terça-feira, 26 de agosto de 2008

A vacina que sabia a rebuçado

Hoje são muitos os avanços da Ciência, nomeadamente da Ciência Médica e é graças a esse avanço que nós vivemos cada vez tempo.
(A par dos avanços há os retrocessos dos comportamentos, o que devia afligir muito a humanidade, mas pelos vistos não aflige assim tanto, pois já teria havido alguma mudança! A própria humanidade regride, enquanto sentimento que significa o reconhecimento do valor da vida, o solidário reconhecimento das necessidades vitais e consequente empenhamento na viabilidade da sua satisfação, seja dos que nos são chegados e próximos, seja dos que desconhecemos mas são de carne, osso, nervos e sangue, como nós.)
Quando eu nasci havia na panóplia das doenças da infância a chamada paralisia infantil, ou poliomielite, como diziam os entendidos. A doença era provocada por um vírus. Não sei exactamente se todos teriam os mesmo tipo de sequelas, mas dois amigos meus ficaram com uma perna mais atrofiada e usavam um aparelho com ferros que devia magoar muito a alma e o coração das mães. Digo isto porque me lembro bem da tristeza do olhar dessas mães. Mais do que das próprias crianças que activavam as defesas e se desenvolviam com a naturalidade das outras meninas e meninos. Era uma doença terrível e muito temida: matava ou deixava sequelas graves.
Em 1954, dizem uns, um pouco mais tarde, dizem outros, apareceu uma vacina! Ainda hoje guardo a sensação de magia que me provocaram as gotinhas doces! Nem sequer era preciso levar uma pica. Não fazia sofrer e sabia a rebuçado.
O "Mágico" que inventou estas gotinhas chamava-se Albert Bruce Sabin e nasceu a 26 de Agosto de 1906.
Obrigada, Senhor Sabin!
Não é preciso pensar muito para se perceber a importância da vacinação na Saúde Pública, especialmente na infância, especialmente nas crianças para quem já chega a certeza, ou qause certeza, da fome. Foto do início dos anos cinquenta, Alto Molocué, Moçambique

Balanço

A minha mãe dizia que o diabo andava à solta no dia 24 de Agosto. Com o passar do tempo do dia deve ter-se mudado para 26!
Sobre esta data e esta "convicção", escreveu Benard da Costa, há três semanas, no Público
Mas o balanço deste dia 26 de Agosto faz lembrar essa lendária ideia de soltarem o diabo.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

O ouro de cada dia

O ouro não cai do ar.
O ouro, quando nasce, é para quem o agarrar.
Um dó li tá
Só-quem-quer-po-de es-tar-lá!
E depois há o hino
que ecoa como um sino
em dia de casamento.
Pode ser também baptizado
tem é que tocar à festa.
E a festa é esta:
ter chegado, em primeiro lugar;
ter saltado como quem sabe voar;
trocar as voltas ao fado,
dar ao coração a permissão da emoção maior
e receber o ouro como quem recebe o pão
que ambos são força,vontade e suor.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

O ouro é dele! "O sonho continua"

Nelson Évora nasceu a 20 de Abril de 1984 na Costa do Marfim. Filho de pai cabo-verdiano e mãe costa-marfinense, Nelson acabou por ficar com nacionalidade cabo-verdiana. Como o pai, Paulo, começou a trabalhar muito cedo como contra-mestre de navios, pôde reformar-se cedo e, querendo dar uma boa educação aos filhos, trouxe-os para Portugal. Na altura, Nelson tinha 5 anos.
Por ironia do destino, a família Évora fixou-se em Odivelas, no andar de cima de João Ganço, antigo recordista nacional de salto em altura e primeiro português a passar 2m, que tinha três filhos igualmente pequenos. David, por ser apenas um ano mais velho que Nelson, tornou-se no seu melhor amigo. Certo dia, João Ganço vendo-os a brincar à porta do prédio sugere a Nelson que começasse a praticar atletismo como o David, e assim, se inicia a carreira desportiva de Nelson.
Nelson, treinando nas instalações da Escola da Ramada, começou a participar nas provas de estrada do Torneio de Loures e, em conjunto com o David, dominavam o seu escalão.
Aos 10 anos, ingressa no Odivelas Futebol Clube, e como benjamim salta 1,64m no salto em altura... quando ele próprio media pouco mais de 1,40m. Nesse escalão havia o Troféu Nuno Nogueira e o Nelson, mesmo passando as provas de marcha a contar anedotas no grupo dos últimos, ganhava esse troféu.
Como o Nelson e o David davam nas vistas, o Benfica convidou-os a ingressarem no clube e, graças às melhorias das condições de treino, Nelson começou a revelar o seu talento e as suas aptidões físicas na disciplina de saltos. Em infantil, melhora o seu record pessoal no salto em altura para 1,75m e no salto em comprimento, faz 5,50m o que significava que já não tinha adversários ao seu nível, nem mesmo nas provas combinadas.
Como iniciado, atinge uma espectacular marca no salto em altura: 1,98m, no salto em comprimento faz 6,46m e, numa primeira abordagem ao triplo salto, salta 14,35m.
Aos 15 anos, uma grave lesão num joelho fez-lhe ter medo do salto em altura, mudando-se para os saltos horizontais. É assim que se explica que em juvenil de 1º ano não tenha melhorado no salto em altura. Contudo, no salto em comprimento aproxima-se dos 7m e no triplo dos 15m. Na segunda época de juvenil, Nelson salta 7,55m no comprimento e 16,15m no triplo salto. Representa pela primeira vez Portugal no Festival Olímpico da Juventude Europeia, trazendo logo uma medalha de ouro na prova de salto em comprimento.
Completando os 18 anos em 2002, Nelson opta por se naturalizar português esclarecendo que é em Portugal que está a sua vida, e que se sente mais português que cabo-verdiano ou marfinense. E, só como júnior começa a inscrever o seu nome nos records nacionais portugueses. É também como júnior que Nelson Évora passa pelo F.C. Porto e se mostra um atleta de futuro a nível mundial. Em 2002 participa no Campeonato Mundial de Juniores em Kingston (Jamaica), quedando-se pelo sexto lugar no triplo salto mas àquem do seu record pessoal, fazendo 15,87m. E em 2003, é duplo campeão europeu de juniores em Tampere (Finlândia): no salto em comprimento e no triplo salto com 7,83m e 16,43m, respectivamente.
Começaram a chover propostas de universidades americanas, mas Nelson, um jovem muito caseiro e muito ligado aos amigos e ao seu treinador, não se deixou convencer. Sem a família por perto, Nelson não é feliz e, se fosse para os Estados Unidos, a família estaria muito longe de Nelson, e isso seria doloroso para quem “ter amor por perto é o mais importante...”
Em 2004, voltou para o seu clube de coração, o Sport Lisboa e Benfica, mas foi um ano marcado por uma lesão que quase impedia a sua presença nos prestigiantes Jogos Olímpicos que se desenrolaram em Atenas. No entanto, fez uma recuperação fantástica a tempo de participar, só não conseguindo chegar à marca de acesso à final. Mas mesmo assim, esta presença foi proveitosa para Nelson ganhar experiência e sobretudo para sentir de perto as grandes emoções que se vivem numa competição deste nível.
Em 2005, conquistou a medalha de bronze no triplo-salto com 16,89 metros, no Campeonato da Europa Sub-23 em Erfurt (Alemanha) e participou no Campeonato do Mundo em Helsínquia, falhando a qualificação para a final por poucos centímetros ao ser 14.º nas eliminatórias. Durante esta época, Nelson volta a dar um “saltinho” ao salto em altura, para ajudar colectivamente o Benfica no campeonato de sub-23, e consegue passar 2,07m sem qualquer treino específico...
No ano seguinte, Nelson dá definitivamente o pulo para o grande circuito mundial quando em Fevereiro num dos primeiros meetings internacionais de pista coberta, ganha em Moscovo (num dia em que até estava bastante indisposto), batendo o record nacional pertencente a Carlos Calado e ficando, durante algumas semanas como líder mundial com a marca de 17,19m. Em Moscovo, Nelson participaria ainda no Campeonato do Mundo em Pista Coberta, no qual alcançou o sexto lugar. Também em 2006, esteve no Campeonato Europeu em Gotemburgo acabando em quarto lugar no triplo-salto com a marca de 17,07 metros (na eliminatória tinha feito 17,23- novo record nacional). Ficou ainda em sexto no salto em comprimento com a marca de 7,91 metros.
No ano de 2007, Nelson participou no Campeonato Europeu em Pista Coberta em Birmingham no triplo salto, no qual obteve o 5.º lugar. Nessa competição, Nelson lesionou-se logo ao primeiro ensaio, tendo ficado impossibilitado de lutar pelo pódio, algo que já seria expectável. Torna-se pela primeira vez, presença regular nos maiores meetings do circuito europeu e, em Madrid, fixa novo record mundial em 17,51m. E em Agosto, nos Mundiais de Osaka, Nelson Évora entra para a história, sagrando-se campeão do Mundo de triplo salto com a espectacular marca de 17,74m (segunda melhor marca mundial do ano) e também recorde nacional.
2007 foi o ano da grande confirmação em sénior de quem já tinha sido dos melhores juvenis e juniores mundiais mas desengane-se quem pensa que Nelson Évora vai ficar por aqui porque “o sonho continua...”.
Texto de Rafael Lopes
Hoje o coração puxa-me para a minha costela saloia e fico ainda mais emocionada pela referência a lugares que também são meus pela legitimidade dos vinte anos que vivi em Odivelas.imagem do Jornal de Notícias
Obrigada, Nelson Évora!

Mal nos conhecemos inaugurámos a palavra Amigo

O'Neill, o poeta que não parece poeta. Se passar por um Pessoa e me disserem: ali vai um poeta, eu acredito. O mesmo não diria ao passar por um O'Neill. Ali vai um homem. Normal? Talvez! Zangado? Não sei porquê, mas todos os retratos de O'Neill me dão a ideia de um homem zangado. Claro que para um poeta o mundo não é senão um espaço hostil, uma espécie de cenário de guerra onde ele sozinho combate toda a espécie de inimigos. Então não sei por que é que Pessoa me parece poeta e O'Neill me parece mais um homem igual aos outros que não são poetas. Nem vencidos da vida, nem convencidos da vida, como o próprio O'Neill chamou a alguns que "querem vencer, querem, convencidos, convencer"; a alguns que "estão convencidos da sua excelência, da excelência das suas obras e manobras".
O'Neill morreu há vinte e dois anos. Ou ele antecipou uma visão de sociedade, ou ela já existia assim e continua assim: cheia de falsidades, de cinismos, povoada dos tais convencidos da vida.
De qualquer modo, O'Neill, o homem zangado, conhecia bem o que quer dizer a palavra Amigo!

Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra «amigo».
«Amigo»
é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!
«Amigo»
(recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
«Amigo» é o contrário de inimigo!
«Amigo» é o erro corrigido,
Não
o erro perseguido, explorado,
É a verdade partilhada, praticada.
«Amigo»
é a solidão derrotada!
«Amigo»
é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
«Amigo» vai ser, é já uma grande festa!

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Conta-me como foi

Foi há trinta e cinco anos!
Éramos novos e magros. Eu tinha os cabelos completamente pretos e o Jorge tinha cabelos. Poucos, mas tinha. Para compensar tinha barbas e bigodes. Os óculos também eram "à época". Eu usava mini-saias e calças à boca de sino. Pintava os olhos à Mary Quant. O Jorge usava jeans, hoje um vestuário clássico. Em dias mais "hippies" usava uma túnica que tinha comprado em Londres, numas férias em que arranjou trabalho num restaurante, o que deu para prolongar as férias e ainda fazer compras.
Além de novos e magros éramos priviligiados, já que os pais de ambos os lados consentiram que casássemos e continuássemos a estudar, o que implicou a ajuda deles, claro! Tínhamos uma casa pequenina, alugada, dois mil e trezentos escudos ao mês, e um mini vermelho, com a matrícula DG-79-96. Dividíamos o tempo, que era muito e chegava para muito, entre as faculdades, os amigos e a família, especialmente os meus sogros, que nos davam muitas vezes de almoçar e de jantar. Dividíamos o dinheiro, que não era muito mas chegava para a renda da casa, para os livros e sebentas, para as comidas que eu ia aprendendo a fazer e para a gasolina. Cem escudos enchiam o depósito. (Hoje o mesmo dinheiro não dá para um café!) Já havia Sporting, claro e muito futuro. Desse futuro já gastámos "algum", bem gasto, em filhos, amigos, trabalho e "outros assuntos" da vida que, sendo contratempos, não deixam de ser parte importante dessa mesma vida. Estamos a armazenar futuro e energias para as coisa boas que ainda estão para chegar! Para podermos continuar a contar como foi!

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Ainda a fotografia

Fotografia de Tiago Cunha Ferreira
"Um olhar sobre estas imagens pode ser a oportunidade de enriquecer a nossa percepção do desenvolvimento humano. Na intemporalidade destes momentos retidos em papel, encontramos uma história de que todos fazemos parte. Encontramos os valores de que cada laço é feito,experimentamos a evidência e os efeitos da sua presença permanente. Ser humano é ser próximo." Maria Nolasco

Fotografia

Hoje é Dia Mundial Da Fotografia.
Não vale a pena dizer que eu ainda sou do tempo em que tirar uma fotografia era muito mais do que pegar na máquina e fazer clique. Ainda sou do tempo em que ter nas mãos uma fotografia implicava ter tirado o rolo da máquina, ter levado o rolo para revelar, ter ido, um, dois, ou mesmo três dias depois, com um talãozinho, buscar o rolo e as fotografias. E depois guardavam-se as películas, os negativos, para tornar a ir ao fotógrafo, pedir para reproduzir as melhores, "para mais tarde recordar", como dizia o slogan.
Hoje, nem vale a pena dizer a trabalheira que é fazer clique e ver no visor da própria máquina se ficou bem ou não.
Eu gosto de fotografia. E o meu filho Rafael também. Até tem um blogue só de fotografia. Bora lá espreitar!

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Como foste nessa?


Hoje o que toda a gente sabe é que esta Vanessa fez brilhar em tons de prata o orgulho perdido. A Vanessa da cantiga do Variações era moreninha e cheiinha. Esta é de prata! Todinha de prata!
No entanto há ralhetes e a Menina de Prata junta-se aos ralhetes e dá razão ao Senhor que manda nos portugueses olímpicos.
Nós, por cá, todos bem e resta-nos dizer-te: Obrigada, Vanessa!
Tal como Maria Albertina, o nome Vanessa agora "é cá da terra e tem muito encanto"!

domingo, 17 de agosto de 2008

Viva o Senhor Francis Obikwelu

O meu filho Diogo sugeriu-me uma homenagem ao Senhor Francis Obikwelu.
Mas quem sou eu para prestar uma homenagem ao Obikwelu, pensei! Não sou nada, ao pé de um homem que sabe o que quer e onde quer chegar, mesmo que para isso tenha de passar pela dureza de um trabalho, aquele que ninguém deseja. Trabalho esse que, para além da força física, requer uma força moral imensa. O trabalho dito das obras, bem ou mal pago, é normalmente conotado com aptidões menores. E nem vale a pena tentar nenhum exercício de cinismo, pois ninguém tem como sonho trabalhar nas obras ou ter um filho a trabalhar nas obras.
Mas, com o adiantado da história de Francis Obikwelu, todos percebemos que o sonho passa às vezes por fases de verdadeiro pesadelo. Francis tinha tudo para vencer e venceu. Encheu de orgulho uma nação que se rende pelo coração a estas histórias de sobrevivência corajosa, que se rende pela emoção que a meta representa, que se rende à honra de um pódio olímpico, por mais que queiramos que o nosso orgulho de cantinho de mar salgado seja sóbrio e discreto.
E de repente o nosso herói torna-se ainda mais digno da nossa admiração, porque, ao contrário do que fomos habituados, este homem não se insurgiu contra a má sorte, não se vitimizou para ficar bem no retrato: assumiu a sua condição humana e pediu para ir embora, pois o Homem Obikwelu tem em mãos uma tarefa muito importante. Ele é o verdadeiro Homem das Obras, das Grandes Obras, para as quais é preciso ser um Grande Homem.
“Quero ajudar as crianças. Quando era miúdo, disse à minha mãe que queria ser famoso e ter dinheiro para ajudar as crianças.”
Viva o Senhor Francis Obikwelu!

Pode ler-se aqui uma homenagem de verdade!
Imagem do Jornal Público

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

With a little help from my friends

Oh I get by with a little help from my friends
Mm going to try with a little help from my friends
Oh I get high with a little help from my friends
Yes I get by with a little help from my friends
With a little help from my friends

O Festival de Woodstock abriu a 15 de Agosto de 1969. Foi um evento musical que pôs em marcha a luta da juventude de então (os velhadas de hoje, como eu!)contra a corrente do pensamento dominante.
A liberdade estava na linha do horizonte. Era preciso chegar lá. Era preciso viver diferente, em todos os campos da vida.
Porquê lutar contra os inimigos escolhidos pelos governos?
Os porquês do amor vieram à baila e os tabus foram despidos e vencidos no próprio campo do festival. Nus e felizes os manifestantes de Woodstock pensavam ter chegado lá, ao cume do ideal...
Alguns corpos não aguentaram tanta ilusão e essas foram as grandes baixas destes campos de batalha.
A cantiga dos Beatles "With a little help of my friends" subiu ao palco no primeiro dia do Festival, no próprio dia 15 de Agosto, pela voz de Richie Havens .
E este é um refrão que diz muito sobre um legado do valor de amizade que nos tem acompanhado ao longo de uma vida dita adulta. Envelheceu connosco!
Yes, I get high with a little help from my friends!

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Torga

Hoje é dia de recordar Torga.
Aniversariamente, como diz outro poema de outro poeta.
Miguel Torga nasceu a 12 de Agosto de 1907. Escreveu como ninguém sobre as sombras que nos habitam. Fê-lo na primeira pessoa, não se excluindo nunca, por ser quem era, poeta, escritor, médico, homem culto e instruído, dessa espécie de avesso cheio de costuras que somos por dentro. Muitos não terão gostado, por se verem expostos nessas radiografias de alma tão precisas e certas, o que levou alguns críticos a condená-lo pela amargura.
No entanto, o ser taciturno também contou histórias que ilustram a presença do bem na vida de muitos, de muitos que aparentemente terão nascido já fadados para a condição do homem castigado pelo pecado original.
A natureza é assim a grande redenção original. Que o diga o Rodrigo, o pastor que mandou abrir o Monte da Forca à procura de um tesouro igual ao do Ali Babá. Salvou-o da desilusão profunda o balido de uma das suas ovelhas que oferecia ao mundo mais umas crias. Que o digam os contrabandistas e os guardas da fronteira, que se unem pela vida e pelo chamamento do amor nos corpos despidos de fardas e outros preconceitos! Que o diga o Garrinchas, versão literária de um sem-abrigo de outros tempos e de outras terras distantes das grandes. Ele conseguiu chegar à fala com as figuras do presépio e fazer ele mesmo parte desse presépio que tantos de nós tentamos em vão imitar!
Na homenagem dos seus oitenta anos, Torga disse aos que com ele celebravam a data:
"Se gostei muito de ser lido, gostei sempre mais de ser amado. E fui-o felizmente. Apesar das arestas que herdei das fragas nativas, e de ferozmente rebelde a todas as transigências e conivências que são o quotidiano social, tive quase sempre ao lado um Cireneu para me aligeirar o peso da cruz. Ora é precisamente o que está a acontecer agora. (...) E não podem calcular o que vai cá dentro em termos de comoção e gratidão."
Este pedaço de discurso revela bem o lado do poeta que muitos teimaram em não conhecer. E que paz ele traz à nossa consciência de seres simples. Simples como o granito do seu berço, como as mimosas do recreio da sua escola...

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Pasmo

Não mudes nos meus olhos, Alentejo!
Continua despido e abrasado,
Castamente lavrado
Por altivos poetas confiados,
Que te refrescam de suor
E amor,
A sonhar à rabiça dos arados.

Miguel Torga,
Diário, 11 de Agosto de 1987

As tardes dos dias esquecidos

Depois do almoço, ficavam as mulheres.
Também era o que havia: mulheres. A minha avó, com uma presença imensa. As minhas três tias, todas maravilhosas, cada uma na sua especialidade: gostar, tratar feridas, não só do corpo, mas também as outras, brincar, ensinar. As quatro mulheres conversavam e bordavam. Conversavam e faziam crochet. Conversavam e faziam tricot, conversavam e cosiam. Alinhavavam, cosiam, provavam, descosiam, tornavam a coser. Sempre a mesma alegria de viver. Sempre a mesma capacidade de gostar. Sempre a mesma coisa. Todas as tardes.
Era uma divisão da casa que era de todos e não era de ninguém. Era o quarto das tardes. Elas eram as verdadeiras donas desse quarto.
Quando algum de nós estava adoentado, ia para lá, deitava-se na cama alta, de ferro e colchão de palha. Duas, três tardes e a doença passava.
Se as paredes do quarto das tardes falassem (se o quarto das tardes e a casa ainda existissem...) tinham muito que contar. Por ali passaram as grandes desavenças familiares, as traições, os adultérios, as zangas de noras e sogras...
(Espero que esta parte da sogras e das noras não se repita.)

sábado, 9 de agosto de 2008

Momentos de Ouro

Carlos Lopes

Mais do que ser primeiro
Herói é quem
Sabe dar-se inteiro
E dentro de si mesmo, ir mais além.

Manuel Alegre


Ao Carlos Lopes eu agradeço a emoção, o orgulho. Se há embaixadores de um sentimento misturado a que chamamos nacionalidade, Carlos Lopes é um deles. A sua bravura está na consciência que manifesta da sua humanidade, revelando-se tão humilde quanto os grandes em todos os pequenos gestos. É "dentro de si mesmo", como diz o poeta, que ele vai "mais além!!
Clique na imagem, para saber mais!

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Knock, knock!


Deixo-te as rosas, a minha amizade, a minha admiração e os votos de um dia feliz!
Amanhã, desejo-te outro dia feliz. Depois de amanhã, desejo-te outro dia feliz! E por aí fora. Que todos os teus dias sejam dias muito felizes!

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

No dia 6 de Agosto...

A humanidade dobrou o jornal aliviada. Torga escrevia assim no seu Diário. A ironia do escritor dói-nos e transmite-nos a dor sentida para quem viveu o dia mais triste da humanidade.
Hoje, como todos os anos, na Hiroshima reconstruída, as novas gerações reconstroem também a esperança na humanidade.
Numa Declaração de Paz das Crianças, recordam-se as vítimas e agradece-se aos sobreviventes: "...our generation lives because these people survived. We live because of the peaceful city they built us. Now, we want to say "thank you" to these survivors, from the bottom of our hearts."
Que este dia não volte mais. Recordemo-lo, por isso mesmo!

O efeito de Sophia

"A nossa vida é como um vestido que não cresceu connosco."
Este é o último verso do poema "No Quarto" da (nossa) Sophia, publicado pela Caminho, no Livro "Geografia".
Pus-me a pensar: na vida; nos vestidos; e em crescer.
Para além da dimensão "tempo", que se mede objectivamente em anos, meses, minutos, a Vida é mesmo um mistério para mim. Em termos da dimensão "espaço", a Vida situa-se normalmente no Planeta Terra, apesar de alguns já terem tido experiências fora da bolinha azul. Tomamos o tempo e o espaço e tentamos algo que valha a pena. Só respirar, não chega! Só comer, também não! Só dormir... ainda menos. Então o que é Viver?
Quanto ao vestido: recordo que eu ainda sou do tempo APV (Antes do Pronto a Vestir).
Os meus vestidos eram rigorosamente planeados em função da necessidade de andar bem vestidinha para não deixar envergonhada a minha família. Procurava-se o tecido, o modelo, comprava-se tudo a metro no John Orr ou na Casa Coimbra, mais os aviamentos, tirava-se as medidas. Depois vinham as provas e finalmente o vestido chegava a casa, saído das mãos de uma talentosa costureira, com requintes de obra de arte. E era!
Só que esses vestidos não cresceram comigo e na Era PV já nem me lembro bem deles, a não ser dos cuidados mil que me inspiravam, porque um rasgão era um acidente grave para um vestido de modista!
(Deve ser por isso que eu hoje só me visto em Zaras e outras que tais, onde há mil vestidos iguais. Vestido único? Não obrigada!)
Mas a minha vida tinha então o tamanho desses vestidos. E o valor também. Só que eu não sabia.
Quanto ao crescer? Será isso viver?Depois tinha de ir ao fotógrafo, para hoje recordar!

Recado à aluna!


Querida Aluna!
Obrigada por me teres trocado pela Farmacologia. Vou tentar merecer a tua escolha!!
Falas em conhecer-me melhor e eu quero dizer-te que me conhecias bem, no contexto escola/ professor/ aluno. As relações devem ser sempre verdadeiras e só não são iguais porque os contextos em que as estabelecemos são diferentes. O que aqui lês também é parte de mim, isto é, uma parte de mim, verdadeira. Mas há também uma parte de mim que não está aqui, porque este meio tem os seus quês. Há medos que não contornamos na totalidade e, por isso, não podemos expor-nos como eu gosto de me expor ao sol, no Verão!!!! Mas este meio tem também a grande vantagem de só revelar de nós aquela parte mais importante: o miolo de nós, sem medidas, sem rugas, sem vaidades físicas. E assim torna-se possível uma comunicação ao nível do pensamento quase puro. Digo quase porque há sempre a possibilidade de nos (re)conhecermos pessoalmente! Além disso na escola tenho uma responsabilidade funcional, que eu esqueço com frequência, felizmente. Os anos deram-me essa capacidade!
A vida que vais ter vai dar-te inúmeras alegrias, inúmeras compensações. Vais ver!
Vais perder a conta aos "seres" que te vão abraçar com a força do reconhecimento e da gratidão!
Tenho também os meus erros de relação numa caixa tipo cofre. Só eu sei o código. E acredita que gostava de poder pedir perdão aos alunos em quem infligi algum desgosto, sem querer.
Um dia, levianamente, quando faltava muito para o ano dois mil, combinei com os alunos: quem estivesse vivo devia comparecer, num determinado local, no primeiro dia desse ano. Quando o dia chegou, lembrei-me, mas desencorajei o meu desejo de passar pelo sítio combinado com aquela desculpa tola: quem é que se vai lembrar da velha professora?
Mas houve um aluno que se lembrou e esteve lá. Chorou a desilusão e foi-se embora magoado e sozinho. Uns anos mais tarde, cinco, para ser mais precisa, encontrou-me e mostrou-me a mágoa. Aquela mágoa valeu-me uma condenação não redimível em penitências.
Outras mágoas terei provocado e por elas eu gostava de pedir desculpa.
Como vês, provocas muito mais reacções do que podias prever.
(Se me vires por aqui, o que é fácil, diz-me: olá eu sou a ic! Combinado?)