sábado, 28 de março de 2009

Proverbial!

Palavras, leva-as o vento!
E como hoje o vento está forte, zangado, é melhor não deixar por aqui palavras nenhumas.Deixo apenas a quietude do caminho. Não a que eu tenho, mas a que eu desejo! O sossego que permite às árvores desenharem no céu as suas copas e no chão as suas sombras, quietas, como se estivessem a dormir o sono encantado do qual apenas acordarão com o beijo do príncipe.

sábado, 21 de março de 2009

Hoje é o dia...

em que as árvores se encontram com a poesia, mesmo que, para isso, os versos de Camões tenham de sair do Poema Maior, às escondidas. Nisto de poesia, não há que esperar regras rígidas, nem impor normas e leis para sempre. Um "poeta é um fingidor", como diz "um" Pessoa nosso conhecido e um fingidor pode fingir tudo, até "a dor que deveras sente".Hoje é também o Dia da Trissomia 21. A todos os que foram tocados por esta condição ou qualquer outra que obrigue a ir à luta com todas as forças do coração, um abraço grande, grande!
Imagem:da Ana Sousa,do livro "A Tia Árvore".(Uma pequena montagem que será desculpada pela artista!)

terça-feira, 17 de março de 2009

Carta

Queridos José, António, Ana, Joana, Patrícia, Sofia e tantos outros, que ficaria aqui a eternidade que me resta, a escrever os vossos nomes.
Se vos perguntarem, na rua, na escola, em casa, na pizzaria, se conhecem o Magalhães, dirão logo que sim, que é pequenino e engraçadinho. Que é muito giro, em suma!
Não sei se sabem quem vos está a escrever esta carta?
É o próprio Magalhães, de quem tão pouco sabem, pois a toda a hora se fala do Magalhães, o computador e nunca se ouve falar deste outro Magalhães, o navegador.
Enfim, é só mais um dissabor a juntar ao maior que tive na vida, quando D. Manuel reprovou o projecto maior dos meus sonhos de mar: navegar, navegar, navegar, até cumprir uma volta inteirinha à terra.
Diziam que não era possível, mas eu acreditava que sim, que havia de haver passagem, por estreita que fosse. E havia mesmo! Essa passagem ficou com o nome do vosso computador. Desculpem, também já estou quase a deixar-me embalar pela máquina da propaganda! Essa passagem ficou com o meu nome: Estreito de Magalhães.
Um dos historiadores do vosso tempo afirma, com muita certeza, que o que eu queria mesmo era descobrir um caminho para as Ilhas Molucas, por mar. Andaram a coscuvilhar umas cartas que troquei com um amigo que foi para as Índias.
Fui então apresentar a minha proposta ao jovem governante do reino vizinho, futuro Imperador Carlos V, e tive mais sorte. Os meus pais eram espanhóis e o meu sonho era universal, pois isto de ser marinheiro não se explica à luz das fronteiras e dos governos. No mar falam-se as línguas todas e não se fala nenhuma. Ali, o que fala mais alto é o valor da fome, da sede, da vida. Sobreviver é preciso e a vida é um dom mais precioso do que as riquezas de mil orientes.
E sabem o que é que os reinos de Portugal e Espanha queriam destas paragens distantes? Cravo. Uma especiaria que as vossas mães e avós usam na cozinha e que os médicos e farmacêuticos também usam muito. Havia também outras especiarias, mas esta devia ser a mais preciosa, já que um dos que regressou dessa viagem em que perdi a vida, carregou o navio inteirinho com cravo.
Já ouviram falar do Oceano Pacífico? Sabem quem lhe deu o nome? Eu! Para além de ter baptizado o mar, dei também o meu nome a umas nuvens que dali se avistam que afinal são galáxias, isto é, nuvens carregadinhas de estrelas e outros astros.
Pouco tempo depois, envolvi-me numa violenta luta, nas Filipinas e não voltei mais.
Dos duzentos e cinquenta que partimos, só dezoito regressaram. É muita vida perdida.
Mas o que eu não quero mesmo, meninas e meninas das escolas portuguesas, é que percam a memória daqueles que prepararam o mundo para ti, Joana, para ti, Tiago…
Regresso agora à minha condição de personagem da História, feliz por ter contribuído para enriquecerem o vosso conhecimento.
Até sempre!
Fernão de MagalhãesCarta baseada na ideia de José Jorge Letria, que deu forma ao seu último livro, O Que Darwin Escreveu a Deus

sexta-feira, 13 de março de 2009

Caminhos da água

Vou inventar um provérbio: marido aposentado, património visitado. Qualquer "ado" rima com aposentado, mas não é fácil arranjar um que refira exactamente o que eu quero.
Desta vez, a visita foi ao Aqueduto das Águas livres de Lisboa, monumento a que os meus olhos se habituaram, no final do eixo Norte-Sul, nos acessos à Ponte 25 de Abril. A minha condição saloia vem sempre à tona do meu entendimento e embasbaco-me perante monumentos que as mãos dos nossos antepassados fizeram, pedra a pedra, muro a muro, até quase roçar o céu. Os homens mesmo,os que vieram depois de Darwin!
Já lá diz o poeta: Com mãos tudo se faz e se desfaz!
Se calha ser um fim de tarde daqueles que se têm feito sentir nos últimos dias, eu desisto mesmo de entender. Eu simplesmente aceito e deixo que a beleza das pedras recortadas no pôr-do-sol me maravilhe até à mais ínfima parcela da minha emoção.
Só que esta visita foi ainda mais estranha: andámos lá dentro, onde corria a água e outras histórias menos cristalinas que compõem o imaginário além-história!
E aqui está um desses corredores intermináveis por onde corria a água que abastecia Lisboa! Uma claustrofobia vaga impediu-me de acelerar os sentidos e deixar-me embalar pela imaginação da água a correr. Mas, mesmo assim, valeu a pena. Até porque já passou.
De pedra em pedra, de monumento em monumento, lá vou melhorando o meu próprio património de conhecimento!

quinta-feira, 12 de março de 2009

(...)

São estranhos os tempos. Estes tempos.
O Verão anuncia-se, nos fins de tarde transbordantes de uma luz aquecida pelo desejo de largar agasalhos, botas e outros acessórios, que tresandam a inverno e a dias tristes e cinzentos.
Contudo, nestes maravilhosos dias de "verão", chegam até nós as notícias mais tristes. Todas podem ser mais ou menos tristes, mas o massacre numa escola paralisa-nos.
E ainda por cima, já não é a primeira vez que esta notícia sangra aos nossos olhos!Imagem:Museu Etnográfico da Alta Estremadura,quadro de sala de aula.

quarta-feira, 4 de março de 2009

O fim do princípio

É normal ouvir-se a expressão:isto é o princípio do fim. Já a expressão do avesso, digamos assim, não é tão habitual. É pois um daqueles casos em que o avesso é para ficar sempre escondido, no avesso, ponto final.
Não é certamente este o caso de Sagres, que este ano, fiquei a conhecer um pouco melhor, na sua beleza intensa, na sua natureza agreste, no seu contraste, na sua resistência a um certo tipo de turismo confortável até mais não, no seu permanente pré-aviso de guerra entre as duas forças omnipresentes: a terra, dura, escarpada, imensa, castanho-cinza, esculpida pelo vento; e o mar, intenso e azul, sempre a rugir, violento, contra as escarpas, sem nunca se cansar, sem nunca parar.
Em Sagres está o verdadeiro limite: acaba a terra, começa o mar.
Foi neste lugar dominado pelo limite e o contrário que o Infante se fixou, para ligar, para sempre o povo ao mar...O Infante D. Henrique nasceu a 4 de Março,de 1394

segunda-feira, 2 de março de 2009

domingo, 1 de março de 2009

And the winner is...

Não sei porquê, mas o Congresso do PS fez-me lembrar uma cerimónia de Óscares de Hollywood. Não, não é ironia. Claro que não estavam lá estrelas a sério! Claro que não havia glamour! Claro que não houve limusinas, nem passadeiras vermelhas! (Pelo menos não vi.) Mas havia a intenção de criar um grande espectáculo à volta do "nada", como disse o Luís Pedro Nunes, no Eixo do Mal. Para disfarçar o nada? Não sei.
O problema é que o nada não é só o grande inimigo dos nossos políticos. O nada é o maior inimigo de todos nós.
Na História Interminável, ao Nada é dada a importância que ele tem: é uma força destruidora, altamente destruidora e de efeitos devastadores quando atinge Fantasia. Ou melhor, se atingir Fantasia. O importante é salvar Fantasia do Nada!
O importante é salvarmo-nos, pormo-nos a salvo do Nada.
O que eu hoje vi na televisão foi obra do Nada: a deprimência de um espectáculo que não chega a ninguém, não satisfaz ninguém, nem os próprios protagonistas.
O momento em que Vital Moreira subiu ao palco para receber o prémio fez-me lembrar vagamente aqueles momentos em que os nomeados vêem confirmada a sua expectativa. VM quis fazê-lo, falando em surpresa, na sua realização nas várias dimensões da vida. Surpresa? Eu não acredito! Há muito que se percebe que há "namoro". Não é em vão que se apoia um PM, o que aconteceu de modo muito explícito no caso dos professores e da (nossa) luta contra esta avaliação de desempenho, que é, em si mesma, um instrumento do Nada.
E como dirá a imprensa cor-de-rosa, o primeiro ministro estava lindo, elegante e Vital Moreira, apesar de lhe levar mais de uma década de vantagem, (ou des/vantagem? Não sei bem!) não lhe ficou atrás, bem chique nas riscas pretas e brancas da camisa, sem gravata, que acentua um certo negligé q.b.
Continuo a dizer que não percebo nada de política... Nem de Óscares, pelos vistos!

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

O importante é...

a grelha, claro!
A avaliação dos médicos terá por base uma grelha com determinados parâmetros fundamentais.À semelhança do que acontece com os docentes, o Executivo pretende que a avaliação dos médicos passe pelo cumprimento de objectivos específicos, tal como é definido na lei que rege a avaliação da Administração Pública (66-B/2007 de 28 de Dezembro), propondo uma «confrontação entre objectivos fixados e resultados obtidos».
Ler mais aqui.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Recado ao Zeca

Pois é, Zeca. Não sei se morreste há vinte anos, há vinte dias, há mais ou menos tempo.
Sabes?, as tuas canções atravessadas de pensamento único, feito de um sentido de liberdade universal, dissolvem o tempo. Não sentimos o tempo, que ele está cheio, continua cheio, das tuas canções, da tua voz, da tua presença mais ou menos jovem, daquele teu ar inocente, indeciso entre a alegria de cantar e a responsabilidade de cantar.
Vejo hoje, nos registos dos dias, que partiste há vinte e dois anos.
Acho que não Zeca!
Acho que continuas por aqui, a ensinar, a dar-nos as verdadeiras lições da tua geografia da condição humana: nasce-se menino, com um certo destino, como o menino de Xepangara.
Essa foi a geografia que tu aprendeste na vida.
Os teus olhos olharam sempre de frente os meninos nascidos aquém dos direitos. Não só os meninos negros da África que também foi tua, pelo direito próprio de quem ama a liberdade, para além da morte, para além da vida.
"Quero-te mais do que à morte
Quero-te mais do que à vida"
Presença das formigas
Os teus meninos de oiro estão todos contigo a celebrar esse hino à liberdade!

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Saudade

"Gone are the days when he could take me on his knee
And with a smile he'd change my tears to laughter."

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Coisas

Eu sou a perfeita expressão da liberdade, aqui e agora. Fernão Capelo Gaivota-Não temes o lodo nem as pedras?
-Não. Não têm asas e eu tenho. As pedras crescem no chão. Eu estou preso ao céu e só tropeço em nuvens de algodão!
(Conversa possível com uma gaivota prima do Fernão.)

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Feridas

São feridas assim que doem de verdade!
Não há nada mais injusto do que esta acusação. Eu, pelo menos, sinto-a assim e não falo só por mim. Se resistimos à guerra com o ME é por causa dos alunos.
Assim não vale!
Já agora visitem o blog da nossa Biblioteca e leiam um trabalho que vale a pena ler de uma aluna do quinto ano, sobre o Carnaval. Foi feito numa aula de Estudo Acompanhado.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Proposta adiada, uma vez mais

Vamos de rio até Lisboa?
As obras do Terreiro do Paço roubam-nos a vista de Lisboa para o rio e do rio para Lisboa.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Hoje

Já levei a minha dose de pôr-do-sol!

Homenagem dupla: Galileu e Gedeão

Poema para Galileo

Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano,

aquele teu retrato que toda a gente conhece,

em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce

sobre um modesto cabeção de pano.

Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.

(Não, não, Galileo! Eu não disse Santo Ofício.

Disse Galeria dos Ofícios.)

Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença.



Lembras-te? A Ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria…

Eu sei… eu sei…

As margens doces do Arno às horas pardas da melancolia.

Ai que saudade, Galileo Galilei!



Olha. Sabes? Lá em Florença

está guardado um dedo da tua mão direita num relicário.

Palavra de honra que está!

As voltas que o mundo dá!

Se calhar até há gente que pensa

que entraste no calendário.



Eu queria agradecer-te, Galileo,

a inteligência das coisas que me deste.

Eu,

e quantos milhões de homens como eu

a quem tu esclareceste,

ia jurar- que disparate, Galileo!

- e jurava a pés juntos e apostava a cabeça

sem a menor hesitação-

que os corpos caem tanto mais depressa

quanto mais pesados são.



Pois não é evidente, Galileo?

Quem acredita que um penedo caia

com a mesma rapidez que um botão de camisa ou que um seixo da praia?

Esta era a inteligência que Deus nos deu.



Estava agora a lembrar-me, Galileo,

daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo

e tinhas à tua frente

um friso de homens doutos, hirtos, de toga e de capelo

a olharem-te severamente.

Estavam todos a ralhar contigo,

que parecia impossível que um homem da tua idade

e da tua condição,

se tivesse tornado num perigo

para a Humanidade

e para a Civilização.

Tu, embaraçado e comprometido, em silêncio mordiscavas os lábios,

e percorrias, cheio de piedade,

os rostos impenetráveis daquela fila de sábios.



Teus olhos habituados à observação dos satélites e das estrelas,

desceram lá das suas alturas

e poisaram, como aves aturdidas- parece-me que estou a vê-las -,

nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas.

E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo tal qual

conforme suas eminências desejavam,

e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal

e que os astros bailavam e entoavam

à meia-noite louvores à harmonia universal.

E juraste que nunca mais repetirias

nem a ti mesmo, na própria intimidade do teu pensamento, livre e calma,

aquelas abomináveis heresias

que ensinavas e descrevias

para eterna perdição da tua alma.

Ai Galileo!

Mal sabem os teus doutos juízes, grandes senhores deste pequeno mundo

que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de braços,

andavam a correr e a rolar pelos espaços

à razão de trinta quilómetros por segundo.

Tu é que sabias, Galileo Galilei.



Por isso eram teus olhos misericordiosos,

por isso era teu coração cheio de piedade,

piedade pelos homens que não precisam de sofrer, homens ditosos

a quem Deus dispensou de buscar a verdade.

Por isso estoicamente, mansamente,

resististe a todas as torturas,

a todas as angústias, a todos os contratempos,

enquanto eles, do alto incessível das suas alturas,

foram caindo,

caindo,

caindo,

caindo,

caindo sempre,

e sempre,

ininterruptamente,

na razão directa do quadrado dos tempos.

Galileu nasceu em Pisa a 15 de Fevereiro de 1564.