quarta-feira, 9 de novembro de 2005

Carta a Josefa

Estas foram sem dúvida as palavras mais belas que o Nobel deu ao mundo.
Claro que não estou a ser objectiva, mas também não me parece que seja preciso cultivar sempre a objectividade, em detrimento da emoção especial que distingue cada um de nós, em função das suas vivências.
Neste texto eu reconheço a minha avó Madalena, sobretudo nas metáforas: "trave da tua casa" e "lume da tua lareira".
Por sugestão da Formiga, aqui deixo o texto do Saramago, que eu já soube quase de cor, o que admirou um dos meus filhos numa feira do livro, quando, há vinte anos, me aproximei do autor, com o Nobel ainda longe, e lhe pedi um autógrafo.
Tens noventa anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo – e eu acredito. Não sabes ler. Tens as mãos grossas e deformadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água. Viste nascer o sol todos os dias. De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal. Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio ameaçava gelá-los. Contaste-me histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte. Trave da tua casa, lume da tua lareira – sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz.
Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras práticas, um vocabulário elementar. Com isto viveste e vais vivendo. És sensível às catástrofes e também aos casos de rua, aos casamentos de princesas e ao roubo dos coelhos da vizinha. Tens grandes ódios por motivos de que já perdeste a lembrança, grandes dedicações que assentam em coisa nenhuma. Vives. Para ti, a palavra Vietname é apenas um som bárbaro que não condiz com o teu círculo de légua e meia de raio. Da fome sabes alguma coisa: já viste uma bandeira negra içada na torre da igreja. (Contaste-me tu, ou terei sonhado que o contavas?) Transportas contigo o teu pequeno casulo de interesses. E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre. O teu riso é como um foguete de cores. Como tu, não vi rir ninguém.
Estou diante de ti, e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. Vieste a este mundo e não curaste de saber o que é o mundo. Chegas ao fim da vida, e o mundo ainda é, para ti, o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, uma coisa que não faz parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha-vã e chão de barro. Aperto a tua mão calosa, passo a minha mão pela tua face enrijada e pelos teus cabelos brancos, partidos pelo peso dos carregos – e continuo a não entender. Foste bela, dizes, e bem vejo que és inteligente. Por que foi então que te roubaram o mundo? Mas disto talvez entenda eu, e dir-te-ia o como, o porquê e o quando se soubesse escolher das minhas inumeráveis palavras as que tu pudesses compreender. Já não vale a pena. O mundo continuará sem ti – e sem mim. Não teremos dito um ao outro o que mais importava.
Não teremos realmente? Eu não te terei dado, porque as minhas palavras não são as tuas, o mundo que te era devido. Fico com esta culpa de que me não acusas – e isso ainda é pior. Mas porquê, avó, porque te sentas tu na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes, com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida: “O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!”.
É isto que eu não entendo – mas a culpa não é tua.

Este texto está integralmente publicado no blog "Momentos" o que me facilitou a vida...
Ao meu lado tenho o livro de crónicas onde está esta bela homenagem e a que se segue uma outra, não menos bela, ao avô. É uma terceira edição e data de Setembro de 1986. O tempo amareleceu as páginas o que me enternece mais ainda.

2 comentários:

Formiga Rabiga disse...

Obrigada, Madalena, é muito bonito mesmo. Também me faz lembrar alguém.
E se viesse agora a seguir a do avô? Se for tão bonito como este vale a pena.
Muitos beijinhos

C.S.A. disse...

É, de facto, belíssimo, Madalena.
Não conhecia.
Bjo.