domingo, 16 de outubro de 2011

A Poesia do António

Andamos sempre às voltas com os tempos das nossas vidas: o presente fica literalmente esmagado por vezes entre os pretéritos todos e os futuros que a nossa condição humana nos impõe como estímulo de vida. Se deixarmos de acreditar veementemente no futuro, o que é que nos resta?
Ontem, o pretérito revelou-se mais que perfeito! Desembrulharam-se os afectos guardados e eis que, restaurados nas novas identidades que somos hoje, estavam fresquinhos que nem alfaces. Criopreservação, presumo!
A Cândida, a quem os anos não roubaram beleza nem juventude, disse os poemas que escolheu, no "segredo" do seu encontro com a poesia do António: Ser Livre e Visão.
"Sou a pessoa errada
no mundo errado."

O silêncio pesou ainda mais quando ela disse estes dois versos, linhas de força deste poema.
Pedi-lhe ainda que lesse um terceiro, um que me tinha seduzido já que vem ao encontro das minhas preferências: as árvores. Gosto de todas.
Falar com árvores
Lembro-me! Quando era jovem,
costumava brincar no jardim
e falava com as árvores e...
esperava por uma resposta;
ficava lá junto a elas até o sol se esconder,
adormecia sobre a relva
seca e macia.
Com o passar dos tempos
as árvores envelheciam comigo;
já não falava com elas, mas
ainda as admirava.
Agora! Velho e solitário,
neste canto do universo,
penso nesses tempos da minha juventude;
quando os nossos espíritos
se desdobravam em sonhos e
quando eu pensava que as
árvores falavam.

As árvores têm envelhecido comigo. Mesmo aquelas que eu não vejo com os olhos da cara, adivinho-as com os olhos suplentes da memória e acho que têm as mesmas rugas que eu.
Percorri os poemas do António com o prazer de um passeio... Senti que todos estávamos a contribuir para um momento único na vida daquele adolescente que se tinha chegado à frente naqueles versos, com beleza e pudor. As emoções cresciam na sala. Esquecemo-nos de tudo o que se passava além "cantinho" da Livraria Barata. Só estávamos nós, no mundo naquele instante. Vi lágrimas. Vi muita ternura e adivinhei emoções fortíssimas no poeta que se sentava ao meu lado. Pedi à Cândida que lesse mais um poema, um dos muitos em que está presente a sensação física.
O traço de união foi a poesia que como nós saía de um passado já distante...
Parabéns, António Runa. Deixa seguir o teu "Último Adeus" que já não te pertence. Agora é dos leitores!

sábado, 1 de outubro de 2011

Ter outra vez vinte anos....

ESte é o título de uma cantiga, de um fado! Este é um anseio que preenche, por vezes, o nosso pensamento, quando o desencanto parece ter-se instalado e nos assalta a nostalgia de um tempo em que éramos absolutamente e naturalmente capazes de fruir a felicidade!
Mas o que é certo é que há momentos na vida em que andamos com o filme para trás e lá estamos nós, com vinte anos, outra vez! Com a vantagem de lhes somarmos os quarenta que já nos foram dados, para chegar até aqui!
É o que acontece sempre que nos juntamos, as meninas do terceiro andar do Lar Betânia, o lar das raparigas, na Quinta das Mouras, estrategicamente localizado em frente ao lar dos rapazes... (E à casa do Jorge!!!)
É fácil de perceber que foi um tempo de estudo intensivo... e não só! Muitos namoros, muitas transgressões, muitos sonhos, muitas emoções e muitas desilusões, também. Muitas confidências e muita intimidade.
Hoje é um dia especial para uma de nós, a Milu: o casamento da filha, a Sofia que é uma menina linda e que entende muito bem e aprecia esta nossa adolescência renascida, cada vez que estamos juntas. Queremos Milu que este dia seja perfeito! Queremos Sofia, agradecer-te que nos tenhas convidado a participar deste teu Dia Um, dos novos caminhos que te esperam ao lado do João.
Hoje vamos ter outra vez vinte anos!

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

28 de Setembro de 1974 - Versão (da minha) memória

Saímos de casa muito cedo. Fim de semana, bom tempo. Nada mais apetecível do que um saltinho à Costa da Caparica.
Se houvesse "google maps" na altura, o trajecto recomendado seria: Calçada de Carriche, Avenida Padre cruz, Campo Grande, Avenida da República, Av de Berna, Praça de Espanha, acesso à Ponte, Ponte, primeira saída, via rápida, Costa da Caparica.
Mas não foi. O que aconteceu foi mesmo isto:
Calçada de Carriche: primeira barricada.
Comecei a fazer tricot!
- O melhor é irmos por Vila Franca! Dizia o Jorge.
Já não sabia onde é que ia, nem no tricot, nem no caminho, nem na barricada...
Mas nessa altura, não tinha medo de me perder. Nem tinha carta, portanto eu ia para onde o Jorge e o mini (DG-79-96) me levassem. À confiança!
Continuei a fazer tricot!
Os meus vinte e dois anos estavam cheios do sonho de um bebé que vinha a caminho.
Apesar das barricadas, era preciso tricotar...
Depois da Ponte de Vila Franca, depois de muitas barricadas, direcção Montijo, Sarilhos (Eu podia lá saber que havia uma terra chamada Sarilhos!), Moita e à noite lá chegámos à Costa da Caparica.
A viagem tinha sido proveitosa: as primeiras botinhas do Diogo!
As botinhas eram "obrigatórias" no enxoval dos bebés!
Imagem daqui.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Parabéns, Jorge!

Esta quantia de anos de idade veio mesmo a calhar para te "oferecer" um filmezinho recheado de momentos alegres da vida que já vivemos. Claro que a Vida não se faz só de alegrias. Houve outros momentos. Claro que houve! Mas é bom recuperar os outros, os bons, trazê-los à cena e agradecer-lhes terem "aparecido" tantas vezes e terem-nos ajudado a chegar até aqui.
Parabéns!
Quando eu era miúda, na estaçao B, através de umas antenas que eu nem sei como funcionavam, ouvia-se muitas vezes uma cantiga de parabéns diferente. Nunca me esqueci dos versos e lembrei-me deles hoje, a propósito do teu dia. Sabe-se lá porquê!
Não vou "cantar-te" a cantiga toda. Escolhi estes:
"The gift I have for you
is the promise to be true
to love you through the years
and never never bring you tears"
Quem me dera que fosse possível passarmos por dentro das vidas sem lágrimas. Algumas nem se vêem, mas nem por isso deixam de ser salgadas e doridas.
Já não somos adolescentes, já nem sequer somos "novos" e muitos dos nossos sonhos já são memórias. Outros são ainda sonhos e alguns ainda vão aconchegar os nossos dias.
A tal cantiga, que ouvi vezes sem conta nas noites caladas da minha casa em Moçambique, falava também de futuro. Claro que o registo é o do amor romântico até dizer chega, quase a tocar o que hoje chamam "pimba". Mas, paciência! Ser pimba ou ser ridículo vai dar ao mesmo e se Fernando Pessoa não temeu ser pimba e admitiu o ridículo, por que não eu?
Aí vai o resto:
Tomorrow starts a new year
and memory for the day
I wanna say I love you
darling happy birthday.
E, para terminar, a três minutos do dia de amanhã, agora a pergunta da cantiga dos Beatles: Will you still love me when I'm sixty four?

sábado, 17 de setembro de 2011

Parabéns, filho!

Há trinta e três anos, a Cegonha trouxe-me este bebé rechonchudo!
Estava muito calor: 40 graus. Era uma temperatura completamente inesperada para um Setembro já perto da data oficial do Outono.
Eram cinco e vinte da tarde quando ouvi anunciar: é um menino! Ou melhor. ouvi o pai dizer: Outro rapaz! Coisas de antigamente!
Depois foi o afã do costume: as visitas e as "inspecções" ao recém-chegado, para contar os dedinhos...
O "agregado" passou de três para quatro e havia todos os receios que nascem com um novo elemento na família da casa: o medo que aquele meio metro de gente vá ocupar o espaço todo dos corações dos grandes. Assim, atentos a todas as reacções, apresentámos os manos, um ao outro. O Diogo manteve durante muito tempo um olhar desconfiado, mas a pouca idade também não ajudava a dizer o que sentia. Tínhamos uma prenda preparada para adoçar o encontro: uma garagem da Shell, em brinquedo, claro! Mas o Diogo não se mostrou convencido...
A avó Di nem queria acreditar que se tratava de outro rapaz. Ela que estava à espera de uma menina. O quinto rapaz! Não podia ser.
Mas era mesmo um menino!
Parabéns, filho!

domingo, 11 de setembro de 2011

As (minhas) Sete Maravilhas da (minha) Gastronomia

O júri que aclama esta escolha é constituído por uma remota, mas nem por isso menos viva, memória das iguarias que alimentaram a minha infância, que deram sabor a esses dias que nem sempre são tão cor-de-rosa, como se imaginam, nem tão dourados, como se recordam. O tempero que domina toda e qualquer preparação é, sem dúvida, a dedicação carinhosa.
Comecemos pelas batatas fritas que saíam do azeite borbulhante das frigideiras de ferro. As batatas eram descascadas e depois cortadas em palitos, nem finos nem grossos, com a “medida” que a minha avó tinha na mão e na intuição, para o sabor que pretendia. Eram servidas em travessas abundantes. Algumas não passavam da cozinha. A minha avó fingia que não via e nós convencíamo-nos que tínhamos iludido a sua atenção!
O Caldo Verde da Tia Miquelina! As couves podiam ser as mesmas dos outros “caldos verdes”, as batatas e as cebolas também. Este caldo verde sabia pela vida. A minha tia era pobre. Pobre de bens materiais, pobre de dinheiro. Mas suas mãos, o seu talento e o seu amor transformavam todos os pratos numa iguaria que os ricos nunca provaram. (Tenho tantas saudades suas, Tia!)
O arroz de grelos da minha avó! Era uma das especialidades também.
O arroz de grelos acompanhava sempre os pastéis de bacalhau igualmente divinais. A última refeição que fiz em casa dos meus avós, nas férias grandes de 72, foi esta! Apesar das limitações da doença que lhe “tolhia” as pernas e a impedia de permanecer em pé, junto ao fogão, a minha avó preparou-me este manjar…. Obrigada, Avó!
O caril de galinha, prato domingueiro que a minha tia Odete Pequenina preparava pela manhã, cedinho. Depois da praia, apurado pelo tempo, servia-se o caril acompanhado de arroz branco, muito branco, muito solto.
E o chacuti que a doente do meu pai mandava frequentemente em sinal de agradecimento e reconhecimento a propósito de tudo e de nada?! A mais inofensiva injecção dava direito a um belo chacuti. Nunca consegui distinguir muito bem os ingredientes, mas isso não era diminuía o prazer de apreciar um sabor diferente. Hoje, associado à memória do chacuti, estão os saris e as lantejoulas que adornavam a senhora, que trazia sempre, a rigor, um ar bondoso e humilde.
O Bife da Princesa era um bife. Normal? Talvez! Mas o molho tinha um segredo qualquer e tornava diferente o sabor do bife. Aos dezassete anos adoeci gravemente: febre tifóide. Depois de um período de febres e delírios chegou a hora da recuperação, da convalescença. Bife da Princesa duas vezes ao dia. O Fabião largava os afazeres domésticos e lá ia ele buscar um Bife à Pastelaria Princesa. (Onde andarás, Fabião?)
Ficam ainda classificados como delícias inesquecíveis: a língua de vaca estufada que a minha mãe preparava, com todo o rigor das receitas transmitidas de geração em geração; os “cocós” dos Velhos Colonos, pequenas sandes de carne assada, inimitáveis; os camarões da Nacional; a carne assada da Nacional e o Frango à Cafreal do Piri-píri.
Mais um registo da memória do passado em prol da memória do futuro!
Na foto, tripas à moda do Porto. O melhor não se vê: a companhia dos amigos. Vieira do Minho.

domingo, 28 de agosto de 2011

Amanhã é outro dia...

Outro lugar comum. Os dias sucedem-se indiferentes à esperança que tem de nos alimentar a vida. Essa, sim, a esperança é a última a morrer!
Como em todos os lugares comuns,há uma dose de verdade que advém da própria essência da natureza disse ditados: a sabedoria adquirida via experiência de vida de um povo ou vários.
Há que interiorizar essa parte.

domingo, 7 de agosto de 2011

tele... novelas "Será que Júlia vai casar com o irmão dela?"

“Os tempos mudaram!”, é a conclusão aparentemente ligeira de quem vive o hoje com a memória bem viva dos dias de ontem. Dos dias e das noites, dos chamados serões em que a televisão fazia as delícias de todos: maiores, mais pequenos, mais velhos e mais novos.
Aquilo que hoje sobra nos canais televisivos era único, num canal de uma única estação a RTP. 1977, se a memória não me atraiçoa, foi tempo de aprendermos a gostar de telenovelas.
"Quando eu vim para este mundo, eu não atinava em nada..."
Estes eram os sons que nos empurravam para o sofá para assistir a mais umas cenas de sedução inspiradas no talento do mestre Jorge Amado. As personagens desfilavam no meu pequeno ecrã a preto e branco. Digo a preto e branco, mas sei que as cores estavam lá...
Apesar de ter sido esta a primeira das primeiras, a que parou Portugal no último episódio, não foi a que eu mais gostei, ou melhor, viria a gostar. “Olhai os Lírios do Campo” foi sem dúvida a que telenovela que acompanhei com mais emoção.
(Já tinha lido o livro duas vezes. Tinha sido o meu primeiro livro de gente mais ou menos crescida e eu tinha só treze anos. Claro que não o entendi. Li-o outra vez, uns anos mais tarde e depois vi a telenovela. Voltei a reler o que eu entendo que é a obra essencial de Erico Veríssimo.)
Muito fiel à inspiração literária, eu vi na Nívea Maria a verdadeira Olívia, corajosa até ao limite, fiel aos seus princípios, ao amor, à verdade. Eu vi no actor que nem sei o nome, um Eugénio incapaz de integrar a pobreza da casa paterna no seu sonho ambicioso de médico de renome.
Agora, os vários canais oferecem muitas telenovelas e de vez em quando eu vejo, mas não consigo encontrar muitas parecenças com a vida real. A verosimilhança é fundamental para captar a nossa atenção de espectador e nestas, nomeadamente na que tenho seguido, Laços de Sangue, qualquer aspecto que se pareça com a verdade é pura coincidência.
A sorte é que tenho sempre este espaço comunicação que me compensa das desilusões sofridas.
Atrevo-me a dizer que neste momento a televisão se parece com a ideia que o Ministro Lino tinha da margem sul: um deserto. Valha-nos a RTP Memória!!!! Sempre podemos voltar a rir com o saudoso Solnado ou chorar com alguma tragédia, num palco cheio de gente que convém não esquecer!
Olhai os Lírios do Campo, abertura

sábado, 23 de julho de 2011

É sempre a mesma "conclusão"... O tempo voa.

Já lá vão 39 anos.
Tanto que eu tinha desejado este momento. Tanto que eu tinha sonhado com o meu regresso a Moçambique, a Lourenço Marques, à casa da minha mãe, ao carinho dos meus amigos, ao convívio sempre alegre das minhas primas, ao "colo" dos meus avós, às conversas demoradas sobre a Vida, com o meu pai.
E agora que estava ali, no aeroporto, para seguir no avião da TAP, tudo o que eu queria era mesmo ficar. O namoro tinha começado há tão pouco tempo! Queria ficar e continuar a namorar.
Uns tempos antes, eu tinha preparado esta viagem com muito entusiasmo. Queria revisitar os meus lugares. Queria sentir as minhas praias, apanhar ameijoa na Costa do Sol, comer camarões na Nacional, "bater-me" com os bifes da Princesa que tanto tinham contribuído para a minha rápida convalescença da tifóide. Queria beber as coca-colas todas que não tinha bebido nos dois anos que me separavam de "mim". Queria sorvetes da Cooperativa e sentir a inspiração das noites do Zambi...
Agora, só queria ficar!
Mas não podia ficar. E lá estivemos os quatro: a Dulce, o Rui, o Jorge e eu, até ao último momento que nos deixaram ficar na zona mítica das despedidas. (Hoje fala-se em check in e check out e o romantismo da despedida e dos reencontros passou a disfarçar-se de normalidade!)
Catorze horas depois, eu e a Dulce desembarcámos em Lourenço Marques. E não havia telemóveis, não havia Skypes, não havia nada. Havia saudades que mudavam de dono…
Agosto de 1973: eu, em Nampula; o Jorge, em Veneza!

terça-feira, 12 de julho de 2011

E se casássemos...

E se casássemos?!
Foi assim, com este romantismo todo, que o Jorge formulou aquele pedido que aconchega os nossos sonhos de menina. Nem anel, nem postura ajoelhada, nem declaração de amor reiterado... Nada! E se casássemos?! Como quem diz que em vez de andarmos por aí aos caídos, um para cada lado, mais vale andarmos aos caídos para o mesmo lado!
E não é que eu aproveitei logo a ideia e resolvi pôr em prática o mais importante? Arranjar uma casa!
Pois... é que eu queria mesmo casar ( O meu lado Susaninha porque nem todas as meninas de então se podem gabar de ter um lado Mafaldinha!) e tinha de aproveitar aquela distracção, não fosse ele arrepender-se e não tornar a dizer nada parecido.
É verdade que eu sonhava com a declaração de amor. É verdade que eu sonhava com o verdadeiro sonho. Certo é que já tinha recebido um manjerico no Santo António! Sempre é um sinal. Uma evidência, como se diz agora!
Aí fomos nós, cinco minutos depois à procura da casa. Não foi a primeira porque os dois contos e quinhentos, doze euros e meio na moeda da Troika, era demais, apurados que foram, em dez minutos, os recursos em escudos. Mas a segunda já cabia no Orçamento Geral do nosso estado de enamoramento, mais propriamente do meu enamoramento: dois contos trezentos e cinquenta.
Era doze de Julho e estava calor. Ainda bem que acertámos à segunda. Era um terceiro andar, na Rua José Malhoa em Odivelas. Três assoalhadas, porque na época ainda não havia T2.
Urgia oficializar mais o noivado, para estancar qualquer arrependimento, daqueles que se lêem nos romances. Uma carta para o meu pai. Uma carta para a minha mãe.
Querido papá... Querida mamã... vou casar. O meu namorado chama-se Jorge e é estudante de medicina. É de Angola e mais pormenores daqueles que os pais gostam de saber. Sobretudo as mães. Prometo que não vou deixar de estudar, etc, etc...
Ainda nesse dia, comunicámos aos pais do Jorge. A mesma promessa: não vamos deixar de estudar. O maior medo de um lado e do outro era o mesmo.
Na inocência dos meus vinte anos mais um, achava que alguém podia demolir o meu sonho e proibir-nos de casar. (Só hoje é que eu percebo que ninguém podia e ninguém pode levar-nos a fazer aquilo que não queremos!) Preparava-me para usar o direito da minha maioridade (vinte e um anos) para me casar sem autorização. Mas não foi preciso.
No dia seguinte, lá fomos ao Banco que tratava do aluguer. O terceiro andar já estava ocupado. Mas o segundo estava livre e até tinha umas paredes muito lindas, dizia a Dona Piedade que fazia as honras das apresentações e visitas aos andares. Ficámos com o segundo. Foi só uma questão de cobrir, com uma tinta barata mas eficaz, as flores desenhadas a rolo…
As certidões chegaram à velocidade do meu desejo e um mês e oito dias depois, lá casámos e fomos finalmente morar para as nossas três assoalhadas de "sonho".
Aí vivemos as alegrias maiores das nossas vidas. Aí começámos tudo!

sábado, 2 de julho de 2011

Adeus, Carlos!

Adeus, Carlos!
Deixa ficar connosco a memória do teu riso! Deixa ficar connosco o teu olhar espantado e podes até deixar o teu olhar zangado, esse ar que te emprestava uma certa expressão de criança, a mesma com que falavas com as tuas netas.
(O teu lugar é no meio de nós. A tua partida não faz sentido!)
No último almoço, quando todos tirámos as caixas dos comprimidos do bolso e começámos a tomar, desatámos a rir da nossa "velhice" ali escancarada no comprimido da tensão e do colesterol.
Fomos tomando consciência de que a juventude, tal como ela era quando nos conhecemos, estava a passar para os nossos filhos e isso era bom...
Fomos aceitando as mazelas e até fazíamos humor com os sinais exteriores da nossa "avançada" idade de BI. Por dentro, a nossa imensa amizade estava tudo igual. Sobretudo a irreverência que era a nossa imagem de marca. Para a história ficarão as tortas que iam ao ar sem se desmancharem, sem nunca eu ter percebido porquê. O pó da casa da Isabel, tão preocupada com a extrema limpeza. O sonho do carpélio contado pelo Jorge, revisto e aumentado com o passar dos anos e sempre gerador de gargalhada geral.
Não, Carlos, não vai ser nunca mais a mesma coisa. Mas vamos sempre sentir a tua presença, ouvir a tua gargalhada e perscrutar no teu olhar traquina, o homem bom e o bom amigo.
Um dia a gente vê-se, Carlos!!!!

sábado, 25 de junho de 2011

A minha nação primeira!

A dimensão de uma nação não se mede em quilómetros quadrados. Mede-se anos de liberdade. Mede-se em toneladas de coragem para enfrentar um destino sem asas protectoras.
Moçambique é uma nação livre há 36 anos. Junte-se-lhe os anos de luta e a vontade do povo e Moçambique é maior do que o mapa à beira Índico levantado!
Para mim, esta nação mede-se também em memórias que ficaram para sempre com um rótulo que diz "Fabricado/a em Moçambique".
E estas minhas memórias banham-se nesse mar que eu via da varanda da minha casa. E passeiam-se no trajecto dos machibombos, ao longo de avenidas modernas e rasgadamente promissoras em relação ao crescimento da cidade das acácias.
As minhas memórias, embora riscadas e com outros sinais exteriores de idade, levantam-se todos os dias comigo e dormem lindos sonhos de um reabraço aos meus lugares...

sábado, 4 de junho de 2011

Dia dos Anos

Tínhamos conversas leves sobre coisas sérias... Tínhamos conversas leves sobre coisas leves... Tínhamos conversas sérias sobre coisas sérias. E foi assim ao longo da Vida, da Vida em que coincidiram o teu tempo e o meu tempo. E a conversa foi talvez a principal ferramenta da minha educação. Cresci nessas conversas. Sentia-me muito importante para ti. Quando tu tinhas "razão" ou quando eu tinha "razão", quando eu também já esgrimia contigo os argumentos da vida vivida. Obrigada, papá, por me teres feito sentir "uma pessoa muito importante" para ti.
Pai e filha, como qualquer pai e qualquer filho! "For you will still be here tomorrow, but your dreams may not."
Também falámos sobre sonhos e projectos e também me disseste que "não deixasse para amanhã o sonho do dia de hoje".
Hoje seria o dia "mais" da conversa. Gostavas de ser o centro das atenções, sobretudo no dia dos teus anos. Sonhavas com prendas como os miúdos pequenos!Tinhas esse direito, sobretudo nesse dia especial!

domingo, 29 de maio de 2011

A Tempestade

De repente, os céus escureceram, a temperatura baixou nove graus, a chuva começou a cair, num crescendo de força e intensidade, seguiram-se as pedras de granizo que fustigavam a visão da estrada, batendo com violência no vidro, os raios caíam a uma distância que parecia muito curta e não contente com isso os trovões calavam todos os sons possíveis...
A solução foi parar. E todos pararam, de um lado e do outro da A2. A medo, alguns minutos mais tarde, impossíveis de contabilizar num cenário de horror, todos os automobilistas retomaram o caminho, rumo ao céu azul que nos esperava alguns, poucos, quilómetros mais tarde...
Já passaram mais de vinte e quatro horas e ainda não recuperei do susto.
No regresso, a gota mínima era logo, para mim, uma ameaça de temporal. É que foi assim que começou: umas pinguinhas de chuva...
"O céu fere com gritos..." diz o poema maior da nossa literatura. Só quem passa por elas, diz o povo. Todos dizem a verdade: passar pelo meio da tempestade é uma experiência atemorizante. É uma das provas da nossa fragilidade, a nossa e a de todos os humanos. É uma das provas da Força da Natureza.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Dez Pequenos Prazeres aleatórios...

Passar a Ponte Vasco da Gama, num dia muito azul...
Contemplar o rio, o mar, o pôr-do-sol, recantos da minha casa, especialmente os que têm quadros do meu pai ou da Nini...
Ouvir uma cantiga simples e bonita, como a das Estrelas no Céu do Rui Veloso, ou o Postal de Natal, dos Rio Grande...
Jantar a dois...
Jantar a cinco...
Ter um bebé ao colo... (O último foi o Dinis! Duas horas bem medidas!)
Conversar com as minhas amigas, a conversa de irmãs, sem "barreiras", de alma escancarada...
Escrever só por escrever, como agora...
Acreditar, só por acreditar, e deliciar-me, por antecipação: que as Cegonhas andam por aí, por exemplo!
Ah... passar uma noite, num hotel!
Tirar fotografias... Ver montras! Ir às compras, sobretudo ao Modelo, ao fim do dia!
São mais de dez. Venham daí os vossos! Brincar com as fotos...

domingo, 22 de maio de 2011

Porque o melhor... ainda está para vir!

Esta é a mensagem final da peça de teatro "Rosa Esperança" que vi ontem no Fórum do Seixal. Vi? Não! Assisti? Não. Participei de forma menos activa do que as actrizes, mas participei.
Literariamente falando, o drama distingue-se de outros géneros, precisamente porque as coisas acontecem na presença do espectador. Naquele palco, ontem à noite, desfilaram emoções muito fortes, muita dor, mas também muita esperança.
AS mulheres que constituem o elenco dão corpo e voz à sua própria dor, às suas vivências, sem falsos rodeios.
O que ali passou foi a Vida como ela é. Da rotina de um dia-a-dia sem sobressaltos maiores, até ao assalto que o cancro pode perpetrar à tranquilidade de cada um de nós vai um momento, um instante.
E quando tudo acontece? Que fazer? Ninguém desiste! Todos, neste caso todas, têm razões para lutar e a maior parte delas refere apenas a família!
"Quando regressei a casa, o meu filho recebeu-me com uma flor na mão!", diz uma das mulheres.
Tudo o que ali se passa, em cima daquele palco, passou também por muitos dos que estão sentados na plateia, impávidos, mas não serenos.
Mais do que alertar as mulheres para o diagnóstico precoce, a peça é um "convite" à luta. Como dizia a Cinda, todas as noites, em frente ao espelho: "Não me vais vencer! Eu sou mais forte do que tu!" E é! E és, Cinda!
A Cacilda formulou o desejo de ver os filhos crescer. E viu! Já lá vão 28 anos!
A Nela revive o momento da notícia, do diagnóstico. O Paulo também dá voz e corpo a ele mesmo, marido, naquela situação, em que todos os medos assombram...
Para todas estas e para as duas meninas mais novas que ali mostraram a sua força, a minha admiração!
Mas o melhor ainda está para vir! Toca a lutar!

domingo, 15 de maio de 2011

Aniversário

Este espaço de escrita/ de confissão/ laboratório de emoções/ e outros nasceu há sete anos.
Há sete anos, eu tinha pai. Para dizer a verdade completa, eu tinha dois pais: o meu e o do Jorge, que ao longo destes anos todos de vida em conjunto se tornou também meu pai de coração. O carinho com que me contemplou sempre fez dele o meu outro pai. Não tem mal acrescentarmos pais aos primórdios dos nossos afectos patrimoniais. Também juntamos filhos e o sentimento não se perde nem se divide, enriquece e robustece-se. E a nós também! Tinha mais tios e mais primos. Pelo caminho deste blog fui perdendo esses pilares da minha construção. Primeiro o meu tio, depois a minha priminha querida que me faz falta. Ela gostava tanto de mim, por que é que se foi embora?
É a saudade que cimenta a escrita deste espaço. É em homenagem a eles que prossigo, para que os que chegarão no futuro saibam quem os precedeu. É sobretudo ao meu pai e ao outro meu pai, ao meu tio e à minha priminha a quem nunca disse adeus, que eu dedico este aniversário! Obrigada por tudo o que me deram!

Regresso a Poente, Francisco Seabra Cardoso

Doze de Maio. Lisboa. Fim de tarde.
Sol. Muito sol. Apesar da hora, o sol queimava ainda e os tons do dia tingiam-se de calor pelos céus afora.
“O sol frio é sadio o céu azul.
“Sol de Inverno não queima e mal aquece.”

Não. Não era um sol de Inverno. Era de Agosto apesar do calendário marcar Maio.
Chiado. (Lisboa tem muitos lugares mas o Chiado agarra a arte como nenhum outro. Será a alma de Pessoa que, por ali, vagueia? Que não seja por desassossego!) Haverá lá outro lugar na cidade (atrevo-me a alargar o conceito e dizer “no mundo”) para apresentar um poema? Não, não há, digo eu do alto da minha certeza absoluta. Pode ser uma certeza só minha, mas é absoluta!
O Poeta: Francisco Seabra Cardoso. A poesia: Regresso a Poente.
A sessão foi aberta pelo próprio poeta que se apresentou e aos que ali estavam, com ele, cúmplices do verso, da ideia e da arte que ali os levou. Chegamos ali, nós os que não tínhamos ainda conhecido o poema, inocentes e livres. Saímos dali todos também cúmplices da mesma ideia, do mesmo pensamento, do mesmo verso… O tal “eu” poético alastrou-se e deixou de ser apenas o eu poético do Francisco para passar a ser o eu poético de cada um. Chegámos até ali inocentes e livres. Saímos dali culpados da mesma culpa: a de acreditar na importância de cada instante e no poder de explodir em poesia. Foi o que aconteceu. Saímos dali impregnados de versos.
Falou-se da morte e da Vida. Já não sei precisar a quantidade que coube a uma e a Outra.
“Irreversível é nossa viagem
Que paragem não tem antes do fim”
A metáfora da Viagem. Um risco que o poeta corre ao misturar o seu conceito com o conceito do homem comum. Mas o poeta está cá para isso: para correr o risco e arrancar a poesia seja lá de que for.
A viagem! De balão! De regresso, como diz o título. E regressar é voltar para um lugar de onde se partiu, se esteve, se viveu. Será que o instante final é um instante de regresso?
O Poeta falou do Tempo e do tempo. Falou do Presente enquanto Tempo e enquanto oferta…
As palmas eclodiram menos do que a vontade de quem ali estava mais do que a assistir: a participar naquela viagem de balão…
A viagem real foi de barco, baloiçada pelos tons do poente…

domingo, 8 de maio de 2011

Let it (always) be!

Hoje é dia 8 de Maio. Nestes movimentos de rotação e de translação, o planeta parece cumprir o seu destino, à volta do sol e à volta de si mesmo. E assim deve ser e assim seja. No entanto, em cada um de nós o movimento impõe-se como se cada um de nós fosse um planeta também. À volta do nosso eixo. À volta do nosso sol!
Agora queria mesmo que fosse Verão, que o mar viesse até mim, que me trouxesse as energias que tenho perdido ao longo de uma vida que também já não é pequena.
Queria passear num jardim igual ao quintal da minha avó. Não é preciso ser desenhado de modo perfeito e de acordo com as modas arquitectónicas. Quero as árvores de fruto, os limoeiros, as goiabeiras, as mangueiras e as abacateiras. Quero os canteiros de alfaces que preenchiam de verde as traseiras da casa.
Este jardim e o mar são os elementos primordiais desse meu eixo, também ele imaginário como o eixo da terra. Ou melhor: feito de um imaginário individual, arduamente construído com guindastes de sonho e gruas movidas "a memória".
E o sol? Essa importância maior que me dá luz e calor? Persegui-lo-ei, claro!
O dia traz outras memórias. Umas são próximas: a minha amiga Luísa faz anos hoje. É um dia importante para ela. Todos nos lembramos. Telefonamos. Dizemos todos os anos a mesma coisa porque o importante não é o que se diz. O importante é que nos lembramos e telefonamos e dizemos. É um ritual do dia de aniversário.
Outros oitos de outros Maios são assinalados pela História: Lavoisier foi guilhotinado neste dia. Mas como ele próprio enunciou: "Nada se cria, nada se perde tudo se transforma." A sua morte horrenda transforma-se pois num facto histórico e assim ultrapassa as metas dos tempos.
Num outro oito de Maio, a Coca-Cola foi posta pela primeira vez à venda. Nunca se perdeu e pouco se transformou. Graças a isso permanece como bebida única e inimitável. Qual Pepsi! Qual Canada Dry! A Coca Cola é!"Let it be" imortal como tudo o que pertence e marca o nosso passado, o tal que passa pelo nosso próprio eixo, também aparece, nalguns sítios, ligados à data.
Uma data vale o que vale. Se nada se perde... let it be. São palavras de sabedoria: let it be!
Let it be Listen!

sábado, 23 de abril de 2011

João Maria Tudela

João Maria Tudela, o cantor que ouvi toda a minha vida cantar a minha cidade.
As palavras e os sons tocam-nos, ao longo dos tempos, de maneira diferente. À medida que a minha cidade foi ficando cada vez mais distante, a cantiga foi ficando mais perto. Os versos traziam-me as minhas ruas. Até me traziam a mim. A voz foi-se ligando de modo forte à minha memória, ganhou laço de família de coração e, estranhamente, o cantor não envelheceu.
Independentemente das várias modas e preconceitos da cantiga, apesar da modernização da canção, Tudela manteve-se fiel a um estilo e ficou no meu imaginário na categoria do moçambicano de verdade: aquele que assume todas as suas culturas, todas as suas almas, todos os seus tempos, os passados e até os futuros. As suas cantigas mais emblemáticas fazem-nos viajar de uma casa portuguesa, com certeza em Lisboa, num dos bairros onde mora a "alma" da cidade, até Moçambique inteiro, "que palavra tão bonita, fique lá onde ela fique, diga lá quem a disser", até à Beira, "à beirinha do mar que te beija", Lourenço Marques, a tal cidade do "não sei quê", a dele e a minha. Podemos até passar por Inhambane, que vem no mapa dos seus versos, "onde o céu é azul e o sol tem mais cor".
Conforta-me a ideia de ter sido um homem realizado a quem nunca faltaram os amigos e que conseguiu cumprir sonhos, nomeadamente ver os filhos crescer. Há pessoas assim: não podem, nem conseguem morrer!
Podemos ouvi-lo aqui!
Link "gentilmente" retirado do Miguel Innersmile. Kanimambo, Miguel!