sábado, 2 de julho de 2016

A Fotografia

A fotografia é um registo que evoluiu até hoje, como quase tudo, com uma vertigem que às vezes custa a entender.
Passou de uma "geringonça" enorme a um aparelho com as dimensões de um BI;  de uma película a que chamávamos "rolo", custo acrescido deste hobby tão antigo, à inexistência de qualquer película; da revelação trabalhosa e demorada, à visualização instantânea no ecrã da própria máquina digital, ou, pior um pouco, no ecrã do telemóvel.
Passou das duas cores aos milhares de tons de todas as cores....
Mas nada passa de moda na fotografia! Cada "modelo" marca um tempo para sempre e, graças a isso, todas as fotografias estão sempre na moda.
Agora que a falta de limite chegou a esta arte, o portador do engenho, pode até perder a noção da quantidade de cliques, tal a  sua sede de apanhar a beleza, ou outra coisa qualquer, do momento...
Ser fotógrafo está agora ao alcance de qualquer um. Até a minha neta com três anos experimentou esse prazer de escolher e clique.
Mas o fotógrafo também cresce em experiência, em saber mais ou menos organizado, mais ou menos técnica, mais ou menos domínio da máquina, equipamentos.... E cresce também a vontade de fazer melhor! A exigência, pois!
E depois vai-se à procura... Sempre à procura! Passa de desejo a vício.
Comigo tem sido assim. E, há poucos dias, aconteceu-me ter à mão, ou ao pé, a uma distância muito curta, um quadro que adivinhava uma bela foto: um casal de gente "grande", sentados no chão, à beira do rio, com o olhar entretido com o horizonte e  barcos que passavam no rio...
A medo, para não incomodar, disparei uma, duas, três vezes ou mais. Fiz zoom e disparei de novo.
E quando, com algum recato, vi o resultado... apaixonei-me pela fotografia.
Com a ajuda dos programas instalados para alterar a foto, criei ainda mais versões e todas produziam o mesmo efeito: apaixonar-me pela imagem e pelo que li na situação e que, surpreendentemente, foi traduzido para inglês por algum "eu" que eu não sabia que vivia comigo
"Once upon a time.... There 's a never ending story inside each of us".
Foi o meu fascínio pelas histórias de encantar e a memória de um filme cuja magia se apoderou de mim, através da infância dos meus filhos...






terça-feira, 14 de junho de 2016

Coisas em dia de futebol

A vida deve ter parado neste país! 
Está toda a gente entregue à nobre causa do futebol, com um súbito ataque de amor à nação. Parece-me, e por favor não me julguem mal, que este sentimento de nacionalidade se reduz às coisas da  bola. 
O povo puxa pela selecção mas devia a selecção puxar pelo povo. 
Devia sim!  Cada um, na tarefa que foi distribuída pelo Criador, faz o que pode e consegue. Depois não leva palmas. Leva palmadas, quando calha!
Nunca percebi muito bem este fenómeno e não me vou pôr a discuti-lo em público.
A minha selecção neste momento é a equipa da geringonça. Esses sim, podem fazer alguma coisa pela vida aqui. 
Estou tão seca por dentro. Faltam-me entusiasmos. Falta-me saudade!
E pelos sons que me chegam, ou melhor pelos silêncios que me chegam, faltam golos à equipa de Portugal!

domingo, 5 de junho de 2016

Parabéns, papá!

O meu pai nasceu há noventa anos. 
Há que celebrar um homem que viveu muito além dos noventa no tempo um tanto mais curto que lhe coube. Viveu para lá de convenções. Venceu doenças que eram consideradas " morte certa". Dançou muito e cantou à moda dos ídolos da época. Namorou que se fartou. Escreveu e pintou, porque sim, porque gostava e porque a sensibilidade assim pedia. Leu imenso. Conviveu com poetas, escritores e pintores. Foi enfermeiro de vocação e a morte foi sempre uma inimiga a abater.
Foi um Don Juan perfeito e acabado, com namoradas nas várias esquinas da vida. Até ao dia em que resolveu deixar de partir, ou ajudar a partir, corações.
Foi meu pai, mas nunca "exerceu" essa paternidade com a superioridade de quem sabe mais, já viveu mais os assuntos da vida. Era, como se diz agora, um parceiro, já que a minha educação era o empreendimento. Ensinou-me a gostar de cinema e de poesia. Ensinou-me a aprender com os acontecimentos da vida. Tinha as frases "chave" com que ilustrava os ensinamentos. Muitas eram as máximas consagradas, como: os cães ladram e a caravana passa. Outras eram importadas de amigos e ajeitadas por ele mesmo: nunca faltou miséria ao miserável, nem dinheiro ao gastador. Outras ainda nasceram numa alma aflita, a sua, quando a vida estava a doer: "eu acredito em Deus e Deus acredita em mim."
Hoje faz noventa anos! Parabéns, papá!

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Glamour em tempo próprio

Se me fosse permitido, por artes mais ou menos mágicas, voltar atrás no tempo e nomear, ou mesmo atribuir os "Óscares" da minha vida, o filme, por quase tudo escolhido, seria "My Fair Lady".
Começaria logo pela grande ausente do Prémio da Academia, do ano de 1965, a bela Audrey Hepburn.
A magra figura foi a minha inspiração maior na adolescência! Havia uma força diferente que vinha de dentro, como o próprio filho explicou, como um prolongamento, fruto da discilplina e do respeito pelos outros.
Mas o que afastou a belíssima Audrey dos monstros da Academia foi sem dúvida a polémica em que esteve envolvida por lhe ter sido atribuído o papel principal, florista de Covent Garden desempenhado no teatro durante muito tempo por Julie Andrews.
Ganhador da estatueta para melhor actor, Rex Harrison, dedicou o prémio a duas "lindas senhoras", "two fair ladies", Juie Andrews e Audrey Hepburn.
Vi o filme na sala do Cinema Scala, em Lourenço Marques Tinha pouco mais de dez anos e estava acompanhada pelo meu pai, um devorador de "fitas".
And the Oscar goes to....
My Fair Lady!

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Querido papá!

Cumpre-se hoje mais um ano de ausência, de falta. Mas os teus quadros falam por ti, dão respostas a inquietações milenares, como "Onde estás?".
 Eles respondem: estou aqui!
E estás mesmo. Está ali a tua ideia de um recanto que te "apeteceu" e esse recanto é parte de um todo, É  o símbolo do teu contributo para a vida. 
O belo!
O belo foi a tua linha de horizonte sempre! Mas, se, por acaso, o vislumbravas numa vereda, num atalho, esse seria o teu caminho. 
Ensinaste-me a amar a expressão estética e se não sei pintar, nem dançar, nem cantar como tu, sei ler os versos de Reinaldo Ferreira, com o mesmo deslumbramento. 
Devo-te a minha construção cultural, devo-te a ousadia de pensar e dizer o que penso. Não vou acrescentar o clássico complemento "doa a quem doer" porque isso não tem sido assim. Tenho um reduto de seres que não quero magoar e só o faço, por falha, culpa e pecado. 
Em termos afetivos, o "tu cá, tu lá" ajudou muito a perceber que eu não tinha que ser igual a ti mas podia receber com mãos abertas a tua experiência de afetos e refletindo sobre eles partir para a minha vida. Falámos sempre como dois amigos. Houve situações em que te levei a melhor, mas tu não sucumbias com facilidade, mesmo quando a "derrota" te punha a sorrir porque a minha vitória representava o teu sucesso na minha educação. 
Estás a ver que estamos a conversar?! Por isso é que eu digo que não foste embora e que andas por aqui...
Hoje vou ler um poema de Reinaldo Ferreira, escutar um "Villaret", recordar-te. 



terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Micro - conto ou a meteorologia explicada como se a gente tivesse cinco anos

- Vá lá, menino sol. Toca a levantar!
Era a lua a pôr ordem no espaço celeste. 
Já tinha mandado dormir as estrelinhas. Tinha reparado nas remelas que lhes embaraçavam o brilho. 
E sol não dava sinais de acordar.
- Vá espreguiça-te à vontade que o sunrise está marcado para as sete e quarenta e dois. Mas depois toca a brilhar e a aquecer estes lugares.
E o sol nada de responder. 
Mas lá balbuciou um “porquê”.
- Vês estas pessoas todas a apanharem o autocarro, o comboio, o barco, crianças a caminho da escola. Precisam de um bocadinho de calor.
Deu resultado. Em dez segundos, o sol rompeu as nuvens que o convidavam à preguiça e raiou.
Bom dia!

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Censura! Não, obrigada!

Os que me conhecem sabem que a minha área de pensamento ideológico anda próxima do PS. Não de todo o PS, mas de uma origem, uma raíz, que na minha juventude me convenceu e me ofereceu um ideal.
Foi bom andar em campanhas, fazer parte de listas, organizar ou co-organizar apresentações de candidatos, escrever sem medos, falar e dizer tudo o que me ia na alma, aconchegasse ou não os interesses de alguns. Sempre me senti livre porque nunca tive ambição de carreirismo: a minha família, alargada de bons amigos, e a minha profissão preenchiam-me a vida e era muito pouco o tempo que emprestava à militância partidária.
Há dias, nas arrumações dos enfeites de natal, encontrei uma bandeira desses tempos. Não me comovi nem me emocionei especialmente, mas senti uma certa ternura pelo lado simbólico daquele achado: juventude, ideal, muita juventude e muito ideal.
Fotografei a bandeira e  coloquei a foto numa página do Facebook dedicada à fotografia, em que participo diariamente, pensando que talvez provocasse uma boa recordação nos muitos que aqui "andam", colaboram e têm uma lembrança semelhante.
Mas não! A fotografia valeu-me uma censura que não me abalou pessoalmente. O que me abala, sim, é constatar que o sentido da tolerância precisa de ser trazido à tona das nossas conversas e dos nossos hábitos.
Deixo-vos aqui a bandeira que me acompanhou em muitos comícios, os tais "de boa memória", de que fala José Gomes Ferreira, no seu "Mundo dos Outros".


segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

É a Vida! Ou é o futebol?

"É o futebol!"
É este o desabafo alternativo ao costumeiro "É a vida! ". 
E a vida rola ao ritmo do relato, daqueles relatos radiofónicos que o meu avô ouvia, ue a minha avó interrompia, dando origem a uma birra doméstica. Quando não havia televisão, claro!
Não sei quando é que começou o derby Jesus versus Vitória, mas está num momento de grande emoção. Jesus ataca Vitória. Vitória responde a Jesus e Jesus responde a Vitória. Vitória ataca e o esférico segue à frente das suas palavras. Mas eis que Jesus vai, avança e consegue alterar novamente o curso do resultado e sai mais uma tirada. É golo? É o que vamos ver daqui a pouco quando Vitória acordar e reagir...
É a vida! É o futebol!
Para alguns a vida é mesmo o futebol!
E às vezes as palavras não adivinham nada. Ou talvez façam justiça por suas próprias letras.

Jesus e Vitória! Os clubes que treinam deviam ter os seus nomes já que fazem jus à palavra adversário. E há honras televisivas para estes campeonatos.
E ontem, a vitória ficou com Jesus, o Jorge.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Microconto de Natal

A campainha da porta.... 
Ho Ho Ho.... 
A porta abriu-se e o Pai Natal entrou.
Os olhos da menina brilharam mais do que as luzes da árvore de natal. O menino conteve-se nas manifestações de alegria e, quando o Representante Máximo da Fantasia da Época lhe estendeu a mão, pronunciou um firme "não". 
O Pai Natal depositou duas prendas junto à árvore e, quando a mãe dos meninos lhe perguntou pelo resto das prendas, ele disse onde estavam.
Abriu-se então a porta do tesouro de natal,
-WOW, exclamou a menina!
-WOW, exclamou o menino, deixando-se levar pelas emoções da irmã.
O Pai Natal acenou um adeus a todos e foi-se embora...
A menina continuava maravilhada.
A Fantasia tinha tomado conta da situação!
O pai voltou momentos depois. Tinha ido dar de comer ao cão e os filhos tinham tanto para contar....

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

O nevoeiro (Microconto)

O nevoeiro acordou tarde. A estrela das seis da manhã avisou-o que estava atrasado e que ela precisava de ir dormir. Já estava cansada de brilhar ao frio.
E lá veio o nevoeiro... Espreguiçou-se, tornou a espreguiçar-se e, quando deu conta, tinha mergulhado no rio. 
Ouviram-se risos. Era uma onda pequena e brincalhona que adorava fazer troça destes enganos.
- E o que é que eu faço agora? - perguntou o nevoeiro, aflito.
- Quando o sol te estender um dos muitos raios, agarras-te e sais. Mas até lá tens de ficar connosco a jogar às escondidas...
O nevoeiro bocejou, suspirou, mas ficou.
O Sol ainda não o foi buscar....

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

O valor do tempo

Agora, que a minha mãe já não está cá, sinto que o valor do tempo mudou para mim. Passei para a linha da frente, mas não é isso que me dói. Doí-me sobretudo a noção aguda da finitude inevitável e a incapacidade de fazer no tempo que me resta tudo o que é bom e contribui para a realização de uma vida.
Então.... Tenho muito tempo quando falamos de gestão do dia. 
As manhãs prometem sobras de tempo. Temo essas sobras que me podem corroer a tranquilidade que, a par do tempo a mais, me é oferecida. 
E depois vem a tarde que parece tornar-se infértil acompanhada que está de uma preguiça que teima em percorrer-me os braços e as pernas.
É a idade, dizem-me!
E do outro tempo, do tempo mais longe? Esse parece estar ainda mais comprometido e ser mais difícil de perceber quando me imagino lá. Estarei como agora? Ou serei fisicamente muito diferente? Estarei muito mais fraca? 
Do tempo que ainda tenho, pouco ou muito, quanto desse tempo será de qualidade?

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Dia Mundial da Terceira Idade

"A volúpia do aborrecimento" - crónica de Fernando Alves, na TSF-  ou a vida dos velhos vista por dentro, do lado do avesso, que é o lado que temos de vestir quando a estação da vida nos impõe. E calçar pantufas,  mais um eufemismo para os dias soturnos e tristes, amarelados como as folhas da árvores, antes de tombarem de vez num chão qualquer que será pisado por tantos, os tantos que ainda caminham na vida de salto alto ou outro que convenha ao sexo/género...
Uma coisa menos triste retive desta crónica: a infância só existe porque a vemos bem, ao longe, quando olhamos para trás. Tal como esticamos o braço para ver melhor ao pé, também as "temporadas" só tomam precisão de contornos vistas de longe.
O que o Fernando Alves não diz, porque provavelmente o neto é tão pequenino que ainda não lhe deu essa "dica", é que os nossos netos nunca acham que somos velhos e pulam para os nossos "lombos" como se fôssemos uns burricos novos e cheios de força. A minha neta, revelando ao mundo um pensamento que deve ser padrão da idade e da experiência, diz muitas coisas e nunca me chamou velha...
Outra coisa que também é boa é que todos os miúdos da minha idade continuam a ser da minha idade...
Como diz o GPS: chegou ao seu destino!!
Mesmo que nos enganemos nas coordenadas e nas moradas...
(private joke)


quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Dia Mundial do Regresso ao Futuro

Hoje é o Dia Mundial do Regresso ao Futuro. Um Dia Mundial que rende homenagem merecida a quem nos encantou com filmes como o que dá nome ao dia. 
Outros autores ou realizadores também escolheram o ingrediente tempo para se tornarem mais apetecíveis e aquecer a esperança de um dia dominarmos esta variável e corrigir erros do passado com um saltinho ao futuro. O próprio Super-homem empurrava o planeta para retirar dos escombros do terramoto a sua Lois. Também pode ser uma técnica mas o super-homem já cá não está....
Pessoalmente não tenho pressa, até porque o saltinho paga-se e bem. São viagens muito caras e não tenho grande curiosidade relativamente a mais aplicações tecnológicas. A minha Bimby queixa-se de solidão. Mas a culpa é dela que não desempenha as funções como prometeu. Ao seu lado, a placa de indução vibra de vaidade porque todos os dias lhe dou coisas para fazer. O que eu quero é viver este presente, correr com os pés que Deus me deu (que os médicos já remendaram) atrás dos meus netos, mergulhar de cabeça (coisa que eu nunca soube fazer nas piscinas da minha infância) na fantasia dos livros de encantar e nos filmes.
E cuidem-se os que pensam que sabem o final da Branca de Neve. Quem casa com o Príncipe não é a Branca de Neve. Acho que a minha neta já manifestou intenção de "catrapiscar" o Príncipe.
Mesmo com muita tecnologia não me parece que vá ao casamento mas desejo mesmo é que o Futuro traga muita saúde e muitas felicidades aos meus netos!
E a todos os que por cá andarem!

domingo, 18 de outubro de 2015

Peixinhos da horta e coisas assim

"Quando os Deuses no Olimpo luminoso,
Onde o governo está da humana gente,
Se ajuntam em concílio glorioso..."
Havia mais este compromisso, adiado uma semana por razões de saúde da homenageada.
Mas o vento e a chuva teimavam em castigar o desejo de quem se quisesse fazer à "viagem". Estavam criadas todas as condições para tornar épico qualquer passo fora de casa! A simples travessia da ponte Vasco da Gama podia transformar-se na "viagem"  do próprio Vasco da Gama, há mais de quinhentos anos.
Mas os deuses atentos determinaram que a chuva parasse, que o vento se calasse, que as nuvens se afastassem e eu pudesse cumprir aquele compromisso.
Pelo menos um! Pelo menos aquele!
O lançamento do livro Memórias do Coração de Helena Lopes, professora, educadora e amiga.
Confesso agora que temia não aguentar as recordações da Namaacha, geladas como os dormitórios, irritantes como a sineta para nos acordar.... Recordações cheias da saudade da minha mãe e do medo de um dia ir parar ao inferno. E, no meio das lembranças tão dolorosas, sobressai a presença amiga da Irmã Maria Helena que me/nos dava o carinho, a palavra doce, ajudando sempre a reconstruir a esperança, a moldar a personalidade, a dignidade, os valores...
Se não tivesse ido, as coisas teriam ficado assim, geladas e inertes, à espera do grande fogo do inferno.
Fui e reconciliei-me com estas raízes.

Vou tentar esquecer o dormitório, o refeitório, os peixinhos da horta, as confissões dos inúmeros pecados que uma criança de dez anos consegue arranjar à custa da imaginação e do medo.
Voltei feliz, quase, quase a acreditar na humanidade. 

Cinquenta anos depois, a Irmã Maria Helena mantém a mesma estrutura moral, aborda-nos com o mesmo carinho, disfarçando a emoção com apontamentos de humor.
Era, ou melhor, é a mesma, com farinha nos cabelos!
Beijinhos, Irmã Maria Helena! Parabéns e obrigada por esta celebração, por este livro, por este encontro.
Meninas: CristinaFernandaLuísaMadalenaManuela, um xi coração apertado!

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Dia do professor

"Sou professora! Fui professora! 
Não sei e não consigo decidir qual o tempo verbal.
Comecemos pelo passado, pelo fui....
Fui professora a sentir-me a aprender muito, tanto, todos os dias, porque precisava de aprender para ensinar e as aprendizagens entravam no meu pensamento como "o sol por um vidraça", para usar a comparação de Eça. 
Fui professora com uma juventude que me refrescava constantemente a memória dos meus dias de mais menina, produzindo toneladas de cumplicidades que se ficavam por ali, pelo meio, entre os treze anos deles e os meus vinte e três.
Fui professora em dias de liberdade acabada de nascer.
Foram tempos inesquecíveis para quem os viveu  com todos os sentidos ligados no botão "on",  aguentando trabalho, barulho, confusão, prazer e liberdade. 
Tudo! Até o sonho de ter filhos e de os criar, transmitindo-lhes, desde o primeiro dia, os ideais que nos guiavam a vida. 
E mesmo depois de passar a euforia, fui professora. 
Fui professora mãe. Em cada aluno eu via um filho. Porque todos os alunos são filhos de alguém e sempre alimentei a esperança de estar à altura de receber esses filhos de outras mães, como eu queria que recebessem os meus filhos.
Os tempos foram mudando. O sol arrefeceu. Ou talvez não. Pode ser que até tenha aquecido porque passou a fazer mal à pele. Os meus filhos cresceram e, finalmente, envelheci. No Bilhete de Identidade, nos cabelos e um pouco por todo o corpo. Mas cá dentro de mim e dentro da sala de aula, talvez por magia,  a "aula acontecia" (Sebastião da Gama/ Diário).
Fui professora de sala de aula sempre.
E (talvez não devesse dizer isto) divertia-me tanto.
Mas houve um dia que me tiraram deste palco, que me interromperam a minha peça de teatro, o meu filme, que me impingiram personagens cinzentonas carregadas de papel, que me violentaram o prazer de ensinar/aprender. 
Nesse dia "morri" no palco.
Fui professora, portanto! Não é possível trazer para casa a sacada de momentos que me encheram a alma de alegrias várias.
Mudei de vida! 
Já não sou professora e esta verdade não me dói."



Sou professora! Fui professora!
Não sei e não consigo decidir qual o tempo verbal.
Comecemos pelo passado, pelo fui....
Fui professora a sentir-me a aprender muito, tanto, todos os dias, porque precisava de aprender para ensinar e as aprendizagens entravam no meu pensamento como "o sol por um vidraça", para usar a comparação de Eça.
Fui professora com uma juventude que me refrescava constantemente a memória dos meus dias de mais menina, produzindo toneladas de cumplicidades que se ficavam por ali, pelo meio, entre os treze anos deles e os meus vinte e três.
Fui professora em dias de liberdade acabada de nascer.
Foram tempos inesquecíveis para quem os viveu com todos os sentidos ligados no botão "on", aguentando trabalho, barulho, confusão, prazer e liberdade.
Tudo! Até o sonho de ter filhos e de os criar, transmitindo-lhes, desde o primeiro dia, os ideais que nos guiavam a vida.
E mesmo depois de passar a euforia, fui professora.
Fui professora mãe. Em cada aluno eu via um filho. Porque todos os alunos são filhos de alguém e sempre alimentei a esperança de estar à altura de receber esses filhos de outras mães, como eu queria que recebessem os meus filhos.
Os tempos foram mudando. O sol arrefeceu. Ou talvez não. Pode ser que até tenha aquecido porque passou a fazer mal à pele. Os meus filhos cresceram e, finalmente, envelheci. No Bilhete de Identidade, nos cabelos e um pouco por todo o corpo. Mas cá dentro de mim e dentro da sala de aula, talvez por magia, a "aula acontecia" (Sebastião da Gama/ Diário).
Fui professora de sala de aula sempre.
E (talvez não devesse dizer isto) divertia-me tanto.
Mas houve um dia que me tiraram deste palco, que me interromperam a minha peça de teatro, o meu filme, que me impingiram personagens cinzentonas carregadas de papel, que me violentaram o prazer de ensinar/aprender.
Nesse dia "morri" no palco.
Fui professora, portanto! Não é possível trazer para casa a sacada de momentos que me encheram a alma de alegrias várias.
Mudei de vida!
Já não sou professora e esta verdade não me dói.
 — com Adilia Manteigas e 2 outras pessoas.

Dia do Professor


Sou professora! Fui professora! 

Não sei e não consigo decidir qual o tempo verbal.
Comecemos pelo passado, pelo fui....
Fui professora a sentir-me a aprender muito, tanto, todos os dias, porque precisava de aprender para ensinar e as aprendizagens entravam no meu pensamento como "o sol por um vidraça", para usar a comparação de Eça. 
Fui professora com uma juventude que me refrescava constantemente a memória dos meus dias de mais menina, produzindo toneladas de cumplicidades que se ficavam por ali, pelo meio, entre os treze anos deles e os meus vinte e três.
Fui professora em dias de liberdade acabada de nascer.
Foram tempos inesquecíveis para quem os viveu com todos os sentidos ligados no botão "on", aguentando trabalho, barulho, confusão, prazer e liberdade. 
Tudo! Até o sonho de ter filhos e de os criar, transmitindo-lhes, desde o primeiro dia, os ideais e os sonhos que nos guiavam a vida. 
E mesmo depois de passar a euforia, fui professora. 
Fui professora mãe. Em cada aluno eu via um filho. Porque todos os alunos são filhos de alguém e sempre alimentei a esperança de estar à altura de receber esses filhos de outras mães, como eu queria que recebessem os meus filhos.
Os tempos foram mudando. O sol arrefeceu. Ou talvez não. Pode ser que até tenha aquecido porque passou a fazer mal à pele. Os meus filhos cresceram e, finalmente, envelheci. No Bilhete de Identidade, nos cabelos e um pouco por todo o corpo. Mas cá dentro de mim e dentro da sala de aula, talvez por magia, a "aula acontecia" (Sebastião da Gama/ Diário).
Fui professora de sala de aula sempre.
E (talvez não devesse dizer isto) divertia-me tanto.
Mas houve um dia que me tiraram deste palco, que me interromperam a minha peça de teatro, o meu filme, que me impingiram personagens cinzentonas carregadas de papel, que me violentaram o prazer de ensinar/aprender. 
Nesse dia "morri" no palco.
Fui professora, portanto! Não é possível trazer para casa a sacada de momentos que me encheram a alma de alegrias várias.
Mudei de vida! 
Já não sou professora e esta verdade não me dói.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Gratidão!

A minha mãe partiu há pouco mais de três meses. 
Foi um desaparecimento físico. Nada mais! Permanece no meu pensamento, na minha memória e no meu coração. Como se vivesse. Como se estivesse sentada naquela cadeira junto à porta, entre a Dona Hermínia, sua companheira de quarto, ou mesmo a Dona Luísa, também sua companheira de quarto, as outras senhoras cujo nome não sei mas reconheço porque fixei as feições, o olhar, a aflição, a ausência…
Falo de uma sala enorme, com grossas paredes de pedra, com janelas grandes, por onde entra luz do dia e da vida lá fora. Falo de uma sala onde todos esperam qualquer coisa: a noite, o familiar, a visita, o lanche, o jantar, o remédio, o curativo, a palavra amiga, a ajuda…
A minha mãe sentava-se sempre nessa cadeira e, por muito distante que estivesse, por muita ausência que o rosto revelasse, o sorriso aparecia, franco e largo e os olhos iluminavam-se quando me via à porta. Eu podia ser a mãe, a irmã, as pessoas que estavam gravadas na matriz de uma vida em que fora feliz porque os sonhos pareciam viáveis. E a conversa decorria, acontecia, ao ritmo de uma memória moldada, superiormente treinada para não causar mais infelicidade.
E foi assim durante quase dez anos!
E não havia queixumes.
E havia gratidão. E havia amizade. E havia almas e mãos que a ajudavam a percorrer o caminho que havia ainda a percorrer. Havia pessoas que a ajudaram e me ajudaram.
São essas pessoas que eu todos os dias recordo com uma gratidão indizível.
Fiquei amiga da Dona Cecília que recebeu a minha mãe, porque estava de serviço no dia em que a minha mãe entrou no Lar Diogo Gonçalves pela primeira vez. Foi ela que a viu sair e pressentiu que se tratava de uma despedida. Foi ela que me ligou com todo o carinho que arranjou dentro do coração bondoso e me disse que o que se estava a passar….
Obrigada, Dona Cecília! Para sempre, muito obrigada!
A minha mãe teve a sorte de contar com pessoas que trabalharam no Centro de Apoio a Idosos/Lar Diogo Gonçalves ao longo dos dez anos e que a consideravam uma amiga.
Quero também referir a dedicação da Enfermeira Graça, sempre disponível para aliviar as dores, procurar soluções e acompanhar.
A todas as funcionárias, especialmente as que vestem, limpam, dão de comer, acarinham os idosos, Juliana, Dolores, Vanda e muitas mais que não quero omitir mas não sei o nome, a minha gratidão!

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Férias inesquecíveis

Ser avó é uma condição de indescritível felicidade. 
Ficar com os netos é a prova de que todos precisamos para percebermos que somos mesmo avós, que não estamos a viver um sonho ou uma ilusão. As crianças dão trabalho mas é esse trabalho que confere realidade aos momentos que estamos a viver. 
Primeiro tive muito medo de assumir essa responsabilidade mas procurei arranjar na minha cabeça uma solução para cada problema. Mesmo assim a responsabilidade pesava muito. Mas tinha de acreditar que era capaz e sabia que se corresse bem ir-me-ia sentir avó a sério. 
E foi o que aconteceu! 
O Duarte - ou Dudu como "ficou conhecido" foi-nos entregue pelos papás numa sexta à tarde, 24 de Julho, dia em que os papás embarcaram para um destino apetecido mas muito distante: Vietname. 
Graças à tecnologia que encurta distâncias e ajuda a saudade a tornar-se mais suportável, os papás tiveram sempre notícias e essa parte correu bem. 
No primeiro dia, o Duarte portou-se exemplarmente. Parecia cerimonioso. Durou pouco. No segundo dia já protestava para sair do banho e terminar a brincadeira com os peixinhos. 
Foram dezassete noites bem dormidas, de uma ponta à outra, entre as nove e as oito. Foram sestas obrigatórias quando o sono o tornava rabugento. Uma de manhã e outra à tarde. Houve refeições sem problema porque tudo o que vinha à boca era "papa". 
Dudu passeou pouco porque o intervalo entre os sonos e as refeições era pequeno e a partir do Montijo tudo se torna longe. E as saídas também foram limitadas pelas temperaturas que desmotivavam para qualquer passeio ao ar livre. 
E houve o "Pana" a toda a hora. A banda sonora destas férias para o Dudu e para os avós foi "responsabilidade" dos Caricas. Até no carro havia o CD para animar as viagens! 
"Somos os Caricas e estamos aqui!" 
E chegou o dia 10. O dia do regresso dos papás. Os manos encontraram-se no aeroporto e por muito que quiséssemos que o momento fosse perfeito e a gravação do momento também, isso não aconteceu. A Joaninha queria dar um xi ao mano mas ele queria era correr, correr, correr... 
Entretanto os papás apareceram sem bagagem. E houve logo colo, colo, colo.....




quarta-feira, 19 de agosto de 2015

19 de Agosto, Dia Mundial da Fotografia


Voltar ao Sítio!
Hoje é Dia da Fotografia!
Dando ou não importância à existência no Calendário, a fotografia é sem dúvida um aliado da nossa memória. Guardamos o papel (mais modernamente já não falamos de papel, mas a palavra "guardar" continua a fazer sentido e mantém o significado) e a recordação do momento recria as emoções, as cores, os traços e as sensações.
Lembro-me de ter visitado o Sítio há muito anos, quarenta e quatro talvez! A minha mãe tinha vindo passr as férias comigo a Portugal, onde eu estava, já há um ano, morta de saudades da família, de Moçambique e de tudo o que tinha ficado lá.
Para a minha mãe, as férias foram levadas a sério. Foram tlvez as férias mais verdadeiras que a minha mãe gozou. Veio a Lisboa, reviu os lugares da infância, alguns amigos e muita família.
E passeámos por esse Portugal que a minha mãe não conhecia e eu muito menos.
De um dos passeios, guardo a recordação do Sítio da Nazaré e da sensação de deslumbramento esmagador provocado por aquele envolvimento natural. Gravei aquele abismo de pedra e azul onde até o som não é invenção do homem.

Nem recriação!
É mesmo o mar!

terça-feira, 2 de junho de 2015

No mais fundo de mim...

Todos somos eternos enquanto vivos.
Os nossos pais são eternos, mesmo depois de partirem, porque não há ninguém que possa algum dia ocupar o seu lugar.
Quando se imaterializam, se despedem da matéria, ficamos num limbo, por definição imaterial, como se o direito ao paraíso nos fosse vedado e o purgatório também.
Para não falar no inferno, que felizmente saiu das mitologias do pecado. O limbo é a confusão entre a realidade e o desejo de não sofrermos.
A minha mãe partiu há uns dias. Ainda pairo por aí na certeza de que o sofrimento não é plano para a vida. E as voltas que o meu pensamento dá à roda do sofrimento?! O que eu vi e o que eu não vi. O que eu mostrei e o que eu escondi. O sofrimento da minha mãe e o meu próprio sofrimento à roda dos mil e um motivos que provocam dor no ser humano. 

Das nossas dores sabemos nós. E das tuas, mamã, quem sabia?
Estes últimos dez anos que eu julgava perdidos para ti, foram afinal cheios de afectos que construíste e alimentaste com a sabedoria dos grandes sobreviventes. Perdeste a saúde, mas tu sobreviveste. Perdeste a tua vontade sobre os teus dias e as tuas noites, mas tu sobreviveste. Perdeste o teu estilo de vida, cheio de glamour e perdeste também parte desse glamour. E sobreviveste. Enrolaste-me no esquecimento, mas sobreviveste. Todos os dias deste provas de coragem e força, vivendo cada nova realidade como se tivesse sido sempre a tua Vida.
A doçura tomou conta do teu olhar até ao fim, mesmo quando ele se refugiava em vazios incompreensíveis.
Agora é tempo de guardar e honrar a tua memória, com o brilho que sempre quiseste associar à imagem de ti.
É tempo de acreditar que a eternidade se constrói por aqui, pelo reino dos vivos e pode ser bela e gloriosa. 
Adeus, mamã! 
Eu fico por aqui mais um bocadinho, sim?
Apesar de tudo, não me sai do coração o poema de Eugénio de Andrade:
"No mais fundo de mim
Eu sei que traí, mãe."
Traí porque cresci. Até às rugas e aos cabelos quase todos brancos. Até às doenças más, como tu dizias. Até outras dores que não ouso nem pronunciar.
Olha por nós, se puderes!