terça-feira, 4 de abril de 2006

A Avó Lídia da Alice Vieira -Remake

...a minha avó Lídia sempre foi nova até morrer
in Rosa Minha Irmã Rosa, de Alice Vieira

Quando se fala de avós, fala-se de netos! Anda tudo ligado, já dizia não sei quem.
Não sei quem disse, mas sei que é verdade, que a melhor verdade que nos pode acontecer na vida é uma avó como a avó Lídia. Talvez não saiba explicar o encanto destas avós... Elas são o repositório das nossa ternuras. Talvez seja por isso! A minha avó era assim. Mesmo quando era criança e achava que ninguém gostava de mim a sério (todos temos estas manias), descobria fosse de que maneira fosse, que havia no mundo, pelo menos uma pessoa, com um coração imenso à minha espera: a minha avó.
Falo de avós, pois está na altura das avós assumirem funções a tempo inteiro: férias na escola, avós ao serviço. Assim, pensei em dedicar este espaço às avós e aos netos, netos que não vão para o infantário, porque já não têm idade e netos, que ainda não vão para o café, porque ainda não têm idade....Falo de avós no feminino, mas não vou pôr de parte os avós no masculino, pois sei que, nos tempos que correm, eles fazem uma concorrência enorme às avós do meu tempo. Eu sei que não é uma questão de concorrência! Eu sei que é amor!
Amor é também ler histórias! É por isso que sugiro que, durante estas pequeninas férias da Páscoa, leiam história aos mais pequenos, contem histórias, inventem histórias e, sobretudo, inventem ainda uma maneira de os pôr a ler histórias.
E é por estes motivos, que vem à conversa “Rosa minha irmã Rosa”.
É um registo de emoções e sentimentos muito verdadeiros da Mariana, uma menina de dez anos, que resolve contar o que sente, o que lhe vai no coração, a partir do momento em que deixa de ser “o centro do mundo”, a partir do momento em que tem que partilhar tudo com um ser feio e cheio de rugas, com quatro dias de idade e de quem ainda não sabe ao certo se vai gostar.
É que gostar é uma coisa que leva o seu tempo. Não se gosta assim da noite para o dia. Da Rita, que é a sua melhor amiga, ela sabe que gosta ...Chega mesmo a pensar que nunca vai gostar da irmã, como da Rita.
Se a Mariana pudesse “aumentava” a Rita à família. A avó Elisa é que diz a propósito do nascimento da Rosa que a “família aumentou”. A Rita tem uma família bem diferente da família da Mariana. Tudo é bem diferente: não tem uma casa de “viver”, tem uma casa de “ver” e de “enfeitar”, onde não se mexe em nada e, até de respirar lá dentro, a Mariana tem medo, não vá sujarem-se os vidros.
As palavras da Mariana dão vida a uma série de personagens que passam ante os nossos olhos, às vezes bem parecidas com algumas que passam pelas nossas vidas e pela da autora, conforme ouvi, dito pela própria Alice Vieira, na altura da apresentação do último livro desta trilogia. (Chocolate à Chuva)
A avó Elisa, por exemplo, é uma avó carinhosa e muito cuidadosa, mas cheia de preconceitos que ferem a inocência dos sentimentos da Mariana. Por exemplo, não aprova o tratamento íntimo entre o professor e os alunos! (E eu também, não. Acho que a avó Elisa já sabia que estas “modernices” iam dar mau resultado....) A avó Elisa recorda o seu tempo de escola, o tempo das reguadas e da humilhação e confunde o medo com o respeito. Este “tu cá tu lá” entre a Mariana e o Pedro, o professor de Matemática, o professor camarada e amigo, não encaixam bem no pensamento da avó Elisa. As fórmulas de tratamento, diz ela, são necessárias para incutir o respeito. (De facto, ainda hoje não se encontrou a virtude, que dizem que está no meio.) Para a avó Elisa, as coisas por explicar e que causam estragos ou mal-estar têm, de certeza, a origem no abuso e na ousadia do homem: ter ido à Lua...
A outra avó, a avó Lídia já morreu. A Mariana recorda-a com saudade. Era muito alegre e contava muitas histórias, mesmo aquelas que cedo nos fazem descobrir que todas as pessoas crescidas e responsáveis fizeram também disparates e traquinices, na altura própria. A Mariana tem um sentimento de posse muito forte em relação à avó Lídia. Não quer esquecê-la nem quer que lha “roubem” e, na fase do ciúme da Rosa, é importante para a Mariana não ter que partilhar esta avó, já que tudo parece ter começado a girar à volta dos cinquenta centímetros de gente, que dá pelo nome de flor. Pelas razões que se adivinham, a Mariana impediu que a irmã se chamasse Lídia....
Mas não vai ser sempre assim. A Rosa adoece e é levada para o hospital e a Mariana descobre que afinal a Rosa já tem lugar no seu coração. A tempestade de sentimentos contraditórios já deu lugar às tais certezas que se adquirem com pequenas partidas da vida. Afinal é pena a Rosa não ter também a avó Lídia, o colo da avó Lídia, as histórias alegres, os lanchinhos, o pão com queijo...Seja com a ajuda de fadas boas ou de médicos, ela quer é que a Rosa fique boa e volte para casa. Têm tanta coisa para fazer na vida, as duas....
A Rosa é a única que muda ao longo das páginas. Deixa de ser feia, perde as rugas, talvez engorde um bocadinho e cresça uns dois centímetros. Há também a mudança da Mariana, mas apenas em relação às dúvidas do amor pela irmã. E é este o grande e único “acontecimento” deste primeiro livro: A Mariana descobre lentamente que a Rosa passou a fazer parte da sua vida e do seu afecto também.
Todos sabemos que o ciúme causa muito estrago e talvez esta leitura possa deitar abaixo alguns ciúmes...
a vieira
Alice Vieira nasceu em Lisboa, em 1943. Licenciou-se em Filologia Germânica, em Lisboa e depois de uma curta passagem pela actividade docente, dedicou-se ao jornalismo. Mas foi na Literatura Juvenil que o seu nome “ganhou nome”. Rosa minha irmã Rosa foi apenas o primeiro de uma série de obras dedicadas aos adolescentes-ainda-crianças, ou às crianças-já-adolescentes.
Anda tudo ligado!!!!!
(Publicado a 5 de Abril de 2001, no jornal Nova Gazeta, do Montijo)
Fotografias de Alice Vieira, quando lançou o Chocolate à Chuva e se encontrou com os meus alunos de Odivelas, em Odivelas, no Centro Comercial Kaué.
Mil novecentos e oitenta e ... não escrevi no verso da fotografia!!!
alice vieira

2 comentários:

Laura Lara disse...

Passei aqui de manhã, a correr, e não comentei. Não tinha tempo, estava a trabalhar para os meus netos. Estava a tentar o impossível. Pôr um bocado de ordem nesta casa. Agora até um televisor está no meio da sala. O outro, avariado há quase um ano, regressou do conserto, foi para o lugar deste, que, quando houver oportunidade, regressará ao quarto de uma das “agacês”. Não sei se já disse que “agacê” é a designação ternamente atribuída aos meus netos, pela tia deles, em encurtamento da expressão “horrendas criaturas”.
Eu achei, Madalena, ainda que presunçosamente, que o texto me era, um bocadinho, pelo menos, dedicado. Revi-me nele. Tão a propósito.
Confesso que nunca li o livro da Alice Vieira. Pensei comprá-lo, mas vinha tão carregada do supermercado, que deixei para outra oportunidade.
Obrigada por escreveres coisas tão bonitas. Ah, esqueci-me de dizer: a batalha de pretender que os meus netos não me tratem por tu já a perdi há muito.
Muitos beijinhos

Madalena disse...

Claro que te é dedicado, Laura!!!!
Mil beijinhos.