A beleza talvez não fosse o seu traço mais marcante, mas tornava-se especialmente bela pela harmonia, pela sintonia com o bem que a sua presença emanava.
Sorria naturalmente e por isso os mais simples, as crianças, por exemplo, aproximavam-se e olhavam-na com a admiração inteira de quem tem palmo e meio de tamanho por fora e um arranha-céus de esperança por dentro.
Cresci com os olhos postos nela. Passei de criança a adolescente e quando tocou a pôr em prática os sonhos ela estava lá, como que a aprovar os caminhos percorridos. Percebi assim que todos os que tinham crescido comigo a veneravam de maneira especial. Percebi assim que estávamos perante um património de valores que uma geração tinha tecido em prol do sentido da vida, em prol do valor maior da humanidade!
(Ao longo dos meus dias “úteis”, falei desta senhora aos meus filhos e aos meus alunos, enfim aqueles por quem sinto uma responsabilidade directa na manutenção do tal sentido da vida!)
E a vida passou como os dias do circo: umas vezes em festa, com o calor humano das bancadas; outros dias, a dar de comer aos leões; outros, a treinar os bichos e todos a contar os recursos para o sustento de cada um.
(E todos, mesmo os leões mais ferozes e bem alimentados enfraquecem e entristecem!)
O certo é que a presença da Senhora com S grande começou a faltar-me. Por vezes, dei por mim, no meio de verdadeiras multidões, à procura dela. Por vezes a minha imaginação delirou tanto que julguei tê-la encontrado.
A última vez que isso aconteceu foi na escola. Pareceu-me vê-la passar. Preparava-me para dizer aos alunos quem era a senhora que ia ali a passar, mesmo junto à janela. Aproximei-me e fiquei de nariz colado ao frio do vidro, tolhida pela desilusão. Não estava lá ninguém. Foi o silêncio das crianças, habitualmente prontas para aproveitar toda e qualquer pausa, que me devolveu à realidade.
Pus-me a fazer contas às muitas vezes que senti a sua presença doce. Foram muitas! E a recordação dessas muitas vezes continua a dar-me alento. Porém a sombra da sua ausência nos últimos tempos paira nas minhas alegrias tanto quanto nas minhas tristezas.
Se alguém a vir por aí diga-lhe o quanto eu tenho sentido a sua falta. Espero que não tenha morrido.
Espero ainda que venha conhecer os meus netos!







