quinta-feira, 14 de abril de 2011

"Não sei meus filhos que mundo será o vosso"

Uma conversa com o filósofo José Gil, sobre as inevitáveis mudanças no estilo de vida que se vão verificar a partir do momento em que os efeitos FMI/PECs se começarem a sentir, trouxe-me à lembrança este longo e belíssimo texto de Jorge de Sena. Já era muito verdadeiro antes de todas estas expectativas de crise profunda. Torna-se cada vez mais verdadeiro.
O filósofo José Gil fala com alguma tristeza do fim da esperança. E isso é muito mau!
Fala ainda da falta de confiança nos políticos. Será um sinal novo? Será assim tão mau? Mau é, certamente, pois a confiança é também um bem para quem a pratica. No entanto, estes homens a quem chamamos políticos já há muito perderam o estado de graça que se prolongou muito para além da inauguração da liberdade de Abril. Já devíamos ter perdido a confiança há mais tempo.Durante todos estes anos, temos depositado nas suas mãos a legitimidade de guardar a nossa liberdade, a defesa da nossa paz, o sonho do mundo melhor para todos, especialmente, como se diz nas preces, "principalmente aqueles que mais precisarem"... E então? O que é que fazem com essa legitimidade? O que é que fazem com a nossa confiança? Tratam da vidinha, tratam do emprego para os amigos e do "futuro" deles.
Está a chegar a hora da verdade: o bem comum foi desbaratado, a causa pública foi esquecida e o sonho de todos nós virou pesadelo maior.
Mas talvez sejam estes tempos difíceis uma oportunidade para reabilitar os valores perdidos!
É de valores que trata o longo texto de Sena.
"Não sei meus filhos que mundo será o vosso" - e agora dirijo-me aos meus filhos- mas desejo veementemente que seja um mundo de Verdade. Carta de Sena aqui

terça-feira, 5 de abril de 2011

Já é Abril outra vez!

Para o meu filho Diogo que me "abriu" um Abril, dando-me, para a vida, a condição de Mãe! 1 de Abril de 1975!O mundo que o recebeu sabia o sabor dos cravos, mesmo daqueles que nasciam na boca das baionetas!
Era o tempo dos minis que eram tão giros que até se dizia:"É tão giro ter um mini!".
Era o tempo dos casacos aos quadrados, adequadamente desenquadrados de todas as indumentárias preconceituadamente masculinas.
Era a moda das barbas e dos bigodes, que cresciam livremente ao som das cantigas revolucionárias, desafiando todos os bons gostos impostos por outras modas.
Era o tempo do desejo de acreditar que a vida é um bem justamente distribuído e que todos temos direitos.
Quando tu nasceste, Diogo, proclamávamos a liberdade, com a força da razão que os nossos vinte e tais anos de idade nos gritavam cá dentro!
Quando tu nasceste, Diogo, estávamos a aprender a dar os primeiros passos na democracia. Nesse teu primeiro Abril, votámos, depois de uma espera demorada em longas filas.
Mas o melhor desse Abril foste tu, meu filho! O melhor de todos os "Abris" és tu.
Parabéns, Diogo!
Já é Abril, outra vez!

sábado, 19 de março de 2011

Dia de Todos Os Pais

Se a palavra Pai fosse um verbo não podia ser conjugada num tempo de cada vez. Todos os Tempos cabem na Palavra Pai, mas o que domina e prevalece é o Presente.
O Pai é, porque a condição de pai e de filho não se remete para nenhum passado, nem se fica espera para futuro algum. O Pai está!
No nosso imaginário, mesmo quando já vivenciámos a experiência da paternidade/ maternidade, o Pai é grande e forte, é o herói que nos salva dos medos maiores.
Mesmo quando a Vida já nos ensinou que todo o ser humano tem "direito" à tentação e os nossos pais não tinham de ser diferentes, porque se o fossem, alguma coisa no princípio do Verbo estaria errada. Na mitologia do paraíso, Adão e Eva foram os protagonistas do pecado e da tragédia universal humana. Mesmo assim, a figura do Pai não sai lesada. Pelo contrário, o Pai integra melhor, à medida que a Vida avança, a dimensão humana. Mas como para ele a Vida já vai mais avançada, permitimo-nos receber o conselho, ouvir o aviso.
Acerca dos conselhos, o meu pai dizia-me que não mos dava porque eu sabia errar sozinha. E foi esta responsabilidade que me transmitiu e, através de uma recordação forte, de uma memória muito clara, permanece.
Ensinar a aceitar o erro é também Tarefa de Pai.
Obrigada, papá! Como diria o Lobo Antunes: Este é o meu pai. O meu pai é este homem bonito, alto e jovem. Há nele muitos traços de sedução que importou dos ídolos da tela. As fitas são parte da sua vida. Como na Rosa Púrpura do Cairo, a vida real e a da tela misturavam-se...A maneira de ver a vida era, como no Cinema Paraíso, o resultado do cruzamento de vários momentos e de vários Gigantes dos ecrãs.Diria como Marcello Mastroianni: a mulher é o sol, uma extraordinária criatura que faz galopar a imaginação.

terça-feira, 8 de março de 2011

Tudo vem a propósito...

Os dias vão passando e a vontade de escrever sobre qualquer momento mais relevante fica adiada pelos motivos mais comezinhos: cansaço de origem variada, preocupações, trabalhos da escola e algumas viagens que as circunstâncias da minha "unicidade" ( filha única, por exemplo!)impõem.
Então, o que é que está em atraso? O encontro com Dulce Braga, em Lisboa, na Bulhosa de Campo de Ourique, na apresentação do seu fruto, o fruto do encontro entre os dias que ficaram e os dias que são. O fruto é o maboque. Não provei o outro maboque, só provei este e o seu sabor é de uma beleza muito rara, sobretudo quando se mistura um outro sabor, o da distância,o da ausência e o da saudade. Dizem os livros de botânica que o maboque tem um sabor agridoce. Está explicado!
No entanto, o doce foi o elemento que sobressaiu, sem dúvida alguma!
Senti esse “doce” no reencontro da Dulce Braga Mulher Escritora Agora com a Dulce Menina de Angola. Além de doce, foi uma emoção linda que se espelhou nos olhos e no sorriso da Dulce. Foi uma emoção linda que passou por todos os que ali estavam a saborear um gosto antigo ou a provar um sabor, pela primeira vez, como foi o meu caso.
O convite chegou-me aos olhos pela boa vontade do Nelson Reprezas, amigo comum. Foi também uma surpresa linda que me encheu de orgulho.
O dia já estava perfeito, mas a dedicatória da Dulce deixou-me o coração embargado.
Obrigada, Dulce, pelo convite e pela escrita que me vai trazer muita emoção boa, aquela que cura feridas.
Obrigada, Nelson, por teres sido o mensageiro da mensagem boa!
E, para terminar, vou também citar, transcrevendo (página 187) umas linhas que retratam bem os dias que correm, em que o doce se dissolve mais do que a conta, nas amarguras da vida.
“Peguei no primeiro disco da pilha que estava do lado do gira-discos e o coloquei para tocar. Era um compacto de Janis Joplin, de 1970, que havia comprado numa loja de discos em Nova Lisboa, um ano atrás. Tocava a música Get It While You Can e a letra não podia ser mais apropriada: In this World, if you read the papers, You know everybody’s fighting on with each other… Don’t turn your back on your love, no, no!
Foi o que aconteceu neste fim de tarde: ninguém virou as costas ao amor, sobretudo àquele amor que nos liga a nós mesmos, por muito que seja geograficamente distante …

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Oh My Papa!


Oh my papa, for me he was so wonderful! Oh my papa, so funny, so adorable! :(
I miss him so today!
(O Eddie Fisher, "um rapaz da tua geração", cantou isto a pensar em ti e em mim, papá! Tenho a certeza!)

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

O Medo, esse Adamastor

Nota prévia: este é o texto que a Bárbara, Coordenadora da Equipa da Educação para a Saúde, me pediu que escrevesse, à laia de testemunho, no dia 4 de Fevereiro, um dia para assinalar a luta contra o Cancro.
Foi a primeira vez que o fiz, sem rodeios. Senti que talvez eu possa dar voz a um caso em que não há sofrimento e que o Medo foi o único inimigo a fazer perigar a cntinuação da vida tal qual eu a quero viver: com o Jorge e os "miúdos"; com os meus amigos, muito especialmente com as amigas que, ao longo do tempo, se vão revelando cada vez mais fundamentais no meu "respirar" de todos os dias; com a família que sabendo o quanto prezo a amizade, sentirá que não é menor incluí-los na categoria "amigos".
Aqui, na minha história, só é relevante o Medo. Não fosse aparecer alguém (Obrigada, Milú!) que, em jeito de "sentença" me obrigou a ir fazer a mamografia... Aproxima-se o dia de fazer mais uma, de rotina, e o Medo já começou a fazer estragos, a tirar-me sonos e a dificultar-me os sonhos.
Tudo o resto está bem.
Aí vai o texto que foi publicado no blog da escola, da Educação para a Saúde,Educar Para o Bem Estar!
A vida é assim mesmo.
Dia a dia, construímos os nossos dias!
Dia a dia, aprendemos a passar “além da dor”.
(Quem quer passar além do Bojador, tem que passar além da dor! disse o poeta Pessoa!)
Como é que se retoma o leme, como se enfrentam adamastores, como se prossegue o caminho, atracando a um porto seguro aqui, outro porto seguro acolá.
(Quando falamos de Adamastores, estamos a falar de medos enormes, imensos. Mas à semelhança do verdadeiro Mostrengo que guardava os mares do sul, este pode ser um mito, uma ilusão, uma dificuldade a ultrapassar…)
“Sabemos bem do que estamos a falar, quando falamos de cancro.”
Sabemos, sim. É de dor. É de medo.
Contudo, na vida, a experiência é que dá a verdadeira medida. A maturidade dá-nos esse saber. A humildade dá-nos a dica: podes e deves aprender com a experiência dos outros.
Para isso, é preciso vencer outra espécie de medo: o de falar com quem já viveu o caminho que vai da incerteza e da dúvida, à esperança e à certeza de estar à nossa espera, ao alcance das nossas forças, um tratamento que nos garante a vida.
É fundamental encarar essa fase: cirurgia, nem sempre necessária ou importante para o controle da doença; quimioterapia, tratamento que tem consequências difíceis de encarar, mas que são transitórias; radioterapia, tratamento sem dor que tem de ser encarado como muito sério porque é necessário proteger as partes do corpo que sofrem as radiações, para que seja levado até ao fim, sem problemas. Há também a hormonoterapia, específica de alguns casos de cancro e que consiste na toma diária de um poderoso comprimido que ajuda, combatendo e eliminando as condições hormonais em que o cancro apareceu e se desenvolveu.
Depois destas fases, e sempre com amigos e familiares por perto, com muito optimismo, queremos voltar à Vida.
Queremos voltar ao convívio alegre com os amigos, às conversas sobre as coisas com menos importância, aos passeios, aos teatros e cinemas, aos almoços e jantares, aos passeios à beira-mar, à contemplação do pôr-do-sol.
Ao trabalho! Aos projectos!À Vida, em pleno!
Madalena Santos, professora, 59 anos. Cancro da Mama aos 56 anos.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Convite

...para a festa dos sentidos! Será como um casamento de sentidos, sem sentidos obrigatórios e, muito menos, proibidos.
Cheguem e vão-se chegando aos livros, aconchegando o pensamento para o prazer das sensações que os Mestres das Letras prepararam. Deixemo-nos levar para uma esfera de bem-estar que dá essoutro sentido à vida. Vale a pena? Perguntamo-nos, inquietos dos desígnios desta existência efémera que se eterniza, por sinal, através desta arte ou de outras artes. E Pessoas responder-nos-ão em coro, qual tragédia grega, que sim, desde que a alma não seja pequena.
Se a alma não é pequena, habita um homem que tudo faz para ser Feliz!
Para isso, pode comer, beber, correr, dançar, ler... Porque não?
Sirvam-lhe livros à vontade, à descrição.
Como na refeição dita real, a que serve para alimentar o corpo, sirva-se primeiro uma entrada. Siga-se a substância. Saboreie-se, finalmente, o doce.
Uma boa refeição não deve deixar amargos de boca. A vida ainda menos. Os livros, é que nem pensar!
Se podemos dar de beber à dor, podemos também dar-lhe de comer.
Mas, como diz o Manual do Salvador, somos livres até de rasgar a folha!

Foi há dois anos!
O Banquete cumpriu a sua função: reuniu muitos amigos!
E assim, sem mais nem quê, ali estavam os textos que o Jorge tanto tinha insistido em publicar e que já me tinham proporcionado muitos momentos bons!
Estavam ali transformados em iguarias para celebrar afectos!
Não há palavras que possam descrever as emoções de sentir que os que estão ali estão envolvidos por dentro, pelo lado do coração e da amizade verdadeira. É um privilégio conseguir reunir tantos, de tantos lados da vida!
Ao meu lado, a Nini, aquela irmã que não falha nunca. Na plateia, as outras "irmãs" que me cobrem de mimo e que sabem da minha vida, mais do que eu, talvez... gente com quem divido o hoje e outros com quem vivi intensamente os dias mais verdes!
Falta sempre alguém, não por dizer não, mas porque a Vida não deixa.
Mas a Memória cumpre o seu papel e todos se tornam verdadeiramente presentes!

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

O que o tempo nos faz!

As coisas não têm idade e no entanto sofrem-lhe os efeitos.
Este é apenas um pormenor, um detalhe, da velha estação de comboios do Montijo.
O ferro garantiu a resistência. O pior efeito visível a olho nu é a ferrugem.
Há também a irregularidade de uma tinta já muito ida, já muito apagada.
O telheiro da velha estação encontra-se com os pilares que o suportam, nestas aplicações de ferro forjado e trabalhado, à luz de uma estética que o tempo também devorou.
A humidade da chuva, sovada pelo vento impiedoso de muitos invernos, também deixou as suas marcas, como as bexigas salpicam de covas os rostos mais belos.
Efeitos do tempo. Apenas? Não. Efeitos do tempo e do abandono!
Connosco também é assim!

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Dias de Cão

Hoje o meu dia foi dia de cão! Não sei de onde vem a expressão, mas a avaliar pela expressão "facial" do Bali, os dias de cão são mesmo dias em que nada dá certo.
O mais "irracional" foi saber que uma conta cancelada há mais de seis anos foi reaberta pelo banco há um ano e meio e só hoje é que soube, quando fui ver onde paravam os ree...mbolsos da ADSE!!!!! Os "óculos" devem ter ficado na conta para despesas. A explicação do costume.
E mais uma multa da Emel, não por falta de pagamento, mas por estacionamento indevido.
E mais uma conta da TMN a duplicar porque patati-patatá, o habitual, Dona Madalena, vamos ver e depois dizemos-lhe alguma coisa.
Amanhã gostava muito de ter um dia de gente!

domingo, 16 de janeiro de 2011

Os Dias De Nevoeiro

Os dias de nevoeiro parecem-se muito com a Vida: o que está mais para além, no tempo e no espaço, está envolto numa indefinição, numa bruma, que obriga a cuidados redobrados nos passos que há para dar!
E nós, apesar de tudo, apesar do despojo do Inverno que nos expõe numa nudez fria dos ramos sem folhas, erguemos os ramos, ou os braços, e continuamos de pé, acreditando ser possível desbravar as nuvens baixas e seguir um caminho mais perto do azul do sol!Há post gémeo no facebook

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Hoje arrumei o Natal

Hoje arrumei o Natal. Devolvi as estrelas ao firmamento. Procurei entregar os brilhos a quem de direito. Emprestei as luzes à gente que trabalha de noite. Guardei os laços e as bolas coloridas numa caixinha antiga que serve para isso mesmo: guardar o Natal, de uns anos para os outros, há muito tempo. Ajeitei o Menino Jesus e agradeci aos pais. Ainda os ajudei a embalar as prendas dos Reis que são valiosas e o caminho é longo.
Deixei o espírito de Natal mais à mão, não vá precisar dele um dia destes...
Aconcheguei tudo com algumas memórias, por causa da fragilidade da fantasia!Nota:Há post gémeo no facebook!

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

59

O dia dos anos é sempre um dia em que se misturam emoções, desde o "remoer as feridinhas de caracacá" que trazemos da infância e que, por virem desse reino distante, damos importância extrema, às outras, que não sendo tão importantes, condicionaram as nossas escolhas. E as nossas escolhas foram as que foram. Agora não há volta a dar! No conto "A Viagem" da Sophia de Mello Breyner está tudo explicado! O sentido da viagem é único.
Orgulho-me dos meus caminhos e sei que, se tivesse voltado atrás nas tais encruzilhadas de que nos fala a Viagem, repetiria as mesmas veredas, estradas,ou mesmo atalhos. São aqueles com quem vivo e convivo que me fornecem, diariamente, a dose de energia que todos precisamos para andar, correr, percorrer.
A Sorte tem-me ajudado muito nos momentos menos fáceis e, por isso, nunca lhe virei as costas, nem nunca me queixei dela. O limite da sua acção é a condição humana, ela mesma!
Hoje é o primeiro dia de mais uma caminhada de trezentos e sessenta e cinco dias.
Já dei os primeiros passos. Agora é só seguir!

domingo, 2 de janeiro de 2011

Primeiro Pôr-do-Sol

É o meu complexo "Petit Prince": não perder um pôr-do-sol. Só que eu tenho de me contentar com um por dia e, "ele há dias", em que nem se dá por ele, por razões que desconheço. Nesses dias, o escuro da noite cai, aparentemente, sem mais explicações.
Ou talvez seja apenas para cumprir o movimento de rotaçã: a voltinha inteira que a terra tem de dar. Essas coisas das Ciências nunca foram do meu conhecimento profundo! Eu prefiro acreditar que o Sol é um Rei e que manda nas Estrelas todas e há dias em que não lhe apetece "dar espectáculo".
Razão tinham os egípcios que, pelo sim pelo não, lhe prestaram culto e o elevaram à categoria dos deuses. Rá, chamavam-lhe assim!O primeiro dia do ano reveste-se de muitos simbolismos. Parece que neste dia tudo é possível recomeçar do ponto de partida. Por muito que saibamos que , tal como o sol a descer sobre a terra, sobre o rio,tudo isto é emoção e ilusão, não deixamos de sentir e, pelo menos eu, não deixo de experimentar alguma vontade em fazer tudo certo, como se nos pudéssemos despejar dos erros num contentor da rua, de cor ainda não determinada. Não tem nome mas, de acordo com a lógica dos contentores do lixo, pode vir a chamar-se "Errão".
No entanto, a pedagogia do erro é qualquer coisa que se apregoa, mas tenho para mim que só se verifica em contexto académico e muita da teoria se fica por isso mesmo: teoria. Richard Bach falava a certa altura, no seu Manual do Salvador, na reivindicação dos erros. Eu reivindico os meus porque me pertencem, mas não sei se me orgulho muito em fazê-lo.
Inseguranças, dúvidas... Quem as não tem?

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

O Sonho (Im)Possível

Sonhar mais um sonho impossível...
(Mais um ou mais alguns! Há prioridades! Há opções! Há gradações de possibilidade! O importante é mesmo não deixar de sonhar. Acordar todas as manhãs com o sonho bem desperto. Senti-lo a correr nos nossos braços que diariamente se fazem à luta. Só o sonho suporta. Só o sonho alimenta.)
Toda a cantiga nos remete para o mundo de projectos que são comuns à humanidade.
Toda a cantiga nos adverte do esforço que nos leva adiante: lutar quando é fácil ceder. Reescreverei: lutar porque não é fácil ceder.
Vencer o inimigo invencível? Com armas de papelão!
(Sim, outro Cavaleiro do Sonho: Dom Quixote!
Não é fácil dissertar sobre os inimigos. A minha vitória será impedi-los de conquistar a minha tranquilidade, a minha paz interior.)
Quantas guerras terei de vencer? As que tiver de vencer!
Não me interessa saber se é terrível demais, pois o importante é tornar provável o voo improvável, expandir os limites e manter acessível o tal impossível chão da realidade.
"Por um pouco de paz"? Não. Eu quero a Paz inteira!
Essa sim, é o sonho (im)possível!
"E o mundo vai ver uma flor
Brotar do impossível chão"

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

O Ano Do Flamingo!

Dois mil e dez foi, sem dúvida, o ano do Flamingo!
O Flamingo trouxe um encanto especial às nossas vidas, ao longo da segunda metade do ano!
Quando apareceu, no Cais dos Vapores e o vi, pela primeira vez, não podia sequer imaginar que nos viria a proporcionar tantos momentos felizes.
Começou por ser uma pequenina história no Chora. Depois cresceu e envolveu-se ainda mais na beleza da Zona Ribeirinha e, com o contributo da verdade das coisas, tornou-se no livrinho que viu a luz do pôr-do-sol no dia 17 de Junho.
Foi a primeira onda de emoção do Flamingo Zé! Acho que não lhe disse, ao Flamingo, na altura, mas uma coisa que temos de aprender na vida é a viver os momentos bons e felizes, já que é uma felicidade sermos aprovados por pessoas que admiramos e de quem gostamos com o coração inteiro.
Senti a falta da Nini ao meu lado. Li a carta que escreveu de Nova Iorque para os meninos que estavam presentes, na primeira apresentação, no último dia de aulas, mas mesmo assim senti a falta dela. Ainda por cima, os nervos de estar perante um público notam-se mais em mim do que nela. A Marta e a Regina tornaram a sessão muito especial, também elas carregadinhas de emoção e de nervos que acabaram por prestar um serviço inestimável àquele fim de dia.
Um mês depois, veio a segunda onda, com a Nini já regressada das Américas. Nesse dia 23, juntámos os amigos e celebrámos, a preceito, a chegada do Flamingo às nossas vidas. Beijinhos, abraços e flores!
Obrigada, Flamingo! Obrigada, Nini! Formar equipa contigo parece-me a coisa mais natural do mundo. A minha admiração por ti é enorme e sinto muito orgulho em contar contigo para estas aventuras mais ou menos literárias que servem o objectivo de fortalecermos ainda mais esses laços, de os passarmos aos nossos filhos o que, no caso do Flamingo, foi bem evidente. Obrigada, Anita, por fazeres também parte desta equipa “maravilha” com o teu saber de “Editora” acrescido de carinho.
Obrigada, Jorge, por me “obrigares” a levar a sério o projecto do Flamingo e por me acompanhares com tanto entusiasmo nas voltas e reviravoltas das escritas, das publicações. És o “verdadeiro” manager!
Obrigada a todos. Tenho o P de Presente gravado no coração.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

S de...

Era uma Senhora com S grande, como se diz quando a palavra faz jus à ideia que representa.
A beleza talvez não fosse o seu traço mais marcante, mas tornava-se especialmente bela pela harmonia, pela sintonia com o bem que a sua presença emanava.
Sorria naturalmente e por isso os mais simples, as crianças, por exemplo, aproximavam-se e olhavam-na com a admiração inteira de quem tem palmo e meio de tamanho por fora e um arranha-céus de esperança por dentro.
Cresci com os olhos postos nela. Passei de criança a adolescente e quando tocou a pôr em prática os sonhos ela estava lá, como que a aprovar os caminhos percorridos. Percebi assim que todos os que tinham crescido comigo a veneravam de maneira especial. Percebi assim que estávamos perante um património de valores que uma geração tinha tecido em prol do sentido da vida, em prol do valor maior da humanidade!
(Ao longo dos meus dias “úteis”, falei desta senhora aos meus filhos e aos meus alunos, enfim aqueles por quem sinto uma responsabilidade directa na manutenção do tal sentido da vida!)
E a vida passou como os dias do circo: umas vezes em festa, com o calor humano das bancadas; outros dias, a dar de comer aos leões; outros, a treinar os bichos e todos a contar os recursos para o sustento de cada um.
(E todos, mesmo os leões mais ferozes e bem alimentados enfraquecem e entristecem!)
O certo é que a presença da Senhora com S grande começou a faltar-me. Por vezes, dei por mim, no meio de verdadeiras multidões, à procura dela. Por vezes a minha imaginação delirou tanto que julguei tê-la encontrado.
A última vez que isso aconteceu foi na escola. Pareceu-me vê-la passar. Preparava-me para dizer aos alunos quem era a senhora que ia ali a passar, mesmo junto à janela. Aproximei-me e fiquei de nariz colado ao frio do vidro, tolhida pela desilusão. Não estava lá ninguém. Foi o silêncio das crianças, habitualmente prontas para aproveitar toda e qualquer pausa, que me devolveu à realidade.
Pus-me a fazer contas às muitas vezes que senti a sua presença doce. Foram muitas! E a recordação dessas muitas vezes continua a dar-me alento. Porém a sombra da sua ausência nos últimos tempos paira nas minhas alegrias tanto quanto nas minhas tristezas.
Se alguém a vir por aí diga-lhe o quanto eu tenho sentido a sua falta. Espero que não tenha morrido.
Espero ainda que venha conhecer os meus netos!

terça-feira, 23 de novembro de 2010

O par romântico por excelência!

Chegou, conduzido nas traseiras do volumoso e atraente Qashqai cinzento-violeta, qual criatura principesca que não descura qualquer pormenor…
Ao longo da viagem, apreciou a planura e o silêncio calmo do lugar parecia entrar-lhe pelos olhos adentro. Não fora a membrana que lhe impede de algum modo a visão, esta seria a mensagem perfeita de paz e tranquilidade a enviar ao um cérebro habituado à turbulência de um dos mais animados bairros de Lisboa. Se lhe tivessem perguntado se lhe agradava a ideia de passar uns dias ali, só por esta primeira impressão, diria certamente que sim.
Ao longe, a paisagem parecia mover-se em novelos de lã. Não era possível a nitidez desejada. Mas a ideia de tocar nos novelos de lã que ondulavam no campo também lhe agradava.
Mas a melhor surpresa estava ainda reservada, porque a melhor é normalmente a derradeira! Uma “igual” esperava: como se o destino tivesse escrito o guião e a “diva” ali estivesse guardada naquele silêncio e recato, aguardando o momento mágico que os contos de fadas preconizam como verdadeiro desencadeador da felicidade perfeita.
Assim que se viram não caíram nos braços um do outro, mas foi como se tal tivesse acontecido.
Assim que se viram, travaram conhecimento como a espécie faz: cheiraram-se e depois largaram a brincar pelo campo fora, quais corças ou outros elegantes animais próximos na cor e na graciosidade.
E foi de tal modo o encantamento que o Bali não queria vir embora, regressar à cidade, à casa “paterna”, a Campo de Ourique, que de campo só tem mesmo o nome. Para regressar ao Qashqai foi preciso enganá-lo e fingir que a Princesa Encantada faria também a viagem. Só assim ele tomou o seu lugar!!!!!
Aguarda-se um desenvolvimento: o amor à segunda vista, ou como o Bali e a Vicky caíram apaixonados nas patas um do outro!

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

8 de Novembro de 2003

Foi uma onda de emoção.
O livro primeiro. Singelo, simples mas digno da atenção dos amigos de sempre e de outros que, à força da leitura, ficaram amigos também.
Não hei-de eu estar grata às letras?!
Também estou grata a quem me lançou na aventura da escrita, através da publicação no jornal, o meu amigo Luizi e à Nini, que pegou em tudo e entregou a uma editora. À editora, Ana Barradas, porque confiou e me proporcionou outra alegria extra: as suas origens coincidiam com as minhas.
E o "Polivalente" da minha escola encheu-se de alegria, de amigos, de flores...

sábado, 6 de novembro de 2010

Coisas...

Hoje passei parte do dia a ouvir as cantigas que me ajudaram a criar os meus filhos.
Sim, não foi só cerélac e nestum; não foi só beijinhos e palmadinhas nas fraldas; não foi só colégios, escolas, professoras e livros de estudo e outras histórias; não foi só brinquedos, playmobil, legos, triciclos, ténis, triciclo e e fatos de treino; não foi só ir ao médico, levar picas, apanhar vacinas e tomar benurons; não foi só férias de campismo por esses países vizinhos; não foi só o primeiro fato a sério; não foi só conselhos e outras recomendações...
Foi também cantigas de Zé Barata Moura e da Ana Faria!
Foi o que eu hoje recordei com imenso gosto e muita vontade de repetir se a Vida assim o entender. Para já, já fiz o que era para ser feito.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

E o "Prémio Janine" vai para...

Por razões que a Teresa explica melhor do que eu, resolvi instituir o Prémio Janine que se destina, antes de tudo, a homenagear a Princesa de carne e osso, Princesa de verdade, sobretudo no que toca ao coração, que nos habituou à sua presença carinhosa e ao seu sorriso terno e muito grande e, assim, semeou uma amizade linda. Por isso lhe estou grata. E por todos os momentos em que fui presenteada pelas palavras lindas e carinhosas da Janine!
Vale a pena instituir o Prémio Janine, não vale?
Então suba o pano e comece a cerimónia da entrega. Eu vou pedir à Janine que seja ela mesma a fazer esta entrega.
O primeiro Prémio Janine vai para a Sofia. Sim, a "minha" Sofia. Para além de linda, esta Sofia é também adorável. Não posso pôr-me aqui a dissertar sobre as imensas virtudes pois acho que a timidez que a caracteriza não ia "gostar". Espero saber sempre merecer o carinho da Sofia.
O prémio que se segue é um colectivo: para todas as minhas "amigas novas". A Célia que vem aqui espreitar e sabe que eu estou a falar dela... E da Balbina que tem agora uma barriga do tamanho de uma bola de pilates... Da Ana Novais que me protegeu imenso quando eu regressei à escola depois "daquilo". Da Patrícia, a minha filha da escola, que faz das fraquezas forças e tem sempre um sorriso lindo para oferecer. Da Sandra, como o seu jeito zen, muito "boa onda", a transmitir às pessoas a tranquilidade que é tão difícil de trazer à tona dos nossos hábitos. A Noémia que já está a ficar uma "senhora" com mil cuidados com as suas bonecas. Sérias candidatas a futuros Prémio Janine são outras duas meninas: a Ana Nieto sempre delicada e atenta com os nossos meninos difíceis e a Vanda.
Fora da Escola, tenho também outras indigitadas: A Rita, a minha Rita, minha afilhada, fisioterapeuta, umas mãos de ouro... A Marta que "corrigiu" o Flamingo e que me acompanhou na aventura com a doçura que eu lhe conheci quando eu e a mamã dela vizinhávamos as barrigas e depois os bebés. A Regina, a Cristina, A Sofia, outra Sofia, a Patrícia, outra, a Rita, outra Rita...
E ainda tenho outro Prémio Janine. Sentem-se. É um menino. Tem vinte e tais também e também é médico. Conheci-o na Associação dos Amigos dos Castelos. Aos poucos fui percebendo o seu valor, o valor dos seus conhecimentos e a capacidade de se dar aos outros. E não é só jeito de médico. É mesmo jeito de pessoa, jeito de gente. É o Bruno Carrilho.
Obrigada, querida Janine por teres contribuído com o teu sorriso para a instituição deste Prémio.
Encerro esta sessão com um agradecimento a todos os nomeados e premiados, pela simples razão de serem muitas vezes a palavra que precisamos de ouvir, o abraço que precisamos de dar e receber.(Aguardem as fotos da cerimónia. Estão no Fotógrafo!)

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

"Ardente Paciência"

É a tradução da capacidade de esperar por alguma coisa ou alguém, com um desejo tão forte, tamanho, que pedir-se a vida inteira não é demasiado.
Ontem soubemos que a ardente paciência pode atingir profundidades quase inimagináveis, pode semear a esperança e fazê-la crescer auto-regada, magicamente, combate a tristeza e o medo, alimenta a alma e, quem sabe?, o corpo, no intervalo do atum e do leite, encurta os dias, antecipa as datas, acelera os minutos e ainda lhe sobra energia para festejar, festejar, festejar.
"Poça, como eu gostava de ser poeta!" A frase é de Mário Jimenez, o carteiro de Neruda!
"Ardente paciência" é o outro título do Carteiro de Pablo Neruda, de Skarmeta.
Ele lá sabia que a ardente paciência havia de irromper de um chão bem fundo e encher o mundo de alegre gratidão.
Viva a ardente paciência!
imagem daqui

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

O mundo...

... e a humanidade precisa que esta missão seja completamente sucedida.
Ao investir na vida de trinta e três homens, o governo do Chile e aqueles que o ajudaram, deram ao mundo uma lição de humanidade.
Há muito tempo que não víamos o valor do Homem sobrepor-se ao valor do dinheiro!
Investiu-se no resgate de trinta e três homens que representam apenas o que nós, eu e os meus, representamos: a Vida Humana. Eles contribuíram com uma imensa coragem, com os sinais de esperança sempre com níveis elevados, com uma imaginação prodigiosa que os levou a conseguirem manter a forma física durante todo o tempo, com uma fé inabalável, com desejo de voltarem a abraçar a gente amada, com a persistência da vida, apesar dos pulmões doentes e outras fraquezas do corpo.
Foi o dia de voltar a acreditar que nos homens!
Felizes aqueles que abraçaram estes mineiros. Tocaram na matéria de que se faz um herói. Tocaram na matéria de que se faz um Homem!
Para Todos os que contribuíram para este Dia: Obrigada!
E para rechear de beleza o momento já de si tão belo, nada melhor do que procurar nos clássicos e consagrados: I can no other answer make, but, thanks, and thanks.
Shakespeare! O momento merece.
Este é, sem dúvida, o Presente Mais-Que-Perfeito!

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Chora Que Logo Bebes: Vim então nascer aqui...

Chora Que Logo Bebes: Vim então nascer aqui...: "... a Lisboa.De onde saíram os 'uns' que descobriram os 'outros'. Essa Lisboa de que me falavam e que eu nunca tinha visitado, nem mesmo de ..."

domingo, 3 de outubro de 2010

Um outro tempo: o Pretérito

Hoje o tempo e a conversa sobre o tempo fez-se sentir, pelas razões que a todos doeu no corpo: choveu e o frio ameaçou chegar à nossa vida para ficar por uns meses a viver à nossa custa.
Eu não usei roupa de inverno, e, talvez por isso, estou febril e cheia de dores no corpo.
Mas o tempo também é contagem de dias, anos, séculos.
O outro tempo sente-se. Este tempo passa sem que o sintamos, a não ser quando as coisas vão longe, muito longe.
Sinto o tempo nos cabelos brancos que pinto, com uma frequência cada vez maior, porque gosto mais de me ver com os cabelos escuros. Sinto o tempo nas rugas que indelevelmente marcam a minha cara e as mãos. Sinto o tempo na flacidez dos músculos.
Sinto o tempo nas dores das pernas. Sinto o tempo nas manchas da pele que me aparecem na cara e nos braços. Sinto o tempo na idade adulta dos meus filhos. Sinto o tempo na falta que me dói não os ter ao colo, nem ir com eles ver as histórias intermináveis ou outras mais termináveis... Sinto o tempo dos outros porque também têm rugas, cabelos brancos, óculos de ver ao pé e já deixaram de fumar. Sinto o tempo, no tabuleiro dos remédios que está em cima da mesa da cozinha. Sinto o tempo, na incerteza de realizar projectos, de ler livros, de escrever, ou de aprender a dançar.
Apesar de Imperfeito eu gosto do meu Presente e gosto de olhar para trás, para o Pretérito Perfeito, para o Mais-que-Perfeito e até para o Imperfeito!
Imagem - Pretérito Mais-Que-Perfeito

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

...esqueceste-te do texto...

Não, Jorge, não me esqueci do texto!
Eu sei que o poeta maior legitimou o ridículo das cartas de amor. Mas a nossa geração entranhou a noção do ridículo e não se expõe com facilidade. Pelo menos em palavras. Na primeira declaração de amor ficava esgotado o risco de ser gozado. Não era fácil dizer "adoro-te" e muito menos "amo-te". Je t'aime e I love you ficavam tão bem na tela ou no vinil! Mas, quando a realidade batia à porta, não íamos além da puerilidade de "Eu gosto muito de ti!". Era o pudor das palavras no seu esplendor.
Não me esqueci do texto! E se tivesse optado pelo texto, teria referido, em primeiro lugar, a tua honestidade e, em segundo lugar, a irreverência que cria os seus engulhos, mas que acaba por ser também apreciada por muitos.
Se tivesse optado pelo texto, ter-me-ia referido ao teu papel de pai. Aliás, basta ver a ternura com que os teus filhos te tratam e como, naturalmente, a tua relação com eles evoluiu para o que é hoje, hoje que eles são gente crescida e com responsabilidades.
Também és um sogro "à maneira"! Acho que posso afirmar, sem risco de contestação.
Mas eu só te conheço há quarenta anos. E só me "dou" contigo há trinta e nove. Pois é: levei um ano a adaptar-me à tua irreverência e, durante esse ano, fiz campanha contra ti junto das minhas amigas. Dizem que quem desdenha quer comprar. Mas eu não queria. Caí da escada e magoei-me. Para não ir ao hospital, recorremos a ti, porque ali eras praticamente doutor. Quarto ano de Medicina já dava para confiar!!!
O resto da tua vida, pertence aos teus pais, pertence-te só a ti.
Um dia, numa cerimónia pública (com uma ministra e tudo!) agradeceste aos teus pais terem-te ensinado sempre o caminho da verdade e nunca o do interesse. Como eles mereceram esta expressão de gratidão, este certificado de "Os melhores Pais do Mundo" que lhes entregaste!
Se eu tivesse optado pelo texto, não iria dizer "eu amo você" porque tem direitos de autor!!!

sábado, 11 de setembro de 2010

Cohen, "Our" Man

Dance me to your beauty with a burning violin
Dance me through the panic 'til I'm gathered safely in...

Com jeito de quem responde a um pedido, a voz de Cohen "dançou-nos" até à mais íntima das nossas emoções. Cohen não precisa ser maior, nem parecer mais robusto fisicamente. A voz e a certeza que transmite conduz-nos numa dança, às vezes veloz, outras vezes nem tanto! O chapéu ajeita-lhe a figura magra, esquelética e o gesto de tirar o chapéu como saudação ou respeito é repetido vezes sem conta, ao longo das três horas e muito que dura o espectáculo. Poucas vezes o ecrã gigante transmite a imagem da cabeça quase toda branca. Na tela aparece quase sempre um Cohen do peito para cima, com destaque privilegiado para o rosto. O resto é um chapéu. Cinzento, neste caso. Não sei se muda de show para show. Mas o chapéu empresta a esta figura a tonalidade da sedução de Humphrey Bogart. E o microfone acrescenta-lhe o charme, à falta (abençoada falta!) do cachimbo ou do cigarro que compunha muito a figura do sedutor dos anos cinquenta.
Cohen começa a cantar de joelhos, levanta os olhos do chão e pousa-os no guitarrista que se agarra ainda mais às cordas e dedilha fortemente para acompanhar a força das palavras cantadas pelo nosso "Homem".
O palco está cheio de estrelas. O público é bem comportado. Na sua maioria, jovens dos anos sessenta vieram mascarados de pessoas "normais" (até um ex-ministro disfarçado de pessoas normal lá estava!), mas os sucessivos "encores", levaram-nos a "soltar as paredes" de uma correcção postiça e aí foram eles olhar de perto a Lenda, ouvir mais perto, sentir mais perto. E irrompe subitamente um cenário de "beatlemania" junto ao palco. Tudo canta!
Gostei!

domingo, 5 de setembro de 2010

Crise de idade

A ideia dos recomeços sempre me atraíram Atrai toda a gente, penso eu. Sempre senti uma alegria imensa em começar o ano lectivo. No ano em que estive de baixa, assim que acabei a radioterapia, liguei a pedir junta, para voltar o mais cedo possível, antes que o ano lectivo avançasse e eu perdesse aquelas primeiras emoções. É como amanhecer: quando o nosso estado geral é dominado pelo bem-estar, pela saúde, pela harmonia. Quando alguma coisa corre mal, o amanhecer é uma angústia: o que é que o dia me reserva?
Eu estou por aí, pelo meio... Nem feliz, nem infeliz! Instável! E tudo porque entrei numa crise de idade, numa plena consciência que a juventude só permanece no plano de uma memória de coisas muito boas e pelas quais devo erguer as mãos ao céu. Mas não! Enrolo-me, numa tristeza vaga mas dolorosa e penso em mil maneiras de contrariar este sentido único da vida, “incontrariável”.
Hoje, tenho estado a ler um livro muito interessante e muito filosófico, muito "chinês", muito longe da agressividade que caracteriza a nossa maneira de viver, logo nos primeiros anos de escola.
Fez-me bem. Fui tirando uns apontamentos para o Facebook. Nada de muito relevante. Simples.
Depois encontrei imagens de um lugar que "visitei" há um mês... Talvez levada pela leitura, encontrei nas imagens uma ideia de tranquilidade, que me faz muita, muita falta.
Da Natureza aprendo e colho a tranquilidade, directamente do "produtor", como deixei no Facebook.
Continuo a olhar e pergunto, à paisagem, que idade tem. Parece-me ouvir "eternidade".
Afinal, nem tudo o que tem idade, ou mesmo eternidade, assusta ou desmerece um olhar mais prolongado…

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Um regresso para dizer adeus

Hoje regressámos à escola. Todos os professores, no dia um de Setembro invadem as escolas. Uns estão mesmo a chegar de férias. Outros já lá estão a trabalhar, nas preparações do arranque do ano lectivo. Mas no dia um é o grande regresso e uns juntam-se aos outros.
Este ano, infleizmente, muitos já se tinham encontrado por tristes razões. O reencontro foi marcado pela tristeza, pela falta e pelo adeus a um grupo de professores que vai para a nova escola. Fizeram uma escolha e foi uma boa escolha. Uma escola nova, a estrear é apetecível para todos. Mas não podiam ir todos e não quiseram ir todos. Hoje foi o último dia no mesmo espaço!
Vou sentir-lhes a falta! Vai doer essa falta em muitos de nós!
Boa sorte, Patrícia! Boa sorte, Regina! Boa sorte, Luís! Boa sorte, Sandra! Boa sorte para todos. Boa sorte Virgínia! Boa sorte, Elisabete! Boa sorte, Adelaide!
Para os que vão e para os que ficam!

Madalena 3G

Cena Um
Casa da Avó Nel, sala de estar contígua à cozinha
Avó, Avô, Mãe, Irmão, Jorge, Madalena (eu) e Madalena(ela)
Madalena, eu - Gosto tanto da tua mãe!
Madalena, ela- Mas tu foste mãe dela?
Acredito que as crianças 3G confirmem a sabedoria milenar: mãe é mãe e não há amor que se lhe compare...

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

As estaladas que nunca darei...

O quintal da minha avó era o cenário de todos os "filmes" das nossas infâncias. Nossas: minhas e dos meus primos!
Era aí que ensaiávamos a vida de crescidos. Debaixo de uma abacateira, protegida pela sombra e pelos sons da folhagem que mexia com os ventos, fiz muitas refeições para as minhas bonecas. Depois sentava-me à mesa com elas, eu, uma espécie de Gulliver, conversava e contava-lhes as minhas histórias, os meus problemas, as minhas dificuldades em fazer amigos ou em conseguir que as pessoas gostassem de mim.
(De dentro da casa, pela janela da cozinha, chegavam os sons da vida, o barulho dos tachos de alumínio, o barulho do azeite a fritar as batatas, a "martelada" para amaciar os bifes... A minha avó e a minha tia faziam todas as lidas da casa. A minha tia cantarolava. Era muito bem disposta a minha tia! Se a olhássemos fixamente nos olhos, dava uma gargalhada e dizia uma piada.)
Miúda mal disposta e parva era eu! Batiam-me e eu nada! O medo tolhia-me a iniciativa de bater e até o direito de bater também. Um dia atrevi-me a dar uma dentada à minha prima Madalena. O que eu fui fazer!!!! A minha tia ficou zangada e fez-me sentir verdadeiramente mal: daquela dentada podia resultar uma doença grave! E ali fiquei eu, encolhida e cheia de culpas.
Cresci, nem sei bem como!, e nunca andei à pancada! Levei algumas tareias dos meus pais. As célebres tareias de chinelos que raspam e não magoam. Encenação eficaz. Mesmo não doendo, ficávamos sempre a pensar que um dia podia doer. Essa preocupação já era suficiente para moderar o impulso para o disparate. Levei reguadas injustas. Essas magoavam a inocência! Foi no Colégio. Essas ainda me doem!
Não gosto de cenas de reguadas nem de pancadaria, daquelas em que os intervenientes ripostam um a seguir ao outro, sem fôlego...
O que eu gosto mesmo é daquelas cenas de "estalada". Aquela estalada bem dada e bem merecida! Daquelas que enchem os ecrãs e a sala, nos filmes!
Dessas nunca levei.
Dessas nunca dei.
(Nunca dei, mas tenho pena! Há quem as mereça!)

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

O absurdo segue dentro de alguns dias...

-Sabes muito bem o que é o talento: antigamente, chamava-se-lhe inteligência, mas se disseres assim, chamam-te fascista; digamos a capacidade de ensinar, mas a capacidade natural, não a que te ensinam nos cursos de formação.
Paola Mastrocola, Eu até sei Voar

Estamos mesmo a falar de escola, de professores e de alunos, que pelos vistos são iguais em todas as sociedades civilizadas, entre aspas, claro, e de sistemas educativos, que, nessas mesmas civilizações, também são iguais. Tudo isto a propósito de um livro que li há alguns anos.
Não consigo fazer uma síntese organizada do que li, por isso atrevo-me a recomendar-vos este livro. A dizer-vos que é obrigatório para professores, alunos, pais e encarregados de educação (Quase todos se incluem numa destas categorias, eu penso!), motivando ou provocando quem ler estas linhas, com pedaços de texto. Mas a experiência segreda-me: o status quo é verdadeiramente omnipotente e as coisas ficam sempre como estão!
Canaria é um professor “apanhado” pelo crescente insucesso do sistema. Como a Carla, a professora, ou como nós o entendemos! A angústia cresceu tanto dentro do pensamento, que tomou conta do entendimento e dos comportamentos. Parece um doido varrido a deitar contas ao sistema de ensino.
“- Não há nada a explicar. ( diz o Canaria, que dá Ciências, à Carla, que dá Italiano) Querem uma escola mais activa? Com mais horas, mais aulas, mais turmas, mais alunos, mais disciplinas, mais anos, mais tudo? Muito bem, então há que aumentar o número de professores, claro.( ...) Mas o que é que acontece? É simples: como a excelência, em todos os domínios, só pode ser atingida por uma minoria exígua da população, se aumentas o número, dás por ti a pescar na maioria e a apanhar peixes cada vez menos excelentes, mais médios, mais medíocres. E assim baixas o nível médio da classe docente.”
Tão simples, não é verdade? Tão incontestável! Mas atenção, este professor é incómodo, diz verdades e, pior que tudo, pensa-as. A maior parte de nós já perdeu o treino de pensar e o tempo para o fazer também. O sentido do dever impõe-se e, quando damos conta, passaram anos e o nosso nível de exigência já está pela metade e os conteúdos leccionados pela terça parte. Quem perde? Todos! Especialmente as nossas crianças que nunca conhecerão uma escola “a sério”. Conhecem aquela escola simpática, pouco exigente, que os vai conduzir a um mero diploma do Ensino Básico. Ou talvez o ponha à porta da Faculdade, quem sabe? Mas não lhe venha pedir contas, se não conseguir sair de lá a tempo e horas de começar carreira profissional, antes dos cabelos brancos.
E há ainda a doença mais grave deste sistema: a burocracia. Burocratizou-se o talento, o desejo, a intuição, a vontade... É preciso é haver muitos papéis, muitas circulares, com muitas folhas. Na escola de Carla “o Plano Anual de Escola tem trinta e duas páginas”.
“Pergunto a mim mesma como se diferenciarão as outras escolas, se a nossa ensina a falar, ler, escrever e estudar. Que pena eu tenho das outras escolas! O que é que inventarão para nos superar, para vencer a nossa terrível concorrência?” Desabafa a professora. E ainda há os chavões que metralham a torto e a direito, magoando, matando qualquer boa intenção.
E esta professora ganha realidade com uma família, marido e dois filhos, que vivem os seus problemas, que se angustiam com os dramas dos alunos da mãe, da mulher. Carla também se preocupa com Mário, o marido. Preocupa-se com a tristeza dele. Também a ele, homem de computadores, lhe roubaram criatividade. Já vem tudo feito no Windows. É tudo uma questão de janelas e menus. Na vida também. É preciso clicar na janela certa, ou encontrar o nosso caso no menu. Coitado do Mário! “Coitados dos jovens. Não podem pre-ver, pro-gramar, pro-jectar.”
E há também as galinhas. O galinheiro é quase um laboratório sagrado, onde livremente Carla pode ensaiar o seu talento: ensinar! Nem que seja uma galinha a voar! Inscreve-se num concurso e ganha um prémio: a galinha voa. Mas, “Eu não crio galinhas: eu sou professora.” diz ela.
O absurdo segue dentro de alguns dias...
(Parte de uma sugestão de leitura publicada na Nova Gazeta, "aventura" que me deixou saudades, sobretudo pela amizade que nos unia (Obrigada, Luizi, por me teres convidado! E pelo tempo que nos era "deixado" para "criarmos" as nossas galinhas sem falsos complexos de culpa!)imagem daqui

sábado, 21 de agosto de 2010

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Dia Mundial da Fotografia. Bem-haja, Vasco (Focarte)!

Neste dia, dedicado à arte que permite reviver em qualquer momento o instante que passou, gostaria de homenagear especialmente o primeiro fotógrafo que conheci e que guardou para sempre a beleza da minha mãe, adornada de muita tristeza, mas, mesmo assim, beleza; a não menos bela figura do meu pai, adornada de ares de sedução que praticou a vida toda e até a amizade que nos uniu, a mim e à filha Teresinha, minha companheira real de vidas faz-de-conta, em que adormecíamos as bonecas como se fossem os nossos filhos, à sombra do caramanchão que emprestava ao cenário a luz suficiente, para que o irreal parecesse real.
Bem-haja, Vasco!

domingo, 15 de agosto de 2010

(...)

Adeus, Guilhermina!
Estamos profundamente tristes e é muito difícil entender a tua partida.
"Se memória desta vida se consente"... É esta a eterna esperança.
Que a tua família e os teus amigos encontrem algum conforto que os ajude a continuar a vida como tu gostavas que fosse vivida.

Balanço algarvio

A vida é feita de nadas, diz o poema de Torga e a cantiga do Sérgio Godinho. A cantiga diz "pequenos nadas".
E, até hoje, eu dava razão aos poetas. Foram uns nadas muito breves que me animaram esta espécie de férias no Algarve. Foi a coincidência das minhas amigas de adolescência estarem cá e perto que deu um sabor diferente aos dias, à praia, aos jantares, aos preparativos da praia e dos jantares. Estando juntos voltámos a ter dezoito anos e a conversa mais séria do mundo desaguou sempre em sonoras gargalhadas. (Os nossos filhos olham-nos com aquele ar de pais desiludidos e não dizem mas pensam: não há nada a fazer!) Resolvidos que estávamos a esquecer as mazelas do presente, os momentos que vivemos juntos contribuíram para uma reorganização de valores que, podendo não estar completamente certa, proporciona muito mais bem-estar e tranquilidade.
Concretizámos um programa agendado há algum tempo: visitámos a minha mãe que quis saber tudo sobre cada uma das “meninas”. Ela própria recordou, com ternura e alguma alegria, o casamento que lhe queríamos fazer com o pai da Lalá. Desfiou outras recordações. Escrevemos um postal à laia de registo para memória futura e lá a deixámos com um bocadinho mais de alegria que talvez lhe dê força para algum tempo, tempo dela que é, inevitavelmente, marcado pela resignação e por alguma tristeza.
E aqui é que a cantiga e o poema deixam de ter razão. A tristeza não é um nada. A tristeza enche que nem um grande tudo. Demole os nadas que nos animam os dias e, provavelmente revela-nos a verdadeira importância da vida e nos leva a uma conclusão: esta é uma passagem curta. Uma colega minha faleceu. Era mais nova do que eu e depois desta notícia como é que vou viver com alegria sabendo que a falta dói na casa de alguém que me é próximo, alguém que dividiu comigo os dias de trabalho, alguém que me apoiou nas causas muitas vezes perdidas quase à partida?!
Descansa em paz, Guilhermina!

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

(...)

Tem dias em que a Vida nos oferece um pôr-do-sol mágico. E ainda, um baloiço, para que, descansadamente e baloiçadamente, possamos participar nesse deslumbramento da natureza.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

A memória do salto alto

Eram "Channel" diz a Zé, muito entendida em moda, desde sempre!
Não sei se ela tem razão ou não. Sei só que esses sapatos nos deram a sensação de termos "subido" na vida. Era o consentimento por parte dos nossos pais de que já não éramos crianças. E era isso que queríamos: que deixassem de nos considerar crianças. Estávamos crescidas, sim! E os nossos pais sabiam e, por isso, tinham acedido ao salto alto para o casamento da Mena. O sonho não era o casamento. O sonho era mesmo a nova condição que inauguraríamos no dia do casamento: Menina Maria José Sá e Menina Madalena Gouveia. E os sapatos eram lindíssimos, achávamos nós, na altura! Rendados, sem calcanhar, um salto pequeno que nos alteava a figura e nos fazia entrar no mundo dos mais crescidos. Não iríamos mais dar a mão ao nosso pai ou à nossa mãe. A partir daquele momento a nossa mão estava reservada para um belo príncipe que nos levaria, pela mão, ele, sim, para um sítio qualquer que nós já tínhamos imaginado mil vezes. E aí o casamento da Mena voltava a ser sonho e a activar um sonho igual.
Mas para usar salto alto, era preciso saber poisar o pé no chão e levantar depois do "tic", a que se seguiria outro "tic"...
Tic tic tic
Foi ao som da memória do salto alto que embalámos as rugas ao longo destes três dias.
Embalámos e demos banho, porque queremos rugas a brilhar de limpeza!

domingo, 25 de julho de 2010

Do Barroso ao Facebook

A emoção de ontem ainda fervilha e é muito difícil arrumar as ideias e escrever sobre o dia, a tarde, o fim de tarde...
Por mais voltas que dê, vou sempre ter ao maravilhoso grupo de pessoas que acudiu (nas várias acepções de acudir) ao Flamingo Zé, à Nini e a mim. E isso é que é um verdadeiro sucesso. Nada mais conta.
Só mesmo a amizade. Conta tanto que até constrange. Falo por mim, claro! Mas eu não mereço tanto, penso eu. Não sei se mereço ou não. Mais uma vez, não estou a pôr em questão o valor da escrita, mas o meu próprio valor enquanto ser humano. Uma amiga da Nini disse-me ao ouvido que eu sou boa pessoa. Fiquei derretida, pois é tão raro dizerem-me isso.
Merecendo mais ou menos, a demonstração da amizade é a maior das honrarias e hoje sinto que valeu a pena chamar os amigos. Foi bem vê-los chegar com a alegria dos reencontros estampada na cara. E o reencontro não era só comigo ou com a Nini. Era um reencontro dentro dos próprios grupos. Vi que a Ruchinha gostou de rever a Cristina e a Inês. Meu Deus, há cinquenta anos vestíamos o bibe do vivo azul, levávamos reguadas da Irmã Saint Yves e repreensões da Irmã Maria Luísa. Na memória, já não doem e até fazem sorrir.
Em representação de um tempo único e inesquecível dos arrebatamentos amorosos e outras experiências aparentemente radicais, a minha irmã de coração, a Milú e a própria Nini. Há fraternidades que certamente são fruto de uma conjugação celestial ou outra mais inexplicável. Mas que existem, existem!
Mary Bi, ficas aqui encaixadinha, agarradinha às minhas memórias douradas e tão doces como a marmelada de Odivelas.
As minhas amigas avós (são tantas!!!!) levaram os rebentos netos, aos pares quando tem de ser, ou, se tal não foi possível, vinha a foto comprovativa. (A Margarida é igualzinha à Matilde. Pode ser que também goste do meu colo. Tenho de experimentar!)
Nós que vivemos o PREC, com bebés ao colo!! E são esses bebés de colo que agora chegam aqui e dão lições de Biologia, como se fosse fácil falar de flamingos...sob o olhar "abensonhado" da avó, a nossa querida Dona Antonieta.
E essa geração inteira que vem depois de nós não disse que não e foi, ou veio,"dar um beijinho" e mostrar que afinal valeu a pena termos partilhado alcofas, biberons e até vestidos de grávida, porque sempre se poupava para uma saída extra.
(Será que estou a ficar nova? É que vieram outros representantes desta geração aflita, tão aflita como o Flamingo Zé, que eu já conheci com diploma ou quase... Obigada, Sofia, Joana, Francisco, Bruno e Rui!)
"Cresci" muitos anos e mesmo quando eu pensava que já não ia arranjar novos amigos, a vida provou-me que estava redondamente enganada. Madalena e Fernando, São Tavares, Ilda e a "minha escola", onde, apesar das inúmeras dificuldades conhecidas, se cultivam relações, floresce o afecto e se faz prevalecer o verdadeiro sentido da existência: ser amigo vale a pena. Alguns são repetentes do Flamingo Zé.
E, outra vez a frase:"quando eu pensava que já não ia arranjar novos amigos, a vida provou-me que estava redondamente enganada". Eis que parto na internet à procura de quem me possa fazer companhia numa nova condição. Eis que encontro, dia após dia, à velocidade da luz, pessoas que se despem de todos os preconceitos, de todas as capas e se revelam com uma sinceridade, honestidade e transparência que o mundo material não aceita. Tornamo-nos amigas do “peito”, por verdadeiras razões de peito e a amizade progride, acelera, de peito feito (ou refeito, nalguns casos) na segunda etapa do conhecimento materializado por encontros vários. Que assim continue, eu desejo muito.
Eu tenho uma África e o Jorge tem outra. Da África do Jorge vieram também amigos conhecer o Flamingo Zé. Levaram-no no coração e isso é bom.
Podia ter acontecido emoção sem o Jorge, os meus filhos e a Sofia? Claro que não. Estão agarrados à minha pele. Faço finalmente jus ao epíteto. Sou uma “chata”. A Filipa não se importa de ficar aqui connosco, nesta categoria “famílias”? É que agora somos mesmo família e isso é bom.
Sei dos verdadeiros impedimentos inultrapassáveis dos que não puderam estar e também contam.
Obrigada a todos. Foi mesmo inesquecível!
Para os amigos da Nini, para a Carmo e Jorge Nuno, para o André, Ana e pais, uma abraço cor-de-flamingo!!! foto da Mélita

Direito a prémio!


Olá! Recebi esse selinho da minha amiga Estrelinha do blog Estrelinha Só
"O Premio Dardos é um reconhecimento dos valores que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc... que em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, e suas palavras.
Esses selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre os blogueiros, uma forma de demonstrar o carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web." Todos os blogs que eu visito têm qualidade. Por isso, sirvam-se do prémio que hoje é assim..
Obrigada, Estrelinha!

sexta-feira, 23 de julho de 2010

(...)

Se queres a flor, sonha a árvore. Se queres a onda, desenha o mar. Se queres uma estrela, inventa o firmamento.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Bethânia canta toda a nossa vida

"Olá, como vai?"
Não sei mesmo se as relações amorosas se desenrolam como soía. O sinal fechado é a história da eternidade que já ficou para trás dos amores e desamores, dos encontros e outros...
"Eu vou indo. E você, tudo bem?"
Há um lugar no futuro. Queremos todos chegar a esse lugar. "Eu também só ando a cem".
Adeus! Adeus! O sono tranquilo não foi encontrado. O lugar no futuro continua longe. E tudo o que havia para agarrar, lá está! O tempo, esse é que se esgota à velocidade do sinal fechado.
É preciso parar o sinal, avariar o sinal, deixá-lo fechado, agarrar a lembrança que foge e dizer algo mais...
Por favor não esqueça, não esqueça!
Bethânia está em Portugal para cantar as nossas vidas, para nos acordar as emoções adormecidas, para nos arrebatar ou para restabelecer o direito ao arrebatamento.
Obrigada, Bethânia, pelas cantigas que cantavas, quando eu tinha ainda muitos sinais fechados para parar e para te ouvir, na rádio que te tocava, ou na cassete que te repetia, outra e outra vez, até à exaustão ou até ao fim da viagem. O que chegasse primeiro!
Legitimaste na minha geração um jeito estúpido de (te) amar.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

O amor é...

Voltar à Torre de Belém...... trinta e oito anos depois e não sentir qualquer nostalgia. Sentir apenas que os espaços guardam, com requintes de tesouro, as nossas memórias.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

No tempo em que as bonecas falavam...

Esta é uma homenagem ao tempo, ao tal da infância, em que as bonecas falavam. As minhas falavam.
Esta, por exemplo, era a minha irmã e eu contava-lhe muitos segredos. Aqueles que ninguém podia entender. Julgava eu. Então, à noite, eu contava-lhe os meus medos. Um deles era estranho: se eu não existisse, onde é que eu estava? O nada era um mistério!
Outra inquietação que me perseguia era a saber onde é que "morava" a sorte que tinha determinado que eu tivesse tanto conforto: uma cama, um quarto, uma casa, brinquedos, livros.
Só me faltava mesmo um irmão ou uma irmã. O que eu não sabia é que haviam de aparecer sob a forma de amigos.
Eram conversas desta que eu tinha com as minhas bonecas.
Por falar em irmãs, a blogosfera ficou mais rica...

quarta-feira, 7 de julho de 2010

(...)


Qualquer lugar é bom lugar para a Boa Esperança. Esta mesma boa esperança que já nos anima desde os tempos dos descobrimentos.

terça-feira, 29 de junho de 2010

E vão dezanove!!!

Escolhi o “nove” para número da sorte e só por isso já fico feliz por celebrar hoje dezanove anos de casa nova, terra nova, vida renovada, família reunida e cão velho.
Vínhamos de Odivelas. O trajecto era longo. Havia trajecto alternativo mas esse era longo também: Odivelas, Lisboa/Sacavém, Vila Franca, Porto Alto, Alcochete, Montijo.
A casa era um deslumbramento: espaço, muito espaço, muito espaço. A esperança de levar a vida com calma morava aqui. Uma família de quatro pessoas espalhava-se, até aí, diariamente, por três distritos: Setúbal, Santarém e Lisboa. Aqui, ficaríamos todos juntos: hospital, escola preparatória e escola secundária. Além disso os preços das casas eram irreais. Um terço do preço de Lisboa ou quase isso, nos arredores da margem norte. E havia ainda o ruído, o barulho, as sirenes das ambulâncias Abreu Lopes abaixo a toda a hora...
As poucas vezes que tinha vindo ao Montijo, para escolher e comprar casa, tinha achado tudo muito calmo, pacato e sossegado.
Há dezanove anos "caí" na ebulição das festas da terra, São Pedro: gente, gente, gente, carros, motas, foguetes, música, publicidade, mais gente, mais música, fogo de artifício...
E eu que vinha em busca de um modelo de vida onde o silêncio se ouvisse.
Afinal eu não era só nova... Apesar da vida já me ter dado certos ensinamentos de nível de dificuldade apreciável, não tinha aprendido ainda que a nossa inquietação interior vai connosco até ao fim do mundo. E o fim do mundo não é ali, ao virar da esquina, nem no fim da terra, como no filme "Os Deuses devem estar loucos".
Trouxe a minha inquietação de sempre, mas "trouxe" também os amigos de "sempre" e orgulho-me de não ter perdido nenhum, Tejo lá, Tejo cá. Orgulho-me ainda de ter feito mais amigos, quando eu achava que, com trinta e nove anos, já ninguém se encanta com ninguém, a ponto de deixar passar a porta do coração. Afinal deixa.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Coisas de pôr-do-sol


O que me aconteceu este ano nunca me tinha acontecido: o fim das aulas, apesar de muito desejado pelo cansaço que transpirava de todos os poros de todos nós (alunos e professores), deixou-me uma sensação de vazio, um vazio tão intenso e tão imenso que me enche e me sufoca. É verdade que eu própria criei um ritual de despedida que é irrepetível para mim: a apresentação do livro. É verdade que eu criei uma emoção à volta da "cerimónia" que ficará para sempre gravada no meu coração como única. As pessoas que fizeram parte tornaram tudo tão especial. Foi uma celebração tão simples nos recursos e tão elevada, ao mesmo tempo, nas palavras das apresentadoras, na atenção do público. Houve uma intimidade linda que varreu a sala e a preencheu de um sentido de harmonia que emanava da própria ideia dos flamingos, do voo, da liberdade, dos afectos...
Coisas de pôr-do-sol!

domingo, 20 de junho de 2010

O mundo é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer.

Estas palavras são proferidas pela avó Josefa, a avó que Saramago imortalizou num texto que conheci num manual de oitavo ano, há mais de trinta anos. Li e reli o texto. Continuo a relê-lo. Faço-o com menos frequência porque o sei quase de cor. Sei de cor a idade desta avó, "quase noventa anos", a condição, "és velha e dolorida", a memória da beleza da juventude como prova de uma existência de valer a pena, "dizes que foste a mais bela rapariga do teu tempo e eu acredito", a humanidade, mesmo para com os animais, coisas da vida dura do campo, "meteste os bácoros na tua própria cama, quando o frio ameaçava gelá-los", a verdadeira importância, "trave da tua casa, lume da tua lareira", a simplicidade absoluta, "és sensível aos casamentos das princesas e ao roubo dos coelhos das vizinhas"... Não foram os dias duros nem um mundo injusto e belicoso que a impediram de afirmar, sob os céus estrelados das noites da Azinhaga, pelos quais ela nunca viajaria: o mundo é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer.
O que faltou de zangas na vida da avó sobrou para o escritor que deu a Portugal a honra de um Prémio Nobel. Quem sou eu para pensar ou julgar seja quem for? Ele ou os outros que se envolveram nas polémicas, sabendo de antemão que nem um nem outros abdicariam de uma posição, da sua posição? Não sou nada nem ninguém, claro!
Recordo ainda uma passagem do Memorial do Convento em que pela voz de uma das personagens (talvez Bartolomeu de Gusmão) nos é transmitida a ideia de um perdão merecido quase automático por parte de um Deus que se crê infinitamente justo e infinitamente misericordioso.
Tenho para mim que o próprio escritor, apesar de achar que o mundo às vezes não é assim tão bonito como achava a avó Josefa, tinha também pena de morrer. O seu apego à vida e às coisas dos vivos era indisfarçável.
Por isso, Escritor, continuarás a fazer parte do mundo dos vivos, pelo menos enquanto viverem esses vivos que te tocaram o corpo, a alma e o pensamento

sábado, 19 de junho de 2010

Mensagem de Nova Iorque

Nice kids,
A vida às vezes tem destas coisas. Imaginem que voei de Lisboa directamente para Nova Iorque, a bordo de um enorme flamingo cinzento, mas muito veloz. A viagem demorou sete horas sobre o Atlântico, perfurando algumas nuvens fofinhas como algodão doce.
Mal pousámos fomos ver uns flamingos rosa que vivem no Central Park e já se habituaram a não sair daqui.
Como vim para melhorar a minha forma de desenhar, aproveitei logo para ir ao maior museu que fica mesmo ao lado e se chama Metropolitain.
Qual não foi o meu espanto quando descobri que havia lá alguns retratos de outros flamingos ilustres. Que tal estão a achar o Flamingo Zé?
Gostava muito que pudessem desenhar um flamingo que já tivessem visto ai perto das vossas casas.
Fico a espera dos vossos desenhos. Boas leituras, boas férias e muita pintura. Até um destes dias.
De Nova Iorque, com pena de não poder estar ai, Ana Peres de Sousa

sexta-feira, 18 de junho de 2010

O que se passou, agora, foi isto...

Uma onda de emoção, na hora da despedida de alunos que vi crescer, ao longo de dois anos.
Agradeço à Vida, pois nada do que aconteceu ontem se merece ou se prepara. Acontece porque a Vida nos presenteia com essa fatia de felicidade... Ter no meu caminho as pessoas boas que me proporcionam momentos felizes é a minha Sorte Maior!

terça-feira, 8 de junho de 2010

Nini, o que se passou foi isto?

Foi só conversa.
Mentira! Foi também bolinhos caseiros comprados na pastelaria, ou melhor, na fábrica de bolos. Daquelas fábricas de bolos que existem desde sempre. Uma porta, cinco metros quadrados de chão pintalgado até ao balcão de vidro, uns cestos (forrados de pano) cheios de pão; uma outra porta vedada à curiosidade de quem entra por uma simples cortina florida; ao lado, tabuleiros de ferro carregadinhos de bolos que ainda cheiram a quente e com sabor que sobe pelas narinas até ao centro do prazer, fique lá onde ele ficar.
A Marta trouxe uns quantos e convidou-nos a “engordar”.
(A parte da pastelaria é uma invenção, claro! A parte do "engordar" é a sério!)
Até a caixinha, acabadinha de "montar", reluzia, na brancura do cartão. Depois veio o tabuleiro com o jarro da limonada e três copos. A Regina explicou que os limões tinham nascido ali, no seu jardim. A empatia e a simpatia instalavam-se com a mesma suavidade da brisa que corria e que se fazia sentir nos pés nus que eu arrisquei, apesar da previsão de chuva para todo o território continental.
Chegada estava a altura de falar do que nos juntara ali. A conversa fluiu ao som das ideias, ao ritmo dos bons sentimentos das duas "meninas" que escolhemos para me acompanharem na aventura do dia 17. O público "sub-metro-e-meio" é exigente!
Falta-me a minha parceira destas "aventuras". (Não, isto não é um plágio!) Mas de Nova Iorque ao Montijo as boas energias viajam à velocidade da luz e muito do bom ambiente que vivemos esta tarde teve a inspiração dessa amizade crescida (Quase quarentona! Vê tu, Nini, como o tempo passa!).
Estes momentos, apesar de breves, purificaram-me.
Senti-me a visitar uma página da literatura vitoriana em que o feminino se imprime numa paisagem de primavera fresca, quase fria, onde há jardins, relvas, recantos bucólicos inventados de propósito para a inspiração criativa.
O que se passou foi isto, querida Nini!

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Matar a saudade?

Hoje o dia estava bom era para ler um livro! Estava? Não, não estava. Ler dá trabalho. Dá trabalho aos olhos que têm de focar as letras. Dá trabalho aos braços que têm de pegar no livro e folhear as páginas. Pobres dedos fatigados que terminam em unhas roídas!
(Por que é que eu nunca deixei de roer as unhas? Não sei! Vontade e vaidade não me faltaram. Mas nunca deixei uma única unha crescer, por muito que me pedissem e me envergonhassem. Já não vai ser nesta vida!)
Ler dá trabalho ao cérebro. Muito trabalho mesmo.
O melhor mesmo é não ler e fazer outra coisa qualquer para passar o feriado.
(Tenho testes para acabar de classificar... Tenho assuntos da escola para pensar...)
Hoje o dia estava bom era para ver um filme. Mas o filme tinha de ser muito bom. Não, não tinha de ser um filme para rir. Nem me apetece rir. Logo hoje que ouvi a notícia da morte do João Aguiar. E morre-se assim, sem mais nem menos? Alguém que faz falta ao mundo? Ao nosso mundo? Alguém que explica o nosso passado e tinha um trabalho para acabar? Chorar? Não, também não me apetece chorar. Eu sei que a vida está má, mas há pessoas para quem a vida está muito pior.
Hoje o dia era mesmo bom para ir às compras. Pois... lá está o meu lado mau a vir à tona dos meus hábitos. Comprar o quê? As lojas estão cheias de artigos que ou são caros ou eu não gosto. Vou comprar pão e já é uma sorte. Deus queira que haja pão daquele que eu gosto: escuro, com muitas sementes. Dizem que é saudável! Talvez. Pelo menos o meu gosto e o critério de saúde coincidem quando o assunto é pão.
Hoje o dia era mesmo bom para ver o mar. Mas as "bichas" não são barreira fácil para a minha tão frágil determinação.
Hoje o dia era bom para matar a saudade do meu pai que faria amanhã oitenta e quatro anos.
Matar a saudade? Não. Também não quero matar a saudade porque ele merece esta saudade, esta lembrança dorida que adormece mas não morre.