sábado, 2 de julho de 2005

Profissão: Professor (no jovem século XX)

Nos anos 14-15 os liceus admitiam professores (chamemos-lhes assim) supranumerários, cuja missão consistia em velar pela ordem nas turmas durante a ausência acidental dos efectivos. (Eram, certamente os antepassados dos professores contratados, "sub-classe" que sempre existiu, que todos os que chegam um dia ao topo da carreira foram, um dia....) Que espécie de homens eram esses que se sujeitavam a um emprego tão aleatório? (A estranheza parece ser pertinente, um século depois!)Inclino-me a crer que principiantes, na decisão implume de voejos de ensaio, ou náufragos completos a ansiarem que os outros, os ditosos, adoecessem, para ganharem o melancólico pão de roer diário.
Com a crueldade para que propende a saúde do sangue moço, os rapazes, sempre aptos a descobrirem fracos e débeis para maltratar, perseguiam os pobres substitutos com ferocidade insubmissa. Despiedosos, em coro, bramiam, miavam, ladravam, grunhiam, soltavam lenços de lagartixas, riam em casquinadas de aprendizes de hienas,sopravam bolinhas de papel mastigado, atiravam setas, bochechos de água, urinavam pelos cantos... ( Afinal as crianças sempre foram rabinas, com tendências para a indisciplina?! Não eram todos alinhadinhos e medrosos?! Pelo menos é esse o peixe que se vende, que antigamente é que havia muito respeitinho!!!É um bom argumento, para acentuar o complexo de culpa e a frustração dos fracassos, deles e nossos!)Enquanto os miserandos, descarecidos de autoridade e temerosos de que o escândalo atravessasse as paredes, em vão martelavam as secretárias com as réguas, em vão, brandiam os ponteiros ameaçadores, e cravavam as unhas, em súplica, nas mãos, e choravam...
Sim, choravam.
Não invento. Eu vi. Eu ouvi uma dessas tristes criaturas dirigir-se aos nossos corações com voz de estertor implorativo:
-Estejam quietos! Calem-se! Não façam barulho! Olhem que tenho mulher e filhos! Escutem!...

(E hoje ainda choram e as razões são as mesmas! As humilhações também são as mesmas!)
O texto ( em itálico e negrito) é do José Gomes Ferreira, o poeta, um dos inspiradores deste blog. O resto é uma reacção natural e demasiado espontânea, provavelmente, a um debate na RTP com a Ministra, o Sindicalista e o Presidente dos Pais. Não me revejo em nenhuma das posições assumidas e não pretendo, com este excerto, senão mostrar que afinal sempre foi assim. Os arremessos ao prestígio do professor vêm de todos os lados e, sempre, vieram, bem como a conversa de que uns se empenham e outros não, que, também me parece acontecer igualmente em todas as profissões.
Nem as crianças são todas iguais!
Nem os pais são todos iguais.
Nem é preciso ser tudo igual!!!
Para iguais nos empenhamentos vários, chegam-nos os representantes da classe política!

3 comentários:

t-shelf disse...

Ah madalena como concordo contigo e não me farto de o dizer a quem me provoca com arremessos mal intencionados e invejosos.

Butterfly disse...

Quando se evolui e inova num campo, todos os outros acabam por ser afectados. Como se pode então querer que tudo seja igual? Onde está a evolução? Mudemos sim, e em cada mudança, voltemos a mudar, porque assim se caminha para algo de melhor!

Incompetente disse...

E mais nada!
Até eu, incompetente, que não pesco nada disto, concordo quase na íntegra com este ensaio. Tudo evolui (umas vezes para melhor, outras para pior)e há que saber adaptar-se, arranjar "defesas", ACTUALIZAR-SE...
O ensino já teve dias melhores, mas continua a haver alunos de excepção e professores excepcionais. Alunos e professores dedicados. Ainda ontem estive numa cerimónia de entrega de diplomas de valor e excelência e, em alguns deles, "vi" um bocadinho de mim. Dois anos de dedicação e o colher do fruto...
Mas que o ensino necessita de ser repensado, coisas que necessitam de ser urgentemente revista e outras mudadas, isso é inegável!

Beijos académicos!