segunda-feira, 14 de fevereiro de 2005

Dia de falar de amor

Uma das mais belas histórias de amor que li, ultimamente, foi o romance de Inês Pedrosa, "Fazes-me falta".
É uma história de amor, uma bela história de amor, desenrolada “a duas vozes”, um diálogo impossível que se torna densamente real, com o passar das páginas.
Os vivos despedem-se “até já”. Os mortos nunca se despedem.
Restam as saudades, duas saudades, situadas em mundos diferentes, que um dia têm de se resolver, a bem ou a mal.
Como na vida, parece existir, também na morte, o momento oportuno, ou mesmo a oportunidade de liquidar a dor, aliviar ou mesmo tirar o luto.
Fecha-se o círculo: a vida, o amor, a morte, mas não desaparecem as inquietações.
Por vezes, parece que as respostas às nossas inquietações estão mesmo ali, à mão do nosso pensamento, como a palavra que está mesmo debaixo da língua, à espera que o cérebro resolva pequenas teimosias e partidas, que a memória nos reserva.
À certeza de estar vivo sucede a ideia, não menos certa, da inevitabilidade da morte.
O romance de Inês Pedrosa “Fazes-me falta” não é, de modo algum, lenitivo para estas inquietações. Se para uns a vida faz sentido se for vivida, saboreada, até à dor e o seu sentido se esgota nas sensações; para outros, o sentido da vida está no próximo, no que lhe damos e como nos damos.
Estamos por aqui e um dia acaba tudo. Um dia, até nós mesmos acabamos. Parece-me que ao longo da vida - mais do que nunca, a metáfora do “caminho” se adequa - ao longo do caminho, a nossa própria morte passa a ser a última de muitas que vamos morrendo, dia a dia.
Felizmente, esse tempo é normalmente preenchido por afectos diversos, amores maiores e outros, derivações de uma fonte pura e inesgotável, a essência do amor.
Há quem considere muito triste este romance. Talvez seja!
Mas não é verdade que já a Menina do Mar, da nossa poetisa Sophia, dizia que na terra há tristeza dentro das coisas belas?!
A literatura faz-se sobretudo do lado trágico da realidade, dando a essa mesma realidade a tonalidade bela que ela só por si não tem.

2 comentários:

Águas de Março disse...

Há que tempos que ando a querer ler esse Fazes-me falta, e desconfio que é agora que o vou mandar vir da Bertrand. Não podias ter sido mais eloquente, e resolvi-me de vez.
Sabes, Madalena, a vida é mesmo para ser vivida, venha ela do jeito que vier; E somos nós que temos que aprender a lidar com ela, sem a forçar, tentando a sintonia.. é uma das vantagens de se viver muitos anos - aprendê-la!
Já agora, és professora de quê?
Um grande beijo!

mmicr disse...

E o borracho do Robbie Williams canta:
"..I've got so much life running through my vains..."