Uns vendem-se por um volkswagen, outros por um andar no Areeiro. A ideia não é minha. A constatação não é minha. É de Sttau Monteiro. Li-a num dos seus livros, há muitos, muitos anos e nunca a esqueci. Fiquei alertada para os casos em que podia confirmar a verdade do sarcástico dramaturgo de boa memória.
A cena política tem-me fornecido numerosos exemplos e há apenas casos raros que constituem excepção, a tal que confirma a regra. Da história de hoje recolho um exemplo: Mandela. Nem a liberdade física foi preço para deixar rasgar o ideal. Da história mais antiga, recolho outro exemplo: Thomas More, para quem nem a vida foi o preço. "Morro fiel servidor do rei, mas Deus acima de tudo."
Pergunto-me qual o meu preço. Não tenho perfil nem competências de herói, mas tenho as minhas convicções e os meus ideais. Sorte a minha, que não comprometem a humanidade, que anda para a frente ou para trás, independentemente dos meus ideais que têm a minha dimensão, claro! Não sou nada nem ninguém para me questionar, mas não são só os importantes ou os ilustres que têm o direito ou dever de se questionar. O meu destino é um destino individual igual a tantos, igual a muitos. A minha participação no destino colectivo é muito valiosa para mim, mas disso não passa. Por isso, nunca me será posta, formalmente, a questão do preço.
Contudo, às vezes, penso que as minhas decisões sobre os assuntos individuais estão ligadas a um preço: a minha paz de espírito. Eu pago o preço mas, depois, nem chego a ver essa paz, quanto mais a senti-la! Ela esvai-se nos inúmeros quês que me atormentam a consciência, inevitavelmente. E como eu me engano: quando compro o céu, ou julgo que compro o céu, trago para casa o inferno.
É que o inferno somos mesmo nós.
Aproveito para informar que volkswagen já tive. Um andar no Areeiro, ainda não!









