quarta-feira, 10 de maio de 2017

Letras assinadas, de Baptista Bastos

No paredão austero da Mundial, onde a prudência administrativa mandou pespegar uma lápida: «É proibido afixar anúncios nesta propriedade», um miúdo de metro e meio de altura escreveu a carvão estas letras infamantes para a higiene do edifício: «Viva o Benfica».
  O miúdo não percebia de leis, pelos vistos. O miúdo não sabia que homens muito sábios, muito avisados e muito prudentes têm escrito milhares de palavras de ordem - e que essas palavras de ordem foram articuladas para serem rigorosamente cumpridas. O miúdo só sabia que tinha uma mensagem para dizer, umas palavras que eram a ordem das coisas e a própria expressão do seu mundo: «Viva o Benfica». E o miúdo escreveu-as. Em letras grandes, mal feitas, mas grandes e arrogantes. Limpou as mãos aos calções e ficou a espiar a sua obra. Faltava lá qualquer coisa. Tornou a pegar no carvão e escreveu: «Manel». Responsável pela afirmação, o Manel não quis que ela ficasse anónima. A sua responsabilidade começou a partir daí. Um polícia aproximou-se lentamente. Viu tudo. E, como as leis são feitas para se cumprirem, agarrou num braço do Manel. O Manel a princípio ficou surpreendido e perplexo; depois, como ter medo é próprio dos homens, o medo apareceu-lhe em veios por todo o corpo, para se exprimir finalmente em resistência e lágrimas. 
  Começou a juntar-se gente. Manel gritava e o polícia manifestava firmeza na mão e indiferença no olhar. Com razão ou sem ela, a verdade é que as pessoas que formavam roda penderam em simpatias e inclinações para o miúdo-pardal-de-telhado que estava à beira de ser engaiolado. O polícia, certamente, começou a pensar que uma situação absoluta é horrível - concluindo para os seus botões de metal, que «nem tanto ao mar, nem tanto à terra», que é um belo aforismo, muito profundo e muito reverente. Afrouxou a pressão que fazia no braço do Manel. Afrouxou também a tensão que se estabelecera entre as pessoas que miravam a cena. Manel deu por isso com os seus olhos espertos e traquinas. E correu. E escapou-se. Porém, antes de virar à esquina, voltou-se para trás e gritou para o polícia:
  – Se calhar o sô guarda é do Sporting, não?


Baptista-Bastos  (1934 - 2017)

Conheci este texto num livro da escola, um manual de Português. Encantou-me. Nunca o esqueci. Hoje consegui encontrá-lo na net, num blog, ao dono do qual eu agradeço a publicação e tê-lo trazido para aqui. 

Baptista Bastos, o Manel e o paredão da Mundial

A vida dá e tira e é difícil fazer a gestão correcta através de um critério de justiça universal. Tudo o que de mal nos toca e nos causa sofrimento provoca um sentimento de injustiça imerecida. E a vida passa e a dor dói para sempre. 
Mas a vida, ou o destino traçado, ou não, também nos envia momentos felizes e inesquecíveis que deviam funcionar como bálsamo para os outros menos bons.
Mas nada disto está nos compêndios e há aqueles queixumes modernos: "A vida não traz livro de instruções!"
Mas lá para o outono/inverno começamos a reflectir e as coisas boas vêm à tona da memória e provocam boas emoções.
Se o passado pudesse ser mudado, outro galo cantaria, mas felizmente não pode: o que foi bom, foi bom; o que foi mau, foi mau.
Nos últimos tempos têm saído de cena vultos ilustres do mundo das artes que deixam o seu passado connosco, a sua vida, em suma, em verso, em prosa, em dó ré mi, a cores ou a preto e branco, esculpido a escopro e martelo.
Ontem foi BB que saiu da vida. Os que o conheciam e o amavam choram o homem, o marido, o pai, o amigo.... Outros, como eu, que o conhecia dos caminhos das palavras, ando à volta delas á procura de compreensão para uma ausência que era escusada (porque é sempre o que pensamos imediatamente) e ainda por cima é definitiva.
E assim andei hoje, todo o dia, aos encontrões com o "paredão austero da Mundial" onde era proibido afixar anúncios e um miúdo que "não percebia de leis" nem de avisos, escreveu : Viva o Benfica! E ainda por cima assinou: Manel!
Depois apareceu o Senhor Guarda que agiu conforme o seu entendimento do cumprimento das regras e agarrou o miúdo.
Juntou-se gente, como é costume e todos se começaram a sentir mal com o espectáculo. O guarda largou o miúdo, dando, como quem não quer a coisa, a oportunidade de fugir, para alívio de todos.
E o Manel ainda gritou a uma distância de segurança: " Se calhar o sô guarda é do Sporting, não?"
No tempo em que eu dava estas aulas não havia contadores de visualizações. Se houvesse, o BB ia adorar saber quantos milhares gostavam de o ler.
Eu cá partilhei este texto com centenas de alunos!
Adeus, BB! Obrigada pelas palavras que guardaremos para sempre!

segunda-feira, 27 de março de 2017

As horas

Demos um salto no tempo e cá estamos nós, com uma hora a menos de sono e de sonhos de um mundo melhor. 
 Mais vale dizer "devaneios", já que o sonho de um mundo melhor parece perder consistência e desfazer-se na tal espuma dos dias. 
Agora, não se pode ler/ver/ouvir notícias. É crime, tragédia, horror...

domingo, 26 de março de 2017

Sou do Sul e sou do Norte!

Sou do sul, claro! 
Mas também sou do norte, claro!
O meu prazer estende-se da leveza e do calor do Índico às praias da Normandia, onde cada grão dos extensos areais do desembarque é uma semente de liberdade.
Para saber de onde sou e de onde venho, procuro no GPS dos meus genes, confirmo a origem numa certidão desbotada que regista as “coordenadas”, como sempre se registaram, local e data. Nasci em Mocuba, terras banhadas pelo Zambeze, o grande rio. As imensidões são o meu património geográfico de referência.
Para saber onde estou, tenho a bússola do meu sentimento maior: os meus filhos! Nasceram e cresceram muitos dos centímetros do BI na terra saloia, de seu nome Odivelas, que é do norte e é do sul, onde D. Dinis, o poeta rei, viveu grandes aventuras amorosas. Terra da marmelada única e de bolinhos que dão pelo nome de esquecidos. Nas terras saloias, tanto faz ser do norte ou ser do sul. Ninguém liga a isso!
Há outras maneiras, outros percursos, para chegar ao sul de mim. Mas para isso há que obter um passaporte e uma autorização especial assinada por Adamastor. Conheço-o bem dos versos de Camões. É um pobre diabo apaixonado que sofreu o castigo de ficar para sempre petrificado a sentir-se beijado pelas águas, domínio do ser amado.
Pela História ou pela Geografia, serei sempre uma dualidade norte/sul, com muito gosto!

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

"Cosas de viejos"

Há quase meio século que ouço a cantiga de Patxi que fala do tempo, do envelhecimento e das relações que envelhecem connosco, passando a pertencer à tristeza do agora, um presente com rugas.... 
Parece que todas as noites chove, mas o sono não cede porque é como um telhado resistente que permanece inteiro depois do temporal.
Mas o pior é o acordar. Acordar, enfrentar o novo dia é sempre muito difícil. 
Fazer o quê? 
O novo dia desperta-me sempre para um monte de tarefas que não me apetecem, para medos que não se vão embora, para sonhos amarrotados e a caminho do caixote do lixo.... 
Depois avanço em direcção ao dever e à obrigação de viver! 
Ao longo do dia tenho boas e más notícias. Nem todas me envolvem, nem todas me dizem respeito, mas as más assustam-me, nem que tenham acontecido no outro lado do mundo. Ou seja: a fragilidade da condição humana não me larga.
Como é que se aprende a viver? Mesmo quando tudo corre bem...
É a vida, dizem os doutos!

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Dias da Radio... Mais um....

Hoje é dia mundial da rádio! 
A rádio faz parte do meu crescimento e ao dizer, ou melhor, ao escrever isto, não pretendo apossar-me de um momento como tendo sido apenas meu. Foi de todos nós! 
Recuando no tempo, como se de um fenómeno altamente tecnológico se tratasse, vou parar à casa da minha avó, à sala rectangular que prolongava um longo corredor e fazia de sala de refeições. 
 Entre um aparador enorme e uma porta, por cima de uma móvel que a minha memória não consegue reconstruir, havia uma telefonia. Era uma caixa enorme com botões e teclas, com uma espécie de ecrâ minúsculo com números e algumas letras. Ligava-se um botão e muito lentamente os sinais de vida iam aparecendo. Umas luzes…. E, finalmente, o som. Se fosse preciso afinar a sintonização pedia-se a intervenção de alguém com mais autoridade para o assunto: o meu avô!
E à hora do folhetim, todos se reuniam à volta do mágico aparelho que nos punha a par de romances com felicidades e momentos difíceis que promoviam ainda mais felicidade e romantismo. A pobreza também fazia parte do enredo, como acontece com as histórias de encantar. Os pobres merecem ser ricos e os ricos têm de passar pela experiência da pobreza para merecerem o bem-estar dos ricos. Valores que os tempos mudaram pouco. Há um reduto de valores talvez diferentes, talvez mais baseados numa justiça superior, numa classe média que tende também a desaparecer.
A Maltrapilha era um desses folhetins e o título diz tudo.
Mais tarde, numa adolescência já cheia de sonhos cor-de-rosa, a rádio continuou a desempenhar um papel importante no meu crescimento em direcção à vida. Era um tempo das cantigas e do cantores românticos: Sylvie Vartan, Françoise Hardy, Mireille Mathieu, Adamo, Percy Slege, Rita Pavone, Gianni Morandi, Roberto Carlos. E a moçambicana Natércia Barreto.
E para os mais talentosos havia uma Tia, na radio, que reunia sobrinhos que lhe escreviam e iam ao seu programa cantar. Eu limitava-me a escrever porque cantar ou declamar não era para mim. Mas ia às gravações dos programas a que hoje chamam “galas”. Conheci pessoalmente a Tia Zita, ou seja, a locutora Maria Adalgisa. 
Estamos pois nos primórdios dos programas que hoje enchem a programação da TV. Foi a Tia Zita que inventou tudo. As tias também já vêm de longe…
Obrigada Tia Zita!
Viva a Rádio!
 Maria , este post é para ti. Espero as fotos das tuas actuações na Tia Zita!
 Beijinhossss