domingo, 11 de setembro de 2011

As (minhas) Sete Maravilhas da (minha) Gastronomia

O júri que aclama esta escolha é constituído por uma remota, mas nem por isso menos viva, memória das iguarias que alimentaram a minha infância, que deram sabor a esses dias que nem sempre são tão cor-de-rosa, como se imaginam, nem tão dourados, como se recordam. O tempero que domina toda e qualquer preparação é, sem dúvida, a dedicação carinhosa.
Comecemos pelas batatas fritas que saíam do azeite borbulhante das frigideiras de ferro. As batatas eram descascadas e depois cortadas em palitos, nem finos nem grossos, com a “medida” que a minha avó tinha na mão e na intuição, para o sabor que pretendia. Eram servidas em travessas abundantes. Algumas não passavam da cozinha. A minha avó fingia que não via e nós convencíamo-nos que tínhamos iludido a sua atenção!
O Caldo Verde da Tia Miquelina! As couves podiam ser as mesmas dos outros “caldos verdes”, as batatas e as cebolas também. Este caldo verde sabia pela vida. A minha tia era pobre. Pobre de bens materiais, pobre de dinheiro. Mas suas mãos, o seu talento e o seu amor transformavam todos os pratos numa iguaria que os ricos nunca provaram. (Tenho tantas saudades suas, Tia!)
O arroz de grelos da minha avó! Era uma das especialidades também.
O arroz de grelos acompanhava sempre os pastéis de bacalhau igualmente divinais. A última refeição que fiz em casa dos meus avós, nas férias grandes de 72, foi esta! Apesar das limitações da doença que lhe “tolhia” as pernas e a impedia de permanecer em pé, junto ao fogão, a minha avó preparou-me este manjar…. Obrigada, Avó!
O caril de galinha, prato domingueiro que a minha tia Odete Pequenina preparava pela manhã, cedinho. Depois da praia, apurado pelo tempo, servia-se o caril acompanhado de arroz branco, muito branco, muito solto.
E o chacuti que a doente do meu pai mandava frequentemente em sinal de agradecimento e reconhecimento a propósito de tudo e de nada?! A mais inofensiva injecção dava direito a um belo chacuti. Nunca consegui distinguir muito bem os ingredientes, mas isso não era diminuía o prazer de apreciar um sabor diferente. Hoje, associado à memória do chacuti, estão os saris e as lantejoulas que adornavam a senhora, que trazia sempre, a rigor, um ar bondoso e humilde.
O Bife da Princesa era um bife. Normal? Talvez! Mas o molho tinha um segredo qualquer e tornava diferente o sabor do bife. Aos dezassete anos adoeci gravemente: febre tifóide. Depois de um período de febres e delírios chegou a hora da recuperação, da convalescença. Bife da Princesa duas vezes ao dia. O Fabião largava os afazeres domésticos e lá ia ele buscar um Bife à Pastelaria Princesa. (Onde andarás, Fabião?)
Ficam ainda classificados como delícias inesquecíveis: a língua de vaca estufada que a minha mãe preparava, com todo o rigor das receitas transmitidas de geração em geração; os “cocós” dos Velhos Colonos, pequenas sandes de carne assada, inimitáveis; os camarões da Nacional; a carne assada da Nacional e o Frango à Cafreal do Piri-píri.
Mais um registo da memória do passado em prol da memória do futuro!
Na foto, tripas à moda do Porto. O melhor não se vê: a companhia dos amigos. Vieira do Minho.

domingo, 28 de agosto de 2011

Amanhã é outro dia...

Outro lugar comum. Os dias sucedem-se indiferentes à esperança que tem de nos alimentar a vida. Essa, sim, a esperança é a última a morrer!
Como em todos os lugares comuns,há uma dose de verdade que advém da própria essência da natureza disse ditados: a sabedoria adquirida via experiência de vida de um povo ou vários.
Há que interiorizar essa parte.

domingo, 7 de agosto de 2011

tele... novelas "Será que Júlia vai casar com o irmão dela?"

“Os tempos mudaram!”, é a conclusão aparentemente ligeira de quem vive o hoje com a memória bem viva dos dias de ontem. Dos dias e das noites, dos chamados serões em que a televisão fazia as delícias de todos: maiores, mais pequenos, mais velhos e mais novos.
Aquilo que hoje sobra nos canais televisivos era único, num canal de uma única estação a RTP. 1977, se a memória não me atraiçoa, foi tempo de aprendermos a gostar de telenovelas.
"Quando eu vim para este mundo, eu não atinava em nada..."
Estes eram os sons que nos empurravam para o sofá para assistir a mais umas cenas de sedução inspiradas no talento do mestre Jorge Amado. As personagens desfilavam no meu pequeno ecrã a preto e branco. Digo a preto e branco, mas sei que as cores estavam lá...
Apesar de ter sido esta a primeira das primeiras, a que parou Portugal no último episódio, não foi a que eu mais gostei, ou melhor, viria a gostar. “Olhai os Lírios do Campo” foi sem dúvida a que telenovela que acompanhei com mais emoção.
(Já tinha lido o livro duas vezes. Tinha sido o meu primeiro livro de gente mais ou menos crescida e eu tinha só treze anos. Claro que não o entendi. Li-o outra vez, uns anos mais tarde e depois vi a telenovela. Voltei a reler o que eu entendo que é a obra essencial de Erico Veríssimo.)
Muito fiel à inspiração literária, eu vi na Nívea Maria a verdadeira Olívia, corajosa até ao limite, fiel aos seus princípios, ao amor, à verdade. Eu vi no actor que nem sei o nome, um Eugénio incapaz de integrar a pobreza da casa paterna no seu sonho ambicioso de médico de renome.
Agora, os vários canais oferecem muitas telenovelas e de vez em quando eu vejo, mas não consigo encontrar muitas parecenças com a vida real. A verosimilhança é fundamental para captar a nossa atenção de espectador e nestas, nomeadamente na que tenho seguido, Laços de Sangue, qualquer aspecto que se pareça com a verdade é pura coincidência.
A sorte é que tenho sempre este espaço comunicação que me compensa das desilusões sofridas.
Atrevo-me a dizer que neste momento a televisão se parece com a ideia que o Ministro Lino tinha da margem sul: um deserto. Valha-nos a RTP Memória!!!! Sempre podemos voltar a rir com o saudoso Solnado ou chorar com alguma tragédia, num palco cheio de gente que convém não esquecer!
Olhai os Lírios do Campo, abertura

sábado, 23 de julho de 2011

É sempre a mesma "conclusão"... O tempo voa.

Já lá vão 39 anos.
Tanto que eu tinha desejado este momento. Tanto que eu tinha sonhado com o meu regresso a Moçambique, a Lourenço Marques, à casa da minha mãe, ao carinho dos meus amigos, ao convívio sempre alegre das minhas primas, ao "colo" dos meus avós, às conversas demoradas sobre a Vida, com o meu pai.
E agora que estava ali, no aeroporto, para seguir no avião da TAP, tudo o que eu queria era mesmo ficar. O namoro tinha começado há tão pouco tempo! Queria ficar e continuar a namorar.
Uns tempos antes, eu tinha preparado esta viagem com muito entusiasmo. Queria revisitar os meus lugares. Queria sentir as minhas praias, apanhar ameijoa na Costa do Sol, comer camarões na Nacional, "bater-me" com os bifes da Princesa que tanto tinham contribuído para a minha rápida convalescença da tifóide. Queria beber as coca-colas todas que não tinha bebido nos dois anos que me separavam de "mim". Queria sorvetes da Cooperativa e sentir a inspiração das noites do Zambi...
Agora, só queria ficar!
Mas não podia ficar. E lá estivemos os quatro: a Dulce, o Rui, o Jorge e eu, até ao último momento que nos deixaram ficar na zona mítica das despedidas. (Hoje fala-se em check in e check out e o romantismo da despedida e dos reencontros passou a disfarçar-se de normalidade!)
Catorze horas depois, eu e a Dulce desembarcámos em Lourenço Marques. E não havia telemóveis, não havia Skypes, não havia nada. Havia saudades que mudavam de dono…
Agosto de 1973: eu, em Nampula; o Jorge, em Veneza!

terça-feira, 12 de julho de 2011

E se casássemos...

E se casássemos?!
Foi assim, com este romantismo todo, que o Jorge formulou aquele pedido que aconchega os nossos sonhos de menina. Nem anel, nem postura ajoelhada, nem declaração de amor reiterado... Nada! E se casássemos?! Como quem diz que em vez de andarmos por aí aos caídos, um para cada lado, mais vale andarmos aos caídos para o mesmo lado!
E não é que eu aproveitei logo a ideia e resolvi pôr em prática o mais importante? Arranjar uma casa!
Pois... é que eu queria mesmo casar ( O meu lado Susaninha porque nem todas as meninas de então se podem gabar de ter um lado Mafaldinha!) e tinha de aproveitar aquela distracção, não fosse ele arrepender-se e não tornar a dizer nada parecido.
É verdade que eu sonhava com a declaração de amor. É verdade que eu sonhava com o verdadeiro sonho. Certo é que já tinha recebido um manjerico no Santo António! Sempre é um sinal. Uma evidência, como se diz agora!
Aí fomos nós, cinco minutos depois à procura da casa. Não foi a primeira porque os dois contos e quinhentos, doze euros e meio na moeda da Troika, era demais, apurados que foram, em dez minutos, os recursos em escudos. Mas a segunda já cabia no Orçamento Geral do nosso estado de enamoramento, mais propriamente do meu enamoramento: dois contos trezentos e cinquenta.
Era doze de Julho e estava calor. Ainda bem que acertámos à segunda. Era um terceiro andar, na Rua José Malhoa em Odivelas. Três assoalhadas, porque na época ainda não havia T2.
Urgia oficializar mais o noivado, para estancar qualquer arrependimento, daqueles que se lêem nos romances. Uma carta para o meu pai. Uma carta para a minha mãe.
Querido papá... Querida mamã... vou casar. O meu namorado chama-se Jorge e é estudante de medicina. É de Angola e mais pormenores daqueles que os pais gostam de saber. Sobretudo as mães. Prometo que não vou deixar de estudar, etc, etc...
Ainda nesse dia, comunicámos aos pais do Jorge. A mesma promessa: não vamos deixar de estudar. O maior medo de um lado e do outro era o mesmo.
Na inocência dos meus vinte anos mais um, achava que alguém podia demolir o meu sonho e proibir-nos de casar. (Só hoje é que eu percebo que ninguém podia e ninguém pode levar-nos a fazer aquilo que não queremos!) Preparava-me para usar o direito da minha maioridade (vinte e um anos) para me casar sem autorização. Mas não foi preciso.
No dia seguinte, lá fomos ao Banco que tratava do aluguer. O terceiro andar já estava ocupado. Mas o segundo estava livre e até tinha umas paredes muito lindas, dizia a Dona Piedade que fazia as honras das apresentações e visitas aos andares. Ficámos com o segundo. Foi só uma questão de cobrir, com uma tinta barata mas eficaz, as flores desenhadas a rolo…
As certidões chegaram à velocidade do meu desejo e um mês e oito dias depois, lá casámos e fomos finalmente morar para as nossas três assoalhadas de "sonho".
Aí vivemos as alegrias maiores das nossas vidas. Aí começámos tudo!

sábado, 2 de julho de 2011

Adeus, Carlos!

Adeus, Carlos!
Deixa ficar connosco a memória do teu riso! Deixa ficar connosco o teu olhar espantado e podes até deixar o teu olhar zangado, esse ar que te emprestava uma certa expressão de criança, a mesma com que falavas com as tuas netas.
(O teu lugar é no meio de nós. A tua partida não faz sentido!)
No último almoço, quando todos tirámos as caixas dos comprimidos do bolso e começámos a tomar, desatámos a rir da nossa "velhice" ali escancarada no comprimido da tensão e do colesterol.
Fomos tomando consciência de que a juventude, tal como ela era quando nos conhecemos, estava a passar para os nossos filhos e isso era bom...
Fomos aceitando as mazelas e até fazíamos humor com os sinais exteriores da nossa "avançada" idade de BI. Por dentro, a nossa imensa amizade estava tudo igual. Sobretudo a irreverência que era a nossa imagem de marca. Para a história ficarão as tortas que iam ao ar sem se desmancharem, sem nunca eu ter percebido porquê. O pó da casa da Isabel, tão preocupada com a extrema limpeza. O sonho do carpélio contado pelo Jorge, revisto e aumentado com o passar dos anos e sempre gerador de gargalhada geral.
Não, Carlos, não vai ser nunca mais a mesma coisa. Mas vamos sempre sentir a tua presença, ouvir a tua gargalhada e perscrutar no teu olhar traquina, o homem bom e o bom amigo.
Um dia a gente vê-se, Carlos!!!!

sábado, 25 de junho de 2011

A minha nação primeira!

A dimensão de uma nação não se mede em quilómetros quadrados. Mede-se anos de liberdade. Mede-se em toneladas de coragem para enfrentar um destino sem asas protectoras.
Moçambique é uma nação livre há 36 anos. Junte-se-lhe os anos de luta e a vontade do povo e Moçambique é maior do que o mapa à beira Índico levantado!
Para mim, esta nação mede-se também em memórias que ficaram para sempre com um rótulo que diz "Fabricado/a em Moçambique".
E estas minhas memórias banham-se nesse mar que eu via da varanda da minha casa. E passeiam-se no trajecto dos machibombos, ao longo de avenidas modernas e rasgadamente promissoras em relação ao crescimento da cidade das acácias.
As minhas memórias, embora riscadas e com outros sinais exteriores de idade, levantam-se todos os dias comigo e dormem lindos sonhos de um reabraço aos meus lugares...

sábado, 4 de junho de 2011

Dia dos Anos

Tínhamos conversas leves sobre coisas sérias... Tínhamos conversas leves sobre coisas leves... Tínhamos conversas sérias sobre coisas sérias. E foi assim ao longo da Vida, da Vida em que coincidiram o teu tempo e o meu tempo. E a conversa foi talvez a principal ferramenta da minha educação. Cresci nessas conversas. Sentia-me muito importante para ti. Quando tu tinhas "razão" ou quando eu tinha "razão", quando eu também já esgrimia contigo os argumentos da vida vivida. Obrigada, papá, por me teres feito sentir "uma pessoa muito importante" para ti.
Pai e filha, como qualquer pai e qualquer filho! "For you will still be here tomorrow, but your dreams may not."
Também falámos sobre sonhos e projectos e também me disseste que "não deixasse para amanhã o sonho do dia de hoje".
Hoje seria o dia "mais" da conversa. Gostavas de ser o centro das atenções, sobretudo no dia dos teus anos. Sonhavas com prendas como os miúdos pequenos!Tinhas esse direito, sobretudo nesse dia especial!

domingo, 29 de maio de 2011

A Tempestade

De repente, os céus escureceram, a temperatura baixou nove graus, a chuva começou a cair, num crescendo de força e intensidade, seguiram-se as pedras de granizo que fustigavam a visão da estrada, batendo com violência no vidro, os raios caíam a uma distância que parecia muito curta e não contente com isso os trovões calavam todos os sons possíveis...
A solução foi parar. E todos pararam, de um lado e do outro da A2. A medo, alguns minutos mais tarde, impossíveis de contabilizar num cenário de horror, todos os automobilistas retomaram o caminho, rumo ao céu azul que nos esperava alguns, poucos, quilómetros mais tarde...
Já passaram mais de vinte e quatro horas e ainda não recuperei do susto.
No regresso, a gota mínima era logo, para mim, uma ameaça de temporal. É que foi assim que começou: umas pinguinhas de chuva...
"O céu fere com gritos..." diz o poema maior da nossa literatura. Só quem passa por elas, diz o povo. Todos dizem a verdade: passar pelo meio da tempestade é uma experiência atemorizante. É uma das provas da nossa fragilidade, a nossa e a de todos os humanos. É uma das provas da Força da Natureza.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Dez Pequenos Prazeres aleatórios...

Passar a Ponte Vasco da Gama, num dia muito azul...
Contemplar o rio, o mar, o pôr-do-sol, recantos da minha casa, especialmente os que têm quadros do meu pai ou da Nini...
Ouvir uma cantiga simples e bonita, como a das Estrelas no Céu do Rui Veloso, ou o Postal de Natal, dos Rio Grande...
Jantar a dois...
Jantar a cinco...
Ter um bebé ao colo... (O último foi o Dinis! Duas horas bem medidas!)
Conversar com as minhas amigas, a conversa de irmãs, sem "barreiras", de alma escancarada...
Escrever só por escrever, como agora...
Acreditar, só por acreditar, e deliciar-me, por antecipação: que as Cegonhas andam por aí, por exemplo!
Ah... passar uma noite, num hotel!
Tirar fotografias... Ver montras! Ir às compras, sobretudo ao Modelo, ao fim do dia!
São mais de dez. Venham daí os vossos! Brincar com as fotos...

domingo, 22 de maio de 2011

Porque o melhor... ainda está para vir!

Esta é a mensagem final da peça de teatro "Rosa Esperança" que vi ontem no Fórum do Seixal. Vi? Não! Assisti? Não. Participei de forma menos activa do que as actrizes, mas participei.
Literariamente falando, o drama distingue-se de outros géneros, precisamente porque as coisas acontecem na presença do espectador. Naquele palco, ontem à noite, desfilaram emoções muito fortes, muita dor, mas também muita esperança.
AS mulheres que constituem o elenco dão corpo e voz à sua própria dor, às suas vivências, sem falsos rodeios.
O que ali passou foi a Vida como ela é. Da rotina de um dia-a-dia sem sobressaltos maiores, até ao assalto que o cancro pode perpetrar à tranquilidade de cada um de nós vai um momento, um instante.
E quando tudo acontece? Que fazer? Ninguém desiste! Todos, neste caso todas, têm razões para lutar e a maior parte delas refere apenas a família!
"Quando regressei a casa, o meu filho recebeu-me com uma flor na mão!", diz uma das mulheres.
Tudo o que ali se passa, em cima daquele palco, passou também por muitos dos que estão sentados na plateia, impávidos, mas não serenos.
Mais do que alertar as mulheres para o diagnóstico precoce, a peça é um "convite" à luta. Como dizia a Cinda, todas as noites, em frente ao espelho: "Não me vais vencer! Eu sou mais forte do que tu!" E é! E és, Cinda!
A Cacilda formulou o desejo de ver os filhos crescer. E viu! Já lá vão 28 anos!
A Nela revive o momento da notícia, do diagnóstico. O Paulo também dá voz e corpo a ele mesmo, marido, naquela situação, em que todos os medos assombram...
Para todas estas e para as duas meninas mais novas que ali mostraram a sua força, a minha admiração!
Mas o melhor ainda está para vir! Toca a lutar!

domingo, 15 de maio de 2011

Aniversário

Este espaço de escrita/ de confissão/ laboratório de emoções/ e outros nasceu há sete anos.
Há sete anos, eu tinha pai. Para dizer a verdade completa, eu tinha dois pais: o meu e o do Jorge, que ao longo destes anos todos de vida em conjunto se tornou também meu pai de coração. O carinho com que me contemplou sempre fez dele o meu outro pai. Não tem mal acrescentarmos pais aos primórdios dos nossos afectos patrimoniais. Também juntamos filhos e o sentimento não se perde nem se divide, enriquece e robustece-se. E a nós também! Tinha mais tios e mais primos. Pelo caminho deste blog fui perdendo esses pilares da minha construção. Primeiro o meu tio, depois a minha priminha querida que me faz falta. Ela gostava tanto de mim, por que é que se foi embora?
É a saudade que cimenta a escrita deste espaço. É em homenagem a eles que prossigo, para que os que chegarão no futuro saibam quem os precedeu. É sobretudo ao meu pai e ao outro meu pai, ao meu tio e à minha priminha a quem nunca disse adeus, que eu dedico este aniversário! Obrigada por tudo o que me deram!

Regresso a Poente, Francisco Seabra Cardoso

Doze de Maio. Lisboa. Fim de tarde.
Sol. Muito sol. Apesar da hora, o sol queimava ainda e os tons do dia tingiam-se de calor pelos céus afora.
“O sol frio é sadio o céu azul.
“Sol de Inverno não queima e mal aquece.”

Não. Não era um sol de Inverno. Era de Agosto apesar do calendário marcar Maio.
Chiado. (Lisboa tem muitos lugares mas o Chiado agarra a arte como nenhum outro. Será a alma de Pessoa que, por ali, vagueia? Que não seja por desassossego!) Haverá lá outro lugar na cidade (atrevo-me a alargar o conceito e dizer “no mundo”) para apresentar um poema? Não, não há, digo eu do alto da minha certeza absoluta. Pode ser uma certeza só minha, mas é absoluta!
O Poeta: Francisco Seabra Cardoso. A poesia: Regresso a Poente.
A sessão foi aberta pelo próprio poeta que se apresentou e aos que ali estavam, com ele, cúmplices do verso, da ideia e da arte que ali os levou. Chegamos ali, nós os que não tínhamos ainda conhecido o poema, inocentes e livres. Saímos dali todos também cúmplices da mesma ideia, do mesmo pensamento, do mesmo verso… O tal “eu” poético alastrou-se e deixou de ser apenas o eu poético do Francisco para passar a ser o eu poético de cada um. Chegámos até ali inocentes e livres. Saímos dali culpados da mesma culpa: a de acreditar na importância de cada instante e no poder de explodir em poesia. Foi o que aconteceu. Saímos dali impregnados de versos.
Falou-se da morte e da Vida. Já não sei precisar a quantidade que coube a uma e a Outra.
“Irreversível é nossa viagem
Que paragem não tem antes do fim”
A metáfora da Viagem. Um risco que o poeta corre ao misturar o seu conceito com o conceito do homem comum. Mas o poeta está cá para isso: para correr o risco e arrancar a poesia seja lá de que for.
A viagem! De balão! De regresso, como diz o título. E regressar é voltar para um lugar de onde se partiu, se esteve, se viveu. Será que o instante final é um instante de regresso?
O Poeta falou do Tempo e do tempo. Falou do Presente enquanto Tempo e enquanto oferta…
As palmas eclodiram menos do que a vontade de quem ali estava mais do que a assistir: a participar naquela viagem de balão…
A viagem real foi de barco, baloiçada pelos tons do poente…

domingo, 8 de maio de 2011

Let it (always) be!

Hoje é dia 8 de Maio. Nestes movimentos de rotação e de translação, o planeta parece cumprir o seu destino, à volta do sol e à volta de si mesmo. E assim deve ser e assim seja. No entanto, em cada um de nós o movimento impõe-se como se cada um de nós fosse um planeta também. À volta do nosso eixo. À volta do nosso sol!
Agora queria mesmo que fosse Verão, que o mar viesse até mim, que me trouxesse as energias que tenho perdido ao longo de uma vida que também já não é pequena.
Queria passear num jardim igual ao quintal da minha avó. Não é preciso ser desenhado de modo perfeito e de acordo com as modas arquitectónicas. Quero as árvores de fruto, os limoeiros, as goiabeiras, as mangueiras e as abacateiras. Quero os canteiros de alfaces que preenchiam de verde as traseiras da casa.
Este jardim e o mar são os elementos primordiais desse meu eixo, também ele imaginário como o eixo da terra. Ou melhor: feito de um imaginário individual, arduamente construído com guindastes de sonho e gruas movidas "a memória".
E o sol? Essa importância maior que me dá luz e calor? Persegui-lo-ei, claro!
O dia traz outras memórias. Umas são próximas: a minha amiga Luísa faz anos hoje. É um dia importante para ela. Todos nos lembramos. Telefonamos. Dizemos todos os anos a mesma coisa porque o importante não é o que se diz. O importante é que nos lembramos e telefonamos e dizemos. É um ritual do dia de aniversário.
Outros oitos de outros Maios são assinalados pela História: Lavoisier foi guilhotinado neste dia. Mas como ele próprio enunciou: "Nada se cria, nada se perde tudo se transforma." A sua morte horrenda transforma-se pois num facto histórico e assim ultrapassa as metas dos tempos.
Num outro oito de Maio, a Coca-Cola foi posta pela primeira vez à venda. Nunca se perdeu e pouco se transformou. Graças a isso permanece como bebida única e inimitável. Qual Pepsi! Qual Canada Dry! A Coca Cola é!"Let it be" imortal como tudo o que pertence e marca o nosso passado, o tal que passa pelo nosso próprio eixo, também aparece, nalguns sítios, ligados à data.
Uma data vale o que vale. Se nada se perde... let it be. São palavras de sabedoria: let it be!
Let it be Listen!

sábado, 23 de abril de 2011

João Maria Tudela

João Maria Tudela, o cantor que ouvi toda a minha vida cantar a minha cidade.
As palavras e os sons tocam-nos, ao longo dos tempos, de maneira diferente. À medida que a minha cidade foi ficando cada vez mais distante, a cantiga foi ficando mais perto. Os versos traziam-me as minhas ruas. Até me traziam a mim. A voz foi-se ligando de modo forte à minha memória, ganhou laço de família de coração e, estranhamente, o cantor não envelheceu.
Independentemente das várias modas e preconceitos da cantiga, apesar da modernização da canção, Tudela manteve-se fiel a um estilo e ficou no meu imaginário na categoria do moçambicano de verdade: aquele que assume todas as suas culturas, todas as suas almas, todos os seus tempos, os passados e até os futuros. As suas cantigas mais emblemáticas fazem-nos viajar de uma casa portuguesa, com certeza em Lisboa, num dos bairros onde mora a "alma" da cidade, até Moçambique inteiro, "que palavra tão bonita, fique lá onde ela fique, diga lá quem a disser", até à Beira, "à beirinha do mar que te beija", Lourenço Marques, a tal cidade do "não sei quê", a dele e a minha. Podemos até passar por Inhambane, que vem no mapa dos seus versos, "onde o céu é azul e o sol tem mais cor".
Conforta-me a ideia de ter sido um homem realizado a quem nunca faltaram os amigos e que conseguiu cumprir sonhos, nomeadamente ver os filhos crescer. Há pessoas assim: não podem, nem conseguem morrer!
Podemos ouvi-lo aqui!
Link "gentilmente" retirado do Miguel Innersmile. Kanimambo, Miguel!

quinta-feira, 14 de abril de 2011

"Não sei meus filhos que mundo será o vosso"

Uma conversa com o filósofo José Gil, sobre as inevitáveis mudanças no estilo de vida que se vão verificar a partir do momento em que os efeitos FMI/PECs se começarem a sentir, trouxe-me à lembrança este longo e belíssimo texto de Jorge de Sena. Já era muito verdadeiro antes de todas estas expectativas de crise profunda. Torna-se cada vez mais verdadeiro.
O filósofo José Gil fala com alguma tristeza do fim da esperança. E isso é muito mau!
Fala ainda da falta de confiança nos políticos. Será um sinal novo? Será assim tão mau? Mau é, certamente, pois a confiança é também um bem para quem a pratica. No entanto, estes homens a quem chamamos políticos já há muito perderam o estado de graça que se prolongou muito para além da inauguração da liberdade de Abril. Já devíamos ter perdido a confiança há mais tempo.Durante todos estes anos, temos depositado nas suas mãos a legitimidade de guardar a nossa liberdade, a defesa da nossa paz, o sonho do mundo melhor para todos, especialmente, como se diz nas preces, "principalmente aqueles que mais precisarem"... E então? O que é que fazem com essa legitimidade? O que é que fazem com a nossa confiança? Tratam da vidinha, tratam do emprego para os amigos e do "futuro" deles.
Está a chegar a hora da verdade: o bem comum foi desbaratado, a causa pública foi esquecida e o sonho de todos nós virou pesadelo maior.
Mas talvez sejam estes tempos difíceis uma oportunidade para reabilitar os valores perdidos!
É de valores que trata o longo texto de Sena.
"Não sei meus filhos que mundo será o vosso" - e agora dirijo-me aos meus filhos- mas desejo veementemente que seja um mundo de Verdade. Carta de Sena aqui

terça-feira, 5 de abril de 2011

Já é Abril outra vez!

Para o meu filho Diogo que me "abriu" um Abril, dando-me, para a vida, a condição de Mãe! 1 de Abril de 1975!O mundo que o recebeu sabia o sabor dos cravos, mesmo daqueles que nasciam na boca das baionetas!
Era o tempo dos minis que eram tão giros que até se dizia:"É tão giro ter um mini!".
Era o tempo dos casacos aos quadrados, adequadamente desenquadrados de todas as indumentárias preconceituadamente masculinas.
Era a moda das barbas e dos bigodes, que cresciam livremente ao som das cantigas revolucionárias, desafiando todos os bons gostos impostos por outras modas.
Era o tempo do desejo de acreditar que a vida é um bem justamente distribuído e que todos temos direitos.
Quando tu nasceste, Diogo, proclamávamos a liberdade, com a força da razão que os nossos vinte e tais anos de idade nos gritavam cá dentro!
Quando tu nasceste, Diogo, estávamos a aprender a dar os primeiros passos na democracia. Nesse teu primeiro Abril, votámos, depois de uma espera demorada em longas filas.
Mas o melhor desse Abril foste tu, meu filho! O melhor de todos os "Abris" és tu.
Parabéns, Diogo!
Já é Abril, outra vez!

sábado, 19 de março de 2011

Dia de Todos Os Pais

Se a palavra Pai fosse um verbo não podia ser conjugada num tempo de cada vez. Todos os Tempos cabem na Palavra Pai, mas o que domina e prevalece é o Presente.
O Pai é, porque a condição de pai e de filho não se remete para nenhum passado, nem se fica espera para futuro algum. O Pai está!
No nosso imaginário, mesmo quando já vivenciámos a experiência da paternidade/ maternidade, o Pai é grande e forte, é o herói que nos salva dos medos maiores.
Mesmo quando a Vida já nos ensinou que todo o ser humano tem "direito" à tentação e os nossos pais não tinham de ser diferentes, porque se o fossem, alguma coisa no princípio do Verbo estaria errada. Na mitologia do paraíso, Adão e Eva foram os protagonistas do pecado e da tragédia universal humana. Mesmo assim, a figura do Pai não sai lesada. Pelo contrário, o Pai integra melhor, à medida que a Vida avança, a dimensão humana. Mas como para ele a Vida já vai mais avançada, permitimo-nos receber o conselho, ouvir o aviso.
Acerca dos conselhos, o meu pai dizia-me que não mos dava porque eu sabia errar sozinha. E foi esta responsabilidade que me transmitiu e, através de uma recordação forte, de uma memória muito clara, permanece.
Ensinar a aceitar o erro é também Tarefa de Pai.
Obrigada, papá! Como diria o Lobo Antunes: Este é o meu pai. O meu pai é este homem bonito, alto e jovem. Há nele muitos traços de sedução que importou dos ídolos da tela. As fitas são parte da sua vida. Como na Rosa Púrpura do Cairo, a vida real e a da tela misturavam-se...A maneira de ver a vida era, como no Cinema Paraíso, o resultado do cruzamento de vários momentos e de vários Gigantes dos ecrãs.Diria como Marcello Mastroianni: a mulher é o sol, uma extraordinária criatura que faz galopar a imaginação.

terça-feira, 8 de março de 2011

Tudo vem a propósito...

Os dias vão passando e a vontade de escrever sobre qualquer momento mais relevante fica adiada pelos motivos mais comezinhos: cansaço de origem variada, preocupações, trabalhos da escola e algumas viagens que as circunstâncias da minha "unicidade" ( filha única, por exemplo!)impõem.
Então, o que é que está em atraso? O encontro com Dulce Braga, em Lisboa, na Bulhosa de Campo de Ourique, na apresentação do seu fruto, o fruto do encontro entre os dias que ficaram e os dias que são. O fruto é o maboque. Não provei o outro maboque, só provei este e o seu sabor é de uma beleza muito rara, sobretudo quando se mistura um outro sabor, o da distância,o da ausência e o da saudade. Dizem os livros de botânica que o maboque tem um sabor agridoce. Está explicado!
No entanto, o doce foi o elemento que sobressaiu, sem dúvida alguma!
Senti esse “doce” no reencontro da Dulce Braga Mulher Escritora Agora com a Dulce Menina de Angola. Além de doce, foi uma emoção linda que se espelhou nos olhos e no sorriso da Dulce. Foi uma emoção linda que passou por todos os que ali estavam a saborear um gosto antigo ou a provar um sabor, pela primeira vez, como foi o meu caso.
O convite chegou-me aos olhos pela boa vontade do Nelson Reprezas, amigo comum. Foi também uma surpresa linda que me encheu de orgulho.
O dia já estava perfeito, mas a dedicatória da Dulce deixou-me o coração embargado.
Obrigada, Dulce, pelo convite e pela escrita que me vai trazer muita emoção boa, aquela que cura feridas.
Obrigada, Nelson, por teres sido o mensageiro da mensagem boa!
E, para terminar, vou também citar, transcrevendo (página 187) umas linhas que retratam bem os dias que correm, em que o doce se dissolve mais do que a conta, nas amarguras da vida.
“Peguei no primeiro disco da pilha que estava do lado do gira-discos e o coloquei para tocar. Era um compacto de Janis Joplin, de 1970, que havia comprado numa loja de discos em Nova Lisboa, um ano atrás. Tocava a música Get It While You Can e a letra não podia ser mais apropriada: In this World, if you read the papers, You know everybody’s fighting on with each other… Don’t turn your back on your love, no, no!
Foi o que aconteceu neste fim de tarde: ninguém virou as costas ao amor, sobretudo àquele amor que nos liga a nós mesmos, por muito que seja geograficamente distante …

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Oh My Papa!


Oh my papa, for me he was so wonderful! Oh my papa, so funny, so adorable! :(
I miss him so today!
(O Eddie Fisher, "um rapaz da tua geração", cantou isto a pensar em ti e em mim, papá! Tenho a certeza!)

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

O Medo, esse Adamastor

Nota prévia: este é o texto que a Bárbara, Coordenadora da Equipa da Educação para a Saúde, me pediu que escrevesse, à laia de testemunho, no dia 4 de Fevereiro, um dia para assinalar a luta contra o Cancro.
Foi a primeira vez que o fiz, sem rodeios. Senti que talvez eu possa dar voz a um caso em que não há sofrimento e que o Medo foi o único inimigo a fazer perigar a cntinuação da vida tal qual eu a quero viver: com o Jorge e os "miúdos"; com os meus amigos, muito especialmente com as amigas que, ao longo do tempo, se vão revelando cada vez mais fundamentais no meu "respirar" de todos os dias; com a família que sabendo o quanto prezo a amizade, sentirá que não é menor incluí-los na categoria "amigos".
Aqui, na minha história, só é relevante o Medo. Não fosse aparecer alguém (Obrigada, Milú!) que, em jeito de "sentença" me obrigou a ir fazer a mamografia... Aproxima-se o dia de fazer mais uma, de rotina, e o Medo já começou a fazer estragos, a tirar-me sonos e a dificultar-me os sonhos.
Tudo o resto está bem.
Aí vai o texto que foi publicado no blog da escola, da Educação para a Saúde,Educar Para o Bem Estar!
A vida é assim mesmo.
Dia a dia, construímos os nossos dias!
Dia a dia, aprendemos a passar “além da dor”.
(Quem quer passar além do Bojador, tem que passar além da dor! disse o poeta Pessoa!)
Como é que se retoma o leme, como se enfrentam adamastores, como se prossegue o caminho, atracando a um porto seguro aqui, outro porto seguro acolá.
(Quando falamos de Adamastores, estamos a falar de medos enormes, imensos. Mas à semelhança do verdadeiro Mostrengo que guardava os mares do sul, este pode ser um mito, uma ilusão, uma dificuldade a ultrapassar…)
“Sabemos bem do que estamos a falar, quando falamos de cancro.”
Sabemos, sim. É de dor. É de medo.
Contudo, na vida, a experiência é que dá a verdadeira medida. A maturidade dá-nos esse saber. A humildade dá-nos a dica: podes e deves aprender com a experiência dos outros.
Para isso, é preciso vencer outra espécie de medo: o de falar com quem já viveu o caminho que vai da incerteza e da dúvida, à esperança e à certeza de estar à nossa espera, ao alcance das nossas forças, um tratamento que nos garante a vida.
É fundamental encarar essa fase: cirurgia, nem sempre necessária ou importante para o controle da doença; quimioterapia, tratamento que tem consequências difíceis de encarar, mas que são transitórias; radioterapia, tratamento sem dor que tem de ser encarado como muito sério porque é necessário proteger as partes do corpo que sofrem as radiações, para que seja levado até ao fim, sem problemas. Há também a hormonoterapia, específica de alguns casos de cancro e que consiste na toma diária de um poderoso comprimido que ajuda, combatendo e eliminando as condições hormonais em que o cancro apareceu e se desenvolveu.
Depois destas fases, e sempre com amigos e familiares por perto, com muito optimismo, queremos voltar à Vida.
Queremos voltar ao convívio alegre com os amigos, às conversas sobre as coisas com menos importância, aos passeios, aos teatros e cinemas, aos almoços e jantares, aos passeios à beira-mar, à contemplação do pôr-do-sol.
Ao trabalho! Aos projectos!À Vida, em pleno!
Madalena Santos, professora, 59 anos. Cancro da Mama aos 56 anos.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Convite

...para a festa dos sentidos! Será como um casamento de sentidos, sem sentidos obrigatórios e, muito menos, proibidos.
Cheguem e vão-se chegando aos livros, aconchegando o pensamento para o prazer das sensações que os Mestres das Letras prepararam. Deixemo-nos levar para uma esfera de bem-estar que dá essoutro sentido à vida. Vale a pena? Perguntamo-nos, inquietos dos desígnios desta existência efémera que se eterniza, por sinal, através desta arte ou de outras artes. E Pessoas responder-nos-ão em coro, qual tragédia grega, que sim, desde que a alma não seja pequena.
Se a alma não é pequena, habita um homem que tudo faz para ser Feliz!
Para isso, pode comer, beber, correr, dançar, ler... Porque não?
Sirvam-lhe livros à vontade, à descrição.
Como na refeição dita real, a que serve para alimentar o corpo, sirva-se primeiro uma entrada. Siga-se a substância. Saboreie-se, finalmente, o doce.
Uma boa refeição não deve deixar amargos de boca. A vida ainda menos. Os livros, é que nem pensar!
Se podemos dar de beber à dor, podemos também dar-lhe de comer.
Mas, como diz o Manual do Salvador, somos livres até de rasgar a folha!

Foi há dois anos!
O Banquete cumpriu a sua função: reuniu muitos amigos!
E assim, sem mais nem quê, ali estavam os textos que o Jorge tanto tinha insistido em publicar e que já me tinham proporcionado muitos momentos bons!
Estavam ali transformados em iguarias para celebrar afectos!
Não há palavras que possam descrever as emoções de sentir que os que estão ali estão envolvidos por dentro, pelo lado do coração e da amizade verdadeira. É um privilégio conseguir reunir tantos, de tantos lados da vida!
Ao meu lado, a Nini, aquela irmã que não falha nunca. Na plateia, as outras "irmãs" que me cobrem de mimo e que sabem da minha vida, mais do que eu, talvez... gente com quem divido o hoje e outros com quem vivi intensamente os dias mais verdes!
Falta sempre alguém, não por dizer não, mas porque a Vida não deixa.
Mas a Memória cumpre o seu papel e todos se tornam verdadeiramente presentes!

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

O que o tempo nos faz!

As coisas não têm idade e no entanto sofrem-lhe os efeitos.
Este é apenas um pormenor, um detalhe, da velha estação de comboios do Montijo.
O ferro garantiu a resistência. O pior efeito visível a olho nu é a ferrugem.
Há também a irregularidade de uma tinta já muito ida, já muito apagada.
O telheiro da velha estação encontra-se com os pilares que o suportam, nestas aplicações de ferro forjado e trabalhado, à luz de uma estética que o tempo também devorou.
A humidade da chuva, sovada pelo vento impiedoso de muitos invernos, também deixou as suas marcas, como as bexigas salpicam de covas os rostos mais belos.
Efeitos do tempo. Apenas? Não. Efeitos do tempo e do abandono!
Connosco também é assim!

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Dias de Cão

Hoje o meu dia foi dia de cão! Não sei de onde vem a expressão, mas a avaliar pela expressão "facial" do Bali, os dias de cão são mesmo dias em que nada dá certo.
O mais "irracional" foi saber que uma conta cancelada há mais de seis anos foi reaberta pelo banco há um ano e meio e só hoje é que soube, quando fui ver onde paravam os ree...mbolsos da ADSE!!!!! Os "óculos" devem ter ficado na conta para despesas. A explicação do costume.
E mais uma multa da Emel, não por falta de pagamento, mas por estacionamento indevido.
E mais uma conta da TMN a duplicar porque patati-patatá, o habitual, Dona Madalena, vamos ver e depois dizemos-lhe alguma coisa.
Amanhã gostava muito de ter um dia de gente!

domingo, 16 de janeiro de 2011

Os Dias De Nevoeiro

Os dias de nevoeiro parecem-se muito com a Vida: o que está mais para além, no tempo e no espaço, está envolto numa indefinição, numa bruma, que obriga a cuidados redobrados nos passos que há para dar!
E nós, apesar de tudo, apesar do despojo do Inverno que nos expõe numa nudez fria dos ramos sem folhas, erguemos os ramos, ou os braços, e continuamos de pé, acreditando ser possível desbravar as nuvens baixas e seguir um caminho mais perto do azul do sol!Há post gémeo no facebook

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Hoje arrumei o Natal

Hoje arrumei o Natal. Devolvi as estrelas ao firmamento. Procurei entregar os brilhos a quem de direito. Emprestei as luzes à gente que trabalha de noite. Guardei os laços e as bolas coloridas numa caixinha antiga que serve para isso mesmo: guardar o Natal, de uns anos para os outros, há muito tempo. Ajeitei o Menino Jesus e agradeci aos pais. Ainda os ajudei a embalar as prendas dos Reis que são valiosas e o caminho é longo.
Deixei o espírito de Natal mais à mão, não vá precisar dele um dia destes...
Aconcheguei tudo com algumas memórias, por causa da fragilidade da fantasia!Nota:Há post gémeo no facebook!

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

59

O dia dos anos é sempre um dia em que se misturam emoções, desde o "remoer as feridinhas de caracacá" que trazemos da infância e que, por virem desse reino distante, damos importância extrema, às outras, que não sendo tão importantes, condicionaram as nossas escolhas. E as nossas escolhas foram as que foram. Agora não há volta a dar! No conto "A Viagem" da Sophia de Mello Breyner está tudo explicado! O sentido da viagem é único.
Orgulho-me dos meus caminhos e sei que, se tivesse voltado atrás nas tais encruzilhadas de que nos fala a Viagem, repetiria as mesmas veredas, estradas,ou mesmo atalhos. São aqueles com quem vivo e convivo que me fornecem, diariamente, a dose de energia que todos precisamos para andar, correr, percorrer.
A Sorte tem-me ajudado muito nos momentos menos fáceis e, por isso, nunca lhe virei as costas, nem nunca me queixei dela. O limite da sua acção é a condição humana, ela mesma!
Hoje é o primeiro dia de mais uma caminhada de trezentos e sessenta e cinco dias.
Já dei os primeiros passos. Agora é só seguir!

domingo, 2 de janeiro de 2011

Primeiro Pôr-do-Sol

É o meu complexo "Petit Prince": não perder um pôr-do-sol. Só que eu tenho de me contentar com um por dia e, "ele há dias", em que nem se dá por ele, por razões que desconheço. Nesses dias, o escuro da noite cai, aparentemente, sem mais explicações.
Ou talvez seja apenas para cumprir o movimento de rotaçã: a voltinha inteira que a terra tem de dar. Essas coisas das Ciências nunca foram do meu conhecimento profundo! Eu prefiro acreditar que o Sol é um Rei e que manda nas Estrelas todas e há dias em que não lhe apetece "dar espectáculo".
Razão tinham os egípcios que, pelo sim pelo não, lhe prestaram culto e o elevaram à categoria dos deuses. Rá, chamavam-lhe assim!O primeiro dia do ano reveste-se de muitos simbolismos. Parece que neste dia tudo é possível recomeçar do ponto de partida. Por muito que saibamos que , tal como o sol a descer sobre a terra, sobre o rio,tudo isto é emoção e ilusão, não deixamos de sentir e, pelo menos eu, não deixo de experimentar alguma vontade em fazer tudo certo, como se nos pudéssemos despejar dos erros num contentor da rua, de cor ainda não determinada. Não tem nome mas, de acordo com a lógica dos contentores do lixo, pode vir a chamar-se "Errão".
No entanto, a pedagogia do erro é qualquer coisa que se apregoa, mas tenho para mim que só se verifica em contexto académico e muita da teoria se fica por isso mesmo: teoria. Richard Bach falava a certa altura, no seu Manual do Salvador, na reivindicação dos erros. Eu reivindico os meus porque me pertencem, mas não sei se me orgulho muito em fazê-lo.
Inseguranças, dúvidas... Quem as não tem?

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

O Sonho (Im)Possível

Sonhar mais um sonho impossível...
(Mais um ou mais alguns! Há prioridades! Há opções! Há gradações de possibilidade! O importante é mesmo não deixar de sonhar. Acordar todas as manhãs com o sonho bem desperto. Senti-lo a correr nos nossos braços que diariamente se fazem à luta. Só o sonho suporta. Só o sonho alimenta.)
Toda a cantiga nos remete para o mundo de projectos que são comuns à humanidade.
Toda a cantiga nos adverte do esforço que nos leva adiante: lutar quando é fácil ceder. Reescreverei: lutar porque não é fácil ceder.
Vencer o inimigo invencível? Com armas de papelão!
(Sim, outro Cavaleiro do Sonho: Dom Quixote!
Não é fácil dissertar sobre os inimigos. A minha vitória será impedi-los de conquistar a minha tranquilidade, a minha paz interior.)
Quantas guerras terei de vencer? As que tiver de vencer!
Não me interessa saber se é terrível demais, pois o importante é tornar provável o voo improvável, expandir os limites e manter acessível o tal impossível chão da realidade.
"Por um pouco de paz"? Não. Eu quero a Paz inteira!
Essa sim, é o sonho (im)possível!
"E o mundo vai ver uma flor
Brotar do impossível chão"

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

O Ano Do Flamingo!

Dois mil e dez foi, sem dúvida, o ano do Flamingo!
O Flamingo trouxe um encanto especial às nossas vidas, ao longo da segunda metade do ano!
Quando apareceu, no Cais dos Vapores e o vi, pela primeira vez, não podia sequer imaginar que nos viria a proporcionar tantos momentos felizes.
Começou por ser uma pequenina história no Chora. Depois cresceu e envolveu-se ainda mais na beleza da Zona Ribeirinha e, com o contributo da verdade das coisas, tornou-se no livrinho que viu a luz do pôr-do-sol no dia 17 de Junho.
Foi a primeira onda de emoção do Flamingo Zé! Acho que não lhe disse, ao Flamingo, na altura, mas uma coisa que temos de aprender na vida é a viver os momentos bons e felizes, já que é uma felicidade sermos aprovados por pessoas que admiramos e de quem gostamos com o coração inteiro.
Senti a falta da Nini ao meu lado. Li a carta que escreveu de Nova Iorque para os meninos que estavam presentes, na primeira apresentação, no último dia de aulas, mas mesmo assim senti a falta dela. Ainda por cima, os nervos de estar perante um público notam-se mais em mim do que nela. A Marta e a Regina tornaram a sessão muito especial, também elas carregadinhas de emoção e de nervos que acabaram por prestar um serviço inestimável àquele fim de dia.
Um mês depois, veio a segunda onda, com a Nini já regressada das Américas. Nesse dia 23, juntámos os amigos e celebrámos, a preceito, a chegada do Flamingo às nossas vidas. Beijinhos, abraços e flores!
Obrigada, Flamingo! Obrigada, Nini! Formar equipa contigo parece-me a coisa mais natural do mundo. A minha admiração por ti é enorme e sinto muito orgulho em contar contigo para estas aventuras mais ou menos literárias que servem o objectivo de fortalecermos ainda mais esses laços, de os passarmos aos nossos filhos o que, no caso do Flamingo, foi bem evidente. Obrigada, Anita, por fazeres também parte desta equipa “maravilha” com o teu saber de “Editora” acrescido de carinho.
Obrigada, Jorge, por me “obrigares” a levar a sério o projecto do Flamingo e por me acompanhares com tanto entusiasmo nas voltas e reviravoltas das escritas, das publicações. És o “verdadeiro” manager!
Obrigada a todos. Tenho o P de Presente gravado no coração.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

S de...

Era uma Senhora com S grande, como se diz quando a palavra faz jus à ideia que representa.
A beleza talvez não fosse o seu traço mais marcante, mas tornava-se especialmente bela pela harmonia, pela sintonia com o bem que a sua presença emanava.
Sorria naturalmente e por isso os mais simples, as crianças, por exemplo, aproximavam-se e olhavam-na com a admiração inteira de quem tem palmo e meio de tamanho por fora e um arranha-céus de esperança por dentro.
Cresci com os olhos postos nela. Passei de criança a adolescente e quando tocou a pôr em prática os sonhos ela estava lá, como que a aprovar os caminhos percorridos. Percebi assim que todos os que tinham crescido comigo a veneravam de maneira especial. Percebi assim que estávamos perante um património de valores que uma geração tinha tecido em prol do sentido da vida, em prol do valor maior da humanidade!
(Ao longo dos meus dias “úteis”, falei desta senhora aos meus filhos e aos meus alunos, enfim aqueles por quem sinto uma responsabilidade directa na manutenção do tal sentido da vida!)
E a vida passou como os dias do circo: umas vezes em festa, com o calor humano das bancadas; outros dias, a dar de comer aos leões; outros, a treinar os bichos e todos a contar os recursos para o sustento de cada um.
(E todos, mesmo os leões mais ferozes e bem alimentados enfraquecem e entristecem!)
O certo é que a presença da Senhora com S grande começou a faltar-me. Por vezes, dei por mim, no meio de verdadeiras multidões, à procura dela. Por vezes a minha imaginação delirou tanto que julguei tê-la encontrado.
A última vez que isso aconteceu foi na escola. Pareceu-me vê-la passar. Preparava-me para dizer aos alunos quem era a senhora que ia ali a passar, mesmo junto à janela. Aproximei-me e fiquei de nariz colado ao frio do vidro, tolhida pela desilusão. Não estava lá ninguém. Foi o silêncio das crianças, habitualmente prontas para aproveitar toda e qualquer pausa, que me devolveu à realidade.
Pus-me a fazer contas às muitas vezes que senti a sua presença doce. Foram muitas! E a recordação dessas muitas vezes continua a dar-me alento. Porém a sombra da sua ausência nos últimos tempos paira nas minhas alegrias tanto quanto nas minhas tristezas.
Se alguém a vir por aí diga-lhe o quanto eu tenho sentido a sua falta. Espero que não tenha morrido.
Espero ainda que venha conhecer os meus netos!

terça-feira, 23 de novembro de 2010

O par romântico por excelência!

Chegou, conduzido nas traseiras do volumoso e atraente Qashqai cinzento-violeta, qual criatura principesca que não descura qualquer pormenor…
Ao longo da viagem, apreciou a planura e o silêncio calmo do lugar parecia entrar-lhe pelos olhos adentro. Não fora a membrana que lhe impede de algum modo a visão, esta seria a mensagem perfeita de paz e tranquilidade a enviar ao um cérebro habituado à turbulência de um dos mais animados bairros de Lisboa. Se lhe tivessem perguntado se lhe agradava a ideia de passar uns dias ali, só por esta primeira impressão, diria certamente que sim.
Ao longe, a paisagem parecia mover-se em novelos de lã. Não era possível a nitidez desejada. Mas a ideia de tocar nos novelos de lã que ondulavam no campo também lhe agradava.
Mas a melhor surpresa estava ainda reservada, porque a melhor é normalmente a derradeira! Uma “igual” esperava: como se o destino tivesse escrito o guião e a “diva” ali estivesse guardada naquele silêncio e recato, aguardando o momento mágico que os contos de fadas preconizam como verdadeiro desencadeador da felicidade perfeita.
Assim que se viram não caíram nos braços um do outro, mas foi como se tal tivesse acontecido.
Assim que se viram, travaram conhecimento como a espécie faz: cheiraram-se e depois largaram a brincar pelo campo fora, quais corças ou outros elegantes animais próximos na cor e na graciosidade.
E foi de tal modo o encantamento que o Bali não queria vir embora, regressar à cidade, à casa “paterna”, a Campo de Ourique, que de campo só tem mesmo o nome. Para regressar ao Qashqai foi preciso enganá-lo e fingir que a Princesa Encantada faria também a viagem. Só assim ele tomou o seu lugar!!!!!
Aguarda-se um desenvolvimento: o amor à segunda vista, ou como o Bali e a Vicky caíram apaixonados nas patas um do outro!

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

8 de Novembro de 2003

Foi uma onda de emoção.
O livro primeiro. Singelo, simples mas digno da atenção dos amigos de sempre e de outros que, à força da leitura, ficaram amigos também.
Não hei-de eu estar grata às letras?!
Também estou grata a quem me lançou na aventura da escrita, através da publicação no jornal, o meu amigo Luizi e à Nini, que pegou em tudo e entregou a uma editora. À editora, Ana Barradas, porque confiou e me proporcionou outra alegria extra: as suas origens coincidiam com as minhas.
E o "Polivalente" da minha escola encheu-se de alegria, de amigos, de flores...

sábado, 6 de novembro de 2010

Coisas...

Hoje passei parte do dia a ouvir as cantigas que me ajudaram a criar os meus filhos.
Sim, não foi só cerélac e nestum; não foi só beijinhos e palmadinhas nas fraldas; não foi só colégios, escolas, professoras e livros de estudo e outras histórias; não foi só brinquedos, playmobil, legos, triciclos, ténis, triciclo e e fatos de treino; não foi só ir ao médico, levar picas, apanhar vacinas e tomar benurons; não foi só férias de campismo por esses países vizinhos; não foi só o primeiro fato a sério; não foi só conselhos e outras recomendações...
Foi também cantigas de Zé Barata Moura e da Ana Faria!
Foi o que eu hoje recordei com imenso gosto e muita vontade de repetir se a Vida assim o entender. Para já, já fiz o que era para ser feito.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

E o "Prémio Janine" vai para...

Por razões que a Teresa explica melhor do que eu, resolvi instituir o Prémio Janine que se destina, antes de tudo, a homenagear a Princesa de carne e osso, Princesa de verdade, sobretudo no que toca ao coração, que nos habituou à sua presença carinhosa e ao seu sorriso terno e muito grande e, assim, semeou uma amizade linda. Por isso lhe estou grata. E por todos os momentos em que fui presenteada pelas palavras lindas e carinhosas da Janine!
Vale a pena instituir o Prémio Janine, não vale?
Então suba o pano e comece a cerimónia da entrega. Eu vou pedir à Janine que seja ela mesma a fazer esta entrega.
O primeiro Prémio Janine vai para a Sofia. Sim, a "minha" Sofia. Para além de linda, esta Sofia é também adorável. Não posso pôr-me aqui a dissertar sobre as imensas virtudes pois acho que a timidez que a caracteriza não ia "gostar". Espero saber sempre merecer o carinho da Sofia.
O prémio que se segue é um colectivo: para todas as minhas "amigas novas". A Célia que vem aqui espreitar e sabe que eu estou a falar dela... E da Balbina que tem agora uma barriga do tamanho de uma bola de pilates... Da Ana Novais que me protegeu imenso quando eu regressei à escola depois "daquilo". Da Patrícia, a minha filha da escola, que faz das fraquezas forças e tem sempre um sorriso lindo para oferecer. Da Sandra, como o seu jeito zen, muito "boa onda", a transmitir às pessoas a tranquilidade que é tão difícil de trazer à tona dos nossos hábitos. A Noémia que já está a ficar uma "senhora" com mil cuidados com as suas bonecas. Sérias candidatas a futuros Prémio Janine são outras duas meninas: a Ana Nieto sempre delicada e atenta com os nossos meninos difíceis e a Vanda.
Fora da Escola, tenho também outras indigitadas: A Rita, a minha Rita, minha afilhada, fisioterapeuta, umas mãos de ouro... A Marta que "corrigiu" o Flamingo e que me acompanhou na aventura com a doçura que eu lhe conheci quando eu e a mamã dela vizinhávamos as barrigas e depois os bebés. A Regina, a Cristina, A Sofia, outra Sofia, a Patrícia, outra, a Rita, outra Rita...
E ainda tenho outro Prémio Janine. Sentem-se. É um menino. Tem vinte e tais também e também é médico. Conheci-o na Associação dos Amigos dos Castelos. Aos poucos fui percebendo o seu valor, o valor dos seus conhecimentos e a capacidade de se dar aos outros. E não é só jeito de médico. É mesmo jeito de pessoa, jeito de gente. É o Bruno Carrilho.
Obrigada, querida Janine por teres contribuído com o teu sorriso para a instituição deste Prémio.
Encerro esta sessão com um agradecimento a todos os nomeados e premiados, pela simples razão de serem muitas vezes a palavra que precisamos de ouvir, o abraço que precisamos de dar e receber.(Aguardem as fotos da cerimónia. Estão no Fotógrafo!)

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

"Ardente Paciência"

É a tradução da capacidade de esperar por alguma coisa ou alguém, com um desejo tão forte, tamanho, que pedir-se a vida inteira não é demasiado.
Ontem soubemos que a ardente paciência pode atingir profundidades quase inimagináveis, pode semear a esperança e fazê-la crescer auto-regada, magicamente, combate a tristeza e o medo, alimenta a alma e, quem sabe?, o corpo, no intervalo do atum e do leite, encurta os dias, antecipa as datas, acelera os minutos e ainda lhe sobra energia para festejar, festejar, festejar.
"Poça, como eu gostava de ser poeta!" A frase é de Mário Jimenez, o carteiro de Neruda!
"Ardente paciência" é o outro título do Carteiro de Pablo Neruda, de Skarmeta.
Ele lá sabia que a ardente paciência havia de irromper de um chão bem fundo e encher o mundo de alegre gratidão.
Viva a ardente paciência!
imagem daqui

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

O mundo...

... e a humanidade precisa que esta missão seja completamente sucedida.
Ao investir na vida de trinta e três homens, o governo do Chile e aqueles que o ajudaram, deram ao mundo uma lição de humanidade.
Há muito tempo que não víamos o valor do Homem sobrepor-se ao valor do dinheiro!
Investiu-se no resgate de trinta e três homens que representam apenas o que nós, eu e os meus, representamos: a Vida Humana. Eles contribuíram com uma imensa coragem, com os sinais de esperança sempre com níveis elevados, com uma imaginação prodigiosa que os levou a conseguirem manter a forma física durante todo o tempo, com uma fé inabalável, com desejo de voltarem a abraçar a gente amada, com a persistência da vida, apesar dos pulmões doentes e outras fraquezas do corpo.
Foi o dia de voltar a acreditar que nos homens!
Felizes aqueles que abraçaram estes mineiros. Tocaram na matéria de que se faz um herói. Tocaram na matéria de que se faz um Homem!
Para Todos os que contribuíram para este Dia: Obrigada!
E para rechear de beleza o momento já de si tão belo, nada melhor do que procurar nos clássicos e consagrados: I can no other answer make, but, thanks, and thanks.
Shakespeare! O momento merece.
Este é, sem dúvida, o Presente Mais-Que-Perfeito!

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Chora Que Logo Bebes: Vim então nascer aqui...

Chora Que Logo Bebes: Vim então nascer aqui...: "... a Lisboa.De onde saíram os 'uns' que descobriram os 'outros'. Essa Lisboa de que me falavam e que eu nunca tinha visitado, nem mesmo de ..."

domingo, 3 de outubro de 2010

Um outro tempo: o Pretérito

Hoje o tempo e a conversa sobre o tempo fez-se sentir, pelas razões que a todos doeu no corpo: choveu e o frio ameaçou chegar à nossa vida para ficar por uns meses a viver à nossa custa.
Eu não usei roupa de inverno, e, talvez por isso, estou febril e cheia de dores no corpo.
Mas o tempo também é contagem de dias, anos, séculos.
O outro tempo sente-se. Este tempo passa sem que o sintamos, a não ser quando as coisas vão longe, muito longe.
Sinto o tempo nos cabelos brancos que pinto, com uma frequência cada vez maior, porque gosto mais de me ver com os cabelos escuros. Sinto o tempo nas rugas que indelevelmente marcam a minha cara e as mãos. Sinto o tempo na flacidez dos músculos.
Sinto o tempo nas dores das pernas. Sinto o tempo nas manchas da pele que me aparecem na cara e nos braços. Sinto o tempo na idade adulta dos meus filhos. Sinto o tempo na falta que me dói não os ter ao colo, nem ir com eles ver as histórias intermináveis ou outras mais termináveis... Sinto o tempo dos outros porque também têm rugas, cabelos brancos, óculos de ver ao pé e já deixaram de fumar. Sinto o tempo, no tabuleiro dos remédios que está em cima da mesa da cozinha. Sinto o tempo, na incerteza de realizar projectos, de ler livros, de escrever, ou de aprender a dançar.
Apesar de Imperfeito eu gosto do meu Presente e gosto de olhar para trás, para o Pretérito Perfeito, para o Mais-que-Perfeito e até para o Imperfeito!
Imagem - Pretérito Mais-Que-Perfeito

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

...esqueceste-te do texto...

Não, Jorge, não me esqueci do texto!
Eu sei que o poeta maior legitimou o ridículo das cartas de amor. Mas a nossa geração entranhou a noção do ridículo e não se expõe com facilidade. Pelo menos em palavras. Na primeira declaração de amor ficava esgotado o risco de ser gozado. Não era fácil dizer "adoro-te" e muito menos "amo-te". Je t'aime e I love you ficavam tão bem na tela ou no vinil! Mas, quando a realidade batia à porta, não íamos além da puerilidade de "Eu gosto muito de ti!". Era o pudor das palavras no seu esplendor.
Não me esqueci do texto! E se tivesse optado pelo texto, teria referido, em primeiro lugar, a tua honestidade e, em segundo lugar, a irreverência que cria os seus engulhos, mas que acaba por ser também apreciada por muitos.
Se tivesse optado pelo texto, ter-me-ia referido ao teu papel de pai. Aliás, basta ver a ternura com que os teus filhos te tratam e como, naturalmente, a tua relação com eles evoluiu para o que é hoje, hoje que eles são gente crescida e com responsabilidades.
Também és um sogro "à maneira"! Acho que posso afirmar, sem risco de contestação.
Mas eu só te conheço há quarenta anos. E só me "dou" contigo há trinta e nove. Pois é: levei um ano a adaptar-me à tua irreverência e, durante esse ano, fiz campanha contra ti junto das minhas amigas. Dizem que quem desdenha quer comprar. Mas eu não queria. Caí da escada e magoei-me. Para não ir ao hospital, recorremos a ti, porque ali eras praticamente doutor. Quarto ano de Medicina já dava para confiar!!!
O resto da tua vida, pertence aos teus pais, pertence-te só a ti.
Um dia, numa cerimónia pública (com uma ministra e tudo!) agradeceste aos teus pais terem-te ensinado sempre o caminho da verdade e nunca o do interesse. Como eles mereceram esta expressão de gratidão, este certificado de "Os melhores Pais do Mundo" que lhes entregaste!
Se eu tivesse optado pelo texto, não iria dizer "eu amo você" porque tem direitos de autor!!!

sábado, 11 de setembro de 2010

Cohen, "Our" Man

Dance me to your beauty with a burning violin
Dance me through the panic 'til I'm gathered safely in...

Com jeito de quem responde a um pedido, a voz de Cohen "dançou-nos" até à mais íntima das nossas emoções. Cohen não precisa ser maior, nem parecer mais robusto fisicamente. A voz e a certeza que transmite conduz-nos numa dança, às vezes veloz, outras vezes nem tanto! O chapéu ajeita-lhe a figura magra, esquelética e o gesto de tirar o chapéu como saudação ou respeito é repetido vezes sem conta, ao longo das três horas e muito que dura o espectáculo. Poucas vezes o ecrã gigante transmite a imagem da cabeça quase toda branca. Na tela aparece quase sempre um Cohen do peito para cima, com destaque privilegiado para o rosto. O resto é um chapéu. Cinzento, neste caso. Não sei se muda de show para show. Mas o chapéu empresta a esta figura a tonalidade da sedução de Humphrey Bogart. E o microfone acrescenta-lhe o charme, à falta (abençoada falta!) do cachimbo ou do cigarro que compunha muito a figura do sedutor dos anos cinquenta.
Cohen começa a cantar de joelhos, levanta os olhos do chão e pousa-os no guitarrista que se agarra ainda mais às cordas e dedilha fortemente para acompanhar a força das palavras cantadas pelo nosso "Homem".
O palco está cheio de estrelas. O público é bem comportado. Na sua maioria, jovens dos anos sessenta vieram mascarados de pessoas "normais" (até um ex-ministro disfarçado de pessoas normal lá estava!), mas os sucessivos "encores", levaram-nos a "soltar as paredes" de uma correcção postiça e aí foram eles olhar de perto a Lenda, ouvir mais perto, sentir mais perto. E irrompe subitamente um cenário de "beatlemania" junto ao palco. Tudo canta!
Gostei!

domingo, 5 de setembro de 2010

Crise de idade

A ideia dos recomeços sempre me atraíram Atrai toda a gente, penso eu. Sempre senti uma alegria imensa em começar o ano lectivo. No ano em que estive de baixa, assim que acabei a radioterapia, liguei a pedir junta, para voltar o mais cedo possível, antes que o ano lectivo avançasse e eu perdesse aquelas primeiras emoções. É como amanhecer: quando o nosso estado geral é dominado pelo bem-estar, pela saúde, pela harmonia. Quando alguma coisa corre mal, o amanhecer é uma angústia: o que é que o dia me reserva?
Eu estou por aí, pelo meio... Nem feliz, nem infeliz! Instável! E tudo porque entrei numa crise de idade, numa plena consciência que a juventude só permanece no plano de uma memória de coisas muito boas e pelas quais devo erguer as mãos ao céu. Mas não! Enrolo-me, numa tristeza vaga mas dolorosa e penso em mil maneiras de contrariar este sentido único da vida, “incontrariável”.
Hoje, tenho estado a ler um livro muito interessante e muito filosófico, muito "chinês", muito longe da agressividade que caracteriza a nossa maneira de viver, logo nos primeiros anos de escola.
Fez-me bem. Fui tirando uns apontamentos para o Facebook. Nada de muito relevante. Simples.
Depois encontrei imagens de um lugar que "visitei" há um mês... Talvez levada pela leitura, encontrei nas imagens uma ideia de tranquilidade, que me faz muita, muita falta.
Da Natureza aprendo e colho a tranquilidade, directamente do "produtor", como deixei no Facebook.
Continuo a olhar e pergunto, à paisagem, que idade tem. Parece-me ouvir "eternidade".
Afinal, nem tudo o que tem idade, ou mesmo eternidade, assusta ou desmerece um olhar mais prolongado…

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Um regresso para dizer adeus

Hoje regressámos à escola. Todos os professores, no dia um de Setembro invadem as escolas. Uns estão mesmo a chegar de férias. Outros já lá estão a trabalhar, nas preparações do arranque do ano lectivo. Mas no dia um é o grande regresso e uns juntam-se aos outros.
Este ano, infleizmente, muitos já se tinham encontrado por tristes razões. O reencontro foi marcado pela tristeza, pela falta e pelo adeus a um grupo de professores que vai para a nova escola. Fizeram uma escolha e foi uma boa escolha. Uma escola nova, a estrear é apetecível para todos. Mas não podiam ir todos e não quiseram ir todos. Hoje foi o último dia no mesmo espaço!
Vou sentir-lhes a falta! Vai doer essa falta em muitos de nós!
Boa sorte, Patrícia! Boa sorte, Regina! Boa sorte, Luís! Boa sorte, Sandra! Boa sorte para todos. Boa sorte Virgínia! Boa sorte, Elisabete! Boa sorte, Adelaide!
Para os que vão e para os que ficam!

Madalena 3G

Cena Um
Casa da Avó Nel, sala de estar contígua à cozinha
Avó, Avô, Mãe, Irmão, Jorge, Madalena (eu) e Madalena(ela)
Madalena, eu - Gosto tanto da tua mãe!
Madalena, ela- Mas tu foste mãe dela?
Acredito que as crianças 3G confirmem a sabedoria milenar: mãe é mãe e não há amor que se lhe compare...

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

As estaladas que nunca darei...

O quintal da minha avó era o cenário de todos os "filmes" das nossas infâncias. Nossas: minhas e dos meus primos!
Era aí que ensaiávamos a vida de crescidos. Debaixo de uma abacateira, protegida pela sombra e pelos sons da folhagem que mexia com os ventos, fiz muitas refeições para as minhas bonecas. Depois sentava-me à mesa com elas, eu, uma espécie de Gulliver, conversava e contava-lhes as minhas histórias, os meus problemas, as minhas dificuldades em fazer amigos ou em conseguir que as pessoas gostassem de mim.
(De dentro da casa, pela janela da cozinha, chegavam os sons da vida, o barulho dos tachos de alumínio, o barulho do azeite a fritar as batatas, a "martelada" para amaciar os bifes... A minha avó e a minha tia faziam todas as lidas da casa. A minha tia cantarolava. Era muito bem disposta a minha tia! Se a olhássemos fixamente nos olhos, dava uma gargalhada e dizia uma piada.)
Miúda mal disposta e parva era eu! Batiam-me e eu nada! O medo tolhia-me a iniciativa de bater e até o direito de bater também. Um dia atrevi-me a dar uma dentada à minha prima Madalena. O que eu fui fazer!!!! A minha tia ficou zangada e fez-me sentir verdadeiramente mal: daquela dentada podia resultar uma doença grave! E ali fiquei eu, encolhida e cheia de culpas.
Cresci, nem sei bem como!, e nunca andei à pancada! Levei algumas tareias dos meus pais. As célebres tareias de chinelos que raspam e não magoam. Encenação eficaz. Mesmo não doendo, ficávamos sempre a pensar que um dia podia doer. Essa preocupação já era suficiente para moderar o impulso para o disparate. Levei reguadas injustas. Essas magoavam a inocência! Foi no Colégio. Essas ainda me doem!
Não gosto de cenas de reguadas nem de pancadaria, daquelas em que os intervenientes ripostam um a seguir ao outro, sem fôlego...
O que eu gosto mesmo é daquelas cenas de "estalada". Aquela estalada bem dada e bem merecida! Daquelas que enchem os ecrãs e a sala, nos filmes!
Dessas nunca levei.
Dessas nunca dei.
(Nunca dei, mas tenho pena! Há quem as mereça!)

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

O absurdo segue dentro de alguns dias...

-Sabes muito bem o que é o talento: antigamente, chamava-se-lhe inteligência, mas se disseres assim, chamam-te fascista; digamos a capacidade de ensinar, mas a capacidade natural, não a que te ensinam nos cursos de formação.
Paola Mastrocola, Eu até sei Voar

Estamos mesmo a falar de escola, de professores e de alunos, que pelos vistos são iguais em todas as sociedades civilizadas, entre aspas, claro, e de sistemas educativos, que, nessas mesmas civilizações, também são iguais. Tudo isto a propósito de um livro que li há alguns anos.
Não consigo fazer uma síntese organizada do que li, por isso atrevo-me a recomendar-vos este livro. A dizer-vos que é obrigatório para professores, alunos, pais e encarregados de educação (Quase todos se incluem numa destas categorias, eu penso!), motivando ou provocando quem ler estas linhas, com pedaços de texto. Mas a experiência segreda-me: o status quo é verdadeiramente omnipotente e as coisas ficam sempre como estão!
Canaria é um professor “apanhado” pelo crescente insucesso do sistema. Como a Carla, a professora, ou como nós o entendemos! A angústia cresceu tanto dentro do pensamento, que tomou conta do entendimento e dos comportamentos. Parece um doido varrido a deitar contas ao sistema de ensino.
“- Não há nada a explicar. ( diz o Canaria, que dá Ciências, à Carla, que dá Italiano) Querem uma escola mais activa? Com mais horas, mais aulas, mais turmas, mais alunos, mais disciplinas, mais anos, mais tudo? Muito bem, então há que aumentar o número de professores, claro.( ...) Mas o que é que acontece? É simples: como a excelência, em todos os domínios, só pode ser atingida por uma minoria exígua da população, se aumentas o número, dás por ti a pescar na maioria e a apanhar peixes cada vez menos excelentes, mais médios, mais medíocres. E assim baixas o nível médio da classe docente.”
Tão simples, não é verdade? Tão incontestável! Mas atenção, este professor é incómodo, diz verdades e, pior que tudo, pensa-as. A maior parte de nós já perdeu o treino de pensar e o tempo para o fazer também. O sentido do dever impõe-se e, quando damos conta, passaram anos e o nosso nível de exigência já está pela metade e os conteúdos leccionados pela terça parte. Quem perde? Todos! Especialmente as nossas crianças que nunca conhecerão uma escola “a sério”. Conhecem aquela escola simpática, pouco exigente, que os vai conduzir a um mero diploma do Ensino Básico. Ou talvez o ponha à porta da Faculdade, quem sabe? Mas não lhe venha pedir contas, se não conseguir sair de lá a tempo e horas de começar carreira profissional, antes dos cabelos brancos.
E há ainda a doença mais grave deste sistema: a burocracia. Burocratizou-se o talento, o desejo, a intuição, a vontade... É preciso é haver muitos papéis, muitas circulares, com muitas folhas. Na escola de Carla “o Plano Anual de Escola tem trinta e duas páginas”.
“Pergunto a mim mesma como se diferenciarão as outras escolas, se a nossa ensina a falar, ler, escrever e estudar. Que pena eu tenho das outras escolas! O que é que inventarão para nos superar, para vencer a nossa terrível concorrência?” Desabafa a professora. E ainda há os chavões que metralham a torto e a direito, magoando, matando qualquer boa intenção.
E esta professora ganha realidade com uma família, marido e dois filhos, que vivem os seus problemas, que se angustiam com os dramas dos alunos da mãe, da mulher. Carla também se preocupa com Mário, o marido. Preocupa-se com a tristeza dele. Também a ele, homem de computadores, lhe roubaram criatividade. Já vem tudo feito no Windows. É tudo uma questão de janelas e menus. Na vida também. É preciso clicar na janela certa, ou encontrar o nosso caso no menu. Coitado do Mário! “Coitados dos jovens. Não podem pre-ver, pro-gramar, pro-jectar.”
E há também as galinhas. O galinheiro é quase um laboratório sagrado, onde livremente Carla pode ensaiar o seu talento: ensinar! Nem que seja uma galinha a voar! Inscreve-se num concurso e ganha um prémio: a galinha voa. Mas, “Eu não crio galinhas: eu sou professora.” diz ela.
O absurdo segue dentro de alguns dias...
(Parte de uma sugestão de leitura publicada na Nova Gazeta, "aventura" que me deixou saudades, sobretudo pela amizade que nos unia (Obrigada, Luizi, por me teres convidado! E pelo tempo que nos era "deixado" para "criarmos" as nossas galinhas sem falsos complexos de culpa!)imagem daqui

sábado, 21 de agosto de 2010

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Dia Mundial da Fotografia. Bem-haja, Vasco (Focarte)!

Neste dia, dedicado à arte que permite reviver em qualquer momento o instante que passou, gostaria de homenagear especialmente o primeiro fotógrafo que conheci e que guardou para sempre a beleza da minha mãe, adornada de muita tristeza, mas, mesmo assim, beleza; a não menos bela figura do meu pai, adornada de ares de sedução que praticou a vida toda e até a amizade que nos uniu, a mim e à filha Teresinha, minha companheira real de vidas faz-de-conta, em que adormecíamos as bonecas como se fossem os nossos filhos, à sombra do caramanchão que emprestava ao cenário a luz suficiente, para que o irreal parecesse real.
Bem-haja, Vasco!

domingo, 15 de agosto de 2010

(...)

Adeus, Guilhermina!
Estamos profundamente tristes e é muito difícil entender a tua partida.
"Se memória desta vida se consente"... É esta a eterna esperança.
Que a tua família e os teus amigos encontrem algum conforto que os ajude a continuar a vida como tu gostavas que fosse vivida.

Balanço algarvio

A vida é feita de nadas, diz o poema de Torga e a cantiga do Sérgio Godinho. A cantiga diz "pequenos nadas".
E, até hoje, eu dava razão aos poetas. Foram uns nadas muito breves que me animaram esta espécie de férias no Algarve. Foi a coincidência das minhas amigas de adolescência estarem cá e perto que deu um sabor diferente aos dias, à praia, aos jantares, aos preparativos da praia e dos jantares. Estando juntos voltámos a ter dezoito anos e a conversa mais séria do mundo desaguou sempre em sonoras gargalhadas. (Os nossos filhos olham-nos com aquele ar de pais desiludidos e não dizem mas pensam: não há nada a fazer!) Resolvidos que estávamos a esquecer as mazelas do presente, os momentos que vivemos juntos contribuíram para uma reorganização de valores que, podendo não estar completamente certa, proporciona muito mais bem-estar e tranquilidade.
Concretizámos um programa agendado há algum tempo: visitámos a minha mãe que quis saber tudo sobre cada uma das “meninas”. Ela própria recordou, com ternura e alguma alegria, o casamento que lhe queríamos fazer com o pai da Lalá. Desfiou outras recordações. Escrevemos um postal à laia de registo para memória futura e lá a deixámos com um bocadinho mais de alegria que talvez lhe dê força para algum tempo, tempo dela que é, inevitavelmente, marcado pela resignação e por alguma tristeza.
E aqui é que a cantiga e o poema deixam de ter razão. A tristeza não é um nada. A tristeza enche que nem um grande tudo. Demole os nadas que nos animam os dias e, provavelmente revela-nos a verdadeira importância da vida e nos leva a uma conclusão: esta é uma passagem curta. Uma colega minha faleceu. Era mais nova do que eu e depois desta notícia como é que vou viver com alegria sabendo que a falta dói na casa de alguém que me é próximo, alguém que dividiu comigo os dias de trabalho, alguém que me apoiou nas causas muitas vezes perdidas quase à partida?!
Descansa em paz, Guilhermina!

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

(...)

Tem dias em que a Vida nos oferece um pôr-do-sol mágico. E ainda, um baloiço, para que, descansadamente e baloiçadamente, possamos participar nesse deslumbramento da natureza.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

A memória do salto alto

Eram "Channel" diz a Zé, muito entendida em moda, desde sempre!
Não sei se ela tem razão ou não. Sei só que esses sapatos nos deram a sensação de termos "subido" na vida. Era o consentimento por parte dos nossos pais de que já não éramos crianças. E era isso que queríamos: que deixassem de nos considerar crianças. Estávamos crescidas, sim! E os nossos pais sabiam e, por isso, tinham acedido ao salto alto para o casamento da Mena. O sonho não era o casamento. O sonho era mesmo a nova condição que inauguraríamos no dia do casamento: Menina Maria José Sá e Menina Madalena Gouveia. E os sapatos eram lindíssimos, achávamos nós, na altura! Rendados, sem calcanhar, um salto pequeno que nos alteava a figura e nos fazia entrar no mundo dos mais crescidos. Não iríamos mais dar a mão ao nosso pai ou à nossa mãe. A partir daquele momento a nossa mão estava reservada para um belo príncipe que nos levaria, pela mão, ele, sim, para um sítio qualquer que nós já tínhamos imaginado mil vezes. E aí o casamento da Mena voltava a ser sonho e a activar um sonho igual.
Mas para usar salto alto, era preciso saber poisar o pé no chão e levantar depois do "tic", a que se seguiria outro "tic"...
Tic tic tic
Foi ao som da memória do salto alto que embalámos as rugas ao longo destes três dias.
Embalámos e demos banho, porque queremos rugas a brilhar de limpeza!