sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

"Tudo tem a ver com tudo"

Há dois ou três dias, às desoras a que o sono não me chega, apanhei uma conversa na televisão que me valeu a noite em escuro. Sim, em escuro. A expressão "noite em claro" não me convence!
Era um dos programas bons que a televisão transmite: Câmara Clara. Na Dois, claro! Uma conversa com um arquitecto Alexandre Alves da Costa.
A nossa adesão a um programa destes nunca é inocente. Fiquei presa a uma vivacidade de pensamento, ainda por cima rico de conhecimento, a um falar solto e livre sobre as coisas.... Pensei logo: quem me dera!
Se puderem vejam a conversa aqui.
Se não vos der jeito, digiram este pequeno texto que apresenta o vídeo da conversa.
O Porto é uma nação. Lisboa é outra. Em Portugal há muitas "Povoas de Varzim". O que explica então que exista, indubitavelmente, uma arquitectura portuguesa? Por que é que os arquitectos de hoje devem olhar para os mestres pedreiros do século XVI como companheiros, como colegas? O arquitecto Alexandre Alves Costa, catedrático da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, jubilou-se e deu a última aula há duas semanas. Uma aula sobre o que é isto de ser português. Nesta conversa vem dizer-nos como "tudo tem a ver com tudo": peixe grelhado em Matosinhos e Luchino Visconti, Pessoa e Sophia, o Convento de Tomar e a piscina de Siza Vieira no Parque da Conceição. Uma emissão que nos traz ainda Fernando Távora, Peter Zumthor, Manuel Graça Dias, José Manuel Pureza e John Coltrane.
Este "tudo tem a ver com tudo" soa-me muito a Lisboa, mas, provavelmente, porque é o que eu conheço um pouco melhor. E, mesmo assim, sabe Deus, quanto o não-conhecimento grassa à conta de não ver mais programas assim e de ter passado praticamente um serão a "ajudar" os vizinho da quinta a "armarem" os galinheiros...
Contudo, se "tudo tem a ver com tudo", eis um tudo à mostra em Lisboa, num daqueles lugares que o turista espreita. Será que entende tudo na mesma corda: as cuecas e o colchão do cão?

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Dias de ...

Tenho, em relação a este dia, a mesma opinião que tenho de outros dias de: podem servir para lembrar alguma coisa a alguém. Mas se não servirem para lembrar nada, também não é necessários eliminá-los, evitá-los. Em algum calendário podem fazer sentido. É apenas a minha opinião e, como normalmente se diz, em coisas até mais sérias, vale o que vale.
Mas a tradição e o culto deste dia não têm nada a ver com a nossa cultura. Os nossos namorados são abençoados e protegidos por um outro Santo,que para além de milagres de amor provoca também o aparecimento das coisas desaparecidas e até faz acontecer o que é preciso acontecer. Mas não consta que o S. Valentim e o Santo António tenham algum problema de competitividade. São meses diferentes e maneiras de celebrar diferentes. E se é para o bem, venham os trezentos e sessenta e cinco dias do ano, ou seis, se calha Fevereiro ter mais um sol e uma lua.
Não sei qual deles reclama mais a paixão, aquela que acende mesmo a fogueira que as raparigas saltam lá mais para o Verão...
O namoro é como a infância: uma promessa de futuro. Só por isso, vale a pena evocar esse estado e esse tempo e celebrá-los!

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Liberdade

Não me canso de dizer e, sobretudo, de sentir a emoção de viver o mesmo tempo do homem livre que, há vinte anos, saiu de uma prisão que lhe tolheu apenas o corpo porque a alma ou o espírito, o pensamento (ou seja lá o que for que habita a nossa matéria) nem com ouro pode ser agrilhoado.
Mandela viveu toda a sua vida com os olhos postos na paz, na paz verdadeira que cada homem assina com o seu mais próximo. E só o homem absolutamente livre pode firmar essa paz.
"Ao passar finalmente aqueles portões para entrar no carro do outro lado, senti - mesmo aos setenta e um anos - que a minha vida estava a começar de novo. os meus dez mil dias de prisão tinham por fim terminado." (Autobiografia, página 617) Estátua de Mandela, em Londres, na Praça do Parlamento. Este local foi escolhido de modo a que se pudesse tornar mais significativa esta homenagem, a homenagem ao homem que moldou no seu próprio barro a liberdade um povo, o sentimento de uma nação!

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Resposta à resposta

Pois é, Natália! Tens mesmo feeling para detectar mentiras... Davas uma detective de grande categoria.
Já tu, Teresa, poiiiing!, tens de pedir uma aulita extra à Natália!!!!
Eu explico. Mentira um: futebol é mesmo coisa que não gosto mesmo. (Aí tu acertaste, Teresa!) Fui, ao todo, três vezes à bola. A primeira, em Lourenço Marques, à inauguração de um estádio, o da Machava, acho eu! A segunda, à inauguração do Alvalade XXI. A terceira, quando o Jorge recebeu o emblema de cinquenta anos de sócio. Porque é verdade que eles são todos muito, muito verdes: pai e filhos. Mas a menina cá de casa, a Sofia, é do Benfica. O meu pai era do Porto. Tenho o meu coração tripartido, mesmo sem gostar de futebol.
Mentira dois: a da graxa. Não sei se cheguei a ler algum dos livros da Colecção Aventura. Eu até gosto de livros e filmes para crianças ou jovens, mas estes apanharam-me numa altura em que eu já não dava aulas de Português. Se li, não me lembro. A Alice Vieira li muito. E o Torga também. Li os diários todos e a Criação do Mundo. Li os Contos e os Novos Contos, Bichos e o Senhor Ventura. Ou seja: tenho uma carrada de Torgas e,ao contrário de muitos outros, aqueles li mesmo e bem. Pego muitas vezes nos diários e na Criação do Mundo porque me lembro de passagens que quero reler. Tenho uma "pancada" tão grande pelo Torga que tenho aqui uma "caricatura" feita por alunos do 8ºou 9º anos, em que estou a dizer "I love Torga".
Sou arrependida, sou, Teresa. Reivindico os meus erros, porque eles me pertencem de facto, mas isto é que é conversa fiada, conversa de artista/escritor, Richard Bach (Ilusões). Eu acho sempre que podia ter feito melhor, sobretudo quando alguma coisa corre mal. Tenho muito aquele discurso horrível da culpa! Mas as escolhas têm de ser feitas. Vim para Lisboa e arrependi-me, tal era a saudade. Fui para Odivelas e andei uns anos arrependida. Depois passou e adaptei-me. Vim para o Montijo e nem sabem quanto custou, em tempo e gasolina, o arrependimento. Para aliviar a culpa que sinto em alguns aspectos da educação dos meus filhos, uma amiga cita o Freud: "de qualquer maneira, está mal!". Para não cometer os erros da geração anterior, cometi outros, se calhar bem mais graves. Quanto a ser uma pessoa melhor, eu bem gostava e esforço-me.

Desafio da Teresa....

... ou a habilidade de dizer umas mentirinhas e umas verdades para "baralhar" os outros, que não se vão deitar a adivinhar, porque eu acho que é fácil...
Sou do Sporting, porque adoro futebol e cá em casa são todos muito "verdes"!
Faço jus ao epíteto que, normalmente, se junta ao meu nome: arrependida. Arrependo-me muito e muitas vezes. Até porque tenho para mim que há sempre outro caminho e a vida é feita de escolhas. (Leiam a Viagem da Sophia de Mello Breyner e vejam como as escolhas são mais do que imaginamos!)No entanto, como diz o Bach (o da Gaivota Fernão) os meus erros pertencem-me, reivindico-os por uma questão de propriedade, com prova de factura e tudo. Já li os livros todos da Ministra.(Graxaaaaaa!) Já li quase, quase toda a obra do Torga. O meu desejo actual é ser uma pessoa melhor, mas não sei se consigo.
Certo? Beijinhos, TeresaEm vez de dizermos "aqui há gato", podemos dizer "aqui há flamingo"!

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Adeus, Carvalho!

Hoje perdi um amigo! Adeus, Carvalho!
Estas são as linhas que não vai ler, ao contrário de todas as outras que leu e entendeu, desde o princípio.
Nem sei escrever hoje o que sei que gostaria de ler. Dói-me muito saber que as minhas palavras aqui ficaram órfãs de uma amizade que se situou sempre no mais puro ideal, uma amizade que se alimentou de muita saudade: a sua saudade do amigo, a minha saudade do meu pai. Cerrámos fileiras, nós três, nós quatro, talvez mais alguém, e resistimos à dor como pudemos e como soubemos. Sempre com os olhos postos na dignidade da condição humana. Sempre guiados pela lealdade. Dos vários laços fizemos um forte nó que não vamos deixar que se desate porque o que foi vivido e dito se inscreveu indelével no que somos.
Adeus, Carvalho! Continuarei por aqui a lembrá-lo e, embora mais pobres com a sua partida tão sem aviso, esta será a minha homenagem ao Homem e ao Amigo! Darei sempre aqui testemunho do quanto aprendi consigo sobre a Amizade.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Momento Zero: Lisboa

Muitos atrasos! Foram bons para tomar o pulso à situação. Foram muitos anos sem andar de avião.
Tudo muito diferente em termos de procedimentos, em termos de instalações...
Na minha memória ainda não estão "destruídos" os aeroportos de Lourenço Marques, Beira, Nampula, Quelimane...
(Em Lourenço Marques, ir ao aeroporto ver os aviões era uma distracção domingueira.
Nesse tempo dizer adeus a alguém revestia-se de muita solenidade. Esperar, também. As distâncias não se transpunham à velocidade de um click! Os corações esfrangalhavam-se de saudades que não se "matavam" nunca. O factor surpresa também ajudava a criar um clima muito próprio da despedida e do reencontro. Os aviões eram transporte com muito para recear e caro.)
O que não mudou mesmo foi a sensação de perder o chão e ganhar o ar.
Lisboa ficava cá em baixo, toda enfeitada de luzes, umas fixas, outras a correrem velozmente a cidade.
A prenda já estava a ser desembrulhada...

A prenda

Acabadinha de desembrulhar, ei-la:Obrigada, filhos!

sábado, 16 de janeiro de 2010

Roto mais do que desfeito

"Los abrazos rotos" é o título do novo filme de Almodovar. Mais um título que choca, por acertar em cheio, na crueldade das relações humanas que todos, na vida, um dia ou outro, experimentamos.
Há abraços que se rompem como rompe o tecido velho e gasto de ter sido muito usado ou mesmo de estar guardado. E dói ver o pano que já foi um belo cortinado, ou um vestido de festa, perder o brilho e a utilidade, em fios cansados que já não se aguentam tecidos no mesmo trapo.
O trapo ganha uma nova vida. Mesmo roto, serve para limpar as janelas embaciadas da chuva. E, quando passa macio sobre o vidro gelado, entra a claridade! Bem-vinda seja a luz!
Ainda a propósito de abraços que se desfazem, que se rompem, ontem, numa entrevista ao "Boinas" o Carlos Pinto Coelho contou que houve telefones que emudeceram quando a televisão se desligou para ele.
É estranho, mas a vida está cheia de abraços desfeitos que guardamos, primeiro numa memória recente que dói. Depois, numa prateleira no fim do mundo. Raramente os deitamos fora que é o que devíamos fazer...

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

A borrasca

Têm sido de borrasca os últimos dias! Mas também é preciso saber viver os dias de chuva, de vento, de raios e de trovões!

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Cinquenta e oito

É mesmo só para agradecer a quem passou por aqui (Ena tanta gente!) a dar os parabéns no dia 6. Foi um dia bem vivido, em termos de celebrações. Gosto que o dia dos anos calhe em dia útil porque o trabalho é uma parte importante da minha vida. Foi muito bom passar a manhã na escola. Dei e recebi beijinhos. Senti o carinho de muitos. Senti-lhes a sinceridade desse carinho. Ouvi aquelas frases que fazem bem ao ego: Não pareces nada ter cinquenta e oito! Claro que ninguém parece ter idade nenhuma. Esta contagem é um tanto burocrática, pois há momentos em que temos sete, outros em que chegamos rapidamente aos setenta e sete. São as idades do Tintin, se não estou errada!
Pois no dia seis, oscilei entre os oito e os trinta e oito. Não fui muito mais além! Obrigada a todos!

sábado, 2 de janeiro de 2010

O curto prazo

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Diz o MEC, hoje, no Público: "É um milagre. Ainda cá estou. Ainda cá estamos.É um milagre. Ainda cá estou. Ainda cá estamos. Foi bonita a primeira manhã do ano.
Já fui despedido duas vezes (do DN e do Expresso) e já enterrei dois títulos (O Independente e a K) dos quais fui parteiro. Mas nunca tinha sido prolongado. Era para escrever só durante um ano mas o PÚBLICO, depois de muitas insistências minhas, deixou-me ficar mais um ano inteirinho."
A curto prazo, apetece-me viver assim, ao ritmo do pão de cada dia, do milagre de cada dia!
Há momentos em que basta esperar pela solução dos nossos problemas. A paciência activa é uma arma poderosa. Alia-se ao tempo e traz a vitória da verdade e da razão.
"Luar de janeiro não tem parceiro.", diz o Borda D'Água.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

domingo, 27 de dezembro de 2009

So this was Christmas!

I hope you had fun!

Outros lados do Natal!

O Natal recupera quase sempre o melhor de cada um de nós. Remete-nos para o paraíso quase/talvez perdido de uma infância que se pressente cheia de futuro e de sentido de vida.
Atrás de Natal, Natal vem. O nosso próprio Natal/Menino parece esconder-se envergonhado de ainda querer sonhar.
Depois, pela vida fora, vamos experimentando vários Natais e é preciso reconhecê-los por um sabor, por um sino, por uma estrela... Por únicos que sejam os sinais de Natal, devemos dar-lhes a atenção que merecem e a oportunidade que procuram: acordar a Fantasia adormecida!25 de Dezembro de 2009, Albufeira, Mamma Mia

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

A todos, um bom Natal!

Os dias de Natal são normalmente marcados pela quietude e este não foge a essa regra. Daqui a pouco, fazemo-nos à estrada, eu e o Jorge, ela também, habitualmente, quieta e só, mas de uma solidão que só dói se uma outra dor qualquer se impõe. Só por si, esta solidão de Natal acompanha um sentimento próprio da época, seja-se ou não cristão. Eu gosto muito do significado essencial do Natal. A cena do presépio é sem dúvida uma atracção para os nossos sentimentos, para as nossas emoções. Parece que o sentido da Vida ganha força e se estabelece para lá de todo o mal que o mundo conhece.Para todos, um Bom Natal!

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Inverno. Próxima Estação...

Há correspondência com a Linha da Primavera, onde poderão desaguar em ninhos de passarinhos, chilreadas de ensurdecer, cheiros de criar espirros, cores de entontecer.
Chegámos, finalmente, à estação dos dias pequenos e das noites sem fim.
O Outono foi a longa viagem. Agora já cá estamos e é só pegar em tudo o que o tempo dá de melhor e aquecer a alma. Primeiro, o Natal. O súbito desejo de acreditar que a magia funciona e que nos devolve a esperança. Depois o novo ano, este já de si tão embrulhado na ideia da renovação.
Chegámos ao Inverno. Próxima estação: Primavera! Vista da minha janela, virada para a Ponte Vasco da Gama: primeiro, a minha rua; depois os campos ajardinados e semeados de prédios, candeeiros e frágeis árvores que se esticam até ao céu mais próximo; depois, a circular; do lado de lá da circular, há espaço que seria lindo se revestido de verde... Mas não! A maioria das vezes é fumo das fábricas próximas. Ou restos delas. Finalmente a linha recta que se ajeita paralela ao horizonte e se enfeita de muitas luzes. Não por ser Natal, mas porque pertence já ao caminho que nos leva a sobrevoar o rio em alcatrão sobre a água. Depois, ainda há mais casario...

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Os Dias da Televisão

Cresci sem televisão e isso fez de mim uma pessoa diferente: mais "saloia", mais ingénua...A caixinha mágica maravilhou-me, emocionou-me intensamente, como maravilhou todos os que não a conheceram à saída da maternidade, como aconteceu, certamente, com a maioria dos que me estão a ler.
O primeiro aparelho de televisão que eu vi foi levado da "Metrópole" para Lourenço Marques, pela minha tia, quando regressou, depois de quatro anos de ausência em Lisboa. Não funcionava, claro! e pergunto-me a razão pela qual o terá levado. Com esperança de ainda o vir a usar? Talvez em nome da companhia das noites de Inverno? Talvez em nome de um apego qualquer que temos às coisas, quando obtê-las não está ao alcance rápido e imediato da nossa vontade?
Não sei. Levou o aparelho de televisão cujo ecrã parecia uma lente dos óculos dos muito míopes, mas em grande...
E eu, só vi televisão, pela primeira vez, em Lisboa, quando vim para a Faculdade.
Fiquei num Lar de Estudantes (freiras) no Lumiar onde já estava a minha amiga Zé, que tinha vindo para Direito. Fiquei num quarto de três e tínhamos em comum a distância e a saudade e com isso fizemos uma imensa amizade que perdura e se mantém, "para lá de" e "apesar de". Somos irmãs de coração, para o bem e para o mal.
No piso onde ficavam o nosso quarto e outro, havia a sala da televisão, onde se apinhavam normalmente as "ultramarinas", raparigas no grau zero do conhecimento e da convivência com aquele aparelho mágico.
Se havia festival da canção ou outro evento igualmente importante para a época a sala transbordava porque as "metropolitanas" também queriam ver, mesmo sem esbugalharem os olhos de deleite. Só no Verão, ou assim que o tempo começava a dar autorização aos casacos, para ficarem em casa e às botas, para dormirem nos armários, os namoricos do bairro faziam alguma concorrência à caixinha que alimentava a fantasia adolescente. Mas ela lá continuava, indiferente a estas traições, sabendo que irremediavelmente nos aproximaríamos dela, de novo. Mesmo a preto e branco, sem efeitos nenhuns, especiais ou outros, era a Rainha das nossas Vidas.
Veio tudo isto a propósito de ter lido no Leme que a taxa da televisão tinha conhecido o seu fim, a 13 de Dezembro de 1990, pela mão de Cavaco Silva, então PM.
É que não era comprar, trazer para casa e mais nada. Era preciso registar o aparelho não fosse ele transviar-se, fugir para o Estrangeiro ou coisa do género! E fazer prova de vida. Não havia televisão nenhuma abandonada em vão de escada.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Oh Christmas Tree

Os meus filhos impõem que eu continue a colocar, "na casa", os sinais do Natal.
Como disse alguém, se o Natal não estiver no nosso coração, não estará, certamente, debaixo de um ramo da árvore de Natal. Mas, enfim, não será por minha culpa que o natal vai deixar de estar assinalado simbolicamente cá em casa.
O meu critério maior é a simplicidade e, dentro da simplicidade, o meu gosto pessoal. Os enfeites que eu prefiro são as bolas de papel, com figuras antigas que nos remetem para um espírito de Natal menos corrompido pelo consumismo dos nossos dias.
Tenho um presépio de figuras muito simples, de barro (ou gesso, talvez!) que continuo a colocar ao pé da árvore. Tenho dois Meninos Jesus. Um deles partiu uma perna e eu não consegui deitá-lo fora, atacada pelo preconceito de estar a eliminar um Menino Jesus com uma deficiência. Então resolvi que ficariam os dois! Quer eu queira quer eu não queira, o Natal não se apresenta assim com um fenómeno isolado dos outros dias da vida.
Na literatura aprendemos grandes lições. Uma das mais belas lições sobre o significado do Natal, chegou-me pela escrita de Torga: O Natal do Garrinchas.
Ali está a ideia reconfortante que o Natal está no pensamento dos homens e em mais lado nenhum. Fiquei eterna admiradora do Garrinchas, pedinte que ousa fazer o papel de S. José, no presépio improvisado. num recanto de uma igreja.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Desafio de Natal

1. Eu já... escrevi a minha carta ao Pai Natal. Pedi-lhe um saco cheio de saúde para os meus...
2. Eu nunca... poderei deixar de pensar que é bem mais importante uma refeição em família do que as prendas.
3. Eu sei... que a magia do Natal existe mesmo.
4. Eu quero... o fim das guerras.
5. Eu sonho... com um mundo melhor, apesar de já ter idade para não me deixar embalar com cantigas...
(Obrigada, Isabel, por te teres lembrado de mim!)

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Those were the days...

Arrumações em dia feriado. Um clássico!
Só que as arrumações não são inócuas.
(Ou "inoques" como diz o texto do Vitorino Nemésio, palavra que levou a tribunal dois homens bons, reconciliados pelo juiz que percebeu a proximidade da palavra arguida!)
As arrumações trazem-nos aos olhos e à pele um tempo que é nosso, tão nosso que só dentro de nós parece fazer sentido.
Quem é que se interessa com a nossa juventude guardada nos cabelos brancos da nossa mãe? Nos nossos próprios cabelos brancos? No olhar sedutor de um jovem pai que já partiu?
Numa gaveta encontrei a minha caderneta do liceu. Lá está o registo das minhas "glórias" e dos minhas "fraquezas". AS notas de Ciências são a nódoa maior. Há por lá um sete que por sinal até está inflaccionado, pois menos do que sete nem dava para ir a exame. É que os pombos abertos ao meio em cima de uma bancada fria não conseguiam atrair a minha atenção. E a mineralogia então era o tédio mais absoluto. Sistemas de cristalização. Fugi a sete pés de um curso de Ciências por causa destes sistemas e outras classificações horrendas. Horrendo não era para mim o Adamastor. Até simpatizei com o Mostrengo que desaba em dor, ao contar a sua história de amor! A minha glória maior era, sem dúvida, a Matemática. Era simples. Mas o meu Muito Bom vinha sempre depois do Muito Bom das meninas exemplares. Como eu hoje entendo este critério das professoras! Como foi difícil para mim, na altura, lidar com as minhas insuficiências! Faltava-me o jeito para cantar, para dançar, para fazer ginástica, para desenhar... parecia que todos os talentos me faltavam. Nunca ninguém educa ninguém para o fracasso, para o insucesso. Só mesmo a Vida!
Nestas coisas de arrumações, apetece-me deitar tudo fora, mas hesito, pois sei que agarrada vai a própria vida, embalada nas recordações mais diversas...
Lembro-me sempre da cantiga popularizada por Mary Hopkins: Those were the days, my friend... We thought they'd never end...

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Uma Aventura Chamada Bali

Um "post" sobre o Bali dá direito a título ambicioso, com sugestões mais do que explícitas...
Ele próprio deve ser um cão com ambição. Pelo menos, durante as mini-férias da Restauração, mostrou bem almejar sentar-se como as pessoas, utilizar os sofás, como as pessoas, ter mais direitos do que as próprias pessoas...
Foi mesmo uma aventura. Nunca sabíamos o que é que nos esperava na hora seguinte.
Mas a aventura teve mesmo um happy end: regressou, a Campo de Ourique, recuperado de uma mazela da qual estava a convalescer, cheio de energia, mais astuto e, porventura, menos educado. Educá-lo é função dos donos. Estragá-lo tem sempre a ver com avós ou com alguém que se faça passar por...
Não sei quem é Corey Ford, mas concordo com ele: Devidamente treinado, o homem pode ser o melhor amigo do cão!

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Um pouco mais de mim

O desafio veio da Natália! Agradeço-lhe por se ter lembrado de mim. Ao contrário de muitos, eu gosto de correntes... Aí vai!
Eu já tive...vinte anos. Quem diria? Um dia o meu filho Rafael viu uma fotografia minha com os tais inenarráveis vinte anos e disse, com a certeza de quem descobriu algo que minava a sua compreensão: Agora é que eu percebo por que é o pai casou contigo!!!! Como vêem, as minhas outras qualidades, mais do domínio afectivo, ou mesmo outro, estavam completamente em baixa!
Eu nunca... pensei a sério na reforma. Custa-me até admitir que um dia vou ser "substituível". (Já sou, mas está bem!) Leiam a Rua Descalça do José Mauro de Vasconcelos e perceber-me-ão!
Eu sei... que os meus filhos são os mais bonitos do mundo!!!!
Eu quero... uma casa mais pequena, sem escadas, sem humidades, mais quentinha, com uma cozinha funcional... Ah! E um neto, dois netos, três netos.
Eu sonho ... o que todas nós mulheres sonhamos: a vida perfeita para os nossos filhos. Sonho também rever um dia a minha cidade (Maputo), banhar-me no Índico, apanhar ameijoas na Costa do Sol e dizer adeus aos lugares da minha infância.
Passar a dez? Apanhem o desafio! Quem quiser!

domingo, 22 de novembro de 2009

Hello, again!

Hello, Paul!
Pois... Não me conheces de lado nenhum e eu estou aqui a tratar-te por tu com uma intimidade que pode parecer escandalosa aos olhos de muitos. Mas, eu, tu e mais uns muitos milhões de sessentões sabemos que esta intimidade é muito real e muito verdadeira. Não tem nada de especial, nem nada de fingido.
É que nós vivemos um tempo muito, muito especial: o nosso!
(Já o meu pai dizia isso em relação ao Frank Sinatra e aos Eddies todos de que ele falava, como se tivesse andado com eles na escola. Se calhar até andou... Com eles, esses grandes das cantigas e das telas, não andou. Mas andou pelas mesas do café de Lourenço Marques com o poeta Reinaldo (Ferreira). E a minha mãe andou com a Milú e outras estrelas de cinema nos Pátios das Cantigas e nas Costas dos Castelos. Era a figurante mais bonita!)
E agora é assim: (diz-se muito "é assim", antes de se começar mesmo a expor uma ideia.) Soube hoje que vais gravar com o Ringo, outra vez.
Hello, Ringo!
Desculpa ter-te passado assim para "segundos", mas tu eras mesmo o mais feio, dos quatro. O Paul era o mais bonito e tu o mais feio. mas, olha, vês como a idade também ajuda a compor algumas pessoas. Engordaste um bocadinho e o nariz enorme passou a parecer absolutamente proporcionado. Estás giro! Mais giro que o Paul, deixa-me dizer-te assim ao ouvido.
E eu aqui a lembrar-me das expressões do teu rosto que acompanhavam em intensidade a energia com que descarregavas as músicas nos tambores. ( Eu nunca percebi muito bem o que era tocar bateria. Tu foste talvez o único a que eu prestei mais atenção.) Tocavas mesmo de corpo inteiro e os teus braços voavam de um tambor mais longe, para um tambor mais perto à velocidade da nota musical.
Tenho de ir andando. É domingo mas as tarefas domésticas esperam-me. Quem diria que um dia dancei o twist and shout sem pensar na comida para fazer, na roupa para passar, no chão para limpar... Pois... Eu tinha dez anos!

sábado, 21 de novembro de 2009

Ele há coisas!!!!

Eu não consigo entender o que está a acontecer: o PM é o mesmo e tudo o que anteriormente defendeu relativamente à Avaliação dos Professores parece que não existiu.
Estará alguém a jogar com a memória das coisas que se passaram ao longo de quatro anos bem sofridos? Alegadamente, pois…
Eu não me esqueci e nunca vou poder esquecer o que passei, ao longo desses longuíssimos quarenta e oito meses (mais sete de juros!), de humilhação exercida a bel-prazer daqueles a quem a honra de servir um povo devia acometer de ideias de simplicidade e boa vontade.
Ser Ministro da Educação devia, e deve, ser sentido como uma responsabilidade imensa.
Devia estar no ponto mais alto das preocupações de um Ministro da Educação estabelecer uma ordem de coisas que fizesse felizes aqueles para quem a escola é uma "casa" depois da "casa": alunos e professores. Ninguém pode alegar como desculpa um desconhecimento absoluto da escola, pois todos foram um dia alunos! E não passou nenhuma máquina pela memória de ninguém! Nenhum tractor ou niveladora podem reduzir a nada o que aconteceu num tempo em que tudo o que é semente dá fruto! E a maior semente é mesmo a do futuro e não vale a pena iludirmo-nos: ao longo destes quatro anos "choveu chuva ácida" nas nossas plantações e doeu muito vermos fustigadas as esperanças, por raivas oriundas de todos os cantos da sociedade.
Eu senti muitas vezes aquele escárnio maligno a rasgar e a desfazer em pó toda a minha vida de professora. Não sou a melhor do mundo, nem da terra, nem da região, nem tão pouco da minha família, mas as minhas intenções foram sempre tão boas como as melhores e a sinceridade dos meus conhecimentos foi sempre a minha enxada.
E agora, Senhoras e Senhores, quando a Ministra diz, ou melhor, promete devolver aos professores a essência do seu trabalho, que é ensinar? Não era isto que queríamos? Era, sim!!!!! Isto!
E eu só descansarei quando voltar a ser professora como antes, sem embustes de espécie nenhuma. Só professora!
Espero que a vida ainda me dê o tempo que eu preciso para voltar a ser professora, livre dos pesadelos burocráticos da avaliação dos colegas que sabem tanto ou mais do que eu, apenas são mais jovens. Não me vou pôr a catar erros como quem cata piolhos e lêndeas em longos cabelos belos e entrançados. Não vou desmanchar as tranças dos mais novos. A única coisa que eu quero é que me ajudem e me ensinem! Porque eu ainda sei aprender. E foi o que aconteceu, no ano passado.
(Eu sei que a Célia vai ler isto! Obrigada, Célia!)

terça-feira, 17 de novembro de 2009

De onde vêm as coisas boas?

As coisas muito boas têm sempre alguma magia ligada ao seu aparecimento!
Hoje fui tocada por essa magia e, mesmo correndo o risco enorme de parecer a pessoa mais vaidosa do planeta, vou pedir-vos que espreitem o blog da Ana e que vejam os desenhos lindos que os alunos dela fizeram sobre a Tia Árvore.
Obrigada, meninos e meninas! Obrigada, Ana!
Esta historiazinha tem-me trazido tanta, tanta alegria!
(Já tentei falar à Ana Sousa, autora das ilustrações, mas não consegui falar com ela. Tenho a certeza que ela vai querer também agradecer-vos, ela própria!)
Obrigada!

domingo, 15 de novembro de 2009

É a moda!

Às quintas-feiras, o jornal portuense O Primeiro de Janeiro publicava, na secção «O que mais interessa às senhoras», artigos sobre moda. Na edição de 15 de Novembro de 1923, referenciava que as cloches e os godets dos vestidos que agora surgem como novidades, usaram-se nos fins do século XIX: «Nada na toilette feminina pode considerar-se criação moderna, pois que a moda se inspira, sempre, nas coisas do passado, modificando-as e adaptando-as à época». Sobre o uso de cabelos curtos, o articulista afirma que tal se deve ao facto de «os médicos, chamados à baila, declararem que todas as senhoras ou meninas que cortem o cabelo, o terão, dentro de breves anos, mais rijo e duro».
Fonte: O Primeiro de Janeiro n.º 268, de 15-11-1923, 55.º ano de publicação, p. 4
A fonte da fonte é esta: O Leme, um sítio que vale a pena consultar, pois estas "preciosidades" abundam.
Vejam só a desculpa que arranjaram para impor a moda do cabelo curto.
A moda tem que se lhe diga. Por um lado, é tão flexível que cada um pode ter a sua própria moda. Aquilo a que chamamos estilo.
Por outro lado, a moda impõe-se de tal modo que não usar nada, mesmo nada, do que a moda dita, pode levar a um complexo de diferença e até de inferioridade.
E a moda não é só trapos, sapatos e cabelos. A moda é tudo. Até há ideias que estão na moda e outras que estão completamente fora de moda. No entanto, à medida que o nosso tempo passa, passa também o medo de confrontar os outros com as nossas ideias, por muito antiquadas (ou avançadas) que pareçam. Isso é segurança e a segurança é moda "sénior". Acreditem!

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Aniversariamente: Cecília Meireles

Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo o dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.
Cecíla Meireles

O medo de acabar! Assim, tão descarado, a dizer-nos quem é. Ele que nos bate à porta todos os dias, aparece-nos, pela voz da Poesia, a dizer-nos que afinal todos os dias nos renovamos!

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

No aniversário de Sophia

Quando eu morrer voltarei para buscar os instantes que não vivi junto ao mar. Sophia de Mello Breyner Andresen
“Dizemos «Sophia» como se esta palavra fosse sinónimo absoluto de poesia.” (Alice Vieira)
Quando a poesia toca um ser, todos os seus actos, escritos ou não, passam pela poesia. Todos os actos de Sophia parecem brotar da poesia.
De Sophia de Mello Breyner conhece-se o apego ao mar. O mar é como a poetisa uma força da natureza, uma força que não cede, que não se verga, que não ilude nem desilude, que dá o prazer e o pão. O mar é uma dimensão da obra de Sophia, tratado na “Saga”, de maneira ímpar. O mar que mata, que colhe vidas e transforma vidas, como a do pequeno Hans, que aos catorze anos largou a terra, longe, e se fez ao mar. O mar era para Hans uma proibição. O pai nunca lhe perdoaria a desobediência e Hans jamais poderia voltar à sua aldeia, a Vik, rever os seus, porque também ele, homem do mar, sabia que, na índole do marinheiro, o perdão é uma transigência menor.
As crianças são poesia. Por isso uma grande parte da vasta obra de Sophia tem como destinatário o público infantil. E lá está o mar! A gente do mar e a gente da terra. A Menina do Mar! Tão pequenina que cabe num baldinho da praia, daqueles que os meninos transportam do toldo para a beira-mar e da beira-mar para o toldo! Ela e um desses meninos travam conhecimento e querem trocar saberes. Ele quer levar-lhe o fogo e o perfume. Coisas de sensações! Ela quer levá-lo ao fundo do mar. Ele quer explicar-lhe o que é a saudade, que é da terra, mas que o mar ajuda a entender.
(A filha, Maria de Sousa Tavares, diz que a mãe lhes transmitiu “desde a infância, o apego intransigente às coisas essenciais da alegria de viver: o bom pão, o bom vinho, o mar...”)
A fé aparece na poetisa como o desenvolvimento natural de alguém tocado pela poesia. A fé também é um dom. E, mesmo em tempos conturbados, lá está Sophia, com a sua fé e a sua verdade. No entanto, a sua sensibilidade sempre atenta está pronta a desmascarar a hipocrisia. Mónica é uma personagem que denuncia o falso cristão. Mónica faz casaquinhos de lã para os meninos pobres, que já terão morrido de fome, quando os casacos de tricot estiverem prontos. “Entre ela e os humilhados e ofendidos não há nada de comum.”
Para os mais pequeninos há a lição do Natal, que surge na sua obra invariavelmente ligado aos valores cristãos. A Noite de Natal aproxima duas crianças que, crescendo juntas, não podem viver o mesmo Natal de fartura. Mas a pequena Joana vai ao encontro do Manuel, para que ele também tenha presentes na noite de Natal. E a magia dessa noite torna tudo possível: até a Joana ser guiada pelas estrelas, como aconteceu com os Reis Magos, há mais de dois mil anos.
Para celebrar a noite sagrada, o Cavaleiro da Dinamarca parte para Jerusalém, cumprindo assim um voto e um desejo. No regresso, é apanhado por muitos perigos mas a estrela que guia os homens bons de todos os tempos vai mostrar-lhe também o caminho, iluminando a gigantesca árvore do seu quintal.
Elaborados estudos falam da poesia de Sophia, da essência do eu poético. Muitos entrelaçam a mulher e a sua obra. Mas foi precisamente num texto em prosa que encontrei a alma feminina, a sensibilidade da mulher, a consciência plena do seu papel no trajecto- vida. Foi num dos “Contos Exemplares”, A Viagem. O homem e a mulher iniciam um caminho. Nesse ponto de partida ela é o ser mais frágil, ele é o mais forte. Ao longo da viagem, cujo destino é um lugar maravilhoso, onde nunca estiveram antes, a mulher vai-se tornando o ser mais forte, o que não a impede de expressar o medo. “Tenho medo” diz ela.
Foi este o texto que escolhi para fechar o "Banquete de Textos".
A seguir ainda escrevi: Com os seus pontos finais parágrafos, as folhas resguardam-se nas suas capas, suspirando por novos convivas.
A manhã está perto. A manhã está já ali. A manhã está sempre ali, feita de futuro, esculpida de brilho.
Até à manhã!

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Selo



Mania – Que... enfim... já fui o que tinha de ser e agora já não há melhoramentos possíveis; que incomodo; que não consigo...

Pecado capital - Talvez preguiça...

Melhor Cheiro do Mundo - o cheiro a gente, a alguém, a outro...

Se o dinheiro não constituísse problema - Gastava...

História de Infância - Todas com o mesmo cenário, o mesmo espaço: a casa da minha avó Madalena...

Habilidade como dona de casa - Ir ao supermercado...

O que não gosto de fazer em casa- Vá lá que parece que há consenso...

Frase preferida - As "máximas" do meu pai. A última: Eu acredito em Deus e Deus acredita em mim.

Passeio para o corpo - Qualquer que ao corpo apeteça, debaixo de um sol que não queime, apenas aqueça...

O que me irrita - A componente não-lectiva!!!!!!!!! Obrigam-me a perder tempo, encafuada em arrecadações (se não são, parecem!) que nem as minahs vaquinhas da farmville são tão destratadas!!!

Talento oculto - Também já era...


Frases que uso recorrentemente - As perguntas de massacre de índole maternal, do género: Dormiste bem? Está tudo bem? Sente-te bem? Precisas de alguma coisa? E, para variar, há a lamúria: Já ninguém gosta de mim!


Palavrão mais usado - Poça!


Não importa que seja moda,não usaria jamais -Cabelo pintado de loiro.


Quem dera ter nascido a saber - Nunca pensei nisso!

O Selo veio da casa da Teresa, a Princesa dos Algarves e vai daqui para Bruxelas, para o Barreiro e para Lisboa e para Lisboa!

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Aniversariamente - Jorge de Sena

"Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso."
A inquietação de Jorge de Sena é a inquietação colectiva. Todos tememos pelo futuro, principalmente por aquele que vai preencher as vidas dos nossos filhos e pelo qual nos julgamos (e somos!), de algum modo responsáveis.
Eu e todos os pais do mundo queremos o melhor para eles e insistimos nesse desejo.
Isto não é só coisa de poeta. É coisa de gente comum, mas ainda bem que o poeta a eternizou.
A Mécia (mulher do poeta) muito cansada, os pequenos felizmente muito bem e adaptando-se bem demais à vida americana (que, acrescentada dos vícios do Brasil, onde os meninos esperam que lhes façam tudo, se torna um inferno doméstico). Mas vão passando nas escolas.(...)
Afinal um poeta também é pai de carne, osso, nervos, medos, desejos e ambições e pequenas desilusões como a que contou a Sophia nas suas cartas...

domingo, 1 de novembro de 2009

Diário de uma terapia

.Já fez cinco anos que o Diário de Uma Terapia foi publicado! Ali está narrado, de modo mais ou menos ficcionado- já que a mulher é uma ficção da própria autora- toda a evolução psicológia da mulher que passa pela experiência cor de rosa do cancro da mama. Acredito que o livro, entretanto já esgotado, volte às livrarias, um destes dias.
Ficha técnica- Diário de Uma Terapia, Ana de Sousa, Editora Ela Por Ela.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Velhos são os trapos...

Dia Mundial da Terceira Idade! É hoje, dizem. E dizem também que foi proclamado pelas Nações Unidas, para que as precárias condições de vida, desde a saúde do corpo à solidão, sejam sentidas pelos outros, os das outras idades. Talvez exclusão, em vez de solidão, seja mais verdade, apesar de mais duro de admitir.
Um dos mais famosos velhos da nossa literatura talvez seja o do Restelo que preenche, na epopeia, o lugar que os versos reservaram para a outra visão dos acontecimentos. Não foi para mudar o rumo das coisas, pois elas já tinham, como todos sabemos, acontecido!
Uma outra figura emerge também das páginas de um livro directamente para a minha esfera interior de afectos especiais: a avó Josefa, a avó do (polémico até dizer basta!) Saramago. É um texto antigo, em que o escritor celebra alguém que, distante no entendimento das coisas, lhe propõe um olhar sobre a vida, sobre o mundo, sobre as coisas que passa por uma simplicidade inebriante. "O mundo é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer!", dizia a avó Josefa, sensível ao "casamento das princesas" e ao "roubo dos coelhos da vizinha", indiferente às tecnologias, orgulhosa da memória da beleza da juventude. "Dizes que foste a mais bela rapariga do teu tempo e eu acredito."
A minha avó Madalena tinha tudo isto: um "saber de experiências feito" e o seu olhar sobre a vida, à luz do verde que o dominava, entranhou-se no nosso futuro, agora presente, como um legado não só genético, mas também cultural, também eivado, como a avó Josefa, de uma simplicidade desconcertante.
À minha avó Clotilde, revejo-a sempre a descer a rua, em direcção à casa da amiga, com uma expressão sofrida e pouco penetrável. Era a ausência já a entrar com ela! Protegia-se do sol com um guarda-sol enorme, muito redondo, que produzia a sombra redonda que acompanhava os contornos que o próprio corpo desenhava no passeio. O seu andar era ritmado e certo. Tudo nela me diz que o que a derrubou foi a sua própria resistência!
Do meu avô Abraão herdei o amor à "Cidade e as Serras" e do meu avô Jorge ficou-me a certeza que a teimosia não pode tudo e que mesmo os mais duros cedem às certezas do amor.
Velho é o Pai Natal e ninguém o quer ver pelas costas!

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Do dia e dos dias

O que eu menos quero é acordar com polémica, conflitos e acidentes por causa do mau tempo. Mas é o que corre nos nossos noticiários, logo pela manhã. E conseguem acordar-nos!
Como diz o MEC (Não é bem o meu guru, mas quase!), só se prevê o previsível: a chuva no Outono e o as opiniões de Saramago. Apenas os trinta e dois novos planetas são capazes de embasbacar o nosso cérebro!
(Espero que um deles seja o asteróide B612! Pelo menos aí há alguém que leva a sério as ovelhas, as rosas e o pôr-do-sol!)
A propósito de Saramago, convém lembrar que a Basílica de Mafra foi consagrada neste dia 22 de Outubro, em 1730, dia dos anos de Rei D.João V.
O Convento de Mafra confronta-me com a minha pequenez, com uma falta de sentido para a vida que não passe pela grandiosidade daquela imensidão de pedra recheada de memórias de homens mais fidalgos ou menos fidalgos que conseguiram elevar a pedra além da paisagem.
Gosto de Mafra. Gosto do Memorial do Convento de Saramago e tenho pena que os senhores que contestam as opiniões do escritor não tenham lido nas páginas do Memorial do Convento, no pensamento do Padre Bartolomeu de Gusmão à conversa com Baltazar e Blimunda, a ideia de um Deus à medida das nossas imperfeições, com a capacidade de perdoar que, a existir, só pode ser divina.
Só há um perdão possível: aquele que transcende a nossa compreensão!
Foi sobre Saramago e o Memorial que eu escrevi, há anos, uma pequena sugestão de leitura que foi publicada no Jornal cá da terra. Vou deixá-lo, tal e qual, guardado aqui.

sábado, 17 de outubro de 2009

doclisboa2009

"A realizadora Diana Andringa nasceu em 1947 no Dundo, centro de uma das mais importantes companhias coloniais de Angola, a Diamang. Ali foi feliz. Ali aprendeu o racismo e o colonialismo. Agora volta, porque o Dundo é a sua única pátria, a mais antiga das suas memórias."
Fui ver e o que vi e senti ultrapassou todas as expectativas.
É um registo autobiográfico que acontece quando todo e qualquer conflito interior se resolve. Neste caso, é fácil perceber que aconteceu porque a Diana Andriga muniu as suas vivências e memórias da mais inteira honestidade. O resultado vem aos nossos olhos e ultrapassa a barreira dos nossos preconceitos: é possível sarar a ferida colonial que, eventualmente, ainda dói em muitos de nós!
(Foi um convite por "inerência": o Jorge nasceu no Dundo, em 1947. Eu sou da outra costa, como é sabido!)imagem daqui

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

A carta

Querida Célia,
Espero que esta te vá encontrar de boa saúde, junto dos teus.
Era assim que começavam as cartas no tempo das cartas e no tempo em que eu tricotava gorros e camisolas, o que te admirou muito.
Minha querida Célia, eu até me envergonho de expor aqui, nesta missiva, os meus dotes de "modas e bordados" que, lamentavelmente, fui perdendo ao longo dos anos.
Pois eu fazia camisolas e gorros para a família toda. Chegámos a ter camisolas iguais: o Jorge, o Diogo e eu. Para o Rafael fiz um casaco muito grosso, por onde não entrava frio nenhum, com capuz e botões de madeira. Fazia cobertas para os berços e bordava "Asterixes" nos cobertores das caminhas...
Mas antes disso, frequentei (lê bem), frequentei um curso de bordados à máquina. Mas estes bordados não eram definitivamente a minha especialidade. Não cheguei a fazer nenhuma obra que se visse.
Eu sempre preferi o tricô e quando me sentava a ver um filme levava comigo o trabalho que tinha em mãos.
Uma das muitas recordações que tenho do período revolucionário está relacionada com o tricô.
Enquanto tentávamos ir de Odivelas para a Costa da Caparica, passámos por tantas "barricadas", que tricotei, pelo menos, um par de botas, por sinal as que o Diogo "vestiu" no dia em que nasceu.
Era a Vida! Era a Moda!
Obrigada pela tua amizade. Para alguém tão antigo como eu, é uma honra contar com a amizade de pessoas como tu.
Um beijinho da tua amiga que nunca te esquece
Madalena

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

O dia em que conheci Lisboa

Foi assim que eu te conheci Lisboa!
Esse Outubro recebeu-me com muito sol e com muito calor. Eu que sonhava com Invernos que nunca tinha experimentado e trazia na bagagem camisolas de lã, um fato castanho de fazenda quente, um casaco comprido e gorros que tinha tricotado, mesmo não tendo nunca sentido frio. O frio ia fazer parte dos novos capítulos da minha vida. Quem sabe, talvez chegasse um dia a usar luvas e chapéu, como as elegantes senhoras que assim se enfeitavam quando iam à Baixa! Isto era o que a minha mãe me descrevia, enlevada e vaidosa da sua cidade-berço!
Eu sabia-te de cor, Cidade!
E, de repente, ali estavas tu, Cidade, com a tua ponte e o teu rio a entrar nas minhas emoções pela janela do avião. Como diz um fado: "bordada" pela luz da manhã.
(Outubro, 12, 1970)

domingo, 11 de outubro de 2009

Parabéns, Mamã!

Pois é, a minha mãe faz hoje 85 anos. Parabéns, mamã! Obrigada pela coragem que tens revelado nas caminhadas difíceis!
Beijinhos! Deixo-te uma festinha do Bali que eu sei que vais gostar!

A Minha Rua

A minha Rua estava ali toda.
Toda?
Não!
Todos os que tinham, e têm, menos quatro ou cinco anos do que eu.
Tive de lhes explicar que não podia lembrar-me deles, porque, nesse tempo donde eles estão a chegar a todo o momento, eu tinha dezoito anos, idade de grande responsabilidade e eles tinham então uns míseros treze. Alguns até menos. Eram umas crianças ao pé de mim, mulher feita, já a pensar em casar e ter muitos filhos (Eu e a Susaninha!). Podia lá lembrar-me daqueles fedelhos!
Eu não me lembrava, mas eles sim! E que bom foi perceber que cabia nas boas memórias daquelas infâncias que povoavam a minha rua, com bolas, bicicletas, carrinhos de rolamentos, patins, braços e pernas de gesso, genialmente decoradas com corações e outras insinuações!
Quero pedir desculpa aqueles miúdos por não lhes ter prestado a devida atenção lá na rua. Mal sabia eu que um dia iria lamentar não o ter feito. Que hoje me envergonharia. Eles tinham tantas memórias de mim para me oferecer. Eu não tinha nada. Só as minhas humildes desculpas!!!!

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

A Paz

Obama é Nobel da Paz 2009. A sua responsabilidade no contributo para a Paz era já grande. Agora é enorme!

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Dias dos Professores

Acho que é altura de reflectirmos seriamente sobre a Escola que queremos para os nossos filhos ou netos, sobre os Professores que queremos para os nossos filhos ou netos.
Eu quero, para os mais netos, uma escola que lhes ensine e os ajude a serem livres e que aprendam a fazer da Liberdade uma bandeira. Eu quero que os professores os ensinem a pensar, a pensar muito, a pensar em tudo. Quero professores emissários da Fantasia, da fantasia que alimenta a imaginação que os ajudará a construir um Mundo Melhor.
Eu quero que as coisas simples deslumbrem os meus netos! Uma maçã, um bolo, um brinquedo...
Quero que aprendam a admirar os outros, os admiráveis, tirando, do exemplo dos outros, uma lição de vida.
Que tirem da Natureza, também, a lição de Vida que ela nos ensina constantemente.
Que saibam julgar, sem condenar. Que saibam perdoar, sem humilhar.
Que saibam amar sem se subjugar!

Onde pára o Outono?

A pergunta faz sentido quando olhamos para o calendário e sentimos, no sono, o feriado e, na pele, o mês de Agosto.
Os dias estão lindos de viver, de olhar, de contemplar. Até as noites sabem a iguaria preparada por deuses que sabem quanta vida o sol nos traz à vida.
Adeus sol! Adeus mês de Agosto! Adeus mês de Setembro! Olá às coisas lá de cima, ao contrário do L.A. que cumprimenta as coisas aqui em baixo. Olá às nuvens douradas que se espreguiçam no céu, arroxeando os limites do horizonte, tingindo de negro os ramos que ousam rasgar o azul, o ouro...
Não venhas cedo!

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

O meu momento de "antena"

As minhas razões para não votar PS nestas eleições prendem-se sobretudo com a qualidade humana dos candidatos.
As pessoas não contam mesmo.
"E o povo, pá?"
"O povo quer dinheiro para comprar um carro novo!"
E parece que o mundo gira à volta do carro novo, da conta bancária, das férias de sonho... Como se para se ser feliz bastasse ganhar a montra do Preço Certo!
E a segurança, pá? E a saúde, pá? E a cabeça sossegada, pá? É tanto pá, tanto pá, que nem dá para pôr aqui tudo.
Todos os dias me lembro do célebre mandamento, emblemático da vitória do ideal de igualdade: "Todos os animais são iguais"; e da alteração sofrida ao ser convenientemente acrescentado de um outro conceito protector de uma classe dominante: "mas alguns são mais iguais do que outros."
Tal como o Burro Benjamim eu também sei ler tão bem como os mais iguais.
E, desta vez, não voto neles!

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Parabéns, Jorge!

Nada podia vir mais a propósito! Um puzzle!
Vinte e quatro mil peças! Nome: Vida.
Ainda por cima chamam-lhe um desafio!
Muitas vezes tenho feito a comparação da vida, da tua, da minha, da nossa, com um puzzle. A sorte tem sido encontrar sempre a peça certa e o lugar certo no imenso puzzle que é mesmo a vida de todos nós. Acredito na sorte! Não sei se fica bem acreditar! Não é por isso que delego mais no acaso e devia fazê-lo!
Só não acredito em euromilhões e coisas assim e por isso não jogo.
Prefiro pedir à Sorte que nos traga saúde e vou andar de nariz no ar, a ver se encontro uma cegonha que nos traga um neto. Até lá, teremos o Bali, para treinar a paciência e o puzzle para nos inspirarmos. Ele há astros, animais, balões de ar, corais, peixes e um farol, um arco-íris e muito mais.
Parabéns, Jorge!

domingo, 20 de setembro de 2009

Que nem eu!

Hoje é que eu vou chorar que nem uma madalena. A minha priminha já está a "voar". Deve estar para os lados da França e daqui a uma hora aterra aqui, em Lisboa. Todos os lugares comuns do mundo são insuficientes para descrever o que se sente quando não se vê alguém que nos pertence há quase quarenta anos!!!!! Estou que nem posso, como diz o rapaz do Freeze! Mas o que eu preciso mesmo é de uma dúzia de lexotans porque vai ser um Tejo de lágrimas....
Veremos. Eu depois conto!

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Parabéns, filho!

O dia dos teus anos é um dia especial! Os dias dos anos dos meus filhos são especiais. Mudaram a minha condição! Acrescentaram muita responsabilidade à minha vida.
Sei que é embaraçoso dizer ou ler coisas que só fazem sentido na roda dos amigos e da família, mas tornou-se tradição deixar aqui umas palavrinhas sobre os dias de anos. Não vou alongar-me, nem "esticar-me", como vocês dizem agora.
O que hoje sinto, e pode ser dito aqui, é que há uma enorme compensação em chegar a esta etapa da vida: a alegria de vermos os nossos filhos continuarem, com os aperfeiçoamentos possíveis, o nosso projecto de vida!
Parabéns, filho! Que tenhas muitos dias felizes!O meu coração pede que tenhas todos, mas sei que isso não é possível. Muitos, já é bom!
Foto tua publicada aqui.

domingo, 13 de setembro de 2009

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Leia-se o pensamento de Sena...

... que chega hoje ao país que lhe deve a guarda desse sentimento de ser português, no limite de todas as verdades, quando nada mais lhe restava senão a própria liberdade de pensar e dizer essas verdades.
Nas cartas que escreveu a Sophia podemos ler a inquietação sossegada de quem nada espera. "Soube-me sempre a destino a minha vida", diz o poeta.
Prestemos-lhe a justa homenagem, no dia em que se cumprem trinta anos da sua morte.
"Nunca imaginei que a P(IDE). se tentasse com os meus autógrafos... Resta-nos a consolação de pensarmos que ficaram sabendo o que já sabiam ou o que até bom seria se soubessem. A minha posição política continua inalterável: não tenho e não terei nunca ( a menos que me filie em mim mesmo), filiação partidária. Penso que a unidade de todos é a suma necessidade; mas reconheço que é impossível lidar com a mediocridade invejosa, que é a dos nossos políticos, desde a clandestinidade em que mesmo no exílio se comprazem os comunistas, até ao Palácio de São Bento. Cada vez mais penso que Portugal não precisa de ser salvo porque estará sempre perdido como merece. Nós todos é que precisamos que nos salvem dele. Mas sabe que não há maneira fácil? Eu, por exemplo, tenho feito por comportar-me como brasileiro em tudo, o que a minha vida oficial me impõe aqui: eu sou Funcionário do Estado, assessor do Ministério da Educação (constará aí que se me deve que a Literatura Portuguesa seja obrigatória em todos os cursos superiores de Letras?), figura pública de mérito reconhecido. Isto sem abdicar de ser o português, que ninguém é mais do que eu. Pois só consigo ser suspeita todo o mundo: aos olhos dos "exilados" porque me abrasileirei, quando eles se recusam a tomar conhecimento do país em que vivem e do que vivem; e aos brasileiros (não aos meus amigos, é claro), porque sou um agente temível de "portugalidade".

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Corrente de olhos, ouvidos, nariz, pele... Gostar!

Um selo de apurar os sentidos...

Regras:
*Exibir o selo

*Indicar o link do blog de quem o recebi
Ela é a Graça propriamente dita!
*Indicar outros 5 blogs:
A Pitucha que dá cor ao Cinzento;A Chuinga que mastiga mas não deita cá para fora as utopias que ainda lhe/nos faltam;o Miguel, o indescritível!a Isabel, a Prof das memórias livres;o Bruno, que mergulha em talentos profundos para nosso prazer!
Para dizer a verdade, todos me apuram os sentidos.
Sobre os cinco sentidos que a Graça pede, aí vai!

*Dizer qual o sentido que melhor me descreve:
Não consigo decidir. Sinto tudo com os sentidos todos e só assim as sensações se transformam em emoções.

*Para cada Sentido responder às perguntas:

- Audição: Qual o som que mais gostas de ouvir?
Voz de criança.

-Visão: Qual a tua imagem favorita?
O mar.

-Tacto. O que mais gostas de sentir na pele?
Outra pele.

-Paladar: Qual o teu sabor favorito?
Sal

-Olfacto: Qual o cheiro que te faz bem?
o cheiro da água.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Regressos

Entre abraços, beijos e outros sorrisos mais ou menos formais, mais ou menos verdadeiros, o regresso vai tomando forma, vai-se consolidando, vai-se apoderando das peles morenas que dentro de dias voltarão ao branco sujo dos dias normais.
Por fora, é assim! Por dentro, também!
Cá dentro, há emoções que nos tingem a alma de brilhos que não se dissiparão tão cedo. Cá dentro, guarda-se a saudade bem guardada, não vá ela transbordar e perder-se também no buliço do regresso... Também ela brilha! Também ela dá sentido aos dias normais!!!!

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Incertezas de um regresso

As férias estão a acabar e o trabalho está quase de regresso.
Noutros anos, a ideia do novo ano lectivo entusiasmava-me, criava em mim a expectativa das coisas boas e até a ideia da rotina me seduzia.
O ano passado mudou-me e agora dou por mim desalentada, a pensar que não me apetece nada passar por tudo outra vez, sobretudo pela experiência de avaliadora. As imposições de procedimentos, que não contribuem minimamente para a qualidade do processo de ensino-aprendizagem, deixaram-me uma nódoa negra na minha consciência profissional.
Tive de aceitar entrar na "guerra" para não "morrer". Fiz o que tinha de fazer com a má consciência de estar a trair tudo e todos, e sobretudo a mim mesma, pois se eu tivesse ainda dois dedos de ideal, “mandava tudo dar uma volta” e suportava as consequências. Mas não, já não tenho ideal que chegue para tanto. Subjuguei-me ao poder instituído. Sucumbi.
Como é que eu vou passar por tudo outra vez? Que feridas trarei eu de um ano lectivo igual ao que passou.
Sei que não tenho força física nem moral para enfrentar estes inimigos. À frente da horda surge o Papel, um dos meus principais adversários, aquele que me rouba a alma que preciso para a acção. As rugas, os cabelos brancos e o reumático surgem numa segunda linha de batalha. Também me assustam muito. As dores só tolhem os próprios, por isso é normal que ninguém perceba nada disto senão eu mesma.

sábado, 29 de agosto de 2009

A Velha Senhora

Há estrelas que nascem e brilham, apesar das nuvens e das tempestades, mesmo nos céus de que o sol se esconde.
Na Suécia, em Estocolmo, a 29 de Agosto de 1915, nasce Ingrid Bergman.
Friedel Adler, a mãe, era alemã e conhecera Justus Samuel Bergman na Suécia, durante umas férias. O casamento foi contrariado pelos pais de Friedel, que não aceitaram a ideia de casar a filha com um artista boémio. Mas Justus queria provar-lhes que estavam errados. Trabalhava em fotografia e foi na casa que habitavam, por cima da loja de fotografia , que Ingrid nasceu, a terceira filha, a única que sobreviveria.
Mas a tragédia andava por ali e Friedel morre jovem, deixando a pequena Ingrid com três anos apenas. Justus torna-se assim o único responsável pela educação da filha. Quer que ela seja cantora lírica e proporciona-lhe lições de canto. Fotografa-a, incentivando-a à exposição dos palcos. Contudo, Justus morre no princípio da adolescência de Ingrid e a tia Ellen, que a recebe e lhe acarinha o talento, também morre, dois anos mais tarde.
Menor de idade (tinha apenas treze anos), é entregue a um outro tio. Uma nova família, desta vez numerosa. Este tio não vê com os mesmos olhos a determinação de Ingrid (que na altura já era mesmo determinação), de seguir a carreira de actriz. Frequenta o Liceu Flykor e, apesar de tudo, aos dezassete anos representa, na escola, o papel principal de uma peça que ela própria escreveu e dirigiu. É aceite numa escola de teatro, The Royal Dramatic Theatre School, em Estocolmo e ao fim de um ano aparece pela primeira vez no cinema, com uma pequena participação como criada, no filme “The Count of the Monk´s Bridge”. Nesse mesmo ano, o realizador sueco Gustaf Molander, apresentava-lhe um contrato.
Intermezzo, em 1936, desperta a atenção do público e da indústria do cinema. Ingrid é uma pianista, Anita Hoffman, que mantém, durante algum tempo, uma ligação com um violinista casado. O interlúdio para Ingrid é de sucesso e felicidade: no ano seguinte casa com Petter Lindstrom e um ano depois nasce a filha Pia. O caminho para a fama estava desbravado. Hollywood já começava a reparar no talento natural desta actriz, que falava inglês, com uma pronúncia encantadoramente estrangeirada.
O mesmo filme foi produzido por Hollywood e foi assinado um contrato de sete anos. A actriz muda-se com a família para os Estados Unidos.
Apesar da sua beleza e o seu ar algo enigmático, Ingrid não pretendia que os seus papéis na tela se consumissem na imagem da mulher idealizada. Mas os sucessos de bilheteira não foram os filmes em que interpretou uma freira, uma psiquiatra ou uma alcoólica. Uma das interpretações de sucesso de Ingrid Bergman que perpassa as gerações é a de Ilsa, a romântica mulher dividida entre o amor e o casamento, em Casablanca, com Humphrey Bogart.
Um dia, Ingrid Bergman escreve uma carta ao realizador italiano neo-realista Rossellini, uma carta de admiradora, dizendo-lhe que estava disponível para qualquer papel. Rossellini reservou-lhe uma pequena participação em Sromboli (1949). Durante as filmagens aconteceu o inevitável: a admiração transformou-se em amor. O “caso” não foi bem aceite pelo público e o escândalo feriu a imagem, até aí intocável, de Ingrid Bergman. Apesar de oficialmente separado da mulher, Rossellini estava amorosamente envolvido com Ana Magnani, outra diva da época. Muitos pensaram que para Ingrid Bergman este seria apenas mais um dos seus “casos”, sendo evidente o desmoronamento do seu casamento com Lindstrom, que não lhe queria dar o divórcio..
O escândalo ultrapassou a barreira do espectáculo, tomou dimensões inimagináveis. Ingrid Berman foi humilhada pela classe política, nomeadamente pelo Senador Edward Johnson, que propôs uma medida específica para actores estrangeiros, de modo a poder expulsá-los, por atentado à moral pública.
Contudo em 1956 o escândalo e o caso de amor chegavam ao fim. Um casamento, três filhos, um rapaz e duas gémeas, Isabella e Isotta, e fracassos profissionais. Nesse mesmo ano, Hollywood reconcilia-se com a actriz e Ingrid filma Anastasia. O seu trabalho é aplaudido e recebe o seu segundo Prémio da Academia.
Os anos setenta devolveram-lhe a glória, tanta que se “esqueceu” de tratar de si e dos seu corpo. Ignorou os primeiros avisos de cancro da mama durante dois anos, porque a carreira estava acima de tudo. Depois veio a luta contra a doença. “As vítimas de cancro que não aceitam o destino, que não aprendem a conviver com ele, acabam por destruir o tempo que lhes resta.”, dizia.
E foi assim que viveu durante oito anos. O seu último trabalho foi a interpretação de Golda Meir na televisão: Uma Mulher Chamada Golda, em 1982.
No dia do seu aniversário (tal como Shakespeare), a 29 de Agosto desse mesmo ano, depois de uma pequenina festa de aniversário com os amigos mais próximos, morria Ingrid Berman, em Chelsea, em Inglaterra, em paz com a vida, com a sua vida, que segundo confessara a um amigo, tinha valido a pena viver.
Crónica publicada em 2001, no Jornal "A Gazeta do Montijo" e, posteriormente, pela Editora Ela por Ela.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Assim Vai O Mundo

Quem tem mais de cinquenta anos tem não só uma esperança acrescida de alguma imunidade à gripe, como também sabe que, antigamente, as salas de cinema exibiam um documentário informativo que dava pelo nome "Assim Vai o Mundo".
Depois das salas escurecerem, no fundo do ecrã "nascia" o mundo, que crescia e rodopiava num fundo de céu estrelado (Ou talvez não fosse?!),enquanto uma voz forte dizia, com a solenidade e a gravidade que os acontecimentos dignos de nota exigiam: "Assim vai o Mundo".
(Não sei se a minha memória está a atraiçoar-me. Seria assim como eu me lembro?)
Era uma espécie de telejornal, com moderada especulação e certamente visionado previamente pela censura. Mas isso eu não sabia.
Foi certamente nesses "filmes" que eu conheci a família Kennedy, com todo o glamour que a beleza de Jackie e dos homens da família imprimiam aos acontecimentos que protagonizaram.
Um dia, de manhã, a minha mãe ouviu na rádio que o Presidente Kennedy tinha sido assassinado e percebi pela aflição que o que tinha acontecido ia bem para lá da tragédia da morte de um homem. Era um Presidente. Não era só um homem. Mas isso eu não podia perceber, no meu mundo de dez anos.
"E agora, o que é que vai acontecer?", dizia a minha mãe aflita.
E certamente que todas as imagens que guardo desses momentos foram vistos nas salas de cinema, nos tais documentários que precediam o filme da tarde.
Ontem quando ouvi anunciar a morte do último Kennedy, veio à minha memória todo o filme das vidas dos membros do Clã Kennedy, tantas vezes marcado pela tragédia.
É mais uma referência do século vinte que desaparece.
Assim vai o mundo!Fotos da família Kennedy, na Revista Time

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Coisas de memória

Em casa dos meus pais havia um giradiscos, móvel e electrodoméstico que hoje só tem lugar num museu. Julgo eu! Deve vir, no tempo e no espaço, logo a seguir à grafonola.
É bom termos memória e termos vivido um tempo que pode comparar-se ao de hoje. Na época, havia evolução e modernidade, naquilo que hoje nos parece, e é, caco e velharia. O gira-discos, ou pick-up para os mais snobs, foi na altura um grito da moda que levou às casas e às famílias da classe média muita cultura musical e literária também.
Literária, sim, pois foi no velho gira-discos, devidamente enfeitado com os melhores "bibelots", pois o móvel merecia, que eu ouvi e aprendi a Toada de Portalegre, pelo talento poderoso de João Villaret.
Ontem, desarrumei esta memória, para lhe juntar um dado novo: a própria casa de José Régio, com os bons e os maus cheiros guardados apenas nos versos; a vista da janela, que em tempos, certamente, os olhos abraçavam mais...

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Proverbialmente, claro!

Para lá do Marão, diz o provérbio original, mandam os que lá estão. Eu acho que para lá do Marão e para lá de Marvão...

domingo, 23 de agosto de 2009

O seu a seu dono

Portugal também tem o seu Maneken Pis.
(Espero estar a escrever bem, Pitucha!)
O nosso está em Castelo de Vide, no jardim principal da vila.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Se...

Se eu tivesse deixado de andar espantada de existir, bastar-me-ia ver o vídeo promocional da mandatária da JS, para reencontrar o espanto de existir.
A miúda atreve-se a dizer que só come fruta com caroço se a empregada descascar!?!?!?
Diz que não gosta de perder, que prefere fazer batota. Aquilo mais parece um casting dos morangos!!!

Dia Da Ajuda Humanitária e...

Todos os dias são dias de...
Talvez faça sentido recorrer ao significado do dia, ao valor do dia, para o vivermos com mais sentido, com mais vontade.
Hoje é a primeira vez que se celebra o Dia da Ajuda Humanitária.
A Onu escolheu este dia porque marca a data em que Vieira de Mello e outras vinte e uma pessoas, que com ele viajavam, morreram, num atentado no Iraque, há seis anos. Aquele instante valeu-lhes a vida e todo o valor que a vida humana tem. É justo recordá-los! É justo recordar todos os que estendem os olhos à compreensão dos outros!Esta é também a minha homenagem à Fotografia,que hoje também é celebrada. Esta fotografia é mais velha do que eu e não tem rugas!

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Eu tenho de falar sobre isto

Sobre a última crónica de Lobo Antunes na Visão.
Não sei muito bem por onde começar, porque o que ali está se aproxima muito da maneira como o meu pai continua vivo, cá dentro, num espaço de memória onde nunca ninguém morre e, melhor do que isso, nem tão pouco envelhece ou degrada.
O meu pai acreditava em mim, por muito que lhe tenha causado uma enorme desilusão com o "chumbo" no quinto ano e depois a escolha das letras em vez da medicina, como ele ambicionava.
Eu não revisito o Hospital onde costumava encontrá-lo, onde ele vivia, onde passava os dias e muitas, muitas noites, onde tratava doentes que o estimavam pela qualidade profissional e pela qualidade humana que punha no que fazia, onde vivia também outros lados da vida: onde se apaixonava perdidamente, onde observava as outras paixões secretas, onde fazia amigos novos todos os dias, porque muitos doentes saiam de lá seus amigos, onde cultivava a amizade dos antigos com igual cuidado, também todos os dias. Ao contrário do que acontece hoje, foi a trabalhar na enfermagem que se fez enfermeiro, tendo feito os estudos necessários mais tarde, no então chamado Instituto Rockefeller, instituição reputada, onde se formavam enfermeiras. Ele era o homem entre as mulheres. (Claro que se apaixonou perdidamente, vezes sem conta! Era tentação a mais!) Não revisito o hospital, a não ser na minha memória: o velho Hospital Miguel Bombarda!
"Até me mostrava o Serviço e parecia ter orgulho em mim..." Esse orgulho, embora não se falasse destas coisas nessa altura, foi vital para que eu tomasse mais tarde determinadas decisões com confiança. Foi vital para a minha auto-estima, digo eu, hoje.
Mais tarde percebi que esse orgulho era muito verdadeiro. Uns dias (poucos) antes de morrer disse-me que de facto eu nunca lhe tinha dado sequer um problema. Claro que exagerava, porque estava frágil. Esqueceu certamente alguns problemas que lhe dei, mas eu mesma tenho a noção de que no meu tempo de jovem, não passávamos os nossos problemas aos pais. Pelo contrário! Fazíamos o possível e o impossível para que não fossem atingidos pelas nossas asneiras. Não queríamos que se sentissem culpados pelos nossos passos errados. Mas também é verdade que o meu pai me ensinou o direito de errar, de não seguir conselhos, de fazer as coisas à minha maneira. Sujeitava-me claro às consequências, que não eram só más. Com os erros também se cresce!
Se eu pudesse diria ao L.A.: "Muito obrigada, por estas crónicas, sobre o seu pai, que se parece tanto com o meu."
Fotografia - Imagem da 1ª Semana de Enfermagem no Ultramar. Organização do meu pai. Cartaz do meu pai.

sábado, 15 de agosto de 2009

L.A.

Por contágio dos mais novos (agora a palavra contágio é contagiante!) tenho visto todos os dias, ou seja, todas as noites a RTP2, Cinco para a Meia-Noite. Pelo menos diverte e há crítica de costumes que é saudável desde o tempo do "saudoso" Gil Vicente. É evidente que o programa vale muitas vezes pelo convidado, que se deve dar ares de moderno, para não destoar do anfitrião que é sempre "assim a atirar" para a "loucura total".
Por exemplo: o Vasco Graça Moura deu um péssimo programa, pois "aquela cena" não condizia lá muito bem com o classicíssimo senhor das nossas letras. Aquele tratamento tu cá tu lá soava estranho. Ana Gomes aguentou-se e nem ficou muito "à rasca". Calão para cá, calão para lá, a mensagem eleitoral não se embaraçou, ou melhor não ficou nada à rasca. Fiquei a saber que Ana Gomes é candidata à Câmara de Sintra e que Sintra isto e que Sintra aquilo.
Para mim, Sintra é culto e o culto não se compadece com propaganda eleitoral.
Mas isto vinha a propósito de quê? Já sei! O tema da semana que acabou era coscuvilhar.
Não é coisa que me espante! Quando vou visitar a minha mãe, levo-lhe sempre uma revistinha de coscuvilhice. O que me espantou mesmo foi a coscuvilhice que explodiu nas capas dos jornais de hoje. Ou ontem? Já nem sei bem.
Lobo Antunes apaixonado por uma mulher trinta e tal anos mais nova.
Anunciar um casamento não é coscuvilhice. Entrar em pormenores que podem comprometer a verdade dos sentimentos de cada um (dela ou dele) é coscuvilhice. Atirar a diferença de idades, chamar a atenção para a diferença de idades é coscuvilhice que tenta reduzir a dimensão intelectual de um dos maiores escritores contemporâneos.
Ninguém tem nada com isso.
A minha esperança é que o escritor mantenha aos nossos olhos a aura de ser "superiormente inteligente, superiormente civilizado". Fico à espera das crónicas onde se revelará "superiormente feliz", tal como preconizava o Jacinto de Tormes.

A mesma Tourada

Ontem ouvi a Tourada, cantada ao vivo, pelo mesmo Tordo. Sim, pelo mesmo Tordo. É que hoje dou por mim a comparar as pessoas com elas mesmas.
Não há mal nenhum em mudar. Claro que não! Se o nosso corpo muda...
Mas a verdade é que raramente aprecio as mudanças, quando os valores se diluem na espuma dos interesses. E, por isso, gostei muito de ouvir ontem a Tourada. Na minha emoção passou a homenagem a um tempo em que o desejo de liberdade era uma constante na expressão artística, sobretudo na cantiga, no teatro e na literatura. E a cantiga chegava a quase todos e andava de boca em boca. Contagiava!
É que volta a fazer sentido desejar outra vez a liberdade. Por muito que se julguem mortos e enterrados os mecanismos de repressão, os novos espartilhos da liberdade são perigosos porque são dissimulados e estrategicamente activados em áreas de sobrevivência, como seja o emprego. As maneiras de chegar ao poder absoluto cada vez são mais parecidas com o que se pode chamar baixeza.
Gostei de ouvir o Tordo, porque pude ver com "estes olhos" que continua um homem alto, em corpo e em voz!

sábado, 8 de agosto de 2009

Podia-ó-chamá-lo!!!!!

Só por mais um momento, para lhe agradecer os momentos em que ri, em que ri muito, com as suas histórias, com a sua maneira de transformar os lados tristes da vida, sem ofender nem desrespeitar a dignidade do ser humano. Estou a referir-me precisamente à sua ida à guerra. Sendo a guerra um flagelo da humanidade, perpetrado pela própria humanidade, o actor conseguiu "pintá-la" com tons do quotidiano, da vida doméstica, inocente, provocando assim o riso, esse também tão inocente e completo que nos conseguia fazer esquecer as nossas próprias guerras e a essência da natureza da Guerra, a verdadeira vergonha dos homens.
Cito de cor: "Cheguei à guerra, estava a guerra ainda fechada!" ou "O meu filho vai a pé, mas vai limpo!".
Obrigada, Raul Solnado! Adeus, Raul Solnado! imagem daqui