domingo, 3 de outubro de 2004

Ainda o regresso às aulas

Vamos começar as aulas, finalmente.
Todos os meus alunos são novos alunos e são meus alunos pela primeira vez.
São pequeninos e por isso há que ter muito cuidado com as primeiras impressões, que condicionam certamente o sucesso da relação que se há-de prolongar, pelo menos até ao fim do ano lectivo e que, em arquivos de memória, se mantém para além da escola e do ano lectivo.
Muitos professores ficam assim "arquivados", por boas razões.
É um desses professores que eu gosto de recordar, o Professor Lindley Cintra , e faço-o sem qualquer esforço, naturalmente, porque nos deixou um trabalho de qualidade insuperável na Língua Portuguesa, uma Gramática, que ainda hoje me tira dúvidas a toda a hora.
Recordo a sua postura nas aulas, no Anfiteatro principal da Faculdade de Letras, marcada pela imagem física de homem magro, bem parecido, que expunha a teoria com palavras simples.
Nunca precisou de humilhar ninguém, como outros faziam, para que sentíssemos bem a distância de sabedoria que ia do nosso banco à cadeira, na qual nunca se sentava, pois dava as aulas todas de pé.
A matéria parecia sempre fácil e recordo que dizia que usava termos “caseiros” para que pudéssemos entender.
Recordo a sua postura moral, sempre "acima de qualquer suspeita". Via-o privar com todos, sem compadrios.
Lembrar o Professor Lindley Cintra faz reviver a saudade de Abris antecipados e faz-me doer a memória.
A única vez que vi alguma alteração (mesmo assim serena) foi no dia em que os polícias de choque entraram no Bar, pela janela e desataram à bastonada. Ele apanhou algumas e sangrava. Mas não fugiu. Ficou ali, dentro da Faculdade, nas imediações do bar, sempre ao lado dos estudantes.( O professor e poeta David Mourão Ferreira também, mas esse nunca foi meu professor.)
A última vez que vi o Professor Lindley Cintra foi na Reitoria, na Aula Magna, numa sessão de abertura de um congresso de Português. A doença já tinha tomado completamente conta daquele corpo. Mesmo assim ele estava ali. Foi tão forte a presença, que nem me lembro das palavras que a propósito foram ditas. E penso que o Homem (e o Estudioso) sentiu o respeito e o reconhecimento que perpassaram a sala, desde o mais profundo cantinho até à mesa do Congresso.
Tenho a certeza que tudo isto esteve na génese das minhas opções políticas e sobretudo aprendi com ele mais do que Saussure ou Chomsky, aprendi com ele a lição da solidariedade para com os mais fracos.
Apenas quero, à semelhança de todos os que o conheceram, lembrá-lo e, com palavras simples, render-lhe a minha homenagem.

5 comentários:

molin disse...

Que lindo, Madalena.

Como é bonito ser-se recordado com tanta saudade e, ao mesmo tempo, tanta admiração e respeito. Onde quer que esteja, o senhor Professor deve estar satisfeito pela imagem que guardas. Porque, com certeza, como tu própria admites, muito do que ele disse e ensinou agora reflecte-se não só na tua escrita, mas também na tua maneira de agir. Deve sentir-se orgulhoso.

Também gostava de ser lembrado assim. Com carinho e saudade. Porque é sinal que fazemos falta. Nada pior do que sentir indiferença, embora haja pessoas e situações que não mereçam mais do que isso!

Que má fase, querida Madalena. Pode ser que o cheiro das castanhas do Outono e o calor das roupas de Inverno façam esquecer a tristeza dos dias mais pequenos e da queda das folhas das árvores.

Beijinho

antonio disse...

Olá Madalena,
Obrigado pelo simpático comentário no blog de Ouguela.
Este ano não vou continuar nesta escola, em virtude da atribulada colocação de professores.
Mas juntos, vamos continuar a dar vida a Ouguela.
Um beijinho e votos de sucessos pessoais e profissionais.

www.ouguela.blospot.com

José Gustavo Teixeira disse...

Cruzei-me, literalmente, apenas uma vez com o professor Lindley Cintra nas escadarias da Faculdade de Letras. Falava com uma voz trémula e delicada, como quem prescinde simplesmente das certezas absolutas. Era um homem muito elegante.

Anónimo disse...

O teu Professor Lindley Sintra deve estar super feliz com o teu comentário e
em especial com tudo o que aprendeste através dele.. sinto que os teus
pequenos alunos têm uma enorme sorte em te terem como professora e não se
vão esquecer pela vida fora de ti e dos teus ensinamentos...
Beijinhos
Lala

Flávio disse...

Que linda e justa homenagem, Madalena! Sou muito novinho para ter conhecido pessoalmente o célebre professor, mas a sua obra é ainda hoje uma referência nas nossas aulas de Linguística na Faculdade de Letras de Lisboa.

(www.a-bomba.blogspot.com)