quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Nada de novo

Nos meus tempos de jovem, curiosa de conhecer algum passado para explicar algum presente e perspectivar algum futuro, li muitos romances de guerra, das guerras que assolaram a Europa, o nosso continente, por inevitabilidade da cor da nossa pele e de uma educação que visou implantar uma matriz com valores do velho continente.
(Velha estou eu agora e acho que sou um exemplo desse sucesso: o meu património cultural está recheado de valores europeus, embora se note, digo eu, o meu berço africano, algures numa saudade resolvida!)
E tudo isto porque me sinto feliz quando à pergunta "Então? Novidades?", eu respondo: "Nada de novo!"
E à insistência: "Nada de novo?", eu insisto: "Felizmente, nada de novo!"
A novidade pode ser boa e feliz, mas se for boa e feliz vai durar pouco. Por isso, é melhor ficar tudo como está.
Melhor era mesmo a temperatura subir um bocadinho e o céu expulsar algumas nuvens....
Já nem o tempo nos brinda com a novidade feliz!
O tal livro que me veio à cabeça chama-se "A Oeste Nada de Novo" e o autor é Erich Maria Remarque.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

O meu Natal foi ontem...

O meu Natal chegou ontem, trazido pelos meus netos! 
O Duarte trouxe a inocência do Menino Jesus. A grande lição é mesmo a da humildade: a gatinhar também se vai ao longe!
A Joana trouxe a alegria que é dela, muito dela e a boa vontade de realizar a incumbência de "fazer a árvore de Natal".  E foi assim: em três tempos a árvore estava decorada, a rigor, com fitas, bolas, um laço e pouco mais. Só com as fitas é que foi preciso uma ajuda para que a fita atingir o cume do "pinheiro". O resto ficou em cacho, à altura dos olhos da Joana.
 E até apetece citar Fernando Pessoa, ou melhor, Alberto Caeiro: 
"Porque eu sou do tamanho do que vejo 
E não, do tamanho da minha altura... "
Por isso, atrevo-me a dizer que o meu Natal chegou ontem!

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Climas

Há um clima de vem nos livros e que por muito agreste que seja, por muito que faça sentirmo-nos mal, temos de o aceitar. É a natureza quem mais ordena!
Mas há outro clima que não vem em compêndios de geografia mas noutros livros, talvez de política. Vem-me à cabeça o Príncipe de Maquievel.


("O primeiro método para avaliar a inteligência de um governante é olhar para os homens que o rodeiam." Nicolau Maquievel, O Príncipe.)
Há um outro clima mais lodoso do que o lodo propriamente dito, mais lamacento, mais escuro....
Há um clima de medo, do medo de nos perdermos na escuridão dos caminhos.
Há um clima de desconfiança gerada pela falta de confiança nas instituições supostamente guardiãs dos valores e princípios que regem os povos.
Antes a chuva e os trovões. Antes as nuvens negras....

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Hoje, trick or treat! Amanhã, pão por Deus!

Dantes, dizem os mais velhos, havia uma ordem no tempo, com temperaturas a horas, chuvas ou sóis a funcionar pontualmente. Havia também o Natal, o carnaval, as férias grandes e o dia da mãe. Os santos em Lisboa e no Porto lá se faziam ouvir e sentir por alturas do calor e as celebrações eram assim devidamente distribuídas pelos doze meses, sempre apoiadas no clima que não pregava grandes partidas.
Hoje, as celebrações multiplicaram-se e os estados do tempo também, a desoras, quando calha: chove e troveja no verão, faz calor quase em novembro, vamos à praia pelos santos...
Assim, vejamos; esta é uma das épocas mais atribuladas para quem quer sentir-se bem e acompanhar tanto a moda como o espríto da época. Tivemos um verão que se prolongou para lá do chamado tardio; amanhã já é novembro e mesmo assim está calor e nem as mangas, nem as golas apetecem. Hoje é dia das bruxas. Nunca pensei que esses seres tivessem direito a dia de. Já não lhes bastava o protagonismo das histórias de encantar? Hoje é dia da poupança. Qual poupança? Não chega já a forçada, a obrigatória. Ontem foi dia do cancro da mama. Até nas cores isto fica baralhado: ontem dominava o rosa do cancro da mama, hoje os tons são de laranja e violeta para o hallowe'en. Quanto à poupança...não tem cor, parece-me a mim. Amanhã celebramos todos os santos e depois de amanhã os finados. No meio de tudo isto há a preparação do natal nas ruas e nas lojas, com agasalhos que vão ter de guardar no tão apregoado verão de S. Martinho.
Ah! E há o vinho que é o único que contribui para a lógica desta desordem que encobre e tapa toda a tristeza e toda a pobreza....


sábado, 18 de outubro de 2014

A lição do Outono

"Deixa a Natureza ser a tua mestra." (Woodsworth)
Há uma lição que apanho do chão, a lição do outono!
De um chão que agora está húmido de chuvas limpas ou de um orvalho também limpo, cristalino.
É ali que repousam as folhas outrora verdes da primavera, rendidas ao cansaço das sombras que construiram, durante alguns meses, numa volúpia de cores quentes, que vão de um matiz alaranjado, acobreado, ao castanho dourado, que sugere o valor deste descanso que parece eterno.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

A fotomania

Aqui estou eu, em "ponto pequeno", mas de corpo inteiro. 
Estas eram as fotografias obrigatórias, tiradas por um fotógrafo profissional, para registar os atributos para a posteridade. 
Estava carregadinha de "luxo": ele era pulseiras nos dois pulsos, ele era fio ao pescoço, com cruz e tudo, ele era tule por todos os lados, ele era laços na cabeça e ao peito, ele era peúgas muito bem dobradinhas...
Eu era a "obra" da minha mãe que, ainda hoje, quase a inaugurar a década dos noventa, se preocupa com "aparecer" bonita!
Durante a adolescência escondi estas fotos com vergonha dos grandes laçarotes e da pose a que me obrigavam. Hoje, tanto a foto como a vergonha da foto fazem-me sorrir.
Hoje, gosto muito desta foto e a vergonha transformou-se em orgulho! 

A fotomania continua!

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Os dias da traquinice

Foi mais um reencontro feliz!
Desta vez só de voz, mas, em breve, mais do que falar vai ser um reencontro em carne e osso.
Sim, recordar é muito bom. Estas memórias trouxeram-me de volta os dias de traquinice e não só. Chego à conclusão, pelos anos que já levo de caminho, que esta tendência para subverter o lado sério da vida e o converter em momentos de alegria inesquecível, nos equipa para vivermos melhor os dias mais cinzentos, os dias das rugas e dos cabelos brancos e até os dias das feridas...
Essa minha tendência deu-me alguns dissabores, valeu-me reguadas que ainda hoje doem de injustiça, mas, acreditem, nesta idade, ou melhor, naquela idade, é muitas vezes uma questão de sobrevivência.
Como dizia um aluno meu de dez anos, numa reunião com pais e professores: "Se eu não me portar mal, ninguém repara em mim, ninguém me liga, ninguém e quer nos grupos. "
Afinal é o que todos queremos; que gostem de nós!

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Era um vez um caroço no peito...

Era uma vez um caroço no peito.... 
A geração da minha mãe, ela própria, diria as coisas assim, pois jamais a palavra "mama" nasceria na conversa de uma verdadeira senhora. E "nódulo" também não fazia parte do património das palavras,  por referir uma entidade do mundo da ciência, da medicina, para ser mais precisa.
Mas mesmo chamando-lhe caroço do peito era, foi, é e será, ainda por muito tempo, um adamastor, capaz de gerar um medo ainda maior que aquele que habita a obra maior da nossa literatura.
Era uma vez um caroço no peito, um nódulo da mama, que se confirmou ser o tal medonho cancro. Até me custa escrever a palavra porque.... Porque sim....
E, seguindo os trilhos da ciência, passando a frequentar mais o hospital do que qualquer outro lugar, buscando em todo o lado um apoio de um "igual", acabamos por nos encontrar, por encontrar em cada uma das muitas mulheres mais do que a solidariedade na condição tão eufemisticamente representada por um laço cor-de-rosa.  Fortemente enraizada nessa solidariedade, nasceu e cresceu a amizade, a verdadeira, a que se pratica. O poema de O'Neil ilustra bem a espontaneidade deste afecto: "mal nos conhecemos inauguramos a palavra amigo".
Sobre a descoberta do caroço no peito já passaram seis anos e sobre o nó deste laço passaram cinco.
Todas afirmam preferir não se terem conhecido....
Mas, já que aconteceu, que esse caroço continue a ser a semente de momentos únicos de boa disposição e alegria. Sim! Não é engano de post, nem de situação. Os momentos em que nos juntamos são sempre regados de alegria. E nem é preciso muita sangria. Basta um dedo para brindar!
À Vida! 

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Dia Mundial da Fotografia

Para celebrar o valor da fotografia, escolhi esta de tempos que eu não sei se vivi.... 
Mas estava lá ou cá, depende de estarmos a falar do mundo, do planeta ou da Vida.
Tenho aqui um momento eternizado dos meus pais jovens e felizes, comigo ao colo.
Este instante  sem este suporte já teria desaparecido, ou nem nunca talvez tivesse aparecido na minha memória. E quanto não vale este sorriso da minha mãe, com toda a sua beleza, em sintonia com o  enlevo do meu pai. 
Neste dia, eu juntei-os, pela certa. 
Neste registo confirmo o que sempre pensei, a propósito do gosto que a minha mãe sempre manifestou em arranjar-se, estar sempre bonita. É que as "divas" não têm terra, cidade, aldeia.
Esta foto foi tirada no "mato", no Alto Molocué,  e reparem como estamos todos bem vestidos. E a minha mãe tem brincos, colar, um vestido lindíssimo e baton. Ainda hoje, perto dos noventa mantém esta preocupação: alindar-se sempre.
A minha roupa também me parece muito a condizer com ela.
E com ele, o meu pai, um conquistador.  
Nem no mato perdia aquele jeito de se parecer com os actores da época. Vejo sempre nele uma mistura de Clark Gable com Rudolfo Valentino...

quinta-feira, 24 de julho de 2014

No teu dia, Cidade!

À Sra Dona Lourenço Marques,
Querida Lourenço Marques, não sei onde fui buscar esta ideia de seres mulher com nome de homem…  Hoje e agora, serás.
A ideia nasceu após uma pergunta formulada à Música Amélia Muge, sobre a mudança do teu nome, se essa mudança traz alguma alteração aos laços estabelecidos contigo anteriormente. Nem ouvi mais nada. A pergunta entrou pelo meu ouvido directamente à minha memória e daí a ideia de te chamar senhora, de te considerar mulher.
És a minha mãe nova e bonita! És uma qualquer das minhas tias, todas elas mulheres com um capital de amor e de afecto sem limites nem plafonds. Crédito total. És qualquer das minhas amigas que cresceram comigo e continuam a acompanhar-me nas caminhadas ou mesmo nas corridas da vida. És a minha raiz, o meu ventre materno, a minha sensação de paraíso perdido, minha primeira infância intocável de memórias que não guardo senão em fotos e que me devolvem uma inconsciência do mal, do perigo. Espaço e tempo  plenos  de natureza luxuriante e sugestão de aventuras mil.
A minha memória primeira, catalogo-a num tamanho muito xxs, entre os dois e os três anos: uma mudança de colo, da minha mãe para a minha tia, que iria ser minha madrinha. Um carro parado, junto à Catedral.
És a minha avó Madalena, imensa como os seus olhos verdes, estes sim  verdes de esperança. Também mulher de amores incondicionais e com uma dedicação à família que a transformava na verdadeira matriarca, com poder conquistado e aumentado ao longo dos anos.
As minhas priminhas, meninas felizes que corriam pelo nosso jardim do Éden privativo, o quintal da Avó,  onde os canteiros das alfaces e dos melões, melancias, couves, batatas, árvores de todos os frutos, uns tanques imensos onde todos os dias as roupas brancas eram lavadas e estendidas em bases de ferro e arame a que chamávamos “coradoros” pelas duas mulheres da casa. Junto ao tanque…  a romãzeira dava romãs, nem sei em que altura do ano, pois o conceito de “ fruta da época”, no meu passado remoto, não existe.

Hoje é e será sempre o teu dia, Minha Cidade, a tal que eu sei que traí….
Fotografia do meu cunhado, Luís Boléo|

domingo, 20 de julho de 2014

Memórias

Tenho memórias muito vivas da minha infância e até dos desejos e sonhos de menina.
Algumas das "certezas" ainda hoje me faz em sorrir ...
Antes dos seis anos, acreditava  que quando atingisse essa idade maior, seria auto-suficiente. 
Podia até casar e começar a vida de mãe de família que era a minha ambição, tal como a Susaninha, amiga da Mafalda do Quino, que muito recentemente celebrou 82 anos. Sofri uma enorme desilusão quando, chegado o dia, não aconteceu nada. Não cresci magicamente os centímetros todos que me faltavam para ser pelo menos da altura da minha mãe.
Passados uns meses, levaram-me para uma escola  Que experiência horrível! Que rotina desgastante. E ainda por cima havia os castigos e eu, na primeira classe, apanhei muitos. A professora, uma senhora muito respeitada na cidade de Lourenço Marques era muito amiga do meu pai, mas a mim fez-me sofrer. Devo confessar que hoje lhe dou valor. Ensinou-me o valor do castigo...
Eu até achava que já sabia ler! Ela não acreditou em mim. Sofri uma humilhação tremenda.
Aprendi a apanhar os pedaços estilhaçados do sonho! Aprendi que a vida tem um curso e não há volta a dar.
 Agora queria continuar a dar a mão aos meus filhos, para os salvar de todos os perigos.
 Agora tenho netos e fico feliz por ser esta sensação tão diferente da responsabilidade dos filhos. São a doce sobremesa e prendem-me à vida pelo lado da brincadeira e do amor sem mais nada. Só amor.
 As crianças são os únicos seres que não descriminam os mais velhos. Lambuzam-nos de beijos como se a nossa pele fosse lisinha como a deles. Fazem-nos penteados como se os nossos cabelos fossem os das bonecas.
Hoje a Joana queria pôr-me a chucha no Skipe. Devia querer consolar-me já que, como ela diz : "A  Madalena ti dói-dói..."

domingo, 13 de julho de 2014

Those were the days .....

Claro que isto é saudade!
Ao longo da vida tenho balançado sempre entre este psicologicamente correcto de ter ou não ter saudade, ou melhor, dizer que se tem ou não tem saudade. Às vezes, até parece que "parece mal" falar de saudade. Porque é falar de passado que é algo que não se muda e não vale a pena "chover no molhado", para citar o nosso nobre povo.
Como em tudo, há quem ache que sim, quem ache que não e quem esteja sempre pronto a criticar a saudade alheia. Outra recolha da sabedoria popular; o velho, o rapaz e o burro.
Eu tenho saudade, sim, de tudo o que vivi. Mesmo que a minha infância não tenha sido muito  cor-de-rosa como gostava de tivesse sido, até o baloiço pendurado no quintal da minha avó me traz um tempo em que sonhava, coisa que já vai sendo difícil hoje. (Esse baloiço ainda me embala desilusões.) Tinha futuro, achava eu. E tinha mesmo! Este quintal era e será sempre o meu paradise lost porque ali vivi todos os afectos do mundo. E havia a certeza que todas as rejeições, entre os que ali moravam ou lá iam de visita, acabavam bem. Dei uma mordidela à minha prima Madalena para lhe mostrar que tinha as minhas armas, apesar de ser uma lingrinhas indefesa..... Desculpa, priminha! Levei o tau-tau da ordem e nunca mais se falou nem se mordeu o assunto.
Tenho saudades da minha adolescência, cheia de diários e segredos, bilhetinhos e namoros quase. E dos bailes dos Velhos Colonos, onde ninguém me vinha buscar para dançar e eu até agradecia porque era uma das minhas incompetências, entre outras....
Tenho saudades do tempo desta foto, da intensidade do namoro, de pensar que tinha de me conformar com a rivalidade do futebol, sobretudo no inverno,  e das voltas em bicicletas, prato forte do verão....
Apetece-me viajar no tempo e dizer à Madalena de então: Tens de ser forte!, que  é o que me dizem agora, vezes sem conta, como se houvesse alternativa, qualquer que seja o "campo" da vida a ser preenchido....

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Adeus aos tempos que já lá vão...

Eu gostava do verão, mas isso era dantes, quando o verão era todos os dias e o domingo era  inesquecível: praia de manhã, caril ao almoço e matiné à tarde, no Gil Vicente, Manuel Rodrigues ou no Scala. Tanto prazer num dia só!
A praia era o ponto de encontro: os meus tios, as minhas primas, o meu pai, às vezes, a minha mãe, quase nunca. A água era quente. O senão era mesmo o  perigo de algum tubarão passar por ali...
Chegavamos à praia e não havia dramas de estacionamentos, nem parques, nem orientadores à caça da moeda que, nos dias de hoje, vai sempre parar a algum lado.
Tudo chegava para todos: a praia, a areia, o mar.... 

Enquanto uns se desfaziam da pouca roupa que atrapalhava o sol de nos tocar na pele, o meu pai ensaiava o seu estilo do protagonista do filme "Aventura é aventura", sempre na esperança de agradar a alguma turista, de ganhar fama para lá da fronteira, de consolidar a que já tinha, ou simplesmente para não perder o jeito...
O meu tio sorria, ria.... Divertiam-se!
À hora do almoço já os ombros ardiam e a pele ganhava a cor da saúde.

Era hora de zarpar, que o resto do domingo estava ainda por viver.
O caril tinha ficado a apurar a manhã toda. Era só fazer o arroz, comer e chorar por mais.
O filme da tarde era o que fosse. Era um ritual domingueiro cumprido com o corpo a arder por uma boa causa: a beleza do tom.
Era deste verão que eu gostava...

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Hoje será sempre o dia dos teus anos, papá!

"Hoje será sempre o dia dos teus anos, papá!"
Foi o que eu escrevi no Facebook, hoje, pela manhã. Não porque seja necessário fazê-lo, para me lembrar de ti, para sentir que tu continuas a andar por aqui. Continuas porque os genes assim o ditam e, contra a ciência, nada feito! Ela ganha! Esta verdade científica dá-me segurança e não tenho de me refugiar noutros “creres” para ter a certeza da tua presença.
Todos os dias o teu retrato deambula pelas minhas recordações, pela minha própria pessoa pois estou cada vez mais parecida contigo, fisicamente.
Às vezes, é na vida dos outros, é nos momentos que vamos repetindo, no tempo de hoje, que eu te "encontro". Quando vou buscar os meus netos à escolinha, por exemplo, recordo o dia em que chegaste mais tarde e a tua figura enorme nunca mais aparecia junto ao portão e eu pensei que esse era o último dia da minha vida. Pois que é que eu podia fazer sem ti ou sem a minha mãe? Quando finalmente chegaste, corri e as tuas pernas eram tão grandes que era difícil o abraço, o colo…. Era preciso trepar.
(Por isso, "aflição" foi coisa que eu quis sempre que os meus filhos não sentissem. E agora com os netos será igual.)
Tu foste sempre um homem grande e a tua altura não era apenas uma altura medida em metros. Tinhas uma visão das coisas da vida muito certa, muito antes de chegarem até nós. Juntavas a esta capacidade de prever, ver ao longe, uma filosofia de vida que se baseva, digo eu, hoje, no mais profundo senso comum. E olha que o senso comum não é qualidade que as pessoas gostem de proclamar! Todos querem ser originais. E tu tinhas umas tantas frases feitas que, sendo ou não da tua autoria, sustentavam a tua verdade sobre a vida. Por exemplo, o ditado “os cães ladram e a caravana passa” era muito inspiradora para ti porque tu sabias (eu ainda não) que devemos seguir os nossos caminhos, independentemente do que os outros acham ou não. Mais ou menos isso.
Eras pessoa de grande conversa e de grande companhia. Os teus interesses eram tão variados que ninguém ficava indiferente ao que dizias. Sabias ouvir e isso era muito importante para mim. Mesmo que não dissesses, eu percebia quando é que tu não gostavas de alguma coisa que eu tivesse dito ou escrito.
Dois ou três dias antes da tua partida (não consigo referir-me por outra palavra que não seja o eufemismo!) falámos de nós, de mim e de ti, os dois, eu e tu,  e eu fiquei muito feliz porque tu me disseste que eu nunca te tinha dado problemas ou desgostos.  Engoli em seco porque sabia que isso não era bem assim, mas também percebi que na altura era o teu sentir: não havia nada nas minhas escolhas, nos meus caminhos, que tivesse de ser severamente censurado.
Foi muito importante teres referido essa paz com que partias e teres-me deixado essa paz que me acompanha sempre.
 A gente vai falando, sim, papá? 

segunda-feira, 26 de maio de 2014

A minha noite de Champions!

Apesar da tão propalada noite de champions ser alvo de atenção e curiosidade nas imediações do Estádio da Luz, podem crer que aqui em casa vivemos uma noite de champions à altura das emoções maiores que envolvem estes eventos.
As duas equipas chegaram à hora prevista, preparadas e equipadas para disputar o troféu apetecido: uma taça cheia de mimo. Foram recebidas com as habituais saudações: colos, beijinhos e mais beijinhos e xi-coração. O discurso também esteve à altura destes heróis:
- “gugudádá”! , pronunciou solenemente o Duarte
- “Espectacular!” , referiu a Joana, perante o público presente.
A primeira parte foi muito emocionante. A Joana esteve muito concentrada e comeu a sopa toda. Já o Duarte não se mostrava muito agradado nem com a velocidade, nem com a quantidade das colheradas da papa. E a primeira parte terminou com a natural vitória da Joana que conseguiu concretizar a oportunidade, com toda a “tranquilidade”, como diz Mister Paulo Bento.
Na segunda parte, o Duarte conseguiu dar a volta ao resultado. Um biberão bebido sem hesitações. Quanto à Joana, não conseguiu finalizar o frango e a gelatina escorregou para o lado do prato…. Fora de jogo! Duas oportunidades perdidas!
Resultado ao fim do tempo regulamentar: Joana - Um; Duarte - Um.
Não é preciso perceber muito de futebol para entender que para estas grandes ocasiões o empate não pode ser resultado final.
Haverá prolongamento, a pedido do público!
A noite de sábado já ia longa e estrelas tão preciosas precisam de fazer ó-ó!

quinta-feira, 8 de maio de 2014

No dia em que o Duarte completa quatro meses de idade....

Era uma vez uma História

-Era uma vez uma história que se chama assim mesmo: Era Uma Vez.
Era Uma Vez nasceu, numa casa grande, mesmo no centro de uma cidade muito velhinha, mas bastante apreciada pela sua beleza e História. O próprio edifício era muito antigo e ali tinham nascido já muitas histórias. Ou seja, bebés!
O pai e a mãe eram muito jovens e bonitos. E como acontece sempre, tinham muitos cuidados com o seu bebé Era Uma Vez.
Deitavam-no num bercinho e embalavam-no um bocadinho para que adormecesse, acreditando que mergulhar no sono, assim, era muito bom para ele. Às vezes, parecia as ondas do mar, as pequeninas, num balanço suave criado para inventar um sono profundo. Outras vezes, parecia uma árvore feliz escolhida pelas brisas meninas para abanar suavemente o bebé.
Era Uma Vez ia crescendo, cada vez mais redondinho e bonito. Um dia surpreendeu os jovens pais com um sorriso muito doce. Foi uma grande emoção e, a partir daquele dia, todos à sua roda buscavam um novo sorriso que aparecia sempre. Era tão rasgado que os olhos pareciam ficar mais fechados, mais pequeninos. Os grandes pediam mais sorrisos e o pequenino Era Uma Vez parecia ter nascido para espalhar pozinhos de perlimpimpim, ou seja, doses pequeninas mas valiosas de alegria, por todos os que o rodeavam.
Certa manhã, aproximou-se do bercinho uma outra criança. Talvez fosse uma Princesa daquelas que enchem as histórias….
E o bebé Era Uma Vez presenteou-a com um sorriso ainda maior.
Uma das Fadas, daquelas de verdade que andavam sempre por perto, reparou naquele instante e considerou que estava na altura de abençoar o menino Era Uma Vez. Permaneceu de pé alguns momentos, tirou a varinha mágica que andava escondida no chapéu e disse:
- Que este sorriso lindo e doce te acompanhe pela vida fora!
E foi assim, que o bebé Era Uma Vez, foi abençoado!
Os pais sentiram que alguma coisa de muito importante se estava a passar no quartinho dos bebés, mas quando lá chegaram a Fada escondeu-se dentro do baú dos brinquedos…
A Princesa tinha sido a única testemunha daquele baptismo e ainda foi a tempo de esconder a varinha de condão na gaveta das fraldas e dos cremes.
Como tudo estava bem, os papás regressaram às suas tarefas!

É que  a Joana, a tal Princesa, como adora assumir-se, gosta de contar uma história ao mano e começa assim: Era uma vez uma história....

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Shiu...

Psiu....
Hoje é Dia do Silêncio! Shiu....
Há silêncios de ouro, mas há também há outros que se erguem como muros de pedra escura,  intransponíveis.
Há silêncios bons que induzem o sono e o sonho, mas há outros que dão voz à solidão que grita, grita, grita pelo silêncio adentro.

Há silêncios necessários que guardam a noite, o sono e o sonho. 
Há silêncios inúteis porque a humanidade já ensurdeceu.
Já todos vivemos alimentados de silêncios vários porque o medo os semeia, os rega, os faz crescer e os guarda...

domingo, 20 de abril de 2014

Happy Easter

Boa páscoa!
Votos do coelhinho que não percebe de orçamentos, nem de pensões, não conhece pessoas inconseguidas... 
Mas tem reivindicações: não ir além da sua condição de brinquedo; permanecer em obras literárias de referência; continuar a ser chamado o Coelhinho da Páscoa e poder assim devorar os ovinhos de chocolate e as amêndoas.
Certo?
Assinado: o Coelhinho da Joana

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Dia Mundial da Voz

Dia mundial da voz!
Da voz da razão e da voz do coração, da voz dos que não têm voz, não porque a voz lhes doa, mas porque se perde nas fronteiras da humanidade esquecida, da dignidade ignorada.
Dia da voz fraca e da voz forte. Pelo menos, na celebração de calendário, a democracia faz-se sentir.
Da voz grave e da voz aguda! Da voz que irrita os ouvidos e da voz que irrita as consciências e os costumes. 
Da voz alta e da voz baixa. Esta é usada para fazer segredos com asas.
Da voz com que uns choram a dor e outros explodem a alegria. 
Da voz que canta e da que grita. 
Da voz que cala....
Certos de que a voz que cala nem sempre consente.
Esta voz eu ouço e ouço e ouço!
Mas tive o privilégio de a ouvir ao vivo, no Pavilhão Atlântico, em 2010.
A emoção em directo!


Dia Mundial da Voz