é estarmos todos muito entretidos, enquanto se fecham hospitais, enquanto se decide acerca de um problema maior para as nossas vidas, o problema do nome dos santos nas instituições e, daqui a pouco, nas freguesias e outros lugares, enquanto a esperança, que devíamos respirar a plenos pulmões, vai murchando, em cada fim de dia....
Siga o Rally, para gozo de muitos! Sem acidentes, claro!
quarta-feira, 2 de janeiro de 2008
Efeito BB
A crónica é de hoje, do DN de hoje, e chama-se "Talvez ternura!" e está assinada por Baptista Bastos.
Ao contrário do quase habitual registo de amargura, perpassa nas palavras do escritor o desejo do bem, o anseio das coisas boas, daquelas que criam boas emoções às pessoas, as fazem felizes, as torna melhores, lhes dá (ou devolve!) a capacidade de sonhar e a possibilidade de se enternecer, que é o que acontece quando os nossos sentidos desmaiam de felicidade súbita e inexplicável.
Sinto-me às vezes ré na culpa do desaparecimento dos desejos e dos sonhos. É pena máxima viver sem sonhos. Mas, nos dias de hoje, só os loucos reclamam os seus sonhos perdidos. Os sensatos passam ao lado, equipados de realidade, imunes e ilesos. Sobrevivem e mandam no planeta. Que chatice!
Obrigada, BB, pelo assomo de ternura!
Ao contrário do quase habitual registo de amargura, perpassa nas palavras do escritor o desejo do bem, o anseio das coisas boas, daquelas que criam boas emoções às pessoas, as fazem felizes, as torna melhores, lhes dá (ou devolve!) a capacidade de sonhar e a possibilidade de se enternecer, que é o que acontece quando os nossos sentidos desmaiam de felicidade súbita e inexplicável.
Sinto-me às vezes ré na culpa do desaparecimento dos desejos e dos sonhos. É pena máxima viver sem sonhos. Mas, nos dias de hoje, só os loucos reclamam os seus sonhos perdidos. Os sensatos passam ao lado, equipados de realidade, imunes e ilesos. Sobrevivem e mandam no planeta. Que chatice!
Obrigada, BB, pelo assomo de ternura!
terça-feira, 1 de janeiro de 2008
Faço minhas....
... as palavras dele!
Malaposta,1 de Janeiro de 1988 - "Começo bem o ano. Na firme disposição de o merecer custe o que custar."
Miguel Torga, Diário XV
Mudam-se os tempos, mas não se mudam as vontades. O contrário só acontece aos poetas!
Continuaremos a caminhar, deixando as marcas e as sombras junto ao mar, que levará e lavará os cansaços destes passos!
Malaposta,1 de Janeiro de 1988 - "Começo bem o ano. Na firme disposição de o merecer custe o que custar."
Miguel Torga, Diário XV
Mudam-se os tempos, mas não se mudam as vontades. O contrário só acontece aos poetas!
segunda-feira, 31 de dezembro de 2007
Hoje é o dia em que a expectativa toma conta de nós. Eu (e quem sabe? todos nós!) queria que a vida fosse simples e que a mudança do calendário correspondesse a uma correcção mágica de algumas imperfeições dos nossos dias. Vale a pena desejar, quanto mais não seja pelas forças do bem que os bons desejos libertam, desagrilhoando-as da mesquinhez, das vaidades vãs e outras.
Brindemos pois a um ano bom!
Brindemos pois a um ano bom!
sábado, 29 de dezembro de 2007
Nomes e coisas assim
"Disse-lhe que certos povos, em África, acreditam que o nome guarda a essência do indivíduo, o seu futuro, o seu passado. Por isso têm um nome público e outro secreto, o verdadeiro, utilizando apenas em cerimónias secretas." José Eduardo Agualusa, in Fronteiras Perdidas
O problema dos nomes veio-me à ideia, a propósito do jantar de bloggers. Quase todos têm um nome blogosférico que, de algum modo, preserva de algum dissabor, ameaça, ataque quer da vida real quer da outra, da virtual, da second.
(E eu sei que há casos desses, embora a mim nunca nada do género me tenha acontecido, a não ser na vida real, ela própria.)
A opção do nick não significa distâncias de personalidade, neste caso. O que é visível nos bloggers, à "primeira vista", é mesmo o pensamento, o miolo, o que vai cá dentro. Bom, mau, pior ou melhor. É esse que sobressai. Haverá talvez na construção do blogger uma dose de desejo que o mundo cá fora não dá atenção e que neste mundo aparece como o nosso fato principal, o uniforme de gala.
(Quando os mais próximos (da vida real) me apontam certos defeitos, acusando-me de os esconder, ou não exibir na comunidade virtual, eu argumento com o desejo de ser melhor, que, ultimamente tomou conta de quase todos os meus outros desejos. A idade, isto é, a velhice, adoçou o meu pai, adoçou a minha mãe e eu espero que me adoce a mim também.)
Parafraseando o vendedor da banha da cobra: não estou aqui para enganar ninguém, nem para me enganar a mim mesma, por isso, optei pelo meu nome real, que herdei da minha avó, para além de um resto de verde nos olhos.
Continuando a paráfrase, não estou aqui para criticar ninguém e gosto tanto dos nicks que não consigo deixar de os usar, para lá da blog.
Aconteceu isso com a Chuinguita, com a Tangerina (Olá Renata!), com a Bette Davis, com o Molin e vai acontecer com a Azulinha e com os outros meninos e meninas que foram ao jantar. Não é por mal, sim?
Como eu expliquei à Aenima, eu também já tive um nick, no tempo do Pastilhas, do MEC. Era Supertia, por sugestão do meu sobrinho Pedro, sobrinho verdadeiro. Hoje quase me envergonho do nick que na altura me pareceu sugestivo e com enorme carga de gozo. Pensava que me ia divertir imenso e assumir uma supertia com dupla personalidade, resguardando a minha própria. Enganei-me de algum modo e fui ultrapassada pelo boneco. De repente, senti-me tia de verdade de uma série de sobrinhos de verdade. Afeiçoei-me à ideia e a aos sobrinhos que ainda hoje contam nos meus afectos. Entretanto, já na blogosfera, ganhei sobrinhos: a Pitucha, a Ti.
É que eu gosto mesmo de ser tia. Talvez por ter tido as melhores tias do mundo!
Elas gostaram de mim incondicionalmente e, mesmo nos piores momentos, quando eu dei uma dentada na minha prima, não senti que o castigo dado tivesse a ver com falta de afecto. Apesar de eu ser feiosa, elas enfeitavam-me, como se enfeita uma princesa, com bordados e laçarotes. Elas fadaram-me para ser feliz e, na medida em que consegui, a elas o devo. Obrigada, tias!
O problema dos nomes veio-me à ideia, a propósito do jantar de bloggers. Quase todos têm um nome blogosférico que, de algum modo, preserva de algum dissabor, ameaça, ataque quer da vida real quer da outra, da virtual, da second.
(E eu sei que há casos desses, embora a mim nunca nada do género me tenha acontecido, a não ser na vida real, ela própria.)
A opção do nick não significa distâncias de personalidade, neste caso. O que é visível nos bloggers, à "primeira vista", é mesmo o pensamento, o miolo, o que vai cá dentro. Bom, mau, pior ou melhor. É esse que sobressai. Haverá talvez na construção do blogger uma dose de desejo que o mundo cá fora não dá atenção e que neste mundo aparece como o nosso fato principal, o uniforme de gala.
(Quando os mais próximos (da vida real) me apontam certos defeitos, acusando-me de os esconder, ou não exibir na comunidade virtual, eu argumento com o desejo de ser melhor, que, ultimamente tomou conta de quase todos os meus outros desejos. A idade, isto é, a velhice, adoçou o meu pai, adoçou a minha mãe e eu espero que me adoce a mim também.)
Parafraseando o vendedor da banha da cobra: não estou aqui para enganar ninguém, nem para me enganar a mim mesma, por isso, optei pelo meu nome real, que herdei da minha avó, para além de um resto de verde nos olhos.
Continuando a paráfrase, não estou aqui para criticar ninguém e gosto tanto dos nicks que não consigo deixar de os usar, para lá da blog.
Aconteceu isso com a Chuinguita, com a Tangerina (Olá Renata!), com a Bette Davis, com o Molin e vai acontecer com a Azulinha e com os outros meninos e meninas que foram ao jantar. Não é por mal, sim?
Como eu expliquei à Aenima, eu também já tive um nick, no tempo do Pastilhas, do MEC. Era Supertia, por sugestão do meu sobrinho Pedro, sobrinho verdadeiro. Hoje quase me envergonho do nick que na altura me pareceu sugestivo e com enorme carga de gozo. Pensava que me ia divertir imenso e assumir uma supertia com dupla personalidade, resguardando a minha própria. Enganei-me de algum modo e fui ultrapassada pelo boneco. De repente, senti-me tia de verdade de uma série de sobrinhos de verdade. Afeiçoei-me à ideia e a aos sobrinhos que ainda hoje contam nos meus afectos. Entretanto, já na blogosfera, ganhei sobrinhos: a Pitucha, a Ti.
É que eu gosto mesmo de ser tia. Talvez por ter tido as melhores tias do mundo!
Elas gostaram de mim incondicionalmente e, mesmo nos piores momentos, quando eu dei uma dentada na minha prima, não senti que o castigo dado tivesse a ver com falta de afecto. Apesar de eu ser feiosa, elas enfeitavam-me, como se enfeita uma princesa, com bordados e laçarotes. Elas fadaram-me para ser feliz e, na medida em que consegui, a elas o devo. Obrigada, tias!
sexta-feira, 28 de dezembro de 2007
Completamente azul!
Ontem, o dia começou e acabou em tons de azul.
De manhã, o mar...
Estava assim:
O azul devia estar a cem...(por cento, presumo!)
À noite, estava a cento e vinte e cinco, vezes duas, que dá (deixa cá ver se eu ainda sei fazer contas!) duzentos e cinquenta azul.
Foi giro! Foi divertido! Foi animado! Foi bom!
(O nosso PM teria dito: porreiro, pá!)
Foi discutido!
(Aquela cena dos professores e os amores da ministra dá sempre confusão. Devia abolir-se o tema de qualquer convívio!)
Foi verde!
(Até o marido da Chiqui que é americano de gema está perdido de amores pelo Sporting!)
Foi doce!
(Muito chocolate, muito chocolate, muito chocolate!)
Foi bilingue!
(A Azulinha média falou Inglês o tempo todo, revelando-se uma anfitriã 400 estrelas!)
Foi simpático!
(Tirando a parte da discussão dos professores, mas isso já nem conta!)
Foi picante!
(Mes eu não apanhei o picante, pois preferi conhecer melhor a Aenima e acho que a minha escolha foi muito boa. A Calamiti juntou-se a nós e trocámos ali meia dúzia de ideias. É preciso aprender com os mais novos. Obrigada, meninas!)
Foi bom conhecer uns e rever outros, ou melhor, outro!
Espero que a parte da dança tenha sabido bem à Calamiti que estava danadinha para dar ao pé!!!!
De manhã, o mar...
Estava assim:
O azul devia estar a cem...(por cento, presumo!)À noite, estava a cento e vinte e cinco, vezes duas, que dá (deixa cá ver se eu ainda sei fazer contas!) duzentos e cinquenta azul.
Foi giro! Foi divertido! Foi animado! Foi bom!
(O nosso PM teria dito: porreiro, pá!)
Foi discutido!
(Aquela cena dos professores e os amores da ministra dá sempre confusão. Devia abolir-se o tema de qualquer convívio!)
Foi verde!
(Até o marido da Chiqui que é americano de gema está perdido de amores pelo Sporting!)
Foi doce!
(Muito chocolate, muito chocolate, muito chocolate!)
Foi bilingue!
(A Azulinha média falou Inglês o tempo todo, revelando-se uma anfitriã 400 estrelas!)
Foi simpático!
(Tirando a parte da discussão dos professores, mas isso já nem conta!)
Foi picante!
(Mes eu não apanhei o picante, pois preferi conhecer melhor a Aenima e acho que a minha escolha foi muito boa. A Calamiti juntou-se a nós e trocámos ali meia dúzia de ideias. É preciso aprender com os mais novos. Obrigada, meninas!)
Foi bom conhecer uns e rever outros, ou melhor, outro!
Espero que a parte da dança tenha sabido bem à Calamiti que estava danadinha para dar ao pé!!!!
quinta-feira, 27 de dezembro de 2007
Alice
Alice!
Chamar-te-ei Alice, por analogia com a outra Alice que, tal como tu, ultrapasou as fronteiras de um mundo que não contribui para a felicidade dos homens. Nem tão pouco dos bichos, quanto mais dos homens ou da mulheres! Felizes os que sabem sonhar sonhos libertadores, sonhos verdadeiros, sem precisar de recorrer a qualquer artifício provocador de sensações.
Ali estás tu, Alice, em conversa serena e feliz com a mulher que te devolve o sorriso, que te acaricia o cabelo, passando-te os dedos, com vagar, sobre as madeixas brancas que te aconchegam as têmporas. Nada acorda sequer o teu tacto, também envolvido na ilusão.
Que segredos lhe contas, Alice, horas a fio, sem que as tuas pernas se cansem de ficar ali, em pé, no meio do imenso e nervoso corredor? Nem o ruidoso elevador para cima e para baixo, constantemente, estupidamente, com visitas, comidas, pessoal e acessórios de limpeza, te interrompe essas conversas longas.
O espelho e tu fazem-se companhia. Tenho a certeza que o espelho só reflecte mesmo a tua imagem. Nada mais! Serve apenas a tua fantasia e a tua vontade de ser feliz, passe por perto a adversidade que passar.
O teu cabelo brilha e compõe-se naturalmente, nunca se desgrelhando em poses inestéticas ou infelizes. Só os cabelos dos loucos se eriçam, lutando também eles contra a ameaça da normalidade. Os teus, não. Os teus convivem com a tua normalidade que é o que interessa! Cada um tem a sua normalidade, não é, Alice? E a tua é esta que vislumbras para lá do espelho e para a qual sorris o teu melhor sorriso, belo e verdadeiro. A tua pele também brilha, o que não acontece com a pele da maioria das mulheres da tua idade. E mesmo de outras, mais novas! Falta-lhes ilusão.
Estou certa que tu e ela falam de tempos distantes em que tu, Ou ela, quem sabe?, eras levada nos braços de príncipes, ao som de melodias inesquecíveis que ainda hoje podes ouvir naquela telefonia antiga que está do outro lado do corredor. Ou mesmo num posto de rádio nostálgico que passa essas cantigas, precisamente por serem inesquecíveis. E tu recordas o brilho desses salões e quase danças, quando percorres o imenso corredor e cumprimentas estes e aqueles, como se estivessem, como tu, numa grande festa da vida.
(Como tu estás enganada, Alice! Mas Deus te guarde e te conserve essa ilusão!)
Quando passo por ti e pelo teu espelho, não ouso olhar. Finjo-me distraída para não interromper o teu convívio com a outra Alice, do lado de lá do espelho.
Mas, um dia, havemos de falar e hás-de contar-me tudo sobre o teus sonhos. Quando os nosssos próprios sonhos nos não alimentam mais, há que recorrer aos dos outros.
De vez em quando, vejo-te lançar um sorriso para o lado de cá, para um dos jovens do teu tempo dos muitos que vagueiam e habitam o teu corredor. Eles não te retribuem a doçura do teu gesto, não entendem que és uma Rainha a dizer adeus aos Valetes de todos os naipes, porque a tua delicadeza está muito para além dos separatismos que a existência de vários naipes pressupõe.
O teu espelho é um trunfo que jogas para ganhar esta partida e talvez o jogo!
Chamar-te-ei Alice, por analogia com a outra Alice que, tal como tu, ultrapasou as fronteiras de um mundo que não contribui para a felicidade dos homens. Nem tão pouco dos bichos, quanto mais dos homens ou da mulheres! Felizes os que sabem sonhar sonhos libertadores, sonhos verdadeiros, sem precisar de recorrer a qualquer artifício provocador de sensações.
Ali estás tu, Alice, em conversa serena e feliz com a mulher que te devolve o sorriso, que te acaricia o cabelo, passando-te os dedos, com vagar, sobre as madeixas brancas que te aconchegam as têmporas. Nada acorda sequer o teu tacto, também envolvido na ilusão.
Que segredos lhe contas, Alice, horas a fio, sem que as tuas pernas se cansem de ficar ali, em pé, no meio do imenso e nervoso corredor? Nem o ruidoso elevador para cima e para baixo, constantemente, estupidamente, com visitas, comidas, pessoal e acessórios de limpeza, te interrompe essas conversas longas.
O espelho e tu fazem-se companhia. Tenho a certeza que o espelho só reflecte mesmo a tua imagem. Nada mais! Serve apenas a tua fantasia e a tua vontade de ser feliz, passe por perto a adversidade que passar.
O teu cabelo brilha e compõe-se naturalmente, nunca se desgrelhando em poses inestéticas ou infelizes. Só os cabelos dos loucos se eriçam, lutando também eles contra a ameaça da normalidade. Os teus, não. Os teus convivem com a tua normalidade que é o que interessa! Cada um tem a sua normalidade, não é, Alice? E a tua é esta que vislumbras para lá do espelho e para a qual sorris o teu melhor sorriso, belo e verdadeiro. A tua pele também brilha, o que não acontece com a pele da maioria das mulheres da tua idade. E mesmo de outras, mais novas! Falta-lhes ilusão.
Estou certa que tu e ela falam de tempos distantes em que tu, Ou ela, quem sabe?, eras levada nos braços de príncipes, ao som de melodias inesquecíveis que ainda hoje podes ouvir naquela telefonia antiga que está do outro lado do corredor. Ou mesmo num posto de rádio nostálgico que passa essas cantigas, precisamente por serem inesquecíveis. E tu recordas o brilho desses salões e quase danças, quando percorres o imenso corredor e cumprimentas estes e aqueles, como se estivessem, como tu, numa grande festa da vida.
(Como tu estás enganada, Alice! Mas Deus te guarde e te conserve essa ilusão!)
Quando passo por ti e pelo teu espelho, não ouso olhar. Finjo-me distraída para não interromper o teu convívio com a outra Alice, do lado de lá do espelho.
Mas, um dia, havemos de falar e hás-de contar-me tudo sobre o teus sonhos. Quando os nosssos próprios sonhos nos não alimentam mais, há que recorrer aos dos outros.
De vez em quando, vejo-te lançar um sorriso para o lado de cá, para um dos jovens do teu tempo dos muitos que vagueiam e habitam o teu corredor. Eles não te retribuem a doçura do teu gesto, não entendem que és uma Rainha a dizer adeus aos Valetes de todos os naipes, porque a tua delicadeza está muito para além dos separatismos que a existência de vários naipes pressupõe.
O teu espelho é um trunfo que jogas para ganhar esta partida e talvez o jogo!
terça-feira, 25 de dezembro de 2007
sábado, 22 de dezembro de 2007
Para todos os miúdos com menos de cem anos
Assim sempre têm a sensação de estar numa grande superfície!
sexta-feira, 21 de dezembro de 2007
Males que vêm por mal...
...ou coisa que o valha!
Gripe aviária: oito mil perdizes vão ser abatidas até amanhã
Ao ler este título de notícia, o meu coração bateu acelerado: é desta que a gripe das aves chega a Portugal, para dar cumprimento a profecias de cenários catastróficos que nem o tremor de terra de 1755 teria causado, se já tivesse sido inaugurado no Terreiro do Paço a mais famosa estação de Metro que há no mundo. Mais famosa, sim, porque a mais cara e a que demorou mais tempo a fazer. Deve ter entrado para o Guiness que é uma coisa muito importante para os portugueses!
Com a perspectiva da gripe, já nem me importa que a minha escola seja presidida por um director ou gestor, que suba ou desça a taxa de juro indexada à prestação da minha casa, que o aumento de ordenado seja outra vez igual a zero, que o aeroporto seja em Alcochete ou na Ota, que fechem as maternidades, etc
Notícias destas fazem muito "estrago" no descontentamento do povo o que dá muito jeito a quem manda.
A gente já não se descontenta tanto e o governo agradece!

Imagem e notíca do Público
Gripe aviária: oito mil perdizes vão ser abatidas até amanhã
Ao ler este título de notícia, o meu coração bateu acelerado: é desta que a gripe das aves chega a Portugal, para dar cumprimento a profecias de cenários catastróficos que nem o tremor de terra de 1755 teria causado, se já tivesse sido inaugurado no Terreiro do Paço a mais famosa estação de Metro que há no mundo. Mais famosa, sim, porque a mais cara e a que demorou mais tempo a fazer. Deve ter entrado para o Guiness que é uma coisa muito importante para os portugueses!
Com a perspectiva da gripe, já nem me importa que a minha escola seja presidida por um director ou gestor, que suba ou desça a taxa de juro indexada à prestação da minha casa, que o aumento de ordenado seja outra vez igual a zero, que o aeroporto seja em Alcochete ou na Ota, que fechem as maternidades, etc
Notícias destas fazem muito "estrago" no descontentamento do povo o que dá muito jeito a quem manda.
A gente já não se descontenta tanto e o governo agradece!
Imagem e notíca do Público
quinta-feira, 20 de dezembro de 2007
Inglês Técnico
quarta-feira, 19 de dezembro de 2007
O que custa mesmo é não saber viver
Saber viver é vender a alma ao diabo
Gosto dos que não sabem viver,
dos que se esquecem de comer a sopa
((Allez-vous bientôt manger votre soupe,
s... b... de marchand de nuages?»)
e embarcam na primeira nuvem
para um reino sem pressa e sem dever.
Gosto dos que sonham enquanto o leite sobe,
transborda e escorre, já rio no chão,
e gosto de quem lhes segue o sonho
e lhes margina o rio com árvores de papel.
Gosto de Ofélia ao sabor da corrente.
Contigo é que me entendo,
piquena que te matas por amor
a cada novo e infeliz amor
e um dia morres mesmo
em «grande parva, que ele há tanto homem!»
(Dá Veloso-o-Frecheiro um grande grito?..)
Gosto do Napoleão-dos-Manicómios,
da Julieta-das-Trapeiras,
do Tenório-dos-Bairros
que passa fomeca mas não perde proa e parlapié...
Passarinheiros, também gosto de vocês!
Será isso viver, vender canários
que mais parecem sabonetes de limão,
vender fuliginosos passarocos implumes?
Não é viver.
É arte, lazeira, briol, poesia pura!
Não faço (quem é parvo?) a apologia do mendigo;
não me bandeio (que eu já vi esse filme...)
com gerações perdidas.
Mas senta aqui, mendigo:
vamos fazer um esparguete dos teus atacadores
e comê-lo como as pessoas educadas,
que não levantam o esparguete acima da cabeça
nem o chupam como você, seu irrecuperável!
E tu, derradeira geração perdida,
confia-me os teus sonhos de pureza
e cai de borco, que eu chamo-te ao meio-dia...
Por que não põem cifrões em vez de cruzes
nos túmulos desses rapazes desembarcados p'ra morrer?
Gosto deles assim, tão sem futuro,
enquanto se anunciam boas perspectivas
para o franco frrrrançais
e os politichiens si habiles, si rusés,
evitam mesmo a tempo a cornada fatal!
Les portugueux...
não pensam noutra coisa
senão no arame, nos carcanhóis, na estilha,
nos pintores, nas aflitas,
no tojé, na grana, no tempero,
nos marcolinos, nas fanfas, no balúrdio e
... sont toujours gueux,
mas gosto deles só porque não querem
apanhar as nozes...
Dize tu: - Já começou, porém, a racionalização do trabalho.
Direi eu: - Todavia o manguito será por muito tempo
o mais económico dos gestos!
*
Saber viver é vender a alma ao diabo,
a um diabo humanal, sem qualquer transcendência,
a um diabo que não espreita a alma, mas o furo,
a um satanazim que se dá por contente
de te levar a ti, de escarnecer de mim...
Alexandre O' Neill, o poeta que rimou sempre os versos do inconformismo, temperando as palavras de uma irreverência que jamais lhe destruiu a poesia!
Que falta faz o homem neste país, dolorosamente convertido à ideologia da imagem, do parecer bem, do ter sempre cada vez mais, daquilo que se vê e dá nas vistas, mesmo que para tal se tire ao que dá no estomâgo!
Mas isto é fácil de dizer, para uns quantos como eu a quem a fome não bate à porta.
E quem diz fome de pão, pode dizer também fome de sonho!
Este poema traz-me uma lembrança antiga, muito antiga e que, por alguma razão, sobreviveu ao naufrágio de outras recordações: era uma senhora de muito boas famílias que tinha perdido o tino e sabem quem preenchia os seus sonhos (seriam devaneios?) amorosos? O Pai Natal! E trazia sempre consigo uma grande mala de viagem. Seria de cartão, certamente! A ela isso não lhe interessava nada. Aquela era a sua bagagem. Ali estava o que precisava para "juntar os trapinhos" com o o Pai Natal.
Precisamos de alguns elogios da loucura como a deste poema, para levar a cabo a desintoxicação provocada pela vã elegância dos senhores que mandam no mundo.
Obrigada, Poeta!
Alexandre O'Neill nasceu a 19 de Dezembro de 1924.
Gosto dos que não sabem viver,
dos que se esquecem de comer a sopa
((Allez-vous bientôt manger votre soupe,
s... b... de marchand de nuages?»)
e embarcam na primeira nuvem
para um reino sem pressa e sem dever.
Gosto dos que sonham enquanto o leite sobe,
transborda e escorre, já rio no chão,
e gosto de quem lhes segue o sonho
e lhes margina o rio com árvores de papel.
Gosto de Ofélia ao sabor da corrente.
Contigo é que me entendo,
piquena que te matas por amor
a cada novo e infeliz amor
e um dia morres mesmo
em «grande parva, que ele há tanto homem!»
(Dá Veloso-o-Frecheiro um grande grito?..)
Gosto do Napoleão-dos-Manicómios,
da Julieta-das-Trapeiras,
do Tenório-dos-Bairros
que passa fomeca mas não perde proa e parlapié...
Passarinheiros, também gosto de vocês!
Será isso viver, vender canários
que mais parecem sabonetes de limão,
vender fuliginosos passarocos implumes?
Não é viver.
É arte, lazeira, briol, poesia pura!
Não faço (quem é parvo?) a apologia do mendigo;
não me bandeio (que eu já vi esse filme...)
com gerações perdidas.
Mas senta aqui, mendigo:
vamos fazer um esparguete dos teus atacadores
e comê-lo como as pessoas educadas,
que não levantam o esparguete acima da cabeça
nem o chupam como você, seu irrecuperável!
E tu, derradeira geração perdida,
confia-me os teus sonhos de pureza
e cai de borco, que eu chamo-te ao meio-dia...
Por que não põem cifrões em vez de cruzes
nos túmulos desses rapazes desembarcados p'ra morrer?
Gosto deles assim, tão sem futuro,
enquanto se anunciam boas perspectivas
para o franco frrrrançais
e os politichiens si habiles, si rusés,
evitam mesmo a tempo a cornada fatal!
Les portugueux...
não pensam noutra coisa
senão no arame, nos carcanhóis, na estilha,
nos pintores, nas aflitas,
no tojé, na grana, no tempero,
nos marcolinos, nas fanfas, no balúrdio e
... sont toujours gueux,
mas gosto deles só porque não querem
apanhar as nozes...
Dize tu: - Já começou, porém, a racionalização do trabalho.
Direi eu: - Todavia o manguito será por muito tempo
o mais económico dos gestos!
*
Saber viver é vender a alma ao diabo,
a um diabo humanal, sem qualquer transcendência,
a um diabo que não espreita a alma, mas o furo,
a um satanazim que se dá por contente
de te levar a ti, de escarnecer de mim...
Alexandre O' Neill, o poeta que rimou sempre os versos do inconformismo, temperando as palavras de uma irreverência que jamais lhe destruiu a poesia!
Que falta faz o homem neste país, dolorosamente convertido à ideologia da imagem, do parecer bem, do ter sempre cada vez mais, daquilo que se vê e dá nas vistas, mesmo que para tal se tire ao que dá no estomâgo!
Mas isto é fácil de dizer, para uns quantos como eu a quem a fome não bate à porta.
E quem diz fome de pão, pode dizer também fome de sonho!
Este poema traz-me uma lembrança antiga, muito antiga e que, por alguma razão, sobreviveu ao naufrágio de outras recordações: era uma senhora de muito boas famílias que tinha perdido o tino e sabem quem preenchia os seus sonhos (seriam devaneios?) amorosos? O Pai Natal! E trazia sempre consigo uma grande mala de viagem. Seria de cartão, certamente! A ela isso não lhe interessava nada. Aquela era a sua bagagem. Ali estava o que precisava para "juntar os trapinhos" com o o Pai Natal.
Precisamos de alguns elogios da loucura como a deste poema, para levar a cabo a desintoxicação provocada pela vã elegância dos senhores que mandam no mundo.
Obrigada, Poeta!
Alexandre O'Neill nasceu a 19 de Dezembro de 1924.
terça-feira, 18 de dezembro de 2007
Happy Birthday, Spielberg!
"Everything wanna be loved. Us sing and dance, and holla just wanting to be loved. Look at them trees. Notice how the trees do everything people do to get attention... except walk?"
Spielberg é um homem de esperança na humanidade. A rejeição tê-lo-á ensinado a lutar pela compreensão entre os diferentes. O seu ET é um Principezinho da era do cinema de efeitos especiais. A fantasia é sempre um trunfo nestas questões de humanidade!
Parabéns, Spielberg!
Spielberg é um homem de esperança na humanidade. A rejeição tê-lo-á ensinado a lutar pela compreensão entre os diferentes. O seu ET é um Principezinho da era do cinema de efeitos especiais. A fantasia é sempre um trunfo nestas questões de humanidade!Parabéns, Spielberg!
quinta-feira, 13 de dezembro de 2007
Dos dias
Falta alguém? perguntei, como sempre, apesar de ter já notado a ausência daquele volume de caracóis desalinhados e pretos, libertados, daqueles olhos também encaracolados de mimo e doçura, tanto, tanto, que até dá para semicerrar as pestanas e avançar em direcção a mais um abraço que o espere, tropeçando em quem empatar esse caminho.
Acabada a pergunta, bateram à porta. É o João, gritaram os outros. Abri a porta, à espera do sorriso doce. Não! Enganara-me. Não sorriu, não se moveu, não falou. Os olhos quase rebentavam num brilho estranho. Até os caracóis negros embaciaram.
- O que foi?
Nada. Nem resposta. Nem razão. Nem choro. Nada.
Insisti. Outra vez: nada!
De repente um choro convulsivo e muito molhado rasgou-me o entendimento: doem-me os pés.
Uns minutos depois veio a explicação:
- Há um ano fui operado aos pés. Eu não tinha aquela curva que vocês têm. E agora, às vezes, tenho muitas dores e nem consigo andar.
(Meu Deus, não foi para isto que eu "fui para professora"! Andei o resto do dia, vou ficar muitos dias com o desenho daquelas dores injustas nuns pés de dez anos. Eu que pensava que só aos mais velhos é que as dores acontecem!)
Acabada a pergunta, bateram à porta. É o João, gritaram os outros. Abri a porta, à espera do sorriso doce. Não! Enganara-me. Não sorriu, não se moveu, não falou. Os olhos quase rebentavam num brilho estranho. Até os caracóis negros embaciaram.
- O que foi?
Nada. Nem resposta. Nem razão. Nem choro. Nada.
Insisti. Outra vez: nada!
De repente um choro convulsivo e muito molhado rasgou-me o entendimento: doem-me os pés.
Uns minutos depois veio a explicação:
- Há um ano fui operado aos pés. Eu não tinha aquela curva que vocês têm. E agora, às vezes, tenho muitas dores e nem consigo andar.
(Meu Deus, não foi para isto que eu "fui para professora"! Andei o resto do dia, vou ficar muitos dias com o desenho daquelas dores injustas nuns pés de dez anos. Eu que pensava que só aos mais velhos é que as dores acontecem!)
domingo, 9 de dezembro de 2007
Desencontros
Há crianças que sofrem a máxima violação ao seu direito de crescer: a fome. E há gente grande que usufrui do fausto máximo, em palcos de abundância indecorosa. Chocantemente indecorosa, sobretudo quando passam, no pano de fundo da nossa consciência de cidadania, os olhos tristes dessas crianças.
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