domingo, 3 de outubro de 2010

Um outro tempo: o Pretérito

Hoje o tempo e a conversa sobre o tempo fez-se sentir, pelas razões que a todos doeu no corpo: choveu e o frio ameaçou chegar à nossa vida para ficar por uns meses a viver à nossa custa.
Eu não usei roupa de inverno, e, talvez por isso, estou febril e cheia de dores no corpo.
Mas o tempo também é contagem de dias, anos, séculos.
O outro tempo sente-se. Este tempo passa sem que o sintamos, a não ser quando as coisas vão longe, muito longe.
Sinto o tempo nos cabelos brancos que pinto, com uma frequência cada vez maior, porque gosto mais de me ver com os cabelos escuros. Sinto o tempo nas rugas que indelevelmente marcam a minha cara e as mãos. Sinto o tempo na flacidez dos músculos.
Sinto o tempo nas dores das pernas. Sinto o tempo nas manchas da pele que me aparecem na cara e nos braços. Sinto o tempo na idade adulta dos meus filhos. Sinto o tempo na falta que me dói não os ter ao colo, nem ir com eles ver as histórias intermináveis ou outras mais termináveis... Sinto o tempo dos outros porque também têm rugas, cabelos brancos, óculos de ver ao pé e já deixaram de fumar. Sinto o tempo, no tabuleiro dos remédios que está em cima da mesa da cozinha. Sinto o tempo, na incerteza de realizar projectos, de ler livros, de escrever, ou de aprender a dançar.
Apesar de Imperfeito eu gosto do meu Presente e gosto de olhar para trás, para o Pretérito Perfeito, para o Mais-que-Perfeito e até para o Imperfeito!
Imagem - Pretérito Mais-Que-Perfeito

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

...esqueceste-te do texto...

Não, Jorge, não me esqueci do texto!
Eu sei que o poeta maior legitimou o ridículo das cartas de amor. Mas a nossa geração entranhou a noção do ridículo e não se expõe com facilidade. Pelo menos em palavras. Na primeira declaração de amor ficava esgotado o risco de ser gozado. Não era fácil dizer "adoro-te" e muito menos "amo-te". Je t'aime e I love you ficavam tão bem na tela ou no vinil! Mas, quando a realidade batia à porta, não íamos além da puerilidade de "Eu gosto muito de ti!". Era o pudor das palavras no seu esplendor.
Não me esqueci do texto! E se tivesse optado pelo texto, teria referido, em primeiro lugar, a tua honestidade e, em segundo lugar, a irreverência que cria os seus engulhos, mas que acaba por ser também apreciada por muitos.
Se tivesse optado pelo texto, ter-me-ia referido ao teu papel de pai. Aliás, basta ver a ternura com que os teus filhos te tratam e como, naturalmente, a tua relação com eles evoluiu para o que é hoje, hoje que eles são gente crescida e com responsabilidades.
Também és um sogro "à maneira"! Acho que posso afirmar, sem risco de contestação.
Mas eu só te conheço há quarenta anos. E só me "dou" contigo há trinta e nove. Pois é: levei um ano a adaptar-me à tua irreverência e, durante esse ano, fiz campanha contra ti junto das minhas amigas. Dizem que quem desdenha quer comprar. Mas eu não queria. Caí da escada e magoei-me. Para não ir ao hospital, recorremos a ti, porque ali eras praticamente doutor. Quarto ano de Medicina já dava para confiar!!!
O resto da tua vida, pertence aos teus pais, pertence-te só a ti.
Um dia, numa cerimónia pública (com uma ministra e tudo!) agradeceste aos teus pais terem-te ensinado sempre o caminho da verdade e nunca o do interesse. Como eles mereceram esta expressão de gratidão, este certificado de "Os melhores Pais do Mundo" que lhes entregaste!
Se eu tivesse optado pelo texto, não iria dizer "eu amo você" porque tem direitos de autor!!!

sábado, 11 de setembro de 2010

Cohen, "Our" Man

Dance me to your beauty with a burning violin
Dance me through the panic 'til I'm gathered safely in...

Com jeito de quem responde a um pedido, a voz de Cohen "dançou-nos" até à mais íntima das nossas emoções. Cohen não precisa ser maior, nem parecer mais robusto fisicamente. A voz e a certeza que transmite conduz-nos numa dança, às vezes veloz, outras vezes nem tanto! O chapéu ajeita-lhe a figura magra, esquelética e o gesto de tirar o chapéu como saudação ou respeito é repetido vezes sem conta, ao longo das três horas e muito que dura o espectáculo. Poucas vezes o ecrã gigante transmite a imagem da cabeça quase toda branca. Na tela aparece quase sempre um Cohen do peito para cima, com destaque privilegiado para o rosto. O resto é um chapéu. Cinzento, neste caso. Não sei se muda de show para show. Mas o chapéu empresta a esta figura a tonalidade da sedução de Humphrey Bogart. E o microfone acrescenta-lhe o charme, à falta (abençoada falta!) do cachimbo ou do cigarro que compunha muito a figura do sedutor dos anos cinquenta.
Cohen começa a cantar de joelhos, levanta os olhos do chão e pousa-os no guitarrista que se agarra ainda mais às cordas e dedilha fortemente para acompanhar a força das palavras cantadas pelo nosso "Homem".
O palco está cheio de estrelas. O público é bem comportado. Na sua maioria, jovens dos anos sessenta vieram mascarados de pessoas "normais" (até um ex-ministro disfarçado de pessoas normal lá estava!), mas os sucessivos "encores", levaram-nos a "soltar as paredes" de uma correcção postiça e aí foram eles olhar de perto a Lenda, ouvir mais perto, sentir mais perto. E irrompe subitamente um cenário de "beatlemania" junto ao palco. Tudo canta!
Gostei!

domingo, 5 de setembro de 2010

Crise de idade

A ideia dos recomeços sempre me atraíram Atrai toda a gente, penso eu. Sempre senti uma alegria imensa em começar o ano lectivo. No ano em que estive de baixa, assim que acabei a radioterapia, liguei a pedir junta, para voltar o mais cedo possível, antes que o ano lectivo avançasse e eu perdesse aquelas primeiras emoções. É como amanhecer: quando o nosso estado geral é dominado pelo bem-estar, pela saúde, pela harmonia. Quando alguma coisa corre mal, o amanhecer é uma angústia: o que é que o dia me reserva?
Eu estou por aí, pelo meio... Nem feliz, nem infeliz! Instável! E tudo porque entrei numa crise de idade, numa plena consciência que a juventude só permanece no plano de uma memória de coisas muito boas e pelas quais devo erguer as mãos ao céu. Mas não! Enrolo-me, numa tristeza vaga mas dolorosa e penso em mil maneiras de contrariar este sentido único da vida, “incontrariável”.
Hoje, tenho estado a ler um livro muito interessante e muito filosófico, muito "chinês", muito longe da agressividade que caracteriza a nossa maneira de viver, logo nos primeiros anos de escola.
Fez-me bem. Fui tirando uns apontamentos para o Facebook. Nada de muito relevante. Simples.
Depois encontrei imagens de um lugar que "visitei" há um mês... Talvez levada pela leitura, encontrei nas imagens uma ideia de tranquilidade, que me faz muita, muita falta.
Da Natureza aprendo e colho a tranquilidade, directamente do "produtor", como deixei no Facebook.
Continuo a olhar e pergunto, à paisagem, que idade tem. Parece-me ouvir "eternidade".
Afinal, nem tudo o que tem idade, ou mesmo eternidade, assusta ou desmerece um olhar mais prolongado…

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Um regresso para dizer adeus

Hoje regressámos à escola. Todos os professores, no dia um de Setembro invadem as escolas. Uns estão mesmo a chegar de férias. Outros já lá estão a trabalhar, nas preparações do arranque do ano lectivo. Mas no dia um é o grande regresso e uns juntam-se aos outros.
Este ano, infleizmente, muitos já se tinham encontrado por tristes razões. O reencontro foi marcado pela tristeza, pela falta e pelo adeus a um grupo de professores que vai para a nova escola. Fizeram uma escolha e foi uma boa escolha. Uma escola nova, a estrear é apetecível para todos. Mas não podiam ir todos e não quiseram ir todos. Hoje foi o último dia no mesmo espaço!
Vou sentir-lhes a falta! Vai doer essa falta em muitos de nós!
Boa sorte, Patrícia! Boa sorte, Regina! Boa sorte, Luís! Boa sorte, Sandra! Boa sorte para todos. Boa sorte Virgínia! Boa sorte, Elisabete! Boa sorte, Adelaide!
Para os que vão e para os que ficam!

Madalena 3G

Cena Um
Casa da Avó Nel, sala de estar contígua à cozinha
Avó, Avô, Mãe, Irmão, Jorge, Madalena (eu) e Madalena(ela)
Madalena, eu - Gosto tanto da tua mãe!
Madalena, ela- Mas tu foste mãe dela?
Acredito que as crianças 3G confirmem a sabedoria milenar: mãe é mãe e não há amor que se lhe compare...

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

As estaladas que nunca darei...

O quintal da minha avó era o cenário de todos os "filmes" das nossas infâncias. Nossas: minhas e dos meus primos!
Era aí que ensaiávamos a vida de crescidos. Debaixo de uma abacateira, protegida pela sombra e pelos sons da folhagem que mexia com os ventos, fiz muitas refeições para as minhas bonecas. Depois sentava-me à mesa com elas, eu, uma espécie de Gulliver, conversava e contava-lhes as minhas histórias, os meus problemas, as minhas dificuldades em fazer amigos ou em conseguir que as pessoas gostassem de mim.
(De dentro da casa, pela janela da cozinha, chegavam os sons da vida, o barulho dos tachos de alumínio, o barulho do azeite a fritar as batatas, a "martelada" para amaciar os bifes... A minha avó e a minha tia faziam todas as lidas da casa. A minha tia cantarolava. Era muito bem disposta a minha tia! Se a olhássemos fixamente nos olhos, dava uma gargalhada e dizia uma piada.)
Miúda mal disposta e parva era eu! Batiam-me e eu nada! O medo tolhia-me a iniciativa de bater e até o direito de bater também. Um dia atrevi-me a dar uma dentada à minha prima Madalena. O que eu fui fazer!!!! A minha tia ficou zangada e fez-me sentir verdadeiramente mal: daquela dentada podia resultar uma doença grave! E ali fiquei eu, encolhida e cheia de culpas.
Cresci, nem sei bem como!, e nunca andei à pancada! Levei algumas tareias dos meus pais. As célebres tareias de chinelos que raspam e não magoam. Encenação eficaz. Mesmo não doendo, ficávamos sempre a pensar que um dia podia doer. Essa preocupação já era suficiente para moderar o impulso para o disparate. Levei reguadas injustas. Essas magoavam a inocência! Foi no Colégio. Essas ainda me doem!
Não gosto de cenas de reguadas nem de pancadaria, daquelas em que os intervenientes ripostam um a seguir ao outro, sem fôlego...
O que eu gosto mesmo é daquelas cenas de "estalada". Aquela estalada bem dada e bem merecida! Daquelas que enchem os ecrãs e a sala, nos filmes!
Dessas nunca levei.
Dessas nunca dei.
(Nunca dei, mas tenho pena! Há quem as mereça!)

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

O absurdo segue dentro de alguns dias...

-Sabes muito bem o que é o talento: antigamente, chamava-se-lhe inteligência, mas se disseres assim, chamam-te fascista; digamos a capacidade de ensinar, mas a capacidade natural, não a que te ensinam nos cursos de formação.
Paola Mastrocola, Eu até sei Voar

Estamos mesmo a falar de escola, de professores e de alunos, que pelos vistos são iguais em todas as sociedades civilizadas, entre aspas, claro, e de sistemas educativos, que, nessas mesmas civilizações, também são iguais. Tudo isto a propósito de um livro que li há alguns anos.
Não consigo fazer uma síntese organizada do que li, por isso atrevo-me a recomendar-vos este livro. A dizer-vos que é obrigatório para professores, alunos, pais e encarregados de educação (Quase todos se incluem numa destas categorias, eu penso!), motivando ou provocando quem ler estas linhas, com pedaços de texto. Mas a experiência segreda-me: o status quo é verdadeiramente omnipotente e as coisas ficam sempre como estão!
Canaria é um professor “apanhado” pelo crescente insucesso do sistema. Como a Carla, a professora, ou como nós o entendemos! A angústia cresceu tanto dentro do pensamento, que tomou conta do entendimento e dos comportamentos. Parece um doido varrido a deitar contas ao sistema de ensino.
“- Não há nada a explicar. ( diz o Canaria, que dá Ciências, à Carla, que dá Italiano) Querem uma escola mais activa? Com mais horas, mais aulas, mais turmas, mais alunos, mais disciplinas, mais anos, mais tudo? Muito bem, então há que aumentar o número de professores, claro.( ...) Mas o que é que acontece? É simples: como a excelência, em todos os domínios, só pode ser atingida por uma minoria exígua da população, se aumentas o número, dás por ti a pescar na maioria e a apanhar peixes cada vez menos excelentes, mais médios, mais medíocres. E assim baixas o nível médio da classe docente.”
Tão simples, não é verdade? Tão incontestável! Mas atenção, este professor é incómodo, diz verdades e, pior que tudo, pensa-as. A maior parte de nós já perdeu o treino de pensar e o tempo para o fazer também. O sentido do dever impõe-se e, quando damos conta, passaram anos e o nosso nível de exigência já está pela metade e os conteúdos leccionados pela terça parte. Quem perde? Todos! Especialmente as nossas crianças que nunca conhecerão uma escola “a sério”. Conhecem aquela escola simpática, pouco exigente, que os vai conduzir a um mero diploma do Ensino Básico. Ou talvez o ponha à porta da Faculdade, quem sabe? Mas não lhe venha pedir contas, se não conseguir sair de lá a tempo e horas de começar carreira profissional, antes dos cabelos brancos.
E há ainda a doença mais grave deste sistema: a burocracia. Burocratizou-se o talento, o desejo, a intuição, a vontade... É preciso é haver muitos papéis, muitas circulares, com muitas folhas. Na escola de Carla “o Plano Anual de Escola tem trinta e duas páginas”.
“Pergunto a mim mesma como se diferenciarão as outras escolas, se a nossa ensina a falar, ler, escrever e estudar. Que pena eu tenho das outras escolas! O que é que inventarão para nos superar, para vencer a nossa terrível concorrência?” Desabafa a professora. E ainda há os chavões que metralham a torto e a direito, magoando, matando qualquer boa intenção.
E esta professora ganha realidade com uma família, marido e dois filhos, que vivem os seus problemas, que se angustiam com os dramas dos alunos da mãe, da mulher. Carla também se preocupa com Mário, o marido. Preocupa-se com a tristeza dele. Também a ele, homem de computadores, lhe roubaram criatividade. Já vem tudo feito no Windows. É tudo uma questão de janelas e menus. Na vida também. É preciso clicar na janela certa, ou encontrar o nosso caso no menu. Coitado do Mário! “Coitados dos jovens. Não podem pre-ver, pro-gramar, pro-jectar.”
E há também as galinhas. O galinheiro é quase um laboratório sagrado, onde livremente Carla pode ensaiar o seu talento: ensinar! Nem que seja uma galinha a voar! Inscreve-se num concurso e ganha um prémio: a galinha voa. Mas, “Eu não crio galinhas: eu sou professora.” diz ela.
O absurdo segue dentro de alguns dias...
(Parte de uma sugestão de leitura publicada na Nova Gazeta, "aventura" que me deixou saudades, sobretudo pela amizade que nos unia (Obrigada, Luizi, por me teres convidado! E pelo tempo que nos era "deixado" para "criarmos" as nossas galinhas sem falsos complexos de culpa!)imagem daqui

sábado, 21 de agosto de 2010

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Dia Mundial da Fotografia. Bem-haja, Vasco (Focarte)!

Neste dia, dedicado à arte que permite reviver em qualquer momento o instante que passou, gostaria de homenagear especialmente o primeiro fotógrafo que conheci e que guardou para sempre a beleza da minha mãe, adornada de muita tristeza, mas, mesmo assim, beleza; a não menos bela figura do meu pai, adornada de ares de sedução que praticou a vida toda e até a amizade que nos uniu, a mim e à filha Teresinha, minha companheira real de vidas faz-de-conta, em que adormecíamos as bonecas como se fossem os nossos filhos, à sombra do caramanchão que emprestava ao cenário a luz suficiente, para que o irreal parecesse real.
Bem-haja, Vasco!

domingo, 15 de agosto de 2010

(...)

Adeus, Guilhermina!
Estamos profundamente tristes e é muito difícil entender a tua partida.
"Se memória desta vida se consente"... É esta a eterna esperança.
Que a tua família e os teus amigos encontrem algum conforto que os ajude a continuar a vida como tu gostavas que fosse vivida.

Balanço algarvio

A vida é feita de nadas, diz o poema de Torga e a cantiga do Sérgio Godinho. A cantiga diz "pequenos nadas".
E, até hoje, eu dava razão aos poetas. Foram uns nadas muito breves que me animaram esta espécie de férias no Algarve. Foi a coincidência das minhas amigas de adolescência estarem cá e perto que deu um sabor diferente aos dias, à praia, aos jantares, aos preparativos da praia e dos jantares. Estando juntos voltámos a ter dezoito anos e a conversa mais séria do mundo desaguou sempre em sonoras gargalhadas. (Os nossos filhos olham-nos com aquele ar de pais desiludidos e não dizem mas pensam: não há nada a fazer!) Resolvidos que estávamos a esquecer as mazelas do presente, os momentos que vivemos juntos contribuíram para uma reorganização de valores que, podendo não estar completamente certa, proporciona muito mais bem-estar e tranquilidade.
Concretizámos um programa agendado há algum tempo: visitámos a minha mãe que quis saber tudo sobre cada uma das “meninas”. Ela própria recordou, com ternura e alguma alegria, o casamento que lhe queríamos fazer com o pai da Lalá. Desfiou outras recordações. Escrevemos um postal à laia de registo para memória futura e lá a deixámos com um bocadinho mais de alegria que talvez lhe dê força para algum tempo, tempo dela que é, inevitavelmente, marcado pela resignação e por alguma tristeza.
E aqui é que a cantiga e o poema deixam de ter razão. A tristeza não é um nada. A tristeza enche que nem um grande tudo. Demole os nadas que nos animam os dias e, provavelmente revela-nos a verdadeira importância da vida e nos leva a uma conclusão: esta é uma passagem curta. Uma colega minha faleceu. Era mais nova do que eu e depois desta notícia como é que vou viver com alegria sabendo que a falta dói na casa de alguém que me é próximo, alguém que dividiu comigo os dias de trabalho, alguém que me apoiou nas causas muitas vezes perdidas quase à partida?!
Descansa em paz, Guilhermina!

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

(...)

Tem dias em que a Vida nos oferece um pôr-do-sol mágico. E ainda, um baloiço, para que, descansadamente e baloiçadamente, possamos participar nesse deslumbramento da natureza.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

A memória do salto alto

Eram "Channel" diz a Zé, muito entendida em moda, desde sempre!
Não sei se ela tem razão ou não. Sei só que esses sapatos nos deram a sensação de termos "subido" na vida. Era o consentimento por parte dos nossos pais de que já não éramos crianças. E era isso que queríamos: que deixassem de nos considerar crianças. Estávamos crescidas, sim! E os nossos pais sabiam e, por isso, tinham acedido ao salto alto para o casamento da Mena. O sonho não era o casamento. O sonho era mesmo a nova condição que inauguraríamos no dia do casamento: Menina Maria José Sá e Menina Madalena Gouveia. E os sapatos eram lindíssimos, achávamos nós, na altura! Rendados, sem calcanhar, um salto pequeno que nos alteava a figura e nos fazia entrar no mundo dos mais crescidos. Não iríamos mais dar a mão ao nosso pai ou à nossa mãe. A partir daquele momento a nossa mão estava reservada para um belo príncipe que nos levaria, pela mão, ele, sim, para um sítio qualquer que nós já tínhamos imaginado mil vezes. E aí o casamento da Mena voltava a ser sonho e a activar um sonho igual.
Mas para usar salto alto, era preciso saber poisar o pé no chão e levantar depois do "tic", a que se seguiria outro "tic"...
Tic tic tic
Foi ao som da memória do salto alto que embalámos as rugas ao longo destes três dias.
Embalámos e demos banho, porque queremos rugas a brilhar de limpeza!