segunda-feira, 12 de julho de 2004

Cem anos!


...Tudo o que você quiser, sim senhor, mas são as palavras que cantam, que sobem e descem... Prosterno-me diante delas... Amo-as, abraço-as, persigo-as, mordo-as, derreto-as... Amo tanto as palavras... As inesperadas... As que glutonamente se amontoam, se espreitam, até que de súbito caem... Vocábulos amados... Brilham como pedras de cores, saltam como irisados peixes, são espuma, fio, metal, orvalho... Persigo algumas palavras... São tão belas que quero pô-las a todas no meu poema... Agarro-as em voo, quando andam a adejar, e caço-as, limpo-as, descaco-as, preparo-me diante do prato, sinto-as cristalinas, vibrantes, ebúrneas, vegetais, oleosas, como frutas, como algas, como ágatas, como azeitonas... E então revolvo-as, agito-as, bebo-as, trago-as, trituro-as, alindo-as, liberto-as... Deixo-as como estalactites no meu poema, como pedacinhos de madeira polida, como carvão, como restos de naufrágio, presentes das ondas... Tudo está na palavra...

Pablo Neruda, in "Confesso que vivi"

A minha vida é uma vida feita de todas as vidas- as vidas do poeta.

Como a poesia se sobrepõe aos tempos e aos espaços, à vida e à morte!

5 comentários:

molin disse...

Comuna e mulherengo demais para o meu gosto, mas com o dom de exaltar os sentimentos apenas pelas palavras. Simples palavras que no seu discurso assumem uma proporção quase divina.

Anónimo disse...

isto hoje não me está a correr nada bem, quero dizer, até começou bem. Vim transcrever a resposta que te dei no meu 'berlogue', a saber:
"Insegura, tu, minha (nossa) Supertia? Logo tu, com um belíssimo livro publicado (e que não é edição de autor)... Mas isto dos berlogues é viciante, não é, minha querida? Sobretudo quando reunimos os amigos. Vou já visitar-te, antes que o meu computador bloqueie"
Ao entrar, deparei com um dos meus nomes preferidos, quer como poeta quer como homem. Perfeito. Mas... as arrelias começaram ao querer entrar. Não consigo entrar sem ser anonimamente. É humilhante. Mas que raio de username e password querem que eu ponha? Como fará o Molin? O Molin, precisamente ... eu dou-lhe o comuna ... Respondo-lhe noutro lado. Mal pareceria 'peixeirar' aqui, apesar de me sentir em casa...
Beijinho, minha Mada (só para ti ... que o Molin não me vai ver os dentes tão depressa).

Nota de rodapé: ahhhm sou a titas

VIRNA disse...

Faz pensar na definição de poesia de Octavio Paz: "linguagem em estado de pureza selvagem".

Um abraço,

Virna.

molin disse...

Arranjei a bonita com esta do comuna! Lá terei que esmerar-me na próxima sobremesa. Deus me livre insultar as tendência políticas de quem quer que seja. Mas posso expressar as minhas à vontade, não posso Titas do meu coração? Sabes, é que gosto pouco de quem adultera a seu bel-prazer as obras dos outros. Embora este "compañero" seja de outras lutas, que não estritamente soviéticas. Amigo de Allende só pode ser boa pessoa. Mas não deixou de ser comuna e mulherengo demais para o meu gosto!

Here we go again...
:)

E para veres que sou democrata, o livro que a Mada fez referência eu tenho-o no meu modesto escaparate. Mas isso também não significa nada pois duas prateleiras abaixo está "A Minha Luta" do Adolfo. Um dia conto-te porque comprei este último livro e li só um terço dele! Para já só quero que não fiques triste comigo. Quero ver os teus dentes sim, e o mais depressa possível.

By then, the sun is always shinning on me!

Madalena disse...

Confesso que ainda não li o livro todo. Comprei-o há relativamente pouco tempo, (já em euros) embora já o tivesse folheado "in illo tempore" muitas vezes. Depois acho que desapareceu das montras das livrarias e um dia encontrei-o em edição de bolso. Comprei-o logo e li passagens. Não tem uma história que prenda e, pelo contrário até, é tão recheado de pensamento que é preciso parar para pensar. Digerir. Aconteceu-me o mesmo com o Torga. Só que o Torga foi-se lendo ao longo dos quase vinte diários. É uma vida inteira de ideias, pensamentos reflexões, mais ou menos poéticas. Leva tempo a acamar no meu simples cérebro.