sábado, 25 de junho de 2011

A minha nação primeira!

A dimensão de uma nação não se mede em quilómetros quadrados. Mede-se anos de liberdade. Mede-se em toneladas de coragem para enfrentar um destino sem asas protectoras.
Moçambique é uma nação livre há 36 anos. Junte-se-lhe os anos de luta e a vontade do povo e Moçambique é maior do que o mapa à beira Índico levantado!
Para mim, esta nação mede-se também em memórias que ficaram para sempre com um rótulo que diz "Fabricado/a em Moçambique".
E estas minhas memórias banham-se nesse mar que eu via da varanda da minha casa. E passeiam-se no trajecto dos machibombos, ao longo de avenidas modernas e rasgadamente promissoras em relação ao crescimento da cidade das acácias.
As minhas memórias, embora riscadas e com outros sinais exteriores de idade, levantam-se todos os dias comigo e dormem lindos sonhos de um reabraço aos meus lugares...

sábado, 4 de junho de 2011

Dia dos Anos

Tínhamos conversas leves sobre coisas sérias... Tínhamos conversas leves sobre coisas leves... Tínhamos conversas sérias sobre coisas sérias. E foi assim ao longo da Vida, da Vida em que coincidiram o teu tempo e o meu tempo. E a conversa foi talvez a principal ferramenta da minha educação. Cresci nessas conversas. Sentia-me muito importante para ti. Quando tu tinhas "razão" ou quando eu tinha "razão", quando eu também já esgrimia contigo os argumentos da vida vivida. Obrigada, papá, por me teres feito sentir "uma pessoa muito importante" para ti.
Pai e filha, como qualquer pai e qualquer filho! "For you will still be here tomorrow, but your dreams may not."
Também falámos sobre sonhos e projectos e também me disseste que "não deixasse para amanhã o sonho do dia de hoje".
Hoje seria o dia "mais" da conversa. Gostavas de ser o centro das atenções, sobretudo no dia dos teus anos. Sonhavas com prendas como os miúdos pequenos!Tinhas esse direito, sobretudo nesse dia especial!

domingo, 29 de maio de 2011

A Tempestade

De repente, os céus escureceram, a temperatura baixou nove graus, a chuva começou a cair, num crescendo de força e intensidade, seguiram-se as pedras de granizo que fustigavam a visão da estrada, batendo com violência no vidro, os raios caíam a uma distância que parecia muito curta e não contente com isso os trovões calavam todos os sons possíveis...
A solução foi parar. E todos pararam, de um lado e do outro da A2. A medo, alguns minutos mais tarde, impossíveis de contabilizar num cenário de horror, todos os automobilistas retomaram o caminho, rumo ao céu azul que nos esperava alguns, poucos, quilómetros mais tarde...
Já passaram mais de vinte e quatro horas e ainda não recuperei do susto.
No regresso, a gota mínima era logo, para mim, uma ameaça de temporal. É que foi assim que começou: umas pinguinhas de chuva...
"O céu fere com gritos..." diz o poema maior da nossa literatura. Só quem passa por elas, diz o povo. Todos dizem a verdade: passar pelo meio da tempestade é uma experiência atemorizante. É uma das provas da nossa fragilidade, a nossa e a de todos os humanos. É uma das provas da Força da Natureza.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Dez Pequenos Prazeres aleatórios...

Passar a Ponte Vasco da Gama, num dia muito azul...
Contemplar o rio, o mar, o pôr-do-sol, recantos da minha casa, especialmente os que têm quadros do meu pai ou da Nini...
Ouvir uma cantiga simples e bonita, como a das Estrelas no Céu do Rui Veloso, ou o Postal de Natal, dos Rio Grande...
Jantar a dois...
Jantar a cinco...
Ter um bebé ao colo... (O último foi o Dinis! Duas horas bem medidas!)
Conversar com as minhas amigas, a conversa de irmãs, sem "barreiras", de alma escancarada...
Escrever só por escrever, como agora...
Acreditar, só por acreditar, e deliciar-me, por antecipação: que as Cegonhas andam por aí, por exemplo!
Ah... passar uma noite, num hotel!
Tirar fotografias... Ver montras! Ir às compras, sobretudo ao Modelo, ao fim do dia!
São mais de dez. Venham daí os vossos! Brincar com as fotos...

domingo, 22 de maio de 2011

Porque o melhor... ainda está para vir!

Esta é a mensagem final da peça de teatro "Rosa Esperança" que vi ontem no Fórum do Seixal. Vi? Não! Assisti? Não. Participei de forma menos activa do que as actrizes, mas participei.
Literariamente falando, o drama distingue-se de outros géneros, precisamente porque as coisas acontecem na presença do espectador. Naquele palco, ontem à noite, desfilaram emoções muito fortes, muita dor, mas também muita esperança.
AS mulheres que constituem o elenco dão corpo e voz à sua própria dor, às suas vivências, sem falsos rodeios.
O que ali passou foi a Vida como ela é. Da rotina de um dia-a-dia sem sobressaltos maiores, até ao assalto que o cancro pode perpetrar à tranquilidade de cada um de nós vai um momento, um instante.
E quando tudo acontece? Que fazer? Ninguém desiste! Todos, neste caso todas, têm razões para lutar e a maior parte delas refere apenas a família!
"Quando regressei a casa, o meu filho recebeu-me com uma flor na mão!", diz uma das mulheres.
Tudo o que ali se passa, em cima daquele palco, passou também por muitos dos que estão sentados na plateia, impávidos, mas não serenos.
Mais do que alertar as mulheres para o diagnóstico precoce, a peça é um "convite" à luta. Como dizia a Cinda, todas as noites, em frente ao espelho: "Não me vais vencer! Eu sou mais forte do que tu!" E é! E és, Cinda!
A Cacilda formulou o desejo de ver os filhos crescer. E viu! Já lá vão 28 anos!
A Nela revive o momento da notícia, do diagnóstico. O Paulo também dá voz e corpo a ele mesmo, marido, naquela situação, em que todos os medos assombram...
Para todas estas e para as duas meninas mais novas que ali mostraram a sua força, a minha admiração!
Mas o melhor ainda está para vir! Toca a lutar!

domingo, 15 de maio de 2011

Aniversário

Este espaço de escrita/ de confissão/ laboratório de emoções/ e outros nasceu há sete anos.
Há sete anos, eu tinha pai. Para dizer a verdade completa, eu tinha dois pais: o meu e o do Jorge, que ao longo destes anos todos de vida em conjunto se tornou também meu pai de coração. O carinho com que me contemplou sempre fez dele o meu outro pai. Não tem mal acrescentarmos pais aos primórdios dos nossos afectos patrimoniais. Também juntamos filhos e o sentimento não se perde nem se divide, enriquece e robustece-se. E a nós também! Tinha mais tios e mais primos. Pelo caminho deste blog fui perdendo esses pilares da minha construção. Primeiro o meu tio, depois a minha priminha querida que me faz falta. Ela gostava tanto de mim, por que é que se foi embora?
É a saudade que cimenta a escrita deste espaço. É em homenagem a eles que prossigo, para que os que chegarão no futuro saibam quem os precedeu. É sobretudo ao meu pai e ao outro meu pai, ao meu tio e à minha priminha a quem nunca disse adeus, que eu dedico este aniversário! Obrigada por tudo o que me deram!

Regresso a Poente, Francisco Seabra Cardoso

Doze de Maio. Lisboa. Fim de tarde.
Sol. Muito sol. Apesar da hora, o sol queimava ainda e os tons do dia tingiam-se de calor pelos céus afora.
“O sol frio é sadio o céu azul.
“Sol de Inverno não queima e mal aquece.”

Não. Não era um sol de Inverno. Era de Agosto apesar do calendário marcar Maio.
Chiado. (Lisboa tem muitos lugares mas o Chiado agarra a arte como nenhum outro. Será a alma de Pessoa que, por ali, vagueia? Que não seja por desassossego!) Haverá lá outro lugar na cidade (atrevo-me a alargar o conceito e dizer “no mundo”) para apresentar um poema? Não, não há, digo eu do alto da minha certeza absoluta. Pode ser uma certeza só minha, mas é absoluta!
O Poeta: Francisco Seabra Cardoso. A poesia: Regresso a Poente.
A sessão foi aberta pelo próprio poeta que se apresentou e aos que ali estavam, com ele, cúmplices do verso, da ideia e da arte que ali os levou. Chegamos ali, nós os que não tínhamos ainda conhecido o poema, inocentes e livres. Saímos dali todos também cúmplices da mesma ideia, do mesmo pensamento, do mesmo verso… O tal “eu” poético alastrou-se e deixou de ser apenas o eu poético do Francisco para passar a ser o eu poético de cada um. Chegámos até ali inocentes e livres. Saímos dali culpados da mesma culpa: a de acreditar na importância de cada instante e no poder de explodir em poesia. Foi o que aconteceu. Saímos dali impregnados de versos.
Falou-se da morte e da Vida. Já não sei precisar a quantidade que coube a uma e a Outra.
“Irreversível é nossa viagem
Que paragem não tem antes do fim”
A metáfora da Viagem. Um risco que o poeta corre ao misturar o seu conceito com o conceito do homem comum. Mas o poeta está cá para isso: para correr o risco e arrancar a poesia seja lá de que for.
A viagem! De balão! De regresso, como diz o título. E regressar é voltar para um lugar de onde se partiu, se esteve, se viveu. Será que o instante final é um instante de regresso?
O Poeta falou do Tempo e do tempo. Falou do Presente enquanto Tempo e enquanto oferta…
As palmas eclodiram menos do que a vontade de quem ali estava mais do que a assistir: a participar naquela viagem de balão…
A viagem real foi de barco, baloiçada pelos tons do poente…

domingo, 8 de maio de 2011

Let it (always) be!

Hoje é dia 8 de Maio. Nestes movimentos de rotação e de translação, o planeta parece cumprir o seu destino, à volta do sol e à volta de si mesmo. E assim deve ser e assim seja. No entanto, em cada um de nós o movimento impõe-se como se cada um de nós fosse um planeta também. À volta do nosso eixo. À volta do nosso sol!
Agora queria mesmo que fosse Verão, que o mar viesse até mim, que me trouxesse as energias que tenho perdido ao longo de uma vida que também já não é pequena.
Queria passear num jardim igual ao quintal da minha avó. Não é preciso ser desenhado de modo perfeito e de acordo com as modas arquitectónicas. Quero as árvores de fruto, os limoeiros, as goiabeiras, as mangueiras e as abacateiras. Quero os canteiros de alfaces que preenchiam de verde as traseiras da casa.
Este jardim e o mar são os elementos primordiais desse meu eixo, também ele imaginário como o eixo da terra. Ou melhor: feito de um imaginário individual, arduamente construído com guindastes de sonho e gruas movidas "a memória".
E o sol? Essa importância maior que me dá luz e calor? Persegui-lo-ei, claro!
O dia traz outras memórias. Umas são próximas: a minha amiga Luísa faz anos hoje. É um dia importante para ela. Todos nos lembramos. Telefonamos. Dizemos todos os anos a mesma coisa porque o importante não é o que se diz. O importante é que nos lembramos e telefonamos e dizemos. É um ritual do dia de aniversário.
Outros oitos de outros Maios são assinalados pela História: Lavoisier foi guilhotinado neste dia. Mas como ele próprio enunciou: "Nada se cria, nada se perde tudo se transforma." A sua morte horrenda transforma-se pois num facto histórico e assim ultrapassa as metas dos tempos.
Num outro oito de Maio, a Coca-Cola foi posta pela primeira vez à venda. Nunca se perdeu e pouco se transformou. Graças a isso permanece como bebida única e inimitável. Qual Pepsi! Qual Canada Dry! A Coca Cola é!"Let it be" imortal como tudo o que pertence e marca o nosso passado, o tal que passa pelo nosso próprio eixo, também aparece, nalguns sítios, ligados à data.
Uma data vale o que vale. Se nada se perde... let it be. São palavras de sabedoria: let it be!
Let it be Listen!

sábado, 23 de abril de 2011

João Maria Tudela

João Maria Tudela, o cantor que ouvi toda a minha vida cantar a minha cidade.
As palavras e os sons tocam-nos, ao longo dos tempos, de maneira diferente. À medida que a minha cidade foi ficando cada vez mais distante, a cantiga foi ficando mais perto. Os versos traziam-me as minhas ruas. Até me traziam a mim. A voz foi-se ligando de modo forte à minha memória, ganhou laço de família de coração e, estranhamente, o cantor não envelheceu.
Independentemente das várias modas e preconceitos da cantiga, apesar da modernização da canção, Tudela manteve-se fiel a um estilo e ficou no meu imaginário na categoria do moçambicano de verdade: aquele que assume todas as suas culturas, todas as suas almas, todos os seus tempos, os passados e até os futuros. As suas cantigas mais emblemáticas fazem-nos viajar de uma casa portuguesa, com certeza em Lisboa, num dos bairros onde mora a "alma" da cidade, até Moçambique inteiro, "que palavra tão bonita, fique lá onde ela fique, diga lá quem a disser", até à Beira, "à beirinha do mar que te beija", Lourenço Marques, a tal cidade do "não sei quê", a dele e a minha. Podemos até passar por Inhambane, que vem no mapa dos seus versos, "onde o céu é azul e o sol tem mais cor".
Conforta-me a ideia de ter sido um homem realizado a quem nunca faltaram os amigos e que conseguiu cumprir sonhos, nomeadamente ver os filhos crescer. Há pessoas assim: não podem, nem conseguem morrer!
Podemos ouvi-lo aqui!
Link "gentilmente" retirado do Miguel Innersmile. Kanimambo, Miguel!

quinta-feira, 14 de abril de 2011

"Não sei meus filhos que mundo será o vosso"

Uma conversa com o filósofo José Gil, sobre as inevitáveis mudanças no estilo de vida que se vão verificar a partir do momento em que os efeitos FMI/PECs se começarem a sentir, trouxe-me à lembrança este longo e belíssimo texto de Jorge de Sena. Já era muito verdadeiro antes de todas estas expectativas de crise profunda. Torna-se cada vez mais verdadeiro.
O filósofo José Gil fala com alguma tristeza do fim da esperança. E isso é muito mau!
Fala ainda da falta de confiança nos políticos. Será um sinal novo? Será assim tão mau? Mau é, certamente, pois a confiança é também um bem para quem a pratica. No entanto, estes homens a quem chamamos políticos já há muito perderam o estado de graça que se prolongou muito para além da inauguração da liberdade de Abril. Já devíamos ter perdido a confiança há mais tempo.Durante todos estes anos, temos depositado nas suas mãos a legitimidade de guardar a nossa liberdade, a defesa da nossa paz, o sonho do mundo melhor para todos, especialmente, como se diz nas preces, "principalmente aqueles que mais precisarem"... E então? O que é que fazem com essa legitimidade? O que é que fazem com a nossa confiança? Tratam da vidinha, tratam do emprego para os amigos e do "futuro" deles.
Está a chegar a hora da verdade: o bem comum foi desbaratado, a causa pública foi esquecida e o sonho de todos nós virou pesadelo maior.
Mas talvez sejam estes tempos difíceis uma oportunidade para reabilitar os valores perdidos!
É de valores que trata o longo texto de Sena.
"Não sei meus filhos que mundo será o vosso" - e agora dirijo-me aos meus filhos- mas desejo veementemente que seja um mundo de Verdade. Carta de Sena aqui

terça-feira, 5 de abril de 2011

Já é Abril outra vez!

Para o meu filho Diogo que me "abriu" um Abril, dando-me, para a vida, a condição de Mãe! 1 de Abril de 1975!O mundo que o recebeu sabia o sabor dos cravos, mesmo daqueles que nasciam na boca das baionetas!
Era o tempo dos minis que eram tão giros que até se dizia:"É tão giro ter um mini!".
Era o tempo dos casacos aos quadrados, adequadamente desenquadrados de todas as indumentárias preconceituadamente masculinas.
Era a moda das barbas e dos bigodes, que cresciam livremente ao som das cantigas revolucionárias, desafiando todos os bons gostos impostos por outras modas.
Era o tempo do desejo de acreditar que a vida é um bem justamente distribuído e que todos temos direitos.
Quando tu nasceste, Diogo, proclamávamos a liberdade, com a força da razão que os nossos vinte e tais anos de idade nos gritavam cá dentro!
Quando tu nasceste, Diogo, estávamos a aprender a dar os primeiros passos na democracia. Nesse teu primeiro Abril, votámos, depois de uma espera demorada em longas filas.
Mas o melhor desse Abril foste tu, meu filho! O melhor de todos os "Abris" és tu.
Parabéns, Diogo!
Já é Abril, outra vez!

sábado, 19 de março de 2011

Dia de Todos Os Pais

Se a palavra Pai fosse um verbo não podia ser conjugada num tempo de cada vez. Todos os Tempos cabem na Palavra Pai, mas o que domina e prevalece é o Presente.
O Pai é, porque a condição de pai e de filho não se remete para nenhum passado, nem se fica espera para futuro algum. O Pai está!
No nosso imaginário, mesmo quando já vivenciámos a experiência da paternidade/ maternidade, o Pai é grande e forte, é o herói que nos salva dos medos maiores.
Mesmo quando a Vida já nos ensinou que todo o ser humano tem "direito" à tentação e os nossos pais não tinham de ser diferentes, porque se o fossem, alguma coisa no princípio do Verbo estaria errada. Na mitologia do paraíso, Adão e Eva foram os protagonistas do pecado e da tragédia universal humana. Mesmo assim, a figura do Pai não sai lesada. Pelo contrário, o Pai integra melhor, à medida que a Vida avança, a dimensão humana. Mas como para ele a Vida já vai mais avançada, permitimo-nos receber o conselho, ouvir o aviso.
Acerca dos conselhos, o meu pai dizia-me que não mos dava porque eu sabia errar sozinha. E foi esta responsabilidade que me transmitiu e, através de uma recordação forte, de uma memória muito clara, permanece.
Ensinar a aceitar o erro é também Tarefa de Pai.
Obrigada, papá! Como diria o Lobo Antunes: Este é o meu pai. O meu pai é este homem bonito, alto e jovem. Há nele muitos traços de sedução que importou dos ídolos da tela. As fitas são parte da sua vida. Como na Rosa Púrpura do Cairo, a vida real e a da tela misturavam-se...A maneira de ver a vida era, como no Cinema Paraíso, o resultado do cruzamento de vários momentos e de vários Gigantes dos ecrãs.Diria como Marcello Mastroianni: a mulher é o sol, uma extraordinária criatura que faz galopar a imaginação.

terça-feira, 8 de março de 2011

Tudo vem a propósito...

Os dias vão passando e a vontade de escrever sobre qualquer momento mais relevante fica adiada pelos motivos mais comezinhos: cansaço de origem variada, preocupações, trabalhos da escola e algumas viagens que as circunstâncias da minha "unicidade" ( filha única, por exemplo!)impõem.
Então, o que é que está em atraso? O encontro com Dulce Braga, em Lisboa, na Bulhosa de Campo de Ourique, na apresentação do seu fruto, o fruto do encontro entre os dias que ficaram e os dias que são. O fruto é o maboque. Não provei o outro maboque, só provei este e o seu sabor é de uma beleza muito rara, sobretudo quando se mistura um outro sabor, o da distância,o da ausência e o da saudade. Dizem os livros de botânica que o maboque tem um sabor agridoce. Está explicado!
No entanto, o doce foi o elemento que sobressaiu, sem dúvida alguma!
Senti esse “doce” no reencontro da Dulce Braga Mulher Escritora Agora com a Dulce Menina de Angola. Além de doce, foi uma emoção linda que se espelhou nos olhos e no sorriso da Dulce. Foi uma emoção linda que passou por todos os que ali estavam a saborear um gosto antigo ou a provar um sabor, pela primeira vez, como foi o meu caso.
O convite chegou-me aos olhos pela boa vontade do Nelson Reprezas, amigo comum. Foi também uma surpresa linda que me encheu de orgulho.
O dia já estava perfeito, mas a dedicatória da Dulce deixou-me o coração embargado.
Obrigada, Dulce, pelo convite e pela escrita que me vai trazer muita emoção boa, aquela que cura feridas.
Obrigada, Nelson, por teres sido o mensageiro da mensagem boa!
E, para terminar, vou também citar, transcrevendo (página 187) umas linhas que retratam bem os dias que correm, em que o doce se dissolve mais do que a conta, nas amarguras da vida.
“Peguei no primeiro disco da pilha que estava do lado do gira-discos e o coloquei para tocar. Era um compacto de Janis Joplin, de 1970, que havia comprado numa loja de discos em Nova Lisboa, um ano atrás. Tocava a música Get It While You Can e a letra não podia ser mais apropriada: In this World, if you read the papers, You know everybody’s fighting on with each other… Don’t turn your back on your love, no, no!
Foi o que aconteceu neste fim de tarde: ninguém virou as costas ao amor, sobretudo àquele amor que nos liga a nós mesmos, por muito que seja geograficamente distante …

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Oh My Papa!


Oh my papa, for me he was so wonderful! Oh my papa, so funny, so adorable! :(
I miss him so today!
(O Eddie Fisher, "um rapaz da tua geração", cantou isto a pensar em ti e em mim, papá! Tenho a certeza!)

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

O Medo, esse Adamastor

Nota prévia: este é o texto que a Bárbara, Coordenadora da Equipa da Educação para a Saúde, me pediu que escrevesse, à laia de testemunho, no dia 4 de Fevereiro, um dia para assinalar a luta contra o Cancro.
Foi a primeira vez que o fiz, sem rodeios. Senti que talvez eu possa dar voz a um caso em que não há sofrimento e que o Medo foi o único inimigo a fazer perigar a cntinuação da vida tal qual eu a quero viver: com o Jorge e os "miúdos"; com os meus amigos, muito especialmente com as amigas que, ao longo do tempo, se vão revelando cada vez mais fundamentais no meu "respirar" de todos os dias; com a família que sabendo o quanto prezo a amizade, sentirá que não é menor incluí-los na categoria "amigos".
Aqui, na minha história, só é relevante o Medo. Não fosse aparecer alguém (Obrigada, Milú!) que, em jeito de "sentença" me obrigou a ir fazer a mamografia... Aproxima-se o dia de fazer mais uma, de rotina, e o Medo já começou a fazer estragos, a tirar-me sonos e a dificultar-me os sonhos.
Tudo o resto está bem.
Aí vai o texto que foi publicado no blog da escola, da Educação para a Saúde,Educar Para o Bem Estar!
A vida é assim mesmo.
Dia a dia, construímos os nossos dias!
Dia a dia, aprendemos a passar “além da dor”.
(Quem quer passar além do Bojador, tem que passar além da dor! disse o poeta Pessoa!)
Como é que se retoma o leme, como se enfrentam adamastores, como se prossegue o caminho, atracando a um porto seguro aqui, outro porto seguro acolá.
(Quando falamos de Adamastores, estamos a falar de medos enormes, imensos. Mas à semelhança do verdadeiro Mostrengo que guardava os mares do sul, este pode ser um mito, uma ilusão, uma dificuldade a ultrapassar…)
“Sabemos bem do que estamos a falar, quando falamos de cancro.”
Sabemos, sim. É de dor. É de medo.
Contudo, na vida, a experiência é que dá a verdadeira medida. A maturidade dá-nos esse saber. A humildade dá-nos a dica: podes e deves aprender com a experiência dos outros.
Para isso, é preciso vencer outra espécie de medo: o de falar com quem já viveu o caminho que vai da incerteza e da dúvida, à esperança e à certeza de estar à nossa espera, ao alcance das nossas forças, um tratamento que nos garante a vida.
É fundamental encarar essa fase: cirurgia, nem sempre necessária ou importante para o controle da doença; quimioterapia, tratamento que tem consequências difíceis de encarar, mas que são transitórias; radioterapia, tratamento sem dor que tem de ser encarado como muito sério porque é necessário proteger as partes do corpo que sofrem as radiações, para que seja levado até ao fim, sem problemas. Há também a hormonoterapia, específica de alguns casos de cancro e que consiste na toma diária de um poderoso comprimido que ajuda, combatendo e eliminando as condições hormonais em que o cancro apareceu e se desenvolveu.
Depois destas fases, e sempre com amigos e familiares por perto, com muito optimismo, queremos voltar à Vida.
Queremos voltar ao convívio alegre com os amigos, às conversas sobre as coisas com menos importância, aos passeios, aos teatros e cinemas, aos almoços e jantares, aos passeios à beira-mar, à contemplação do pôr-do-sol.
Ao trabalho! Aos projectos!À Vida, em pleno!
Madalena Santos, professora, 59 anos. Cancro da Mama aos 56 anos.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Convite

...para a festa dos sentidos! Será como um casamento de sentidos, sem sentidos obrigatórios e, muito menos, proibidos.
Cheguem e vão-se chegando aos livros, aconchegando o pensamento para o prazer das sensações que os Mestres das Letras prepararam. Deixemo-nos levar para uma esfera de bem-estar que dá essoutro sentido à vida. Vale a pena? Perguntamo-nos, inquietos dos desígnios desta existência efémera que se eterniza, por sinal, através desta arte ou de outras artes. E Pessoas responder-nos-ão em coro, qual tragédia grega, que sim, desde que a alma não seja pequena.
Se a alma não é pequena, habita um homem que tudo faz para ser Feliz!
Para isso, pode comer, beber, correr, dançar, ler... Porque não?
Sirvam-lhe livros à vontade, à descrição.
Como na refeição dita real, a que serve para alimentar o corpo, sirva-se primeiro uma entrada. Siga-se a substância. Saboreie-se, finalmente, o doce.
Uma boa refeição não deve deixar amargos de boca. A vida ainda menos. Os livros, é que nem pensar!
Se podemos dar de beber à dor, podemos também dar-lhe de comer.
Mas, como diz o Manual do Salvador, somos livres até de rasgar a folha!

Foi há dois anos!
O Banquete cumpriu a sua função: reuniu muitos amigos!
E assim, sem mais nem quê, ali estavam os textos que o Jorge tanto tinha insistido em publicar e que já me tinham proporcionado muitos momentos bons!
Estavam ali transformados em iguarias para celebrar afectos!
Não há palavras que possam descrever as emoções de sentir que os que estão ali estão envolvidos por dentro, pelo lado do coração e da amizade verdadeira. É um privilégio conseguir reunir tantos, de tantos lados da vida!
Ao meu lado, a Nini, aquela irmã que não falha nunca. Na plateia, as outras "irmãs" que me cobrem de mimo e que sabem da minha vida, mais do que eu, talvez... gente com quem divido o hoje e outros com quem vivi intensamente os dias mais verdes!
Falta sempre alguém, não por dizer não, mas porque a Vida não deixa.
Mas a Memória cumpre o seu papel e todos se tornam verdadeiramente presentes!

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

O que o tempo nos faz!

As coisas não têm idade e no entanto sofrem-lhe os efeitos.
Este é apenas um pormenor, um detalhe, da velha estação de comboios do Montijo.
O ferro garantiu a resistência. O pior efeito visível a olho nu é a ferrugem.
Há também a irregularidade de uma tinta já muito ida, já muito apagada.
O telheiro da velha estação encontra-se com os pilares que o suportam, nestas aplicações de ferro forjado e trabalhado, à luz de uma estética que o tempo também devorou.
A humidade da chuva, sovada pelo vento impiedoso de muitos invernos, também deixou as suas marcas, como as bexigas salpicam de covas os rostos mais belos.
Efeitos do tempo. Apenas? Não. Efeitos do tempo e do abandono!
Connosco também é assim!

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Dias de Cão

Hoje o meu dia foi dia de cão! Não sei de onde vem a expressão, mas a avaliar pela expressão "facial" do Bali, os dias de cão são mesmo dias em que nada dá certo.
O mais "irracional" foi saber que uma conta cancelada há mais de seis anos foi reaberta pelo banco há um ano e meio e só hoje é que soube, quando fui ver onde paravam os ree...mbolsos da ADSE!!!!! Os "óculos" devem ter ficado na conta para despesas. A explicação do costume.
E mais uma multa da Emel, não por falta de pagamento, mas por estacionamento indevido.
E mais uma conta da TMN a duplicar porque patati-patatá, o habitual, Dona Madalena, vamos ver e depois dizemos-lhe alguma coisa.
Amanhã gostava muito de ter um dia de gente!

domingo, 16 de janeiro de 2011

Os Dias De Nevoeiro

Os dias de nevoeiro parecem-se muito com a Vida: o que está mais para além, no tempo e no espaço, está envolto numa indefinição, numa bruma, que obriga a cuidados redobrados nos passos que há para dar!
E nós, apesar de tudo, apesar do despojo do Inverno que nos expõe numa nudez fria dos ramos sem folhas, erguemos os ramos, ou os braços, e continuamos de pé, acreditando ser possível desbravar as nuvens baixas e seguir um caminho mais perto do azul do sol!Há post gémeo no facebook

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Hoje arrumei o Natal

Hoje arrumei o Natal. Devolvi as estrelas ao firmamento. Procurei entregar os brilhos a quem de direito. Emprestei as luzes à gente que trabalha de noite. Guardei os laços e as bolas coloridas numa caixinha antiga que serve para isso mesmo: guardar o Natal, de uns anos para os outros, há muito tempo. Ajeitei o Menino Jesus e agradeci aos pais. Ainda os ajudei a embalar as prendas dos Reis que são valiosas e o caminho é longo.
Deixei o espírito de Natal mais à mão, não vá precisar dele um dia destes...
Aconcheguei tudo com algumas memórias, por causa da fragilidade da fantasia!Nota:Há post gémeo no facebook!