Há estrelas que nascem e brilham, apesar das nuvens e das tempestades, mesmo nos céus de que o sol se esconde.
Na Suécia, em Estocolmo, a 29 de Agosto de 1915, nasce Ingrid Bergman.
Friedel Adler, a mãe, era alemã e conhecera Justus Samuel Bergman na Suécia, durante umas férias. O casamento foi contrariado pelos pais de Friedel, que não aceitaram a ideia de casar a filha com um artista boémio. Mas Justus queria provar-lhes que estavam errados. Trabalhava em fotografia e foi na casa que habitavam, por cima da loja de fotografia , que Ingrid nasceu, a terceira filha, a única que sobreviveria.
Mas a tragédia andava por ali e Friedel morre jovem, deixando a pequena Ingrid com três anos apenas. Justus torna-se assim o único responsável pela educação da filha. Quer que ela seja cantora lírica e proporciona-lhe lições de canto. Fotografa-a, incentivando-a à exposição dos palcos. Contudo, Justus morre no princípio da adolescência de Ingrid e a tia Ellen, que a recebe e lhe acarinha o talento, também morre, dois anos mais tarde.
Menor de idade (tinha apenas treze anos), é entregue a um outro tio. Uma nova família, desta vez numerosa. Este tio não vê com os mesmos olhos a determinação de Ingrid (que na altura já era mesmo determinação), de seguir a carreira de actriz. Frequenta o Liceu Flykor e, apesar de tudo, aos dezassete anos representa, na escola, o papel principal de uma peça que ela própria escreveu e dirigiu. É aceite numa escola de teatro, The Royal Dramatic Theatre School, em Estocolmo e ao fim de um ano aparece pela primeira vez no cinema, com uma pequena participação como criada, no filme “The Count of the Monk´s Bridge”. Nesse mesmo ano, o realizador sueco Gustaf Molander, apresentava-lhe um contrato.
Intermezzo, em 1936, desperta a atenção do público e da indústria do cinema. Ingrid é uma pianista, Anita Hoffman, que mantém, durante algum tempo, uma ligação com um violinista casado. O interlúdio para Ingrid é de sucesso e felicidade: no ano seguinte casa com Petter Lindstrom e um ano depois nasce a filha Pia. O caminho para a fama estava desbravado. Hollywood já começava a reparar no talento natural desta actriz, que falava inglês, com uma pronúncia encantadoramente estrangeirada.
O mesmo filme foi produzido por Hollywood e foi assinado um contrato de sete anos. A actriz muda-se com a família para os Estados Unidos.
Apesar da sua beleza e o seu ar algo enigmático, Ingrid não pretendia que os seus papéis na tela se consumissem na imagem da mulher idealizada. Mas os sucessos de bilheteira não foram os filmes em que interpretou uma freira, uma psiquiatra ou uma alcoólica. Uma das interpretações de sucesso de Ingrid Bergman que perpassa as gerações é a de Ilsa, a romântica mulher dividida entre o amor e o casamento, em Casablanca, com Humphrey Bogart.
Um dia, Ingrid Bergman escreve uma carta ao realizador italiano neo-realista Rossellini, uma carta de admiradora, dizendo-lhe que estava disponível para qualquer papel. Rossellini reservou-lhe uma pequena participação em Sromboli (1949). Durante as filmagens aconteceu o inevitável: a admiração transformou-se em amor. O “caso” não foi bem aceite pelo público e o escândalo feriu a imagem, até aí intocável, de Ingrid Bergman. Apesar de oficialmente separado da mulher, Rossellini estava amorosamente envolvido com Ana Magnani, outra diva da época. Muitos pensaram que para Ingrid Bergman este seria apenas mais um dos seus “casos”, sendo evidente o desmoronamento do seu casamento com Lindstrom, que não lhe queria dar o divórcio..
O escândalo ultrapassou a barreira do espectáculo, tomou dimensões inimagináveis. Ingrid Berman foi humilhada pela classe política, nomeadamente pelo Senador Edward Johnson, que propôs uma medida específica para actores estrangeiros, de modo a poder expulsá-los, por atentado à moral pública.
Contudo em 1956 o escândalo e o caso de amor chegavam ao fim. Um casamento, três filhos, um rapaz e duas gémeas, Isabella e Isotta, e fracassos profissionais. Nesse mesmo ano, Hollywood reconcilia-se com a actriz e Ingrid filma Anastasia. O seu trabalho é aplaudido e recebe o seu segundo Prémio da Academia.
Os anos setenta devolveram-lhe a glória, tanta que se “esqueceu” de tratar de si e dos seu corpo. Ignorou os primeiros avisos de cancro da mama durante dois anos, porque a carreira estava acima de tudo. Depois veio a luta contra a doença. “As vítimas de cancro que não aceitam o destino, que não aprendem a conviver com ele, acabam por destruir o tempo que lhes resta.”, dizia.
E foi assim que viveu durante oito anos. O seu último trabalho foi a interpretação de Golda Meir na televisão: Uma Mulher Chamada Golda, em 1982.
No dia do seu aniversário (tal como Shakespeare), a 29 de Agosto desse mesmo ano, depois de uma pequenina festa de aniversário com os amigos mais próximos, morria Ingrid Berman, em Chelsea, em Inglaterra, em paz com a vida, com a sua vida, que segundo confessara a um amigo, tinha valido a pena viver.
Crónica publicada em 2001, no Jornal "A Gazeta do Montijo" e, posteriormente, pela Editora Ela por Ela.
sábado, 29 de agosto de 2009
quinta-feira, 27 de agosto de 2009
Assim Vai O Mundo
Quem tem mais de cinquenta anos tem não só uma esperança acrescida de alguma imunidade à gripe, como também sabe que, antigamente, as salas de cinema exibiam um documentário informativo que dava pelo nome "Assim Vai o Mundo".
Depois das salas escurecerem, no fundo do ecrã "nascia" o mundo, que crescia e rodopiava num fundo de céu estrelado (Ou talvez não fosse?!),enquanto uma voz forte dizia, com a solenidade e a gravidade que os acontecimentos dignos de nota exigiam: "Assim vai o Mundo".
(Não sei se a minha memória está a atraiçoar-me. Seria assim como eu me lembro?)
Era uma espécie de telejornal, com moderada especulação e certamente visionado previamente pela censura. Mas isso eu não sabia.
Foi certamente nesses "filmes" que eu conheci a família Kennedy, com todo o glamour que a beleza de Jackie e dos homens da família imprimiam aos acontecimentos que protagonizaram.
Um dia, de manhã, a minha mãe ouviu na rádio que o Presidente Kennedy tinha sido assassinado e percebi pela aflição que o que tinha acontecido ia bem para lá da tragédia da morte de um homem. Era um Presidente. Não era só um homem. Mas isso eu não podia perceber, no meu mundo de dez anos.
"E agora, o que é que vai acontecer?", dizia a minha mãe aflita.
E certamente que todas as imagens que guardo desses momentos foram vistos nas salas de cinema, nos tais documentários que precediam o filme da tarde.
Ontem quando ouvi anunciar a morte do último Kennedy, veio à minha memória todo o filme das vidas dos membros do Clã Kennedy, tantas vezes marcado pela tragédia.
É mais uma referência do século vinte que desaparece.
Assim vai o mundo!
Fotos da família Kennedy, na Revista Time
Depois das salas escurecerem, no fundo do ecrã "nascia" o mundo, que crescia e rodopiava num fundo de céu estrelado (Ou talvez não fosse?!),enquanto uma voz forte dizia, com a solenidade e a gravidade que os acontecimentos dignos de nota exigiam: "Assim vai o Mundo".
(Não sei se a minha memória está a atraiçoar-me. Seria assim como eu me lembro?)
Era uma espécie de telejornal, com moderada especulação e certamente visionado previamente pela censura. Mas isso eu não sabia.
Foi certamente nesses "filmes" que eu conheci a família Kennedy, com todo o glamour que a beleza de Jackie e dos homens da família imprimiam aos acontecimentos que protagonizaram.
Um dia, de manhã, a minha mãe ouviu na rádio que o Presidente Kennedy tinha sido assassinado e percebi pela aflição que o que tinha acontecido ia bem para lá da tragédia da morte de um homem. Era um Presidente. Não era só um homem. Mas isso eu não podia perceber, no meu mundo de dez anos.
"E agora, o que é que vai acontecer?", dizia a minha mãe aflita.
E certamente que todas as imagens que guardo desses momentos foram vistos nas salas de cinema, nos tais documentários que precediam o filme da tarde.
Ontem quando ouvi anunciar a morte do último Kennedy, veio à minha memória todo o filme das vidas dos membros do Clã Kennedy, tantas vezes marcado pela tragédia.
É mais uma referência do século vinte que desaparece.
Assim vai o mundo!
Fotos da família Kennedy, na Revista Time
quarta-feira, 26 de agosto de 2009
Coisas de memória
Em casa dos meus pais havia um giradiscos, móvel e electrodoméstico que hoje só tem lugar num museu. Julgo eu! Deve vir, no tempo e no espaço, logo a seguir à grafonola.
É bom termos memória e termos vivido um tempo que pode comparar-se ao de hoje. Na época, havia evolução e modernidade, naquilo que hoje nos parece, e é, caco e velharia. O gira-discos, ou pick-up para os mais snobs, foi na altura um grito da moda que levou às casas e às famílias da classe média muita cultura musical e literária também.
Literária, sim, pois foi no velho gira-discos, devidamente enfeitado com os melhores "bibelots", pois o móvel merecia, que eu ouvi e aprendi a Toada de Portalegre, pelo talento poderoso de João Villaret.
Ontem, desarrumei esta memória, para lhe juntar um dado novo: a própria casa de José Régio, com os bons e os maus cheiros guardados apenas nos versos; a vista da janela, que em tempos, certamente, os olhos abraçavam mais...
É bom termos memória e termos vivido um tempo que pode comparar-se ao de hoje. Na época, havia evolução e modernidade, naquilo que hoje nos parece, e é, caco e velharia. O gira-discos, ou pick-up para os mais snobs, foi na altura um grito da moda que levou às casas e às famílias da classe média muita cultura musical e literária também.
Literária, sim, pois foi no velho gira-discos, devidamente enfeitado com os melhores "bibelots", pois o móvel merecia, que eu ouvi e aprendi a Toada de Portalegre, pelo talento poderoso de João Villaret.
Ontem, desarrumei esta memória, para lhe juntar um dado novo: a própria casa de José Régio, com os bons e os maus cheiros guardados apenas nos versos; a vista da janela, que em tempos, certamente, os olhos abraçavam mais...
terça-feira, 25 de agosto de 2009
Proverbialmente, claro!
domingo, 23 de agosto de 2009
O seu a seu dono
quinta-feira, 20 de agosto de 2009
quarta-feira, 19 de agosto de 2009
Se...
Se eu tivesse deixado de andar espantada de existir, bastar-me-ia ver o vídeo promocional da mandatária da JS, para reencontrar o espanto de existir.
A miúda atreve-se a dizer que só come fruta com caroço se a empregada descascar!?!?!?
Diz que não gosta de perder, que prefere fazer batota. Aquilo mais parece um casting dos morangos!!!
A miúda atreve-se a dizer que só come fruta com caroço se a empregada descascar!?!?!?
Diz que não gosta de perder, que prefere fazer batota. Aquilo mais parece um casting dos morangos!!!
Dia Da Ajuda Humanitária e...
Todos os dias são dias de...
Talvez faça sentido recorrer ao significado do dia, ao valor do dia, para o vivermos com mais sentido, com mais vontade.
Hoje é a primeira vez que se celebra o Dia da Ajuda Humanitária.
A Onu escolheu este dia porque marca a data em que Vieira de Mello e outras vinte e uma pessoas, que com ele viajavam, morreram, num atentado no Iraque, há seis anos. Aquele instante valeu-lhes a vida e todo o valor que a vida humana tem. É justo recordá-los! É justo recordar todos os que estendem os olhos à compreensão dos outros!
Esta é também a minha homenagem à Fotografia,que hoje também é celebrada. Esta fotografia é mais velha do que eu e não tem rugas!
Talvez faça sentido recorrer ao significado do dia, ao valor do dia, para o vivermos com mais sentido, com mais vontade.
Hoje é a primeira vez que se celebra o Dia da Ajuda Humanitária.
A Onu escolheu este dia porque marca a data em que Vieira de Mello e outras vinte e uma pessoas, que com ele viajavam, morreram, num atentado no Iraque, há seis anos. Aquele instante valeu-lhes a vida e todo o valor que a vida humana tem. É justo recordá-los! É justo recordar todos os que estendem os olhos à compreensão dos outros!
Esta é também a minha homenagem à Fotografia,que hoje também é celebrada. Esta fotografia é mais velha do que eu e não tem rugas!
segunda-feira, 17 de agosto de 2009
Eu tenho de falar sobre isto
Sobre a última crónica de Lobo Antunes na Visão.
Não sei muito bem por onde começar, porque o que ali está se aproxima muito da maneira como o meu pai continua vivo, cá dentro, num espaço de memória onde nunca ninguém morre e, melhor do que isso, nem tão pouco envelhece ou degrada.
O meu pai acreditava em mim, por muito que lhe tenha causado uma enorme desilusão com o "chumbo" no quinto ano e depois a escolha das letras em vez da medicina, como ele ambicionava.
Eu não revisito o Hospital onde costumava encontrá-lo, onde ele vivia, onde passava os dias e muitas, muitas noites, onde tratava doentes que o estimavam pela qualidade profissional e pela qualidade humana que punha no que fazia, onde vivia também outros lados da vida: onde se apaixonava perdidamente, onde observava as outras paixões secretas, onde fazia amigos novos todos os dias, porque muitos doentes saiam de lá seus amigos, onde cultivava a amizade dos antigos com igual cuidado, também todos os dias. Ao contrário do que acontece hoje, foi a trabalhar na enfermagem que se fez enfermeiro, tendo feito os estudos necessários mais tarde, no então chamado Instituto Rockefeller, instituição reputada, onde se formavam enfermeiras. Ele era o homem entre as mulheres. (Claro que se apaixonou perdidamente, vezes sem conta! Era tentação a mais!) Não revisito o hospital, a não ser na minha memória: o velho Hospital Miguel Bombarda!
"Até me mostrava o Serviço e parecia ter orgulho em mim..." Esse orgulho, embora não se falasse destas coisas nessa altura, foi vital para que eu tomasse mais tarde determinadas decisões com confiança. Foi vital para a minha auto-estima, digo eu, hoje.
Mais tarde percebi que esse orgulho era muito verdadeiro. Uns dias (poucos) antes de morrer disse-me que de facto eu nunca lhe tinha dado sequer um problema. Claro que exagerava, porque estava frágil. Esqueceu certamente alguns problemas que lhe dei, mas eu mesma tenho a noção de que no meu tempo de jovem, não passávamos os nossos problemas aos pais. Pelo contrário! Fazíamos o possível e o impossível para que não fossem atingidos pelas nossas asneiras. Não queríamos que se sentissem culpados pelos nossos passos errados. Mas também é verdade que o meu pai me ensinou o direito de errar, de não seguir conselhos, de fazer as coisas à minha maneira. Sujeitava-me claro às consequências, que não eram só más. Com os erros também se cresce!
Se eu pudesse diria ao L.A.: "Muito obrigada, por estas crónicas, sobre o seu pai, que se parece tanto com o meu."
Fotografia - Imagem da 1ª Semana de Enfermagem no Ultramar. Organização do meu pai. Cartaz do meu pai.
Não sei muito bem por onde começar, porque o que ali está se aproxima muito da maneira como o meu pai continua vivo, cá dentro, num espaço de memória onde nunca ninguém morre e, melhor do que isso, nem tão pouco envelhece ou degrada.
O meu pai acreditava em mim, por muito que lhe tenha causado uma enorme desilusão com o "chumbo" no quinto ano e depois a escolha das letras em vez da medicina, como ele ambicionava.
Eu não revisito o Hospital onde costumava encontrá-lo, onde ele vivia, onde passava os dias e muitas, muitas noites, onde tratava doentes que o estimavam pela qualidade profissional e pela qualidade humana que punha no que fazia, onde vivia também outros lados da vida: onde se apaixonava perdidamente, onde observava as outras paixões secretas, onde fazia amigos novos todos os dias, porque muitos doentes saiam de lá seus amigos, onde cultivava a amizade dos antigos com igual cuidado, também todos os dias. Ao contrário do que acontece hoje, foi a trabalhar na enfermagem que se fez enfermeiro, tendo feito os estudos necessários mais tarde, no então chamado Instituto Rockefeller, instituição reputada, onde se formavam enfermeiras. Ele era o homem entre as mulheres. (Claro que se apaixonou perdidamente, vezes sem conta! Era tentação a mais!) Não revisito o hospital, a não ser na minha memória: o velho Hospital Miguel Bombarda!
"Até me mostrava o Serviço e parecia ter orgulho em mim..." Esse orgulho, embora não se falasse destas coisas nessa altura, foi vital para que eu tomasse mais tarde determinadas decisões com confiança. Foi vital para a minha auto-estima, digo eu, hoje.
Mais tarde percebi que esse orgulho era muito verdadeiro. Uns dias (poucos) antes de morrer disse-me que de facto eu nunca lhe tinha dado sequer um problema. Claro que exagerava, porque estava frágil. Esqueceu certamente alguns problemas que lhe dei, mas eu mesma tenho a noção de que no meu tempo de jovem, não passávamos os nossos problemas aos pais. Pelo contrário! Fazíamos o possível e o impossível para que não fossem atingidos pelas nossas asneiras. Não queríamos que se sentissem culpados pelos nossos passos errados. Mas também é verdade que o meu pai me ensinou o direito de errar, de não seguir conselhos, de fazer as coisas à minha maneira. Sujeitava-me claro às consequências, que não eram só más. Com os erros também se cresce!
Se eu pudesse diria ao L.A.: "Muito obrigada, por estas crónicas, sobre o seu pai, que se parece tanto com o meu."

Fotografia - Imagem da 1ª Semana de Enfermagem no Ultramar. Organização do meu pai. Cartaz do meu pai.
sábado, 15 de agosto de 2009
L.A.
Por contágio dos mais novos (agora a palavra contágio é contagiante!) tenho visto todos os dias, ou seja, todas as noites a RTP2, Cinco para a Meia-Noite. Pelo menos diverte e há crítica de costumes que é saudável desde o tempo do "saudoso" Gil Vicente. É evidente que o programa vale muitas vezes pelo convidado, que se deve dar ares de moderno, para não destoar do anfitrião que é sempre "assim a atirar" para a "loucura total".
Por exemplo: o Vasco Graça Moura deu um péssimo programa, pois "aquela cena" não condizia lá muito bem com o classicíssimo senhor das nossas letras. Aquele tratamento tu cá tu lá soava estranho. Ana Gomes aguentou-se e nem ficou muito "à rasca". Calão para cá, calão para lá, a mensagem eleitoral não se embaraçou, ou melhor não ficou nada à rasca. Fiquei a saber que Ana Gomes é candidata à Câmara de Sintra e que Sintra isto e que Sintra aquilo.
Para mim, Sintra é culto e o culto não se compadece com propaganda eleitoral.
Mas isto vinha a propósito de quê? Já sei! O tema da semana que acabou era coscuvilhar.
Não é coisa que me espante! Quando vou visitar a minha mãe, levo-lhe sempre uma revistinha de coscuvilhice. O que me espantou mesmo foi a coscuvilhice que explodiu nas capas dos jornais de hoje. Ou ontem? Já nem sei bem.
Lobo Antunes apaixonado por uma mulher trinta e tal anos mais nova.
Anunciar um casamento não é coscuvilhice. Entrar em pormenores que podem comprometer a verdade dos sentimentos de cada um (dela ou dele) é coscuvilhice. Atirar a diferença de idades, chamar a atenção para a diferença de idades é coscuvilhice que tenta reduzir a dimensão intelectual de um dos maiores escritores contemporâneos.
Ninguém tem nada com isso.
A minha esperança é que o escritor mantenha aos nossos olhos a aura de ser "superiormente inteligente, superiormente civilizado". Fico à espera das crónicas onde se revelará "superiormente feliz", tal como preconizava o Jacinto de Tormes.
Por exemplo: o Vasco Graça Moura deu um péssimo programa, pois "aquela cena" não condizia lá muito bem com o classicíssimo senhor das nossas letras. Aquele tratamento tu cá tu lá soava estranho. Ana Gomes aguentou-se e nem ficou muito "à rasca". Calão para cá, calão para lá, a mensagem eleitoral não se embaraçou, ou melhor não ficou nada à rasca. Fiquei a saber que Ana Gomes é candidata à Câmara de Sintra e que Sintra isto e que Sintra aquilo.
Para mim, Sintra é culto e o culto não se compadece com propaganda eleitoral.
Mas isto vinha a propósito de quê? Já sei! O tema da semana que acabou era coscuvilhar.
Não é coisa que me espante! Quando vou visitar a minha mãe, levo-lhe sempre uma revistinha de coscuvilhice. O que me espantou mesmo foi a coscuvilhice que explodiu nas capas dos jornais de hoje. Ou ontem? Já nem sei bem.
Lobo Antunes apaixonado por uma mulher trinta e tal anos mais nova.
Anunciar um casamento não é coscuvilhice. Entrar em pormenores que podem comprometer a verdade dos sentimentos de cada um (dela ou dele) é coscuvilhice. Atirar a diferença de idades, chamar a atenção para a diferença de idades é coscuvilhice que tenta reduzir a dimensão intelectual de um dos maiores escritores contemporâneos.
Ninguém tem nada com isso.
A minha esperança é que o escritor mantenha aos nossos olhos a aura de ser "superiormente inteligente, superiormente civilizado". Fico à espera das crónicas onde se revelará "superiormente feliz", tal como preconizava o Jacinto de Tormes.
A mesma Tourada
Ontem ouvi a Tourada, cantada ao vivo, pelo mesmo Tordo. Sim, pelo mesmo Tordo. É que hoje dou por mim a comparar as pessoas com elas mesmas.
Não há mal nenhum em mudar. Claro que não! Se o nosso corpo muda...
Mas a verdade é que raramente aprecio as mudanças, quando os valores se diluem na espuma dos interesses. E, por isso, gostei muito de ouvir ontem a Tourada. Na minha emoção passou a homenagem a um tempo em que o desejo de liberdade era uma constante na expressão artística, sobretudo na cantiga, no teatro e na literatura. E a cantiga chegava a quase todos e andava de boca em boca. Contagiava!
É que volta a fazer sentido desejar outra vez a liberdade. Por muito que se julguem mortos e enterrados os mecanismos de repressão, os novos espartilhos da liberdade são perigosos porque são dissimulados e estrategicamente activados em áreas de sobrevivência, como seja o emprego. As maneiras de chegar ao poder absoluto cada vez são mais parecidas com o que se pode chamar baixeza.
Gostei de ouvir o Tordo, porque pude ver com "estes olhos" que continua um homem alto, em corpo e em voz!
Não há mal nenhum em mudar. Claro que não! Se o nosso corpo muda...
Mas a verdade é que raramente aprecio as mudanças, quando os valores se diluem na espuma dos interesses. E, por isso, gostei muito de ouvir ontem a Tourada. Na minha emoção passou a homenagem a um tempo em que o desejo de liberdade era uma constante na expressão artística, sobretudo na cantiga, no teatro e na literatura. E a cantiga chegava a quase todos e andava de boca em boca. Contagiava!
É que volta a fazer sentido desejar outra vez a liberdade. Por muito que se julguem mortos e enterrados os mecanismos de repressão, os novos espartilhos da liberdade são perigosos porque são dissimulados e estrategicamente activados em áreas de sobrevivência, como seja o emprego. As maneiras de chegar ao poder absoluto cada vez são mais parecidas com o que se pode chamar baixeza.
Gostei de ouvir o Tordo, porque pude ver com "estes olhos" que continua um homem alto, em corpo e em voz!
sábado, 8 de agosto de 2009
Podia-ó-chamá-lo!!!!!
Só por mais um momento, para lhe agradecer os momentos em que ri, em que ri muito, com as suas histórias, com a sua maneira de transformar os lados tristes da vida, sem ofender nem desrespeitar a dignidade do ser humano. Estou a referir-me precisamente à sua ida à guerra. Sendo a guerra um flagelo da humanidade, perpetrado pela própria humanidade, o actor conseguiu "pintá-la" com tons do quotidiano, da vida doméstica, inocente, provocando assim o riso, esse também tão inocente e completo que nos conseguia fazer esquecer as nossas próprias guerras e a essência da natureza da Guerra, a verdadeira vergonha dos homens.
Cito de cor: "Cheguei à guerra, estava a guerra ainda fechada!" ou "O meu filho vai a pé, mas vai limpo!".
Obrigada, Raul Solnado! Adeus, Raul Solnado!
imagem daqui
Cito de cor: "Cheguei à guerra, estava a guerra ainda fechada!" ou "O meu filho vai a pé, mas vai limpo!".
Obrigada, Raul Solnado! Adeus, Raul Solnado!
imagem daqui
sexta-feira, 31 de julho de 2009
Fernão Capelo
Parece ter sido há muito, muito tempo, mas talvez nem tenha sido há tanto tempo assim.
Como acontece sempre, uns lembrar-se-ão do fenómeno Fernão Capelo Gaivota, “como se fosse ontem”, outros, como se tudo se tivesse passado há muitos anos já. Uns recordam-no com emoção ainda intensa, outros arrancam-no com mais dificuldade das rugas da memória.
Assim que o vi,hoje, ao fim da tarde, a experimentar o seu voo mesmo em frente ao astro-rei, precisamente quando ele se despedia do dia, disse logo: aquele é o Fernão Capelo Gaivota!
A mim não me engana ele!
Como acontece sempre, uns lembrar-se-ão do fenómeno Fernão Capelo Gaivota, “como se fosse ontem”, outros, como se tudo se tivesse passado há muitos anos já. Uns recordam-no com emoção ainda intensa, outros arrancam-no com mais dificuldade das rugas da memória.
Assim que o vi,hoje, ao fim da tarde, a experimentar o seu voo mesmo em frente ao astro-rei, precisamente quando ele se despedia do dia, disse logo: aquele é o Fernão Capelo Gaivota!
A mim não me engana ele!
quinta-feira, 30 de julho de 2009
terça-feira, 28 de julho de 2009
segunda-feira, 27 de julho de 2009
Tentações
É fácil ceder à tentação da lamentação gratuita e estéril!
Não fiz isto! Não fiz aquilo! Devia ter feito! Não devia ter feito!
É fácil e eu vou fazê-lo: devia ter viajado mais vezes no carrossel! Devia ter "apanhado", ou tentado apanhar, sempre o cavalo mais bonito, mais elegante, o que subisse mais alto e me permitisse dar uma "vista" do mundo mais panorâmica! Não devia ter tido tanto medo que os outros me julgassem e confundissem o meu desejo com oportunismo. Fá-lo-ão sempre que os seus interesses estejam ameaçados e não em função da sinceridade ou verdade dos simples desejos dos outros.
Como diz o poeta, Reinaldo Ferreira: "Quero um cavalo de várias cores!"
fotografia:Carrossel do Zoo de Lisboa
Não fiz isto! Não fiz aquilo! Devia ter feito! Não devia ter feito!
É fácil e eu vou fazê-lo: devia ter viajado mais vezes no carrossel! Devia ter "apanhado", ou tentado apanhar, sempre o cavalo mais bonito, mais elegante, o que subisse mais alto e me permitisse dar uma "vista" do mundo mais panorâmica! Não devia ter tido tanto medo que os outros me julgassem e confundissem o meu desejo com oportunismo. Fá-lo-ão sempre que os seus interesses estejam ameaçados e não em função da sinceridade ou verdade dos simples desejos dos outros.
Como diz o poeta, Reinaldo Ferreira: "Quero um cavalo de várias cores!"
sábado, 25 de julho de 2009
Chamem-lhe "felicidade", por exemplo!
A Estrelinha, que ensinara as primeiras letras e as contas a muitos jovens lá da aldeia, já ultrapassara os trinta há um bom par de anos, já estava casada há mais de dez e bebés, nada...
E toda a gente via e sabia como ela gostava de crianças!
Além disso a Estrelinha não escondia a pena de não ser contemplada pela Natureza.
Um dia, a Estrelinha pensou que talvez a Natureza precisasse de uma pequena ajuda. E assim foi! Ela e o marido foram aos médicos, falaram-lhes do seu desejo e a Ciência lá deu o jeito que faltava e semeou os bebés na barriga da Estrelinha.
Por isso, naquele dia uma verdadeira multidão esperava à porta do Hospital, em tempos Maternidade, a sua vez de espreitar a menina e os meninos.
Comentava quem saía que a menina era linda e rosadinha , tão rosadinha que se devia chamar Rosa. Quantos aos rapazes, diziam que berravam a bom berrar! Não havia forma mais adequada à sua condição de recém-nascidos de retribuir, para o outro lado do vidro, todos os sorrisos, acenos e alguma lágrima, que se ficava pelo “canto do olho”.
Esta hístória exemplar repete-se com tanta frequência que deixou de ser notícia.
Mas foi há trinta e um anos uma notícia feliz que fez nascer em muitas Estrelinhas a esperança de perseguir um sonho, com a ajuda da Ciência.
Há 31 anos, nascia em Londres o primeiro "bebé-proveta", designação que caiu em desuso porque contribuia, na mais perfeita inocência, para uma resistência chamada "preconceito". Passou a chamar-se "reprodução medicamente assistida".
Chamem-lhe Felicidade, por exemplo!

Imagem daqui
E toda a gente via e sabia como ela gostava de crianças!
Além disso a Estrelinha não escondia a pena de não ser contemplada pela Natureza.
Um dia, a Estrelinha pensou que talvez a Natureza precisasse de uma pequena ajuda. E assim foi! Ela e o marido foram aos médicos, falaram-lhes do seu desejo e a Ciência lá deu o jeito que faltava e semeou os bebés na barriga da Estrelinha.
Por isso, naquele dia uma verdadeira multidão esperava à porta do Hospital, em tempos Maternidade, a sua vez de espreitar a menina e os meninos.
Comentava quem saía que a menina era linda e rosadinha , tão rosadinha que se devia chamar Rosa. Quantos aos rapazes, diziam que berravam a bom berrar! Não havia forma mais adequada à sua condição de recém-nascidos de retribuir, para o outro lado do vidro, todos os sorrisos, acenos e alguma lágrima, que se ficava pelo “canto do olho”.
Esta hístória exemplar repete-se com tanta frequência que deixou de ser notícia.
Mas foi há trinta e um anos uma notícia feliz que fez nascer em muitas Estrelinhas a esperança de perseguir um sonho, com a ajuda da Ciência.
Há 31 anos, nascia em Londres o primeiro "bebé-proveta", designação que caiu em desuso porque contribuia, na mais perfeita inocência, para uma resistência chamada "preconceito". Passou a chamar-se "reprodução medicamente assistida".
Chamem-lhe Felicidade, por exemplo!

Imagem daqui
sexta-feira, 24 de julho de 2009
Sensação estranha...
Hoje passa mais um dia 24 de Julho, dia da minha cidade.
Este é o Jardim Vasco da Gama, passagem obrigatória no caminho da baixa, a caminho das emoções da matiné, no Gil Vicente ou no Scala, da coca-cola, no Continental ou do "chocoleite", na Cooperativa.Logo a seguir ao Scala, há a emoção dos correios. Pode sempre haver uma carta para "deitar" ou um telegrama.
Fotografias do meu sobrinho, Gonçalo.(Abril de 2009)
Obrigada, Gonçalo, pelas fotos. O coração continua a dar horas, vazio e cheio de fome. Mesmo assim, obrigada!
quarta-feira, 22 de julho de 2009
Pérola de jornalismo
«Ontem de tarde, estava na praça da Ribeira José Rodrigues e a sua cara-metade Luísa Pinto conversando, mas, por tal forma o faziam, que a moral pública era altamente ofendida. A polícia, que tem os ouvidos muito castos, aproximou-se do mal falante par e repreendeu-o, mas foi mal sucedido, porque depois do dize tu e direi eu, meia dúzia de sopapos caíram no cachaço do guarda civil, que tomou a seu cargo desafrontar a moral pública.» Entretanto, «apareceram mais guardas e o par sempre a multiplicar o par de murros.» Por fim, «o ditoso e valente par foi capturado e conduzido ao Aljube.» Fonte:1.º de Janeiro de 22-07-1869, p. 3
Observações: Se o casal, ou seja, as duas metades da cara, estavam a conversar, como é que ofendiam a moral pública? "Altamente", note-se! Seria o volume da voz? Seria o conteúdo da conversa? Ou, simplesmente, não era conversa mas sim uma valente discussão à antiga portuguesa?
Quanto aso ouvidos castos da polícia: estaria o jornalista a ser irónico? Já lá vão cento e quarenta anos, mas mesmo assim, não acredito nesta castidade.
"Dize tu direi eu" já me parece uma forma mais acalorada de conversa...
É que os bem intencionados dizem que é a conversar que a gente se entende. Ou será a falar?
"Malharam" na Guarda-Civil e forma parar ao Aljube, mas mesmo assim o bem-disposto do jornalista chama-lhes ditoso par. Ditoso não quer dizer feliz? Valente não quer dizer corajoso? Falar de coragem e valentia não pressupõe orgulho, aprovação? Então isto quer dizer que o jornalista aprova e orgulha-se do par ter batido na autoridade.
No mínimo, esta é uma peça de jornalismo um tanto estranha!

Fontes: texto do Leme, Efemérides: imagem do Getty Image.
Observações: Se o casal, ou seja, as duas metades da cara, estavam a conversar, como é que ofendiam a moral pública? "Altamente", note-se! Seria o volume da voz? Seria o conteúdo da conversa? Ou, simplesmente, não era conversa mas sim uma valente discussão à antiga portuguesa?
Quanto aso ouvidos castos da polícia: estaria o jornalista a ser irónico? Já lá vão cento e quarenta anos, mas mesmo assim, não acredito nesta castidade.
"Dize tu direi eu" já me parece uma forma mais acalorada de conversa...
É que os bem intencionados dizem que é a conversar que a gente se entende. Ou será a falar?
"Malharam" na Guarda-Civil e forma parar ao Aljube, mas mesmo assim o bem-disposto do jornalista chama-lhes ditoso par. Ditoso não quer dizer feliz? Valente não quer dizer corajoso? Falar de coragem e valentia não pressupõe orgulho, aprovação? Então isto quer dizer que o jornalista aprova e orgulha-se do par ter batido na autoridade.
No mínimo, esta é uma peça de jornalismo um tanto estranha!

Fontes: texto do Leme, Efemérides: imagem do Getty Image.
terça-feira, 21 de julho de 2009
Querida Lua!
Ontem foi o teu dia, mas eu andava tão ocupada com aquelas coisas nada românticas, que não tive coragem de falar contigo e dizer-te como tu és importante na minha vida.
Costumo olhar para ti, sabes?, sobretudo nas noites em que está muito redonda, muito gorda e muito branca a tomar conta das estrelas. Gosto da maneira como namoras o mar, um caso que já vi mesmo, com estes olhos, lá para os lados do Algarve.
És mesmo namoradeira! Aqui, nas minhas bandas, também já vi que te "atiras" ao rio... Ai, ai... Vamos ficar por aqui. Deves estar muito cansada, com as honrarias de ontem.
Deixo-te um poema que foi feito por uma menina da minha escola, já há alguns anos.
Lê! É muito, muito lindo!
A Lua
A Lua sobe, sobe sem parar,
quando dou por mim,
vejo o seu brilho no mar.
O Sol já desceu,
estrelas estão a cintilar
gaivotas começam a voar.
E eu,
vou para casa...
Vou sonhar.
Ângela,5ºL (2003/2004)
Às vezes, de tão redondinha, até pareces estar a desafiar-nos, a nós, que andamos cá tão em baixo, para subirmos, até ao teu chão que, se calhar, sabe a queijo, para brincarmos contigo.
Gosto muito de ti, Lua!
Costumo olhar para ti, sabes?, sobretudo nas noites em que está muito redonda, muito gorda e muito branca a tomar conta das estrelas. Gosto da maneira como namoras o mar, um caso que já vi mesmo, com estes olhos, lá para os lados do Algarve.
És mesmo namoradeira! Aqui, nas minhas bandas, também já vi que te "atiras" ao rio... Ai, ai... Vamos ficar por aqui. Deves estar muito cansada, com as honrarias de ontem.
Deixo-te um poema que foi feito por uma menina da minha escola, já há alguns anos.
Lê! É muito, muito lindo!
A Lua
A Lua sobe, sobe sem parar,
quando dou por mim,
vejo o seu brilho no mar.
O Sol já desceu,
estrelas estão a cintilar
gaivotas começam a voar.
E eu,
vou para casa...
Vou sonhar.
Ângela,5ºL (2003/2004)
Às vezes, de tão redondinha, até pareces estar a desafiar-nos, a nós, que andamos cá tão em baixo, para subirmos, até ao teu chão que, se calhar, sabe a queijo, para brincarmos contigo.
Gosto muito de ti, Lua!
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