terça-feira, 2 de junho de 2015

No mais fundo de mim...

Todos somos eternos enquanto vivos.
Os nossos pais são eternos, mesmo depois de partirem, porque não há ninguém que possa algum dia ocupar o seu lugar.
Quando se imaterializam, se despedem da matéria, ficamos num limbo, por definição imaterial, como se o direito ao paraíso nos fosse vedado e o purgatório também.
Para não falar no inferno, que felizmente saiu das mitologias do pecado. O limbo é a confusão entre a realidade e o desejo de não sofrermos.
A minha mãe partiu há uns dias. Ainda pairo por aí na certeza de que o sofrimento não é plano para a vida. E as voltas que o meu pensamento dá à roda do sofrimento?! O que eu vi e o que eu não vi. O que eu mostrei e o que eu escondi. O sofrimento da minha mãe e o meu próprio sofrimento à roda dos mil e um motivos que provocam dor no ser humano. 

Das nossas dores sabemos nós. E das tuas, mamã, quem sabia?
Estes últimos dez anos que eu julgava perdidos para ti, foram afinal cheios de afectos que construíste e alimentaste com a sabedoria dos grandes sobreviventes. Perdeste a saúde, mas tu sobreviveste. Perdeste a tua vontade sobre os teus dias e as tuas noites, mas tu sobreviveste. Perdeste o teu estilo de vida, cheio de glamour e perdeste também parte desse glamour. E sobreviveste. Enrolaste-me no esquecimento, mas sobreviveste. Todos os dias deste provas de coragem e força, vivendo cada nova realidade como se tivesse sido sempre a tua Vida.
A doçura tomou conta do teu olhar até ao fim, mesmo quando ele se refugiava em vazios incompreensíveis.
Agora é tempo de guardar e honrar a tua memória, com o brilho que sempre quiseste associar à imagem de ti.
É tempo de acreditar que a eternidade se constrói por aqui, pelo reino dos vivos e pode ser bela e gloriosa. 
Adeus, mamã! 
Eu fico por aqui mais um bocadinho, sim?
Apesar de tudo, não me sai do coração o poema de Eugénio de Andrade:
"No mais fundo de mim
Eu sei que traí, mãe."
Traí porque cresci. Até às rugas e aos cabelos quase todos brancos. Até às doenças más, como tu dizias. Até outras dores que não ouso nem pronunciar.
Olha por nós, se puderes!

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Esse cara é ele!



Passou por nós e parou, para nos oferecer boleia no seu calhambeque!
A nós que já não somos mais as garotas, que eram para cima de mil, a quererem passear com ele. 
Mas já fomos e lá fomos...
Pelo caminho. falou de amor verdadeiro, disse repetidas vezes "esse cara sou eu"; cantou a canção de Coimbra, com o doce que a língua do lado de lá nos empresta e recordou a noite em San Remo em que fez parte do sucesso "Canzone per te". 
As baleias também vieram, para eu contar aos meus netos que um velhote da minha geração nos alertou para o grande remorso, "Não é possível que você suporte a barra..."
Foram duas horas de "Emoções", sem intervalo, sempre a cantar...

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Professores à prova...,

Muita gente, para não dizer toda a gente, fala do insucesso dos professores nas provas de Português e F. Química. Falam porque é muito fácil falar sobre o que não se sabe. Quem vem pisar mais um bocadinho é sempre leigo na matéria e da escola só conhece a sua experiência de aluno, que vale com certeza, mas não tem nada a ver com a escola dos dias de hoje. Pisam porque sentem que estão de algum modo a exercer o seu direito à vingança do professor que, como dizia José Gomes Ferreira, no Mundo dos Outros, lhes "estragou a infância". Ou a de alguém próximo!
O que eles não sabem é que os professores, nas escolas de hoje, são tratados como "zeros" a nível da construção das aprendizagens dos alunos, sendo mais importante a transcrição para o papel cuidadosamente arquivado para o retrato da escola, em que quem tem de ficar bem é a direcção.(Desculpem o português antiquado, mas eu sou antiga!)
Quando a coisa corre bem, o mérito é da escola, leia-se dos que mandam na escola. Quando a coisa corre mal, a culpa é do professor.
O que é que correu mal nestas provas? Os professores, claro!, dizem logo os opinion makers ao serviço do sistema. 

Sebastião da Gama dizia que a aula de Português acontecia e eu sou, felizmente, desse tempo. A provocação, que agora se chama brainstorming, era um ponto de partida para o acordar das potencialidades criativas, para espevitar a imaginação dos alunos, para os levar a acreditar neles mesmos, como parte essencial na evolução da sociedade, em geral e deles, em particular. 
O processo ensino/aprendizagem não se transporta em pacotes estanques, com uma torneirinha que deita as quantidades pretendidas como acontece nas pipas de vinho. Aprender e ensinar é respirar o mesmo ar puro. 
Reflecti muito, ao longo da minha vida profisssional, sobre este "respirar", com a ajuda da literatura, mesmo não vinculada e aqui estão duas frases maiores que já têm muitos, muitos anos e não perdem a actualidade, tiradas do livro "Ilusões", de Richard Bach.
“Aprender é descobrir uma coisa que já sabemos.”
“Ensinar é lembrar aos outros que sabem tanto como tu.”
Esta falta de respeito por aqueles que podem fazer alguma coisa pelos nossos filhos ou netos, este regozijo disfarçado pela confirmação de uma incompetência que não é, não leva a lado nenhum...

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Coisas de avós!

Os momentos que passamos com a Joaninha e o Duarte são sempre dignos de registo, pelas emoções que se criam, pela certeza de serem únicos, inevitavelmente irrepetíveis.
 Porque amanhã eles já estão diferentes de hoje, porque o desenvolvimento das crianças e, às vezes, vertiginoso.
É, por isso, preciso agarrar estes instantes e investir neles toda a critividade, afecto e paciência.
Coisas de avós, pensarão vocês, Joaninha e Duarte quando lerem estas "palermices" que me saem do coração, à velocidade da luz também.
Desde que a Joaninha, primeiro, e o Duarte, depois, foram para a creche, os fins de tarde têm-se sucedido com instantes encantados, mágicos, em que somos brindados com uma correria  pelo corredor até ao nosso colo, um abraço quase golo, festejado sempre como o melhor, com conversas que soam aos nossos ouvidos mais belas do que as mais belas composições poéticas ou musicais....
Eles falam, eles cantam, a Joaninha vê o Pai Natal em todo o lado, mesmo depois dos enfeites terem "descido" das árvores, fala do papá, da mamã...
E até da vida, do princípio da vida, explicando que já esteve na barriga da mamã mas depois saiu para entrar o mano. Aliás o Duarte é com certeza o irmão mais bem aceite do mundo. Cabe em todos os planos! 
Ultimamente temos, eu e a Joana, deixado o Jorgito (avô) e o Duarte em casa e temos ido passear pelos quintais, nas traseiras dos prédios. Ali há hortas, há flores e há gatos. E há uma menina que descobre o prazer de fotografar.
Esta rosa foi das primeiras flores que a Joaninha colheu com um click!
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domingo, 26 de abril de 2015

abril....

De regresso ao abril de sempre! O dos provérbios, das águas mil! O abril descolorido, triste, nublado. A novidade deste abril é mesmo o saco de plástico, acessório obrigatório de qualquer estação, mês, parte do dia....
Ontem era abril! Mas mesmo abril. Havia cravos vermelhos.
-Onde é que posso comprar um cravo, perguntei timidamente a uma senhora que trazia dois e um saco plástico.
 Não reparei nos pormenores do saco, mas reparei que os cravos eram pequenos e recusavam abrir todas as suas pétalas. Se eu soubesse falar com as flores, perguntava-lhes a razão desta recusa. Mas eu até sei.
- Eles dão! respondeu-me a senhora com alguma alegria que devia ser por lhe terem dado alguma coisa. 
Perecebi então que comprar mesmo, só o saco de plástico....
Este era o cenário do Mercado, estrategicamente inaugurado neste dia, convencendo assim os incautos que uma inauguração com fanfarra, fotos e cravos à discrição é sinal de amor à liberdade.
E o Hospital? pergunta a minha memória timidamente... falo com ela para ela não se esquecer do que já aconteceu.
E o emprego?
E os transportes?
E a fome das crianças nas escolas?
E....?
Afinal o cravo não serviu de nada, sobretudo na lapela de alguns que se engalanaram só para tentar enganar o "freguês". 
Hoje é abril mas um abril sem história....
As boas emoções têm curta duração. 
A 25 explodimos de esperança, a 26 caímos na desilusão.
 É um grande trambolhão!
Deus nos ajude que magoados demais já nós estamos....

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Momento utopia para menores de seis anos ...

- E depois?
Depois, o Capuchinho Vermelho decidiu encontrar-se com as amiguinhas Cinderela e Branca de Neve, para combinarem a lição a dar aos lobos maus e a todos aqueles que fazem mal às pessoas boas...
Observação- A idade considerada pode ser mental, mas deve sempre ser confirmada por entidades competentes, ao serviço do Reino Da Fantasia.
Inspiração instantânea no momento em que visionei a foto no ecrâ do telemóvel.

terça-feira, 3 de março de 2015

Adeus....

Adeus, Arlete!
Mas antes, obrigada!
Porque nas voltas que a vida dá, estavas numa delas, bem violenta por sinal, para me amparares, para me levares a andar de baloiço, para me fazeres sentir que viver é bom e que não podemos deixar o prazer das pequenas, ou mesmo das grandes coisas, por mãos alheias.
Foram as tuas mãos que me acolheram. Foram os teus braços que me abraçaram. Foi o teu colo que me deu calor. Estavas ali pronta a ser uma mãe, a mãe que eu precisava. E, como tinhas uma família maravilhosa, entregaste-ma também num gesto de generosidade imensa e ternura sem fim.
A vida continuou a dar voltas e eis-nos de novo num caminho comum...
Já sem a juventude que tínhamos então, com os pés a tropeçar, "tropeçamos" nós, outra  vez, uma na outra, com a mesma ternura, com o mesmo amor.
Não sou muito boa nestas coisas de céus e paraísos e não consigo entender a dor e o sofrimento. Sei que o teu sofrimento foi grande mas também sei que ao teu lado estava sempre o teu Miguel, que te levava o amor de todos e trazia de volta o teu, para nos encher a alma de um reconhecimento ímpar, a quem de direito, por teres feito parte das nossas vidas.
Adeus! Sei que cuidas da nossa varanda, espaço mítico desse tempo, de onde contemplaremos sempre todos os tempos.
Até sempre, querida Arlete!

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Dez anos!

E passaram dez anos! Sempre lembrado com uma saudade suave e doce. 
Do lado de cá, eu fiquei com a certeza de que todos os teus dias foram "de valer a pena". 
E por aqui continuas....
Como continuam todas as histórias que me contaste. Havia dois panos de fundo para as tuas narrativas: a irreverência e a aventura. Não a aventura que torna os homens heróis de um dia para o outro. Diferentes aventuras. Aquelas que ensinam uma lição que nos acompanha a vida toda! Era assim a história do encontro com Samora Machel, já presidente.  Eram assim as histórias das aventuras amorosas que tinham sempre um grau de risco considerável. 
E o teu talento, ou melhor, os teus talentos punham tudo a funcionar como se de um filme se tratasse.
Aliás eras um assíduo espectador e um profundo conhecedor de cinema.
E pensando como foste abençoado de maneiras várias ao longo da vida, recordo de modo especial o teu acordar nos cuidados intensivos do Hospital Garcia de Orta, a rezar muito alto o terço. Quando nos viste, a mim e à Mariazinha, absolutamente incrédulas porque minutos antes estavas mergulhado no sono profundo a que os médicos chama "coma", tornaste-te tu incrédulo e resolveste todos os espantos com uma frase que só podia ser tua: Sim, porque eu acredito em Deus e Deus acredita em mim.
Não encontro nenhuma saudação de despedida. Tu, como eu já aqui disse, continuas por aqui.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Nada de novo

Nos meus tempos de jovem, curiosa de conhecer algum passado para explicar algum presente e perspectivar algum futuro, li muitos romances de guerra, das guerras que assolaram a Europa, o nosso continente, por inevitabilidade da cor da nossa pele e de uma educação que visou implantar uma matriz com valores do velho continente.
(Velha estou eu agora e acho que sou um exemplo desse sucesso: o meu património cultural está recheado de valores europeus, embora se note, digo eu, o meu berço africano, algures numa saudade resolvida!)
E tudo isto porque me sinto feliz quando à pergunta "Então? Novidades?", eu respondo: "Nada de novo!"
E à insistência: "Nada de novo?", eu insisto: "Felizmente, nada de novo!"
A novidade pode ser boa e feliz, mas se for boa e feliz vai durar pouco. Por isso, é melhor ficar tudo como está.
Melhor era mesmo a temperatura subir um bocadinho e o céu expulsar algumas nuvens....
Já nem o tempo nos brinda com a novidade feliz!
O tal livro que me veio à cabeça chama-se "A Oeste Nada de Novo" e o autor é Erich Maria Remarque.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

O meu Natal foi ontem...

O meu Natal chegou ontem, trazido pelos meus netos! 
O Duarte trouxe a inocência do Menino Jesus. A grande lição é mesmo a da humildade: a gatinhar também se vai ao longe!
A Joana trouxe a alegria que é dela, muito dela e a boa vontade de realizar a incumbência de "fazer a árvore de Natal".  E foi assim: em três tempos a árvore estava decorada, a rigor, com fitas, bolas, um laço e pouco mais. Só com as fitas é que foi preciso uma ajuda para que a fita atingir o cume do "pinheiro". O resto ficou em cacho, à altura dos olhos da Joana.
 E até apetece citar Fernando Pessoa, ou melhor, Alberto Caeiro: 
"Porque eu sou do tamanho do que vejo 
E não, do tamanho da minha altura... "
Por isso, atrevo-me a dizer que o meu Natal chegou ontem!

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Climas

Há um clima de vem nos livros e que por muito agreste que seja, por muito que faça sentirmo-nos mal, temos de o aceitar. É a natureza quem mais ordena!
Mas há outro clima que não vem em compêndios de geografia mas noutros livros, talvez de política. Vem-me à cabeça o Príncipe de Maquievel.


("O primeiro método para avaliar a inteligência de um governante é olhar para os homens que o rodeiam." Nicolau Maquievel, O Príncipe.)
Há um outro clima mais lodoso do que o lodo propriamente dito, mais lamacento, mais escuro....
Há um clima de medo, do medo de nos perdermos na escuridão dos caminhos.
Há um clima de desconfiança gerada pela falta de confiança nas instituições supostamente guardiãs dos valores e princípios que regem os povos.
Antes a chuva e os trovões. Antes as nuvens negras....

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Hoje, trick or treat! Amanhã, pão por Deus!

Dantes, dizem os mais velhos, havia uma ordem no tempo, com temperaturas a horas, chuvas ou sóis a funcionar pontualmente. Havia também o Natal, o carnaval, as férias grandes e o dia da mãe. Os santos em Lisboa e no Porto lá se faziam ouvir e sentir por alturas do calor e as celebrações eram assim devidamente distribuídas pelos doze meses, sempre apoiadas no clima que não pregava grandes partidas.
Hoje, as celebrações multiplicaram-se e os estados do tempo também, a desoras, quando calha: chove e troveja no verão, faz calor quase em novembro, vamos à praia pelos santos...
Assim, vejamos; esta é uma das épocas mais atribuladas para quem quer sentir-se bem e acompanhar tanto a moda como o espríto da época. Tivemos um verão que se prolongou para lá do chamado tardio; amanhã já é novembro e mesmo assim está calor e nem as mangas, nem as golas apetecem. Hoje é dia das bruxas. Nunca pensei que esses seres tivessem direito a dia de. Já não lhes bastava o protagonismo das histórias de encantar? Hoje é dia da poupança. Qual poupança? Não chega já a forçada, a obrigatória. Ontem foi dia do cancro da mama. Até nas cores isto fica baralhado: ontem dominava o rosa do cancro da mama, hoje os tons são de laranja e violeta para o hallowe'en. Quanto à poupança...não tem cor, parece-me a mim. Amanhã celebramos todos os santos e depois de amanhã os finados. No meio de tudo isto há a preparação do natal nas ruas e nas lojas, com agasalhos que vão ter de guardar no tão apregoado verão de S. Martinho.
Ah! E há o vinho que é o único que contribui para a lógica desta desordem que encobre e tapa toda a tristeza e toda a pobreza....


sábado, 18 de outubro de 2014

A lição do Outono

"Deixa a Natureza ser a tua mestra." (Woodsworth)
Há uma lição que apanho do chão, a lição do outono!
De um chão que agora está húmido de chuvas limpas ou de um orvalho também limpo, cristalino.
É ali que repousam as folhas outrora verdes da primavera, rendidas ao cansaço das sombras que construiram, durante alguns meses, numa volúpia de cores quentes, que vão de um matiz alaranjado, acobreado, ao castanho dourado, que sugere o valor deste descanso que parece eterno.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

A fotomania

Aqui estou eu, em "ponto pequeno", mas de corpo inteiro. 
Estas eram as fotografias obrigatórias, tiradas por um fotógrafo profissional, para registar os atributos para a posteridade. 
Estava carregadinha de "luxo": ele era pulseiras nos dois pulsos, ele era fio ao pescoço, com cruz e tudo, ele era tule por todos os lados, ele era laços na cabeça e ao peito, ele era peúgas muito bem dobradinhas...
Eu era a "obra" da minha mãe que, ainda hoje, quase a inaugurar a década dos noventa, se preocupa com "aparecer" bonita!
Durante a adolescência escondi estas fotos com vergonha dos grandes laçarotes e da pose a que me obrigavam. Hoje, tanto a foto como a vergonha da foto fazem-me sorrir.
Hoje, gosto muito desta foto e a vergonha transformou-se em orgulho! 

A fotomania continua!

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Os dias da traquinice

Foi mais um reencontro feliz!
Desta vez só de voz, mas, em breve, mais do que falar vai ser um reencontro em carne e osso.
Sim, recordar é muito bom. Estas memórias trouxeram-me de volta os dias de traquinice e não só. Chego à conclusão, pelos anos que já levo de caminho, que esta tendência para subverter o lado sério da vida e o converter em momentos de alegria inesquecível, nos equipa para vivermos melhor os dias mais cinzentos, os dias das rugas e dos cabelos brancos e até os dias das feridas...
Essa minha tendência deu-me alguns dissabores, valeu-me reguadas que ainda hoje doem de injustiça, mas, acreditem, nesta idade, ou melhor, naquela idade, é muitas vezes uma questão de sobrevivência.
Como dizia um aluno meu de dez anos, numa reunião com pais e professores: "Se eu não me portar mal, ninguém repara em mim, ninguém me liga, ninguém e quer nos grupos. "
Afinal é o que todos queremos; que gostem de nós!

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Era um vez um caroço no peito...

Era uma vez um caroço no peito.... 
A geração da minha mãe, ela própria, diria as coisas assim, pois jamais a palavra "mama" nasceria na conversa de uma verdadeira senhora. E "nódulo" também não fazia parte do património das palavras,  por referir uma entidade do mundo da ciência, da medicina, para ser mais precisa.
Mas mesmo chamando-lhe caroço do peito era, foi, é e será, ainda por muito tempo, um adamastor, capaz de gerar um medo ainda maior que aquele que habita a obra maior da nossa literatura.
Era uma vez um caroço no peito, um nódulo da mama, que se confirmou ser o tal medonho cancro. Até me custa escrever a palavra porque.... Porque sim....
E, seguindo os trilhos da ciência, passando a frequentar mais o hospital do que qualquer outro lugar, buscando em todo o lado um apoio de um "igual", acabamos por nos encontrar, por encontrar em cada uma das muitas mulheres mais do que a solidariedade na condição tão eufemisticamente representada por um laço cor-de-rosa.  Fortemente enraizada nessa solidariedade, nasceu e cresceu a amizade, a verdadeira, a que se pratica. O poema de O'Neil ilustra bem a espontaneidade deste afecto: "mal nos conhecemos inauguramos a palavra amigo".
Sobre a descoberta do caroço no peito já passaram seis anos e sobre o nó deste laço passaram cinco.
Todas afirmam preferir não se terem conhecido....
Mas, já que aconteceu, que esse caroço continue a ser a semente de momentos únicos de boa disposição e alegria. Sim! Não é engano de post, nem de situação. Os momentos em que nos juntamos são sempre regados de alegria. E nem é preciso muita sangria. Basta um dedo para brindar!
À Vida! 

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Dia Mundial da Fotografia

Para celebrar o valor da fotografia, escolhi esta de tempos que eu não sei se vivi.... 
Mas estava lá ou cá, depende de estarmos a falar do mundo, do planeta ou da Vida.
Tenho aqui um momento eternizado dos meus pais jovens e felizes, comigo ao colo.
Este instante  sem este suporte já teria desaparecido, ou nem nunca talvez tivesse aparecido na minha memória. E quanto não vale este sorriso da minha mãe, com toda a sua beleza, em sintonia com o  enlevo do meu pai. 
Neste dia, eu juntei-os, pela certa. 
Neste registo confirmo o que sempre pensei, a propósito do gosto que a minha mãe sempre manifestou em arranjar-se, estar sempre bonita. É que as "divas" não têm terra, cidade, aldeia.
Esta foto foi tirada no "mato", no Alto Molocué,  e reparem como estamos todos bem vestidos. E a minha mãe tem brincos, colar, um vestido lindíssimo e baton. Ainda hoje, perto dos noventa mantém esta preocupação: alindar-se sempre.
A minha roupa também me parece muito a condizer com ela.
E com ele, o meu pai, um conquistador.  
Nem no mato perdia aquele jeito de se parecer com os actores da época. Vejo sempre nele uma mistura de Clark Gable com Rudolfo Valentino...

quinta-feira, 24 de julho de 2014

No teu dia, Cidade!

À Sra Dona Lourenço Marques,
Querida Lourenço Marques, não sei onde fui buscar esta ideia de seres mulher com nome de homem…  Hoje e agora, serás.
A ideia nasceu após uma pergunta formulada à Música Amélia Muge, sobre a mudança do teu nome, se essa mudança traz alguma alteração aos laços estabelecidos contigo anteriormente. Nem ouvi mais nada. A pergunta entrou pelo meu ouvido directamente à minha memória e daí a ideia de te chamar senhora, de te considerar mulher.
És a minha mãe nova e bonita! És uma qualquer das minhas tias, todas elas mulheres com um capital de amor e de afecto sem limites nem plafonds. Crédito total. És qualquer das minhas amigas que cresceram comigo e continuam a acompanhar-me nas caminhadas ou mesmo nas corridas da vida. És a minha raiz, o meu ventre materno, a minha sensação de paraíso perdido, minha primeira infância intocável de memórias que não guardo senão em fotos e que me devolvem uma inconsciência do mal, do perigo. Espaço e tempo  plenos  de natureza luxuriante e sugestão de aventuras mil.
A minha memória primeira, catalogo-a num tamanho muito xxs, entre os dois e os três anos: uma mudança de colo, da minha mãe para a minha tia, que iria ser minha madrinha. Um carro parado, junto à Catedral.
És a minha avó Madalena, imensa como os seus olhos verdes, estes sim  verdes de esperança. Também mulher de amores incondicionais e com uma dedicação à família que a transformava na verdadeira matriarca, com poder conquistado e aumentado ao longo dos anos.
As minhas priminhas, meninas felizes que corriam pelo nosso jardim do Éden privativo, o quintal da Avó,  onde os canteiros das alfaces e dos melões, melancias, couves, batatas, árvores de todos os frutos, uns tanques imensos onde todos os dias as roupas brancas eram lavadas e estendidas em bases de ferro e arame a que chamávamos “coradoros” pelas duas mulheres da casa. Junto ao tanque…  a romãzeira dava romãs, nem sei em que altura do ano, pois o conceito de “ fruta da época”, no meu passado remoto, não existe.

Hoje é e será sempre o teu dia, Minha Cidade, a tal que eu sei que traí….
Fotografia do meu cunhado, Luís Boléo|

domingo, 20 de julho de 2014

Memórias

Tenho memórias muito vivas da minha infância e até dos desejos e sonhos de menina.
Algumas das "certezas" ainda hoje me faz em sorrir ...
Antes dos seis anos, acreditava  que quando atingisse essa idade maior, seria auto-suficiente. 
Podia até casar e começar a vida de mãe de família que era a minha ambição, tal como a Susaninha, amiga da Mafalda do Quino, que muito recentemente celebrou 82 anos. Sofri uma enorme desilusão quando, chegado o dia, não aconteceu nada. Não cresci magicamente os centímetros todos que me faltavam para ser pelo menos da altura da minha mãe.
Passados uns meses, levaram-me para uma escola  Que experiência horrível! Que rotina desgastante. E ainda por cima havia os castigos e eu, na primeira classe, apanhei muitos. A professora, uma senhora muito respeitada na cidade de Lourenço Marques era muito amiga do meu pai, mas a mim fez-me sofrer. Devo confessar que hoje lhe dou valor. Ensinou-me o valor do castigo...
Eu até achava que já sabia ler! Ela não acreditou em mim. Sofri uma humilhação tremenda.
Aprendi a apanhar os pedaços estilhaçados do sonho! Aprendi que a vida tem um curso e não há volta a dar.
 Agora queria continuar a dar a mão aos meus filhos, para os salvar de todos os perigos.
 Agora tenho netos e fico feliz por ser esta sensação tão diferente da responsabilidade dos filhos. São a doce sobremesa e prendem-me à vida pelo lado da brincadeira e do amor sem mais nada. Só amor.
 As crianças são os únicos seres que não descriminam os mais velhos. Lambuzam-nos de beijos como se a nossa pele fosse lisinha como a deles. Fazem-nos penteados como se os nossos cabelos fossem os das bonecas.
Hoje a Joana queria pôr-me a chucha no Skipe. Devia querer consolar-me já que, como ela diz : "A  Madalena ti dói-dói..."