terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Censura! Não, obrigada!

Os que me conhecem sabem que a minha área de pensamento ideológico anda próxima do PS. Não de todo o PS, mas de uma origem, uma raíz, que na minha juventude me convenceu e me ofereceu um ideal.
Foi bom andar em campanhas, fazer parte de listas, organizar ou co-organizar apresentações de candidatos, escrever sem medos, falar e dizer tudo o que me ia na alma, aconchegasse ou não os interesses de alguns. Sempre me senti livre porque nunca tive ambição de carreirismo: a minha família, alargada de bons amigos, e a minha profissão preenchiam-me a vida e era muito pouco o tempo que emprestava à militância partidária.
Há dias, nas arrumações dos enfeites de natal, encontrei uma bandeira desses tempos. Não me comovi nem me emocionei especialmente, mas senti uma certa ternura pelo lado simbólico daquele achado: juventude, ideal, muita juventude e muito ideal.
Fotografei a bandeira e  coloquei a foto numa página do Facebook dedicada à fotografia, em que participo diariamente, pensando que talvez provocasse uma boa recordação nos muitos que aqui "andam", colaboram e têm uma lembrança semelhante.
Mas não! A fotografia valeu-me uma censura que não me abalou pessoalmente. O que me abala, sim, é constatar que o sentido da tolerância precisa de ser trazido à tona das nossas conversas e dos nossos hábitos.
Deixo-vos aqui a bandeira que me acompanhou em muitos comícios, os tais "de boa memória", de que fala José Gomes Ferreira, no seu "Mundo dos Outros".


segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

É a Vida! Ou é o futebol?

"É o futebol!"
É este o desabafo alternativo ao costumeiro "É a vida! ". 
E a vida rola ao ritmo do relato, daqueles relatos radiofónicos que o meu avô ouvia, ue a minha avó interrompia, dando origem a uma birra doméstica. Quando não havia televisão, claro!
Não sei quando é que começou o derby Jesus versus Vitória, mas está num momento de grande emoção. Jesus ataca Vitória. Vitória responde a Jesus e Jesus responde a Vitória. Vitória ataca e o esférico segue à frente das suas palavras. Mas eis que Jesus vai, avança e consegue alterar novamente o curso do resultado e sai mais uma tirada. É golo? É o que vamos ver daqui a pouco quando Vitória acordar e reagir...
É a vida! É o futebol!
Para alguns a vida é mesmo o futebol!
E às vezes as palavras não adivinham nada. Ou talvez façam justiça por suas próprias letras.

Jesus e Vitória! Os clubes que treinam deviam ter os seus nomes já que fazem jus à palavra adversário. E há honras televisivas para estes campeonatos.
E ontem, a vitória ficou com Jesus, o Jorge.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Microconto de Natal

A campainha da porta.... 
Ho Ho Ho.... 
A porta abriu-se e o Pai Natal entrou.
Os olhos da menina brilharam mais do que as luzes da árvore de natal. O menino conteve-se nas manifestações de alegria e, quando o Representante Máximo da Fantasia da Época lhe estendeu a mão, pronunciou um firme "não". 
O Pai Natal depositou duas prendas junto à árvore e, quando a mãe dos meninos lhe perguntou pelo resto das prendas, ele disse onde estavam.
Abriu-se então a porta do tesouro de natal,
-WOW, exclamou a menina!
-WOW, exclamou o menino, deixando-se levar pelas emoções da irmã.
O Pai Natal acenou um adeus a todos e foi-se embora...
A menina continuava maravilhada.
A Fantasia tinha tomado conta da situação!
O pai voltou momentos depois. Tinha ido dar de comer ao cão e os filhos tinham tanto para contar....

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

O nevoeiro (Microconto)

O nevoeiro acordou tarde. A estrela das seis da manhã avisou-o que estava atrasado e que ela precisava de ir dormir. Já estava cansada de brilhar ao frio.
E lá veio o nevoeiro... Espreguiçou-se, tornou a espreguiçar-se e, quando deu conta, tinha mergulhado no rio. 
Ouviram-se risos. Era uma onda pequena e brincalhona que adorava fazer troça destes enganos.
- E o que é que eu faço agora? - perguntou o nevoeiro, aflito.
- Quando o sol te estender um dos muitos raios, agarras-te e sais. Mas até lá tens de ficar connosco a jogar às escondidas...
O nevoeiro bocejou, suspirou, mas ficou.
O Sol ainda não o foi buscar....

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

O valor do tempo

Agora, que a minha mãe já não está cá, sinto que o valor do tempo mudou para mim. Passei para a linha da frente, mas não é isso que me dói. Doí-me sobretudo a noção aguda da finitude inevitável e a incapacidade de fazer no tempo que me resta tudo o que é bom e contribui para a realização de uma vida.
Então.... Tenho muito tempo quando falamos de gestão do dia. 
As manhãs prometem sobras de tempo. Temo essas sobras que me podem corroer a tranquilidade que, a par do tempo a mais, me é oferecida. 
E depois vem a tarde que parece tornar-se infértil acompanhada que está de uma preguiça que teima em percorrer-me os braços e as pernas.
É a idade, dizem-me!
E do outro tempo, do tempo mais longe? Esse parece estar ainda mais comprometido e ser mais difícil de perceber quando me imagino lá. Estarei como agora? Ou serei fisicamente muito diferente? Estarei muito mais fraca? 
Do tempo que ainda tenho, pouco ou muito, quanto desse tempo será de qualidade?

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Dia Mundial da Terceira Idade

"A volúpia do aborrecimento" - crónica de Fernando Alves, na TSF-  ou a vida dos velhos vista por dentro, do lado do avesso, que é o lado que temos de vestir quando a estação da vida nos impõe. E calçar pantufas,  mais um eufemismo para os dias soturnos e tristes, amarelados como as folhas da árvores, antes de tombarem de vez num chão qualquer que será pisado por tantos, os tantos que ainda caminham na vida de salto alto ou outro que convenha ao sexo/género...
Uma coisa menos triste retive desta crónica: a infância só existe porque a vemos bem, ao longe, quando olhamos para trás. Tal como esticamos o braço para ver melhor ao pé, também as "temporadas" só tomam precisão de contornos vistas de longe.
O que o Fernando Alves não diz, porque provavelmente o neto é tão pequenino que ainda não lhe deu essa "dica", é que os nossos netos nunca acham que somos velhos e pulam para os nossos "lombos" como se fôssemos uns burricos novos e cheios de força. A minha neta, revelando ao mundo um pensamento que deve ser padrão da idade e da experiência, diz muitas coisas e nunca me chamou velha...
Outra coisa que também é boa é que todos os miúdos da minha idade continuam a ser da minha idade...
Como diz o GPS: chegou ao seu destino!!
Mesmo que nos enganemos nas coordenadas e nas moradas...
(private joke)


quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Dia Mundial do Regresso ao Futuro

Hoje é o Dia Mundial do Regresso ao Futuro. Um Dia Mundial que rende homenagem merecida a quem nos encantou com filmes como o que dá nome ao dia. 
Outros autores ou realizadores também escolheram o ingrediente tempo para se tornarem mais apetecíveis e aquecer a esperança de um dia dominarmos esta variável e corrigir erros do passado com um saltinho ao futuro. O próprio Super-homem empurrava o planeta para retirar dos escombros do terramoto a sua Lois. Também pode ser uma técnica mas o super-homem já cá não está....
Pessoalmente não tenho pressa, até porque o saltinho paga-se e bem. São viagens muito caras e não tenho grande curiosidade relativamente a mais aplicações tecnológicas. A minha Bimby queixa-se de solidão. Mas a culpa é dela que não desempenha as funções como prometeu. Ao seu lado, a placa de indução vibra de vaidade porque todos os dias lhe dou coisas para fazer. O que eu quero é viver este presente, correr com os pés que Deus me deu (que os médicos já remendaram) atrás dos meus netos, mergulhar de cabeça (coisa que eu nunca soube fazer nas piscinas da minha infância) na fantasia dos livros de encantar e nos filmes.
E cuidem-se os que pensam que sabem o final da Branca de Neve. Quem casa com o Príncipe não é a Branca de Neve. Acho que a minha neta já manifestou intenção de "catrapiscar" o Príncipe.
Mesmo com muita tecnologia não me parece que vá ao casamento mas desejo mesmo é que o Futuro traga muita saúde e muitas felicidades aos meus netos!
E a todos os que por cá andarem!

domingo, 18 de outubro de 2015

Peixinhos da horta e coisas assim

"Quando os Deuses no Olimpo luminoso,
Onde o governo está da humana gente,
Se ajuntam em concílio glorioso..."
Havia mais este compromisso, adiado uma semana por razões de saúde da homenageada.
Mas o vento e a chuva teimavam em castigar o desejo de quem se quisesse fazer à "viagem". Estavam criadas todas as condições para tornar épico qualquer passo fora de casa! A simples travessia da ponte Vasco da Gama podia transformar-se na "viagem"  do próprio Vasco da Gama, há mais de quinhentos anos.
Mas os deuses atentos determinaram que a chuva parasse, que o vento se calasse, que as nuvens se afastassem e eu pudesse cumprir aquele compromisso.
Pelo menos um! Pelo menos aquele!
O lançamento do livro Memórias do Coração de Helena Lopes, professora, educadora e amiga.
Confesso agora que temia não aguentar as recordações da Namaacha, geladas como os dormitórios, irritantes como a sineta para nos acordar.... Recordações cheias da saudade da minha mãe e do medo de um dia ir parar ao inferno. E, no meio das lembranças tão dolorosas, sobressai a presença amiga da Irmã Maria Helena que me/nos dava o carinho, a palavra doce, ajudando sempre a reconstruir a esperança, a moldar a personalidade, a dignidade, os valores...
Se não tivesse ido, as coisas teriam ficado assim, geladas e inertes, à espera do grande fogo do inferno.
Fui e reconciliei-me com estas raízes.

Vou tentar esquecer o dormitório, o refeitório, os peixinhos da horta, as confissões dos inúmeros pecados que uma criança de dez anos consegue arranjar à custa da imaginação e do medo.
Voltei feliz, quase, quase a acreditar na humanidade. 

Cinquenta anos depois, a Irmã Maria Helena mantém a mesma estrutura moral, aborda-nos com o mesmo carinho, disfarçando a emoção com apontamentos de humor.
Era, ou melhor, é a mesma, com farinha nos cabelos!
Beijinhos, Irmã Maria Helena! Parabéns e obrigada por esta celebração, por este livro, por este encontro.
Meninas: CristinaFernandaLuísaMadalenaManuela, um xi coração apertado!

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Dia do professor

"Sou professora! Fui professora! 
Não sei e não consigo decidir qual o tempo verbal.
Comecemos pelo passado, pelo fui....
Fui professora a sentir-me a aprender muito, tanto, todos os dias, porque precisava de aprender para ensinar e as aprendizagens entravam no meu pensamento como "o sol por um vidraça", para usar a comparação de Eça. 
Fui professora com uma juventude que me refrescava constantemente a memória dos meus dias de mais menina, produzindo toneladas de cumplicidades que se ficavam por ali, pelo meio, entre os treze anos deles e os meus vinte e três.
Fui professora em dias de liberdade acabada de nascer.
Foram tempos inesquecíveis para quem os viveu  com todos os sentidos ligados no botão "on",  aguentando trabalho, barulho, confusão, prazer e liberdade. 
Tudo! Até o sonho de ter filhos e de os criar, transmitindo-lhes, desde o primeiro dia, os ideais que nos guiavam a vida. 
E mesmo depois de passar a euforia, fui professora. 
Fui professora mãe. Em cada aluno eu via um filho. Porque todos os alunos são filhos de alguém e sempre alimentei a esperança de estar à altura de receber esses filhos de outras mães, como eu queria que recebessem os meus filhos.
Os tempos foram mudando. O sol arrefeceu. Ou talvez não. Pode ser que até tenha aquecido porque passou a fazer mal à pele. Os meus filhos cresceram e, finalmente, envelheci. No Bilhete de Identidade, nos cabelos e um pouco por todo o corpo. Mas cá dentro de mim e dentro da sala de aula, talvez por magia,  a "aula acontecia" (Sebastião da Gama/ Diário).
Fui professora de sala de aula sempre.
E (talvez não devesse dizer isto) divertia-me tanto.
Mas houve um dia que me tiraram deste palco, que me interromperam a minha peça de teatro, o meu filme, que me impingiram personagens cinzentonas carregadas de papel, que me violentaram o prazer de ensinar/aprender. 
Nesse dia "morri" no palco.
Fui professora, portanto! Não é possível trazer para casa a sacada de momentos que me encheram a alma de alegrias várias.
Mudei de vida! 
Já não sou professora e esta verdade não me dói."



Sou professora! Fui professora!
Não sei e não consigo decidir qual o tempo verbal.
Comecemos pelo passado, pelo fui....
Fui professora a sentir-me a aprender muito, tanto, todos os dias, porque precisava de aprender para ensinar e as aprendizagens entravam no meu pensamento como "o sol por um vidraça", para usar a comparação de Eça.
Fui professora com uma juventude que me refrescava constantemente a memória dos meus dias de mais menina, produzindo toneladas de cumplicidades que se ficavam por ali, pelo meio, entre os treze anos deles e os meus vinte e três.
Fui professora em dias de liberdade acabada de nascer.
Foram tempos inesquecíveis para quem os viveu com todos os sentidos ligados no botão "on", aguentando trabalho, barulho, confusão, prazer e liberdade.
Tudo! Até o sonho de ter filhos e de os criar, transmitindo-lhes, desde o primeiro dia, os ideais que nos guiavam a vida.
E mesmo depois de passar a euforia, fui professora.
Fui professora mãe. Em cada aluno eu via um filho. Porque todos os alunos são filhos de alguém e sempre alimentei a esperança de estar à altura de receber esses filhos de outras mães, como eu queria que recebessem os meus filhos.
Os tempos foram mudando. O sol arrefeceu. Ou talvez não. Pode ser que até tenha aquecido porque passou a fazer mal à pele. Os meus filhos cresceram e, finalmente, envelheci. No Bilhete de Identidade, nos cabelos e um pouco por todo o corpo. Mas cá dentro de mim e dentro da sala de aula, talvez por magia, a "aula acontecia" (Sebastião da Gama/ Diário).
Fui professora de sala de aula sempre.
E (talvez não devesse dizer isto) divertia-me tanto.
Mas houve um dia que me tiraram deste palco, que me interromperam a minha peça de teatro, o meu filme, que me impingiram personagens cinzentonas carregadas de papel, que me violentaram o prazer de ensinar/aprender.
Nesse dia "morri" no palco.
Fui professora, portanto! Não é possível trazer para casa a sacada de momentos que me encheram a alma de alegrias várias.
Mudei de vida!
Já não sou professora e esta verdade não me dói.
 — com Adilia Manteigas e 2 outras pessoas.

Dia do Professor


Sou professora! Fui professora! 

Não sei e não consigo decidir qual o tempo verbal.
Comecemos pelo passado, pelo fui....
Fui professora a sentir-me a aprender muito, tanto, todos os dias, porque precisava de aprender para ensinar e as aprendizagens entravam no meu pensamento como "o sol por um vidraça", para usar a comparação de Eça. 
Fui professora com uma juventude que me refrescava constantemente a memória dos meus dias de mais menina, produzindo toneladas de cumplicidades que se ficavam por ali, pelo meio, entre os treze anos deles e os meus vinte e três.
Fui professora em dias de liberdade acabada de nascer.
Foram tempos inesquecíveis para quem os viveu com todos os sentidos ligados no botão "on", aguentando trabalho, barulho, confusão, prazer e liberdade. 
Tudo! Até o sonho de ter filhos e de os criar, transmitindo-lhes, desde o primeiro dia, os ideais e os sonhos que nos guiavam a vida. 
E mesmo depois de passar a euforia, fui professora. 
Fui professora mãe. Em cada aluno eu via um filho. Porque todos os alunos são filhos de alguém e sempre alimentei a esperança de estar à altura de receber esses filhos de outras mães, como eu queria que recebessem os meus filhos.
Os tempos foram mudando. O sol arrefeceu. Ou talvez não. Pode ser que até tenha aquecido porque passou a fazer mal à pele. Os meus filhos cresceram e, finalmente, envelheci. No Bilhete de Identidade, nos cabelos e um pouco por todo o corpo. Mas cá dentro de mim e dentro da sala de aula, talvez por magia, a "aula acontecia" (Sebastião da Gama/ Diário).
Fui professora de sala de aula sempre.
E (talvez não devesse dizer isto) divertia-me tanto.
Mas houve um dia que me tiraram deste palco, que me interromperam a minha peça de teatro, o meu filme, que me impingiram personagens cinzentonas carregadas de papel, que me violentaram o prazer de ensinar/aprender. 
Nesse dia "morri" no palco.
Fui professora, portanto! Não é possível trazer para casa a sacada de momentos que me encheram a alma de alegrias várias.
Mudei de vida! 
Já não sou professora e esta verdade não me dói.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Gratidão!

A minha mãe partiu há pouco mais de três meses. 
Foi um desaparecimento físico. Nada mais! Permanece no meu pensamento, na minha memória e no meu coração. Como se vivesse. Como se estivesse sentada naquela cadeira junto à porta, entre a Dona Hermínia, sua companheira de quarto, ou mesmo a Dona Luísa, também sua companheira de quarto, as outras senhoras cujo nome não sei mas reconheço porque fixei as feições, o olhar, a aflição, a ausência…
Falo de uma sala enorme, com grossas paredes de pedra, com janelas grandes, por onde entra luz do dia e da vida lá fora. Falo de uma sala onde todos esperam qualquer coisa: a noite, o familiar, a visita, o lanche, o jantar, o remédio, o curativo, a palavra amiga, a ajuda…
A minha mãe sentava-se sempre nessa cadeira e, por muito distante que estivesse, por muita ausência que o rosto revelasse, o sorriso aparecia, franco e largo e os olhos iluminavam-se quando me via à porta. Eu podia ser a mãe, a irmã, as pessoas que estavam gravadas na matriz de uma vida em que fora feliz porque os sonhos pareciam viáveis. E a conversa decorria, acontecia, ao ritmo de uma memória moldada, superiormente treinada para não causar mais infelicidade.
E foi assim durante quase dez anos!
E não havia queixumes.
E havia gratidão. E havia amizade. E havia almas e mãos que a ajudavam a percorrer o caminho que havia ainda a percorrer. Havia pessoas que a ajudaram e me ajudaram.
São essas pessoas que eu todos os dias recordo com uma gratidão indizível.
Fiquei amiga da Dona Cecília que recebeu a minha mãe, porque estava de serviço no dia em que a minha mãe entrou no Lar Diogo Gonçalves pela primeira vez. Foi ela que a viu sair e pressentiu que se tratava de uma despedida. Foi ela que me ligou com todo o carinho que arranjou dentro do coração bondoso e me disse que o que se estava a passar….
Obrigada, Dona Cecília! Para sempre, muito obrigada!
A minha mãe teve a sorte de contar com pessoas que trabalharam no Centro de Apoio a Idosos/Lar Diogo Gonçalves ao longo dos dez anos e que a consideravam uma amiga.
Quero também referir a dedicação da Enfermeira Graça, sempre disponível para aliviar as dores, procurar soluções e acompanhar.
A todas as funcionárias, especialmente as que vestem, limpam, dão de comer, acarinham os idosos, Juliana, Dolores, Vanda e muitas mais que não quero omitir mas não sei o nome, a minha gratidão!

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Férias inesquecíveis

Ser avó é uma condição de indescritível felicidade. 
Ficar com os netos é a prova de que todos precisamos para percebermos que somos mesmo avós, que não estamos a viver um sonho ou uma ilusão. As crianças dão trabalho mas é esse trabalho que confere realidade aos momentos que estamos a viver. 
Primeiro tive muito medo de assumir essa responsabilidade mas procurei arranjar na minha cabeça uma solução para cada problema. Mesmo assim a responsabilidade pesava muito. Mas tinha de acreditar que era capaz e sabia que se corresse bem ir-me-ia sentir avó a sério. 
E foi o que aconteceu! 
O Duarte - ou Dudu como "ficou conhecido" foi-nos entregue pelos papás numa sexta à tarde, 24 de Julho, dia em que os papás embarcaram para um destino apetecido mas muito distante: Vietname. 
Graças à tecnologia que encurta distâncias e ajuda a saudade a tornar-se mais suportável, os papás tiveram sempre notícias e essa parte correu bem. 
No primeiro dia, o Duarte portou-se exemplarmente. Parecia cerimonioso. Durou pouco. No segundo dia já protestava para sair do banho e terminar a brincadeira com os peixinhos. 
Foram dezassete noites bem dormidas, de uma ponta à outra, entre as nove e as oito. Foram sestas obrigatórias quando o sono o tornava rabugento. Uma de manhã e outra à tarde. Houve refeições sem problema porque tudo o que vinha à boca era "papa". 
Dudu passeou pouco porque o intervalo entre os sonos e as refeições era pequeno e a partir do Montijo tudo se torna longe. E as saídas também foram limitadas pelas temperaturas que desmotivavam para qualquer passeio ao ar livre. 
E houve o "Pana" a toda a hora. A banda sonora destas férias para o Dudu e para os avós foi "responsabilidade" dos Caricas. Até no carro havia o CD para animar as viagens! 
"Somos os Caricas e estamos aqui!" 
E chegou o dia 10. O dia do regresso dos papás. Os manos encontraram-se no aeroporto e por muito que quiséssemos que o momento fosse perfeito e a gravação do momento também, isso não aconteceu. A Joaninha queria dar um xi ao mano mas ele queria era correr, correr, correr... 
Entretanto os papás apareceram sem bagagem. E houve logo colo, colo, colo.....




quarta-feira, 19 de agosto de 2015

19 de Agosto, Dia Mundial da Fotografia


Voltar ao Sítio!
Hoje é Dia da Fotografia!
Dando ou não importância à existência no Calendário, a fotografia é sem dúvida um aliado da nossa memória. Guardamos o papel (mais modernamente já não falamos de papel, mas a palavra "guardar" continua a fazer sentido e mantém o significado) e a recordação do momento recria as emoções, as cores, os traços e as sensações.
Lembro-me de ter visitado o Sítio há muito anos, quarenta e quatro talvez! A minha mãe tinha vindo passr as férias comigo a Portugal, onde eu estava, já há um ano, morta de saudades da família, de Moçambique e de tudo o que tinha ficado lá.
Para a minha mãe, as férias foram levadas a sério. Foram tlvez as férias mais verdadeiras que a minha mãe gozou. Veio a Lisboa, reviu os lugares da infância, alguns amigos e muita família.
E passeámos por esse Portugal que a minha mãe não conhecia e eu muito menos.
De um dos passeios, guardo a recordação do Sítio da Nazaré e da sensação de deslumbramento esmagador provocado por aquele envolvimento natural. Gravei aquele abismo de pedra e azul onde até o som não é invenção do homem.

Nem recriação!
É mesmo o mar!

terça-feira, 2 de junho de 2015

No mais fundo de mim...

Todos somos eternos enquanto vivos.
Os nossos pais são eternos, mesmo depois de partirem, porque não há ninguém que possa algum dia ocupar o seu lugar.
Quando se imaterializam, se despedem da matéria, ficamos num limbo, por definição imaterial, como se o direito ao paraíso nos fosse vedado e o purgatório também.
Para não falar no inferno, que felizmente saiu das mitologias do pecado. O limbo é a confusão entre a realidade e o desejo de não sofrermos.
A minha mãe partiu há uns dias. Ainda pairo por aí na certeza de que o sofrimento não é plano para a vida. E as voltas que o meu pensamento dá à roda do sofrimento?! O que eu vi e o que eu não vi. O que eu mostrei e o que eu escondi. O sofrimento da minha mãe e o meu próprio sofrimento à roda dos mil e um motivos que provocam dor no ser humano. 

Das nossas dores sabemos nós. E das tuas, mamã, quem sabia?
Estes últimos dez anos que eu julgava perdidos para ti, foram afinal cheios de afectos que construíste e alimentaste com a sabedoria dos grandes sobreviventes. Perdeste a saúde, mas tu sobreviveste. Perdeste a tua vontade sobre os teus dias e as tuas noites, mas tu sobreviveste. Perdeste o teu estilo de vida, cheio de glamour e perdeste também parte desse glamour. E sobreviveste. Enrolaste-me no esquecimento, mas sobreviveste. Todos os dias deste provas de coragem e força, vivendo cada nova realidade como se tivesse sido sempre a tua Vida.
A doçura tomou conta do teu olhar até ao fim, mesmo quando ele se refugiava em vazios incompreensíveis.
Agora é tempo de guardar e honrar a tua memória, com o brilho que sempre quiseste associar à imagem de ti.
É tempo de acreditar que a eternidade se constrói por aqui, pelo reino dos vivos e pode ser bela e gloriosa. 
Adeus, mamã! 
Eu fico por aqui mais um bocadinho, sim?
Apesar de tudo, não me sai do coração o poema de Eugénio de Andrade:
"No mais fundo de mim
Eu sei que traí, mãe."
Traí porque cresci. Até às rugas e aos cabelos quase todos brancos. Até às doenças más, como tu dizias. Até outras dores que não ouso nem pronunciar.
Olha por nós, se puderes!

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Esse cara é ele!



Passou por nós e parou, para nos oferecer boleia no seu calhambeque!
A nós que já não somos mais as garotas, que eram para cima de mil, a quererem passear com ele. 
Mas já fomos e lá fomos...
Pelo caminho. falou de amor verdadeiro, disse repetidas vezes "esse cara sou eu"; cantou a canção de Coimbra, com o doce que a língua do lado de lá nos empresta e recordou a noite em San Remo em que fez parte do sucesso "Canzone per te". 
As baleias também vieram, para eu contar aos meus netos que um velhote da minha geração nos alertou para o grande remorso, "Não é possível que você suporte a barra..."
Foram duas horas de "Emoções", sem intervalo, sempre a cantar...

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Professores à prova...,

Muita gente, para não dizer toda a gente, fala do insucesso dos professores nas provas de Português e F. Química. Falam porque é muito fácil falar sobre o que não se sabe. Quem vem pisar mais um bocadinho é sempre leigo na matéria e da escola só conhece a sua experiência de aluno, que vale com certeza, mas não tem nada a ver com a escola dos dias de hoje. Pisam porque sentem que estão de algum modo a exercer o seu direito à vingança do professor que, como dizia José Gomes Ferreira, no Mundo dos Outros, lhes "estragou a infância". Ou a de alguém próximo!
O que eles não sabem é que os professores, nas escolas de hoje, são tratados como "zeros" a nível da construção das aprendizagens dos alunos, sendo mais importante a transcrição para o papel cuidadosamente arquivado para o retrato da escola, em que quem tem de ficar bem é a direcção.(Desculpem o português antiquado, mas eu sou antiga!)
Quando a coisa corre bem, o mérito é da escola, leia-se dos que mandam na escola. Quando a coisa corre mal, a culpa é do professor.
O que é que correu mal nestas provas? Os professores, claro!, dizem logo os opinion makers ao serviço do sistema. 

Sebastião da Gama dizia que a aula de Português acontecia e eu sou, felizmente, desse tempo. A provocação, que agora se chama brainstorming, era um ponto de partida para o acordar das potencialidades criativas, para espevitar a imaginação dos alunos, para os levar a acreditar neles mesmos, como parte essencial na evolução da sociedade, em geral e deles, em particular. 
O processo ensino/aprendizagem não se transporta em pacotes estanques, com uma torneirinha que deita as quantidades pretendidas como acontece nas pipas de vinho. Aprender e ensinar é respirar o mesmo ar puro. 
Reflecti muito, ao longo da minha vida profisssional, sobre este "respirar", com a ajuda da literatura, mesmo não vinculada e aqui estão duas frases maiores que já têm muitos, muitos anos e não perdem a actualidade, tiradas do livro "Ilusões", de Richard Bach.
“Aprender é descobrir uma coisa que já sabemos.”
“Ensinar é lembrar aos outros que sabem tanto como tu.”
Esta falta de respeito por aqueles que podem fazer alguma coisa pelos nossos filhos ou netos, este regozijo disfarçado pela confirmação de uma incompetência que não é, não leva a lado nenhum...

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Coisas de avós!

Os momentos que passamos com a Joaninha e o Duarte são sempre dignos de registo, pelas emoções que se criam, pela certeza de serem únicos, inevitavelmente irrepetíveis.
 Porque amanhã eles já estão diferentes de hoje, porque o desenvolvimento das crianças e, às vezes, vertiginoso.
É, por isso, preciso agarrar estes instantes e investir neles toda a critividade, afecto e paciência.
Coisas de avós, pensarão vocês, Joaninha e Duarte quando lerem estas "palermices" que me saem do coração, à velocidade da luz também.
Desde que a Joaninha, primeiro, e o Duarte, depois, foram para a creche, os fins de tarde têm-se sucedido com instantes encantados, mágicos, em que somos brindados com uma correria  pelo corredor até ao nosso colo, um abraço quase golo, festejado sempre como o melhor, com conversas que soam aos nossos ouvidos mais belas do que as mais belas composições poéticas ou musicais....
Eles falam, eles cantam, a Joaninha vê o Pai Natal em todo o lado, mesmo depois dos enfeites terem "descido" das árvores, fala do papá, da mamã...
E até da vida, do princípio da vida, explicando que já esteve na barriga da mamã mas depois saiu para entrar o mano. Aliás o Duarte é com certeza o irmão mais bem aceite do mundo. Cabe em todos os planos! 
Ultimamente temos, eu e a Joana, deixado o Jorgito (avô) e o Duarte em casa e temos ido passear pelos quintais, nas traseiras dos prédios. Ali há hortas, há flores e há gatos. E há uma menina que descobre o prazer de fotografar.
Esta rosa foi das primeiras flores que a Joaninha colheu com um click!
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domingo, 26 de abril de 2015

abril....

De regresso ao abril de sempre! O dos provérbios, das águas mil! O abril descolorido, triste, nublado. A novidade deste abril é mesmo o saco de plástico, acessório obrigatório de qualquer estação, mês, parte do dia....
Ontem era abril! Mas mesmo abril. Havia cravos vermelhos.
-Onde é que posso comprar um cravo, perguntei timidamente a uma senhora que trazia dois e um saco plástico.
 Não reparei nos pormenores do saco, mas reparei que os cravos eram pequenos e recusavam abrir todas as suas pétalas. Se eu soubesse falar com as flores, perguntava-lhes a razão desta recusa. Mas eu até sei.
- Eles dão! respondeu-me a senhora com alguma alegria que devia ser por lhe terem dado alguma coisa. 
Perecebi então que comprar mesmo, só o saco de plástico....
Este era o cenário do Mercado, estrategicamente inaugurado neste dia, convencendo assim os incautos que uma inauguração com fanfarra, fotos e cravos à discrição é sinal de amor à liberdade.
E o Hospital? pergunta a minha memória timidamente... falo com ela para ela não se esquecer do que já aconteceu.
E o emprego?
E os transportes?
E a fome das crianças nas escolas?
E....?
Afinal o cravo não serviu de nada, sobretudo na lapela de alguns que se engalanaram só para tentar enganar o "freguês". 
Hoje é abril mas um abril sem história....
As boas emoções têm curta duração. 
A 25 explodimos de esperança, a 26 caímos na desilusão.
 É um grande trambolhão!
Deus nos ajude que magoados demais já nós estamos....

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Momento utopia para menores de seis anos ...

- E depois?
Depois, o Capuchinho Vermelho decidiu encontrar-se com as amiguinhas Cinderela e Branca de Neve, para combinarem a lição a dar aos lobos maus e a todos aqueles que fazem mal às pessoas boas...
Observação- A idade considerada pode ser mental, mas deve sempre ser confirmada por entidades competentes, ao serviço do Reino Da Fantasia.
Inspiração instantânea no momento em que visionei a foto no ecrâ do telemóvel.