domingo, 20 de fevereiro de 2005

"Se bem me lembro..."

Esta frase passou a ter uma conotação de saudade ainda mais acentuada depois da morte de Vitorino Nemésio, há vinte e sete anos.

Imagem tirada daqui.
"1971 – A partir de Fevereiro, colabora regularmente na revista «Observador». A 12 de Dezembo, profere a sua "Última lição" na Faculdade de Letras de Lisboa, onde ensinara durante quase quarenta anos."
Recordo-o nesse dia, na escadaria da Faculdade de Letras: o frio obrigava o uso de um sobretudo.
"Dou a minha última lição de professor na efectividade e em exercício, segundo a lei. Claro que a lei só tira o exercício ao funcionário: o homem exerce enquanto vive."

Estas palavras encerram a simplicidade dos homens sábios.

A concha

A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fechada de marés, a sonhos e a lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.

Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.

E telhadosa de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
Lareira aberta pelo vento, as salas frias.

A minha casa... Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.

Vitorino Nemésio

2 comentários:

eduardo disse...

e... "Se bem me lembro...", esta disse-o ele onde já não me lembro:

"Ordeno ao ordenador que me ordene o ordenado
Ordeno ao ordenador que me ordenhe o ordenhado
Ordinalmente
Ordenadamente
Ordeiramente.
Mas o desordeiro
Quebrou o ordenador
E eu já não dou ordens
coordenadas
Seja a quem for.
Então resolvo tomar ordens
Menores, maiores,
E sou ordenado,
Enfim --- o ordenado
Que tentei ordenhar ao ordenador quebrado.
--- Mas --- diz-me a ordenança ---
Você não pode ordenhar uma máquina:
Uma máquina é que pode ordenhar uma vaca.
De mais a mais, você agora é padre,
E fica mal a um padre ordenhar, mesmo uma ovelha
Velhaca, mesmo uma ovelha velha,
Quanto mais uma vaca!
Pois uma máquina é vicária (você é vigário?):
Vaca (em vacância) à vaca.
São ordens...
Eu então, ordinalmente ordeiro, ordenado, ordenhado,
Às ordens da ordenança em ordem unida e dispersa
(Para acabar a conversa
Como aprendi na Infantaria),
Ordenhado chorei meu triste fado.
Mas tristeza ordenhada é nata de alegria:
E chorei leite condensado,
Leite em pó, leite céptico asséptico,
Oh, milagre ordinal de um mundo cibernético!"

O meu beijo de boa noite, Madalena.

Águas de Março disse...

É curioso que nunca me lembro do lado poetico de Vitorino Nemésio. Sempre o evoco como professor, ou através das charlas da tv... Mas são dois poemas dignos de relevo, o que postaste e o do Eduardo, sem sombra de dúvida, e que gostei muito de ler.
Beijinho!