"As visitas dos mortos que se amou são uma prova de amor. O amor que tiveram por nós vai aparecendo, como uma visita quase regular, porque se revela em gestos lembrados." Miguel Esteves Cardoso, Público, hoje
Todos os dias a minha memória e o meu coração prestam uma homenagem aos meus. Talvez os visite, para usar as palavras do escritor, através do que me deixaram. A vida, legado dos meus pais e avós! Os ensinamentos ou lições para ser feliz ou fazer felizes os outros. Dou-lhes conta das minhas falhas, dos meus erros e dos meus desvios. É um culto de memórias de momentos bons e felizes. É o culto que dói menos...
quarta-feira, 1 de novembro de 2017
sexta-feira, 29 de setembro de 2017
Ir a Peniche e ..... voltar
O Cabo Carvoeiro. É o rosto assustadoramente triste, onde, em rugas de tragédia, corre o sal das lágrimas da terra e da gente de Peniche.
Há traços que documentam o destino de um povo que vive
paredes meias com o mar, que se embrulha em salgada vizinhança com
intuito de trazer o peixe que alimenta o sonho de ver crescer os filhos....
Mas Peniche não é apenas dor. Não é apenas labuta! Também é
prazer, festa e escola. Há neste mar e nesta terra, como em todas as gentes,
esse lado de festa, com uma dança que se dança em cima de ondas que tocam a
música de sempre: a sua, a do mar. Peniche é também um santuário do surf, assim
se chama, e aí acorrem os mais novos para prender e aprender todas as sensações
que uma crista de onda oferece. E é vê-los passar de prancha às costas, em
jeito de procissão.
E há a coragem de resistir, mesmo quando os olhos só vêem mar
e fragas! A coragem de acreditar que outros tempos darão testemunho desta luta
que não se trava senão com armas feitas de ideal e desejo de liberdade.
E Peniche veste-se e cobre-se com um manto tecido de
gotículas de água salgada. E esconde-se sob esse manto! E esconde, sob esse
manto, um azul inigualável!
Que o sol descobre se assim o quer!
Quem vai a Peniche traz tudo isto nos sentidos!
Ir a Peniche e... voltar!
segunda-feira, 21 de agosto de 2017
O Dia da Avó Madalena Primeira
Hoje é O Dia de falar da minha avó Madalena, um dos pilares importantes de todo o meu ideário, sobretudo no que toca aos valores da família! De tal maneira que sempre sonhei chegar a esta etapa e seguir as receitas de afecto da minha avó Madalena!
Seria o dia de recordar a sua imensa figura, os seus olhos imensamente verdes. Acho que os olhos da minha avó eram tão expressivos que dispensavam as palavras. Eles diziam o que era preciso dizer! Tinham aquela maroteira que anula a maldade, a má intenção!
As tardes eram domínio das mulheres. Num quartinho estreito, numa cama de ferro muito alta,nós, as mulheres pequenas, dormíamos a sesta enquanto as grandes cosiam, bordavam, faziam crochet e falavam bem e mal de quem ou quê aparecia como tema.
Hoje era o seu aniversário. Se as minhas contas estão certas a Avó Madalena Primeira nasceu há 125 anos!
Seria o dia de recordar a sua imensa figura, os seus olhos imensamente verdes. Acho que os olhos da minha avó eram tão expressivos que dispensavam as palavras. Eles diziam o que era preciso dizer! Tinham aquela maroteira que anula a maldade, a má intenção!
As tardes eram domínio das mulheres. Num quartinho estreito, numa cama de ferro muito alta,nós, as mulheres pequenas, dormíamos a sesta enquanto as grandes cosiam, bordavam, faziam crochet e falavam bem e mal de quem ou quê aparecia como tema.
Hoje era o seu aniversário. Se as minhas contas estão certas a Avó Madalena Primeira nasceu há 125 anos!
quarta-feira, 10 de maio de 2017
Letras assinadas, de Baptista Bastos
No paredão austero da Mundial, onde a prudência administrativa mandou pespegar uma lápida: «É proibido afixar anúncios nesta propriedade», um miúdo de metro e meio de altura escreveu a carvão estas letras infamantes para a higiene do edifício: «Viva o Benfica».
O miúdo não percebia de leis, pelos vistos. O miúdo não sabia que homens muito sábios, muito avisados e muito prudentes têm escrito milhares de palavras de ordem - e que essas palavras de ordem foram articuladas para serem rigorosamente cumpridas. O miúdo só sabia que tinha uma mensagem para dizer, umas palavras que eram a ordem das coisas e a própria expressão do seu mundo: «Viva o Benfica». E o miúdo escreveu-as. Em letras grandes, mal feitas, mas grandes e arrogantes. Limpou as mãos aos calções e ficou a espiar a sua obra. Faltava lá qualquer coisa. Tornou a pegar no carvão e escreveu: «Manel». Responsável pela afirmação, o Manel não quis que ela ficasse anónima. A sua responsabilidade começou a partir daí. Um polícia aproximou-se lentamente. Viu tudo. E, como as leis são feitas para se cumprirem, agarrou num braço do Manel. O Manel a princípio ficou surpreendido e perplexo; depois, como ter medo é próprio dos homens, o medo apareceu-lhe em veios por todo o corpo, para se exprimir finalmente em resistência e lágrimas.
Começou a juntar-se gente. Manel gritava e o polícia manifestava firmeza na mão e indiferença no olhar. Com razão ou sem ela, a verdade é que as pessoas que formavam roda penderam em simpatias e inclinações para o miúdo-pardal-de-telhado que estava à beira de ser engaiolado. O polícia, certamente, começou a pensar que uma situação absoluta é horrível - concluindo para os seus botões de metal, que «nem tanto ao mar, nem tanto à terra», que é um belo aforismo, muito profundo e muito reverente. Afrouxou a pressão que fazia no braço do Manel. Afrouxou também a tensão que se estabelecera entre as pessoas que miravam a cena. Manel deu por isso com os seus olhos espertos e traquinas. E correu. E escapou-se. Porém, antes de virar à esquina, voltou-se para trás e gritou para o polícia:
– Se calhar o sô guarda é do Sporting, não?
Baptista-Bastos (1934 - 2017)
Conheci este texto num livro da escola, um manual de Português. Encantou-me. Nunca o esqueci. Hoje consegui encontrá-lo na net, num blog, ao dono do qual eu agradeço a publicação e tê-lo trazido para aqui.
O miúdo não percebia de leis, pelos vistos. O miúdo não sabia que homens muito sábios, muito avisados e muito prudentes têm escrito milhares de palavras de ordem - e que essas palavras de ordem foram articuladas para serem rigorosamente cumpridas. O miúdo só sabia que tinha uma mensagem para dizer, umas palavras que eram a ordem das coisas e a própria expressão do seu mundo: «Viva o Benfica». E o miúdo escreveu-as. Em letras grandes, mal feitas, mas grandes e arrogantes. Limpou as mãos aos calções e ficou a espiar a sua obra. Faltava lá qualquer coisa. Tornou a pegar no carvão e escreveu: «Manel». Responsável pela afirmação, o Manel não quis que ela ficasse anónima. A sua responsabilidade começou a partir daí. Um polícia aproximou-se lentamente. Viu tudo. E, como as leis são feitas para se cumprirem, agarrou num braço do Manel. O Manel a princípio ficou surpreendido e perplexo; depois, como ter medo é próprio dos homens, o medo apareceu-lhe em veios por todo o corpo, para se exprimir finalmente em resistência e lágrimas.
Começou a juntar-se gente. Manel gritava e o polícia manifestava firmeza na mão e indiferença no olhar. Com razão ou sem ela, a verdade é que as pessoas que formavam roda penderam em simpatias e inclinações para o miúdo-pardal-de-telhado que estava à beira de ser engaiolado. O polícia, certamente, começou a pensar que uma situação absoluta é horrível - concluindo para os seus botões de metal, que «nem tanto ao mar, nem tanto à terra», que é um belo aforismo, muito profundo e muito reverente. Afrouxou a pressão que fazia no braço do Manel. Afrouxou também a tensão que se estabelecera entre as pessoas que miravam a cena. Manel deu por isso com os seus olhos espertos e traquinas. E correu. E escapou-se. Porém, antes de virar à esquina, voltou-se para trás e gritou para o polícia:
– Se calhar o sô guarda é do Sporting, não?
Baptista-Bastos (1934 - 2017)
Conheci este texto num livro da escola, um manual de Português. Encantou-me. Nunca o esqueci. Hoje consegui encontrá-lo na net, num blog, ao dono do qual eu agradeço a publicação e tê-lo trazido para aqui.
Baptista Bastos, o Manel e o paredão da Mundial
A vida dá e tira e é difícil fazer a gestão correcta através de um critério de justiça universal. Tudo o que de mal nos toca e nos causa sofrimento provoca um sentimento de injustiça imerecida. E a vida passa e a dor dói para sempre.
Mas a vida, ou o destino traçado, ou não, também nos envia momentos felizes e inesquecíveis que deviam funcionar como bálsamo para os outros menos bons.
Mas nada disto está nos compêndios e há aqueles queixumes modernos: "A vida não traz livro de instruções!"
Mas lá para o outono/inverno começamos a reflectir e as coisas boas vêm à tona da memória e provocam boas emoções.
Se o passado pudesse ser mudado, outro galo cantaria, mas felizmente não pode: o que foi bom, foi bom; o que foi mau, foi mau.
Nos últimos tempos têm saído de cena vultos ilustres do mundo das artes que deixam o seu passado connosco, a sua vida, em suma, em verso, em prosa, em dó ré mi, a cores ou a preto e branco, esculpido a escopro e martelo.
Ontem foi BB que saiu da vida. Os que o conheciam e o amavam choram o homem, o marido, o pai, o amigo.... Outros, como eu, que o conhecia dos caminhos das palavras, ando à volta delas á procura de compreensão para uma ausência que era escusada (porque é sempre o que pensamos imediatamente) e ainda por cima é definitiva.
E assim andei hoje, todo o dia, aos encontrões com o "paredão austero da Mundial" onde era proibido afixar anúncios e um miúdo que "não percebia de leis" nem de avisos, escreveu : Viva o Benfica! E ainda por cima assinou: Manel!
Depois apareceu o Senhor Guarda que agiu conforme o seu entendimento do cumprimento das regras e agarrou o miúdo.
Juntou-se gente, como é costume e todos se começaram a sentir mal com o espectáculo. O guarda largou o miúdo, dando, como quem não quer a coisa, a oportunidade de fugir, para alívio de todos.
E o Manel ainda gritou a uma distância de segurança: " Se calhar o sô guarda é do Sporting, não?"
No tempo em que eu dava estas aulas não havia contadores de visualizações. Se houvesse, o BB ia adorar saber quantos milhares gostavam de o ler.
Eu cá partilhei este texto com centenas de alunos!
Adeus, BB! Obrigada pelas palavras que guardaremos para sempre!
Mas a vida, ou o destino traçado, ou não, também nos envia momentos felizes e inesquecíveis que deviam funcionar como bálsamo para os outros menos bons.
Mas nada disto está nos compêndios e há aqueles queixumes modernos: "A vida não traz livro de instruções!"
Mas lá para o outono/inverno começamos a reflectir e as coisas boas vêm à tona da memória e provocam boas emoções.
Se o passado pudesse ser mudado, outro galo cantaria, mas felizmente não pode: o que foi bom, foi bom; o que foi mau, foi mau.
Nos últimos tempos têm saído de cena vultos ilustres do mundo das artes que deixam o seu passado connosco, a sua vida, em suma, em verso, em prosa, em dó ré mi, a cores ou a preto e branco, esculpido a escopro e martelo.
Ontem foi BB que saiu da vida. Os que o conheciam e o amavam choram o homem, o marido, o pai, o amigo.... Outros, como eu, que o conhecia dos caminhos das palavras, ando à volta delas á procura de compreensão para uma ausência que era escusada (porque é sempre o que pensamos imediatamente) e ainda por cima é definitiva.
E assim andei hoje, todo o dia, aos encontrões com o "paredão austero da Mundial" onde era proibido afixar anúncios e um miúdo que "não percebia de leis" nem de avisos, escreveu : Viva o Benfica! E ainda por cima assinou: Manel!
Depois apareceu o Senhor Guarda que agiu conforme o seu entendimento do cumprimento das regras e agarrou o miúdo.
Juntou-se gente, como é costume e todos se começaram a sentir mal com o espectáculo. O guarda largou o miúdo, dando, como quem não quer a coisa, a oportunidade de fugir, para alívio de todos.
E o Manel ainda gritou a uma distância de segurança: " Se calhar o sô guarda é do Sporting, não?"
No tempo em que eu dava estas aulas não havia contadores de visualizações. Se houvesse, o BB ia adorar saber quantos milhares gostavam de o ler.
Eu cá partilhei este texto com centenas de alunos!
Adeus, BB! Obrigada pelas palavras que guardaremos para sempre!
segunda-feira, 27 de março de 2017
As horas
Demos um salto no tempo e cá estamos nós, com uma hora a menos de sono e de sonhos de um mundo melhor.
Mais vale dizer "devaneios", já que o sonho de um mundo melhor parece perder consistência e desfazer-se na tal espuma dos dias.
Agora, não se pode ler/ver/ouvir notícias. É crime, tragédia, horror...
Mais vale dizer "devaneios", já que o sonho de um mundo melhor parece perder consistência e desfazer-se na tal espuma dos dias.
Agora, não se pode ler/ver/ouvir notícias. É crime, tragédia, horror...
domingo, 26 de março de 2017
Sou do Sul e sou do Norte!
Sou do sul, claro!
Mas também sou do norte, claro!
O meu prazer estende-se da leveza e do calor do Índico às praias da Normandia, onde cada grão dos extensos areais do desembarque é uma semente de liberdade.
Para saber de onde sou e de onde venho, procuro no GPS dos meus genes, confirmo a origem numa certidão desbotada que regista as “coordenadas”, como sempre se registaram, local e data. Nasci em Mocuba, terras banhadas pelo Zambeze, o grande rio. As imensidões são o meu património geográfico de referência.
Para saber onde estou, tenho a bússola do meu sentimento maior: os meus filhos! Nasceram e cresceram muitos dos centímetros do BI na terra saloia, de seu nome Odivelas, que é do norte e é do sul, onde D. Dinis, o poeta rei, viveu grandes aventuras amorosas. Terra da marmelada única e de bolinhos que dão pelo nome de esquecidos. Nas terras saloias, tanto faz ser do norte ou ser do sul. Ninguém liga a isso!
Há outras maneiras, outros percursos, para chegar ao sul de mim. Mas para isso há que obter um passaporte e uma autorização especial assinada por Adamastor. Conheço-o bem dos versos de Camões. É um pobre diabo apaixonado que sofreu o castigo de ficar para sempre petrificado a sentir-se beijado pelas águas, domínio do ser amado.
Pela História ou pela Geografia, serei sempre uma dualidade norte/sul, com muito gosto!
Mas também sou do norte, claro!
O meu prazer estende-se da leveza e do calor do Índico às praias da Normandia, onde cada grão dos extensos areais do desembarque é uma semente de liberdade.
Para saber de onde sou e de onde venho, procuro no GPS dos meus genes, confirmo a origem numa certidão desbotada que regista as “coordenadas”, como sempre se registaram, local e data. Nasci em Mocuba, terras banhadas pelo Zambeze, o grande rio. As imensidões são o meu património geográfico de referência.
Para saber onde estou, tenho a bússola do meu sentimento maior: os meus filhos! Nasceram e cresceram muitos dos centímetros do BI na terra saloia, de seu nome Odivelas, que é do norte e é do sul, onde D. Dinis, o poeta rei, viveu grandes aventuras amorosas. Terra da marmelada única e de bolinhos que dão pelo nome de esquecidos. Nas terras saloias, tanto faz ser do norte ou ser do sul. Ninguém liga a isso!
Há outras maneiras, outros percursos, para chegar ao sul de mim. Mas para isso há que obter um passaporte e uma autorização especial assinada por Adamastor. Conheço-o bem dos versos de Camões. É um pobre diabo apaixonado que sofreu o castigo de ficar para sempre petrificado a sentir-se beijado pelas águas, domínio do ser amado.
Pela História ou pela Geografia, serei sempre uma dualidade norte/sul, com muito gosto!
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017
"Cosas de viejos"
Há quase meio século que ouço a cantiga de Patxi que fala do tempo, do envelhecimento e das relações que envelhecem connosco, passando a pertencer à tristeza do agora, um presente com rugas....
Parece que todas as noites chove, mas o sono não cede porque é como um telhado resistente que permanece inteiro depois do temporal.
Mas o pior é o acordar. Acordar, enfrentar o novo dia é sempre muito difícil.
Fazer o quê?
O novo dia desperta-me sempre para um monte de tarefas que não me apetecem, para medos que não se vão embora, para sonhos amarrotados e a caminho do caixote do lixo....
Depois avanço em direcção ao dever e à obrigação de viver!
Ao longo do dia tenho boas e más notícias. Nem todas me envolvem, nem todas me dizem respeito, mas as más assustam-me, nem que tenham acontecido no outro lado do mundo. Ou seja: a fragilidade da condição humana não me larga.
Parece que todas as noites chove, mas o sono não cede porque é como um telhado resistente que permanece inteiro depois do temporal.
Mas o pior é o acordar. Acordar, enfrentar o novo dia é sempre muito difícil.
Fazer o quê?
O novo dia desperta-me sempre para um monte de tarefas que não me apetecem, para medos que não se vão embora, para sonhos amarrotados e a caminho do caixote do lixo....
Depois avanço em direcção ao dever e à obrigação de viver!
Ao longo do dia tenho boas e más notícias. Nem todas me envolvem, nem todas me dizem respeito, mas as más assustam-me, nem que tenham acontecido no outro lado do mundo. Ou seja: a fragilidade da condição humana não me larga.
Como é que se aprende a viver? Mesmo quando tudo corre bem...
É a vida, dizem os doutos!
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017
Dias da Radio... Mais um....
Hoje é dia mundial da rádio!
A rádio faz parte do meu crescimento e ao dizer, ou melhor, ao escrever isto, não pretendo apossar-me de um momento como tendo sido apenas meu. Foi de todos nós!
Recuando no tempo, como se de um fenómeno altamente tecnológico se tratasse, vou parar à casa da minha avó, à sala rectangular que prolongava um longo corredor e fazia de sala de refeições.
Entre um aparador enorme e uma porta, por cima de uma móvel que a minha memória não consegue reconstruir, havia uma telefonia. Era uma caixa enorme com botões e teclas, com uma espécie de ecrâ minúsculo com números e algumas letras. Ligava-se um botão e muito lentamente os sinais de vida iam aparecendo. Umas luzes…. E, finalmente, o som. Se fosse preciso afinar a sintonização pedia-se a intervenção de alguém com mais autoridade para o assunto: o meu avô!
E à hora do folhetim, todos se reuniam à volta do mágico aparelho que nos punha a par de romances com felicidades e momentos difíceis que promoviam ainda mais felicidade e romantismo. A pobreza também fazia parte do enredo, como acontece com as histórias de encantar. Os pobres merecem ser ricos e os ricos têm de passar pela experiência da pobreza para merecerem o bem-estar dos ricos. Valores que os tempos mudaram pouco. Há um reduto de valores talvez diferentes, talvez mais baseados numa justiça superior, numa classe média que tende também a desaparecer.
A Maltrapilha era um desses folhetins e o título diz tudo.
Mais tarde, numa adolescência já cheia de sonhos cor-de-rosa, a rádio continuou a desempenhar um papel importante no meu crescimento em direcção à vida. Era um tempo das cantigas e do cantores românticos: Sylvie Vartan, Françoise Hardy, Mireille Mathieu, Adamo, Percy Slege, Rita Pavone, Gianni Morandi, Roberto Carlos. E a moçambicana Natércia Barreto.
E para os mais talentosos havia uma Tia, na radio, que reunia sobrinhos que lhe escreviam e iam ao seu programa cantar. Eu limitava-me a escrever porque cantar ou declamar não era para mim. Mas ia às gravações dos programas a que hoje chamam “galas”. Conheci pessoalmente a Tia Zita, ou seja, a locutora Maria Adalgisa.
Estamos pois nos primórdios dos programas que hoje enchem a programação da TV. Foi a Tia Zita que inventou tudo. As tias também já vêm de longe…
Obrigada Tia Zita!
Viva a Rádio!
Maria , este post é para ti. Espero as fotos das tuas actuações na Tia Zita!
Beijinhossss
A rádio faz parte do meu crescimento e ao dizer, ou melhor, ao escrever isto, não pretendo apossar-me de um momento como tendo sido apenas meu. Foi de todos nós!
Recuando no tempo, como se de um fenómeno altamente tecnológico se tratasse, vou parar à casa da minha avó, à sala rectangular que prolongava um longo corredor e fazia de sala de refeições.
Entre um aparador enorme e uma porta, por cima de uma móvel que a minha memória não consegue reconstruir, havia uma telefonia. Era uma caixa enorme com botões e teclas, com uma espécie de ecrâ minúsculo com números e algumas letras. Ligava-se um botão e muito lentamente os sinais de vida iam aparecendo. Umas luzes…. E, finalmente, o som. Se fosse preciso afinar a sintonização pedia-se a intervenção de alguém com mais autoridade para o assunto: o meu avô!
E à hora do folhetim, todos se reuniam à volta do mágico aparelho que nos punha a par de romances com felicidades e momentos difíceis que promoviam ainda mais felicidade e romantismo. A pobreza também fazia parte do enredo, como acontece com as histórias de encantar. Os pobres merecem ser ricos e os ricos têm de passar pela experiência da pobreza para merecerem o bem-estar dos ricos. Valores que os tempos mudaram pouco. Há um reduto de valores talvez diferentes, talvez mais baseados numa justiça superior, numa classe média que tende também a desaparecer.
A Maltrapilha era um desses folhetins e o título diz tudo.
Mais tarde, numa adolescência já cheia de sonhos cor-de-rosa, a rádio continuou a desempenhar um papel importante no meu crescimento em direcção à vida. Era um tempo das cantigas e do cantores românticos: Sylvie Vartan, Françoise Hardy, Mireille Mathieu, Adamo, Percy Slege, Rita Pavone, Gianni Morandi, Roberto Carlos. E a moçambicana Natércia Barreto.
E para os mais talentosos havia uma Tia, na radio, que reunia sobrinhos que lhe escreviam e iam ao seu programa cantar. Eu limitava-me a escrever porque cantar ou declamar não era para mim. Mas ia às gravações dos programas a que hoje chamam “galas”. Conheci pessoalmente a Tia Zita, ou seja, a locutora Maria Adalgisa.
Estamos pois nos primórdios dos programas que hoje enchem a programação da TV. Foi a Tia Zita que inventou tudo. As tias também já vêm de longe…
Obrigada Tia Zita!
Viva a Rádio!
Maria , este post é para ti. Espero as fotos das tuas actuações na Tia Zita!
Beijinhossss
domingo, 15 de janeiro de 2017
domingo....
É domingo e está frio.
O meu "telefone" diz-me que os graus são seis, mas as minhas mãos geladas de teclar sem abrigo estão para aí a quatro ou menos.
As pontas dos dedos estão pedra!
Este maldito vício de tomar o pequeno almoço com joguinhos e jornais on line!!!!!
O fim de semana está no fim. Ainda não atinei com o ritmo da reforma. Não sei se é a preguiça que comanda a vida se é qualquer desígnio insondável como são todos o que se nos deparam. O que fazemos nós, encaixados que estamos, entre uma geração que, graças a Deus está cheia de força para rebater as nossas ideias e atitudes, e outra que não nos entende porque acha, com a ajuda da teoria da relatividade, que somos novos?
E nesse espaço, entre gerações, esse espaço que é nosso por direito absoluto, olhamos para baixo e para cima e não encaixamos em lugar algum.
O puzzle avaria à mínima tentativa de acertar o recorte....
sábado, 31 de dezembro de 2016
Ele há dias!
Há dias definitivamente simbólicos. Estes, hoje e amanhã, são-no por excelência. Há uma overdose de esperança que se baseia numa folha de calendário. Urge pois despir esses dias de obrigações que não têm. Não temos de obrigar o dia 1, já amanhã, a mudar o que tem vindo a sofrer a erosão do tempo ao longo da consagrada vida útil, 65 anos. (Falo de mim, claro!)
Gostava sobretudo de acreditar!
O meu pai dizia que acreditava em Deus e Deus acreditava nele. Eu ainda não cheguei a esse patamar de tu cá tu lá com os meus superiores....
Gostava muito de acreditar no que diz o refrão do Sérgio Godinho que preconiza um dia para ser o primeiro do resto da nossa vida!
Não deixa de ser verdade: todos os dias são os primeiros!
Gostava ainda de acreditar num conto que faz parte da minha antologia mental e que diz fundamentalmente que o muito pode ser partilhado, dividido, mas o pouco também. Podemos partilhar um jardim, um canteiro, uma flor ou, simplesmente, o cheiro....
"Mas todos terão igual!"
Gostava sobretudo de acreditar!
O meu pai dizia que acreditava em Deus e Deus acreditava nele. Eu ainda não cheguei a esse patamar de tu cá tu lá com os meus superiores....
Gostava muito de acreditar no que diz o refrão do Sérgio Godinho que preconiza um dia para ser o primeiro do resto da nossa vida!
Não deixa de ser verdade: todos os dias são os primeiros!
Gostava ainda de acreditar num conto que faz parte da minha antologia mental e que diz fundamentalmente que o muito pode ser partilhado, dividido, mas o pouco também. Podemos partilhar um jardim, um canteiro, uma flor ou, simplesmente, o cheiro....
"Mas todos terão igual!"
segunda-feira, 31 de outubro de 2016
Ser ou não ser, a velha questão!
Ser ou não ser pai ou mãe é uma decisão que cabe aos próprios.
Ser avô ou avó não é!
É uma benção que se aguarda, que se pede, todos os dias a todos os destinatários das preces.No dia em que os filhos anunciam a chegada de um neto/neta (deixa logo de interessar o sexo, ou melhor, o género, como agora se diz) deixa logo de haver preferências e o lugar comum torna-se a maior verdade universal: é preciso é que venha bem!.
Nasce nesse dia o sonho de ter mais um na nossa vida e sermos mais um na vida de alguém.
E quando nos entregam o neto para passar umas horas connosco, o nosso coração sobe aos céus num voo de verdadeira felicidade.
Os netos passam a ser o assunto maior das nossas conversas.
Reaprendemos a brincar ao que eles querem: às "condidas", à bola ou ao faz de conta que estamos a comer, dormir.
A minha neta deu-me uma lição de ballet, há três dias. O meu corpo reagiu muito mal mas o meu coração reagiu muito bem, apesar de me ter sentido uma popota esvoaçante.
Há as perguntas difíceis: avó, em que barriga é que tu nasceste? A tua mãe era minha tia?
E por aí fora....
Mas o tempo voa e um destes dias as escolhas deles serão outras e há que nos prepararmos para os ver crescer mais de longe, mantendo a força dos laços....
sábado, 29 de outubro de 2016
"Hei-de amar uma pedra"
Sepulto-me à sombra das leituras de Lobo Antunes, o António, como quem enterra uma semente que dará árvore e mais….
"Boa tarde às coisas aqui em baixo"
Ao longo dos últimos anos, ficamos a saber a vida toda desta família de ilustres homens das ciências e das letras.
Sim, pelas crônicas. Foi, ou era, sempre o primeiro artigo a ler na Visão, a crónica, onde estava o original das nossas vidas (depende da perspectiva )..... Eu, pelo menos, assim o sentia.
"Não é meia noite quem quer"
O meu pai morreu uns tempos depois do patriarca Lobo Antunes e foi a leitura da crónica sobre a morte do pai que me preparou para esse momento em que o nosso pai não nos reponde e nem sequer se parece com o homem que foi.
"Isto Não É O Meu Pai! – dizia Lobo Antunes, o escritor.
O meu pai é um homem de trinta anos a jogar ténis na Urgeiriça e a fazer fosquinhas às inglesas. O meu pai é um homem de trinta e tal ou quarenta anos..."
"Aquele não é o meu pai!" Foi o que senti, ou quis sentir porque acho que tanto eu como o meu pai ficávamos a ganhar.
Foi com as crónicas que eu aprendi que só há uma maneira de lutar contra um cancro: aguentando! Foi Júlio Pomar que o ensinou, em privado. Ele espalhou a fórmula do “aguenta-te”.
António Lobo Antunes tem-se dado a conhecer a todos os que leem as suas crónicas. Por muito íntima que seja a referência a um momento qualquer, nunca é despudorada.
"Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?"
Podemos pensar que é por ser médico que sabe contar melhor o que se passa numa sala de quimioterapia. Mas não. Ali ele é o homem (sempre menino) como todos os outros que ali estão. Talvez mais atento ao que dizem os seus companheiros de batalha. Esta foi uma matéria prima importante dos seus escritos regulares.
"Que farei quando tudo arde?"
Nutria e nutre pelos irmãos, pela mãe e pelo pai, mais do que um afecto simples de sangue. Ele perscruta as almas de cada um e todos palpitam ao sabor da batuta do homem escritor.
Longe vai a irreverência, ou talvez não!, do escritor pensador a quem Joaquim Letria pediu uma frase à medida de um candidato a nobel e o que saiu foi “Viva o Benfica”!
"Comissão das lágrimas"
Hoje, António Lobo Antunes deve estar mergulhado em dor. Às vezes em que estive perto dele não tive nunca coragem de lhe dirigir palavra. Era uma espécie de monumento que regularmente ia comer ao Chinês, em Telheiras....
"Boa tarde às coisas aqui em baixo"
Ao longo dos últimos anos, ficamos a saber a vida toda desta família de ilustres homens das ciências e das letras.
Sim, pelas crônicas. Foi, ou era, sempre o primeiro artigo a ler na Visão, a crónica, onde estava o original das nossas vidas (depende da perspectiva )..... Eu, pelo menos, assim o sentia.
"Não é meia noite quem quer"
O meu pai morreu uns tempos depois do patriarca Lobo Antunes e foi a leitura da crónica sobre a morte do pai que me preparou para esse momento em que o nosso pai não nos reponde e nem sequer se parece com o homem que foi.
"Isto Não É O Meu Pai! – dizia Lobo Antunes, o escritor.
O meu pai é um homem de trinta anos a jogar ténis na Urgeiriça e a fazer fosquinhas às inglesas. O meu pai é um homem de trinta e tal ou quarenta anos..."
"Aquele não é o meu pai!" Foi o que senti, ou quis sentir porque acho que tanto eu como o meu pai ficávamos a ganhar.
Foi com as crónicas que eu aprendi que só há uma maneira de lutar contra um cancro: aguentando! Foi Júlio Pomar que o ensinou, em privado. Ele espalhou a fórmula do “aguenta-te”.
António Lobo Antunes tem-se dado a conhecer a todos os que leem as suas crónicas. Por muito íntima que seja a referência a um momento qualquer, nunca é despudorada.
"Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?"
Podemos pensar que é por ser médico que sabe contar melhor o que se passa numa sala de quimioterapia. Mas não. Ali ele é o homem (sempre menino) como todos os outros que ali estão. Talvez mais atento ao que dizem os seus companheiros de batalha. Esta foi uma matéria prima importante dos seus escritos regulares.
"Que farei quando tudo arde?"
Nutria e nutre pelos irmãos, pela mãe e pelo pai, mais do que um afecto simples de sangue. Ele perscruta as almas de cada um e todos palpitam ao sabor da batuta do homem escritor.
Longe vai a irreverência, ou talvez não!, do escritor pensador a quem Joaquim Letria pediu uma frase à medida de um candidato a nobel e o que saiu foi “Viva o Benfica”!
"Comissão das lágrimas"
Hoje, António Lobo Antunes deve estar mergulhado em dor. Às vezes em que estive perto dele não tive nunca coragem de lhe dirigir palavra. Era uma espécie de monumento que regularmente ia comer ao Chinês, em Telheiras....
quinta-feira, 21 de julho de 2016
Happy Birthday, Captain!
Robin Williams faria anos de vida hoje. Não muitos.
Apesar de não ter chegado a celebrar estes "não muitos", os menos chegaram-lhe para provar a grande verdade da vida: "Carpe Diem"!
Transmitiu esse lema, essa convicção, ao longo do seu trabalho, muito longo para tão "curta vida"!
Este filme, O Clube dos Poetas Mortos, foi um "cume" na sua carreira e levou a população do mundo inteiro a reflectir sobre o sentido da vida, a relação com os outros, especialmente professores e alunos, a escola como ponto de partida para esse caminho de sentido único que cada um de nós percorre, ora mais só, ora menos só, mas tem de ser mesmo percorrido por nós, com as nossas verdades e as nossas certezas....
Happy birthday, My Captain!
sábado, 2 de julho de 2016
A Fotografia
A fotografia é um registo que evoluiu até hoje, como quase tudo, com uma vertigem que às vezes custa a entender.
Passou de uma "geringonça" enorme a um aparelho com as dimensões de um BI; de uma película a que chamávamos "rolo", custo acrescido deste hobby tão antigo, à inexistência de qualquer película; da revelação trabalhosa e demorada, à visualização instantânea no ecrã da própria máquina digital, ou, pior um pouco, no ecrã do telemóvel.
Passou das duas cores aos milhares de tons de todas as cores....
Mas nada passa de moda na fotografia! Cada "modelo" marca um tempo para sempre e, graças a isso, todas as fotografias estão sempre na moda.
Agora que a falta de limite chegou a esta arte, o portador do engenho, pode até perder a noção da quantidade de cliques, tal a sua sede de apanhar a beleza, ou outra coisa qualquer, do momento...
Ser fotógrafo está agora ao alcance de qualquer um. Até a minha neta com três anos experimentou esse prazer de escolher e clique.
Mas o fotógrafo também cresce em experiência, em saber mais ou menos organizado, mais ou menos técnica, mais ou menos domínio da máquina, equipamentos.... E cresce também a vontade de fazer melhor! A exigência, pois!
E depois vai-se à procura... Sempre à procura! Passa de desejo a vício.
Comigo tem sido assim. E, há poucos dias, aconteceu-me ter à mão, ou ao pé, a uma distância muito curta, um quadro que adivinhava uma bela foto: um casal de gente "grande", sentados no chão, à beira do rio, com o olhar entretido com o horizonte e barcos que passavam no rio...
A medo, para não incomodar, disparei uma, duas, três vezes ou mais. Fiz zoom e disparei de novo.
E quando, com algum recato, vi o resultado... apaixonei-me pela fotografia.
Com a ajuda dos programas instalados para alterar a foto, criei ainda mais versões e todas produziam o mesmo efeito: apaixonar-me pela imagem e pelo que li na situação e que, surpreendentemente, foi traduzido para inglês por algum "eu" que eu não sabia que vivia comigo
"Once upon a time.... There 's a never ending story inside each of us".
Foi o meu fascínio pelas histórias de encantar e a memória de um filme cuja magia se apoderou de mim, através da infância dos meus filhos...
Passou de uma "geringonça" enorme a um aparelho com as dimensões de um BI; de uma película a que chamávamos "rolo", custo acrescido deste hobby tão antigo, à inexistência de qualquer película; da revelação trabalhosa e demorada, à visualização instantânea no ecrã da própria máquina digital, ou, pior um pouco, no ecrã do telemóvel.
Passou das duas cores aos milhares de tons de todas as cores....
Mas nada passa de moda na fotografia! Cada "modelo" marca um tempo para sempre e, graças a isso, todas as fotografias estão sempre na moda.
Agora que a falta de limite chegou a esta arte, o portador do engenho, pode até perder a noção da quantidade de cliques, tal a sua sede de apanhar a beleza, ou outra coisa qualquer, do momento...
Ser fotógrafo está agora ao alcance de qualquer um. Até a minha neta com três anos experimentou esse prazer de escolher e clique.
Mas o fotógrafo também cresce em experiência, em saber mais ou menos organizado, mais ou menos técnica, mais ou menos domínio da máquina, equipamentos.... E cresce também a vontade de fazer melhor! A exigência, pois!
E depois vai-se à procura... Sempre à procura! Passa de desejo a vício.
Comigo tem sido assim. E, há poucos dias, aconteceu-me ter à mão, ou ao pé, a uma distância muito curta, um quadro que adivinhava uma bela foto: um casal de gente "grande", sentados no chão, à beira do rio, com o olhar entretido com o horizonte e barcos que passavam no rio...
A medo, para não incomodar, disparei uma, duas, três vezes ou mais. Fiz zoom e disparei de novo.
E quando, com algum recato, vi o resultado... apaixonei-me pela fotografia.
Com a ajuda dos programas instalados para alterar a foto, criei ainda mais versões e todas produziam o mesmo efeito: apaixonar-me pela imagem e pelo que li na situação e que, surpreendentemente, foi traduzido para inglês por algum "eu" que eu não sabia que vivia comigo
"Once upon a time.... There 's a never ending story inside each of us".
Foi o meu fascínio pelas histórias de encantar e a memória de um filme cuja magia se apoderou de mim, através da infância dos meus filhos...
terça-feira, 14 de junho de 2016
Coisas em dia de futebol
A vida deve ter parado neste país!
Está toda a gente entregue à nobre causa do futebol, com um súbito ataque de amor à nação. Parece-me, e por favor não me julguem mal, que este sentimento de nacionalidade se reduz às coisas da bola.
O povo puxa pela selecção mas devia a selecção puxar pelo povo.
Devia sim! Cada um, na tarefa que foi distribuída pelo Criador, faz o que pode e consegue. Depois não leva palmas. Leva palmadas, quando calha!
Nunca percebi muito bem este fenómeno e não me vou pôr a discuti-lo em público.
A minha selecção neste momento é a equipa da geringonça. Esses sim, podem fazer alguma coisa pela vida aqui.
Estou tão seca por dentro. Faltam-me entusiasmos. Falta-me saudade!
E pelos sons que me chegam, ou melhor pelos silêncios que me chegam, faltam golos à equipa de Portugal!
domingo, 5 de junho de 2016
Parabéns, papá!
O meu pai nasceu há noventa anos.
Há que celebrar um homem que viveu muito além dos noventa no tempo um tanto mais curto que lhe coube. Viveu para lá de convenções. Venceu doenças que eram consideradas " morte certa". Dançou muito e cantou à moda dos ídolos da época. Namorou que se fartou. Escreveu e pintou, porque sim, porque gostava e porque a sensibilidade assim pedia. Leu imenso. Conviveu com poetas, escritores e pintores. Foi enfermeiro de vocação e a morte foi sempre uma inimiga a abater.
Foi um Don Juan perfeito e acabado, com namoradas nas várias esquinas da vida. Até ao dia em que resolveu deixar de partir, ou ajudar a partir, corações.
Foi meu pai, mas nunca "exerceu" essa paternidade com a superioridade de quem sabe mais, já viveu mais os assuntos da vida. Era, como se diz agora, um parceiro, já que a minha educação era o empreendimento. Ensinou-me a gostar de cinema e de poesia. Ensinou-me a aprender com os acontecimentos da vida. Tinha as frases "chave" com que ilustrava os ensinamentos. Muitas eram as máximas consagradas, como: os cães ladram e a caravana passa. Outras eram importadas de amigos e ajeitadas por ele mesmo: nunca faltou miséria ao miserável, nem dinheiro ao gastador. Outras ainda nasceram numa alma aflita, a sua, quando a vida estava a doer: "eu acredito em Deus e Deus acredita em mim."
Hoje faz noventa anos! Parabéns, papá!
Há que celebrar um homem que viveu muito além dos noventa no tempo um tanto mais curto que lhe coube. Viveu para lá de convenções. Venceu doenças que eram consideradas " morte certa". Dançou muito e cantou à moda dos ídolos da época. Namorou que se fartou. Escreveu e pintou, porque sim, porque gostava e porque a sensibilidade assim pedia. Leu imenso. Conviveu com poetas, escritores e pintores. Foi enfermeiro de vocação e a morte foi sempre uma inimiga a abater.
Foi um Don Juan perfeito e acabado, com namoradas nas várias esquinas da vida. Até ao dia em que resolveu deixar de partir, ou ajudar a partir, corações.
Foi meu pai, mas nunca "exerceu" essa paternidade com a superioridade de quem sabe mais, já viveu mais os assuntos da vida. Era, como se diz agora, um parceiro, já que a minha educação era o empreendimento. Ensinou-me a gostar de cinema e de poesia. Ensinou-me a aprender com os acontecimentos da vida. Tinha as frases "chave" com que ilustrava os ensinamentos. Muitas eram as máximas consagradas, como: os cães ladram e a caravana passa. Outras eram importadas de amigos e ajeitadas por ele mesmo: nunca faltou miséria ao miserável, nem dinheiro ao gastador. Outras ainda nasceram numa alma aflita, a sua, quando a vida estava a doer: "eu acredito em Deus e Deus acredita em mim."
Hoje faz noventa anos! Parabéns, papá!
domingo, 28 de fevereiro de 2016
Glamour em tempo próprio
Se me fosse permitido, por artes mais ou menos mágicas, voltar atrás no tempo e nomear, ou mesmo atribuir os "Óscares" da minha vida, o filme, por quase tudo escolhido, seria "My Fair Lady".
Começaria logo pela grande ausente do Prémio da Academia, do ano de 1965, a bela Audrey Hepburn.
A magra figura foi a minha inspiração maior na adolescência! Havia uma força diferente que vinha de dentro, como o próprio filho explicou, como um prolongamento, fruto da discilplina e do respeito pelos outros.
Mas o que afastou a belíssima Audrey dos monstros da Academia foi sem dúvida a polémica em que esteve envolvida por lhe ter sido atribuído o papel principal, florista de Covent Garden desempenhado no teatro durante muito tempo por Julie Andrews.
Ganhador da estatueta para melhor actor, Rex Harrison, dedicou o prémio a duas "lindas senhoras", "two fair ladies", Juie Andrews e Audrey Hepburn.
Vi o filme na sala do Cinema Scala, em Lourenço Marques Tinha pouco mais de dez anos e estava acompanhada pelo meu pai, um devorador de "fitas".
And the Oscar goes to....
My Fair Lady!
Começaria logo pela grande ausente do Prémio da Academia, do ano de 1965, a bela Audrey Hepburn.
A magra figura foi a minha inspiração maior na adolescência! Havia uma força diferente que vinha de dentro, como o próprio filho explicou, como um prolongamento, fruto da discilplina e do respeito pelos outros.
Mas o que afastou a belíssima Audrey dos monstros da Academia foi sem dúvida a polémica em que esteve envolvida por lhe ter sido atribuído o papel principal, florista de Covent Garden desempenhado no teatro durante muito tempo por Julie Andrews.
Ganhador da estatueta para melhor actor, Rex Harrison, dedicou o prémio a duas "lindas senhoras", "two fair ladies", Juie Andrews e Audrey Hepburn.
Vi o filme na sala do Cinema Scala, em Lourenço Marques Tinha pouco mais de dez anos e estava acompanhada pelo meu pai, um devorador de "fitas".
And the Oscar goes to....
My Fair Lady!
domingo, 21 de fevereiro de 2016
Querido papá!
Cumpre-se hoje mais um ano de ausência, de falta. Mas os teus
quadros falam por ti, dão respostas a inquietações milenares, como "Onde
estás?".
Eles respondem: estou aqui!
E estás mesmo. Está ali a tua ideia de um
recanto que te "apeteceu" e esse recanto é parte de um todo, É
o símbolo do teu contributo para a vida.
O belo!
O belo foi a tua linha de horizonte
sempre! Mas, se, por acaso, o vislumbravas numa vereda, num atalho, esse seria
o teu caminho.
Ensinaste-me a amar a expressão estética e
se não sei pintar, nem dançar, nem cantar como tu, sei ler os versos de
Reinaldo Ferreira, com o mesmo deslumbramento.
Devo-te a minha construção cultural,
devo-te a ousadia de pensar e dizer o que penso. Não vou acrescentar o clássico
complemento "doa a quem doer" porque isso não tem sido assim. Tenho
um reduto de seres que não quero magoar e só o faço, por falha, culpa e
pecado.
Em termos afetivos, o "tu cá, tu
lá" ajudou muito a perceber que eu não tinha que ser igual a ti mas podia
receber com mãos abertas a tua experiência de afetos e refletindo sobre eles
partir para a minha vida. Falámos sempre como dois amigos. Houve situações em
que te levei a melhor, mas tu não sucumbias com facilidade, mesmo quando a
"derrota" te punha a sorrir porque a minha vitória representava o teu
sucesso na minha educação.
Estás a ver que estamos a conversar?! Por
isso é que eu digo que não foste embora e que andas por aqui...
terça-feira, 2 de fevereiro de 2016
Micro - conto ou a meteorologia explicada como se a gente tivesse cinco anos
- Vá lá, menino sol. Toca a levantar!
Era a lua a pôr ordem no espaço celeste.
Já tinha mandado dormir as estrelinhas. Tinha reparado nas remelas que lhes embaraçavam o brilho.
E sol não dava sinais de acordar.
- Vá espreguiça-te à vontade que o sunrise está marcado para as sete e quarenta e dois. Mas depois toca a brilhar e a aquecer estes lugares.
E o sol nada de responder.
E sol não dava sinais de acordar.
- Vá espreguiça-te à vontade que o sunrise está marcado para as sete e quarenta e dois. Mas depois toca a brilhar e a aquecer estes lugares.
E o sol nada de responder.
Mas lá balbuciou um “porquê”.
- Vês estas pessoas todas a apanharem o autocarro, o comboio, o barco, crianças a caminho da escola. Precisam de um bocadinho de calor.
Deu resultado. Em dez segundos, o sol rompeu as nuvens que o convidavam à preguiça e raiou.
Bom dia!
Bom dia!
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