sábado, 9 de junho de 2007

Não se fazem esperar...

Ou como diziam os antigos, mais antigos do que eu, não perderam pela demora.
Está a decorrer o concurso dos professores titulares.
Brilhante! É um concurso de nada. Para já, pelo menos! A categoria de professores titulares é uma "invenção" de um novo patamar a que alguns ascendem automaticamente, como eu. As vagas que iremos ocupar são vagas a extinguir quando desaparecermos da escola, por isso não vale a pena deitarem-nos mau olhado nem quebranto.
Para além de ocuparmos as vagas, vamos, dizem alguns "com olhos lassos", olhos vagos de "ironias e cansaços"...
(Foi um momento de poesia! Foi o meu momento de ironia! É o meu momento de cansaço!)
Então vejamos: era previsível um certo mal-estar entre os professores, entre novos e velhos, entre décimos escalões e nonos e oitavos e por aí fora.
Mas tão cedo, não!
Tão cedo, quero dizer: antes de acabar o prazo a candidatura, antes de resultados, antes de efeitos, ou seja, no grau zero das coisas.
Mas, eis que chega, de forma bem visível, numa crónica do jornal Público, da passada quinta-feira.
Titulares de quê?
20070607
Os critérios de avaliação dos professores para passagem a professores titulares não contemplam a participação voluntária. Incidem sobretudo nos cargos que tiveram, muitas vezes (a maior parte) obtidos por uma questão de preenchimento de horários. Privilegia-se muito a experiência e pouco a formação. Os critérios de avaliação dos professores para passagem a professores titulares não contemplam a participação voluntária. Sabe-se que os professores mais novos têm muito mais formação, a todos os níveis, que os mais velhos. E sabe-se também que só por si a experiência não chega. Aliás, os professores mais velhos não tiveram formação específica para exercer a profissão (tirando a "anedota" da profissionalização em serviço). Os professores do 10.º escalão (os mais velhos) só não passam a titulares se não concorrerem (na grande maioria dos casos). Dever-se-ia sobrevalorizar os cargos que não tiveram qualquer redução de horário, ou seja, sobrevalorizar a participação voluntária. Dever-se-ia valorizar a participação no Plano Anual de Actividades (também esta voluntária), ou seja, a participação na operacionalização do Projecto Educativo de Escola (PEE), uma vez que este documento é considerado a "bíblia" da escola, e não ser completamente excluída com estes actuais critérios. Acabaram de vez com a importância que a legislação e os pedagogos românticos têm vindo a atribuir ao "grande" PEE. Fica também excluída a avaliação da verdadeira função do professor, que é instruir (reconheço que seria difícil criar critérios justos para este efeito, mas a verdade é que fica excluída). Conclusão: os titulares do título "titular" nem de perto nem de longe são os melhores, mas, agora sim, vão ter de trabalhar.
Luís F. F. Ricardo
Moncorvo

Eu acho que todos devemos publicamente expor os nossos pontos de vista. É um direito e talvez até seja um dever. O debate de ideias em torno desta coisa complicada que é a progressão nas carreiras é louvável. Agora, não há da minha parte qualquer ironia, mas tão somente o desejo de, pelo meu lado, expor também um ponto de vista que, no caso, contradiz a opinião do colega Luís Ricardo.
A maioria dos colegas mais velhos teve formação específica para exercer a profissão, a não ser que se entenda por Ciências Pedagógicas algo que não tenha a ver com o ensino. Se por acaso subsistirem dúvidas quanto à formação específica, é de ler o Diário de Sebastião da Gama para se perceber que já se formam professores há muito tempo. Não é uma modernice.
E não foram esses professores que deram formação aos mais novos? Aos todos tanto valorizamos, não só pela formação como pela energia que o sangue novo sempre promete. Também esses foram formados, desde as primeiras letras e das primeiras contas, nas escolas dos mais velhos.
A ideia veiculada relativamente à participação voluntária nos Planos de Actividades, por parte dos mais velhos, deixou-me triste e perplexa. Onde é que fica essa escola onde a gente não entra nos Natais, nas Páscoas, no Dia dos Namorados, no Dia das Bruxas, nos teatros, nas corridas, nas eco-feiras, nas hortas pedagógicas, nos Clubes disto e daquilo. É um pouco como a nossa sociedade, na minha modesta opinião. É muito de muito e o efeito, a curto prazo, será o tédio generalizado. Como o Príncipe de Tormes, um dia, muito brevemente, sofreremos "de fartura".
Na minha opinião, o que faz ainda falta nas escolas é uma verdadeira educação para a cidadania que não passe quase exclusivamente pelo lúdico, pelo prazer. Urge uma retoma de valores. Pode começar-se pela "oralidade do recreio" onde há muita "patologia" para sarar. Aí, a era da prevenção já era...
Eu depois conto para que serve o professor titular!
"Eu amo o Longe e a Miragem"
Linha!
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3 comentários:

Teresa Leite disse...

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!


Pretenciosimo meu? Tocou-me!

Anónimo disse...

Mada, foste a titular da escola...sem a tua habitual disponibilidade não sei se teria acertado nos quadradinhos. Preciosa voluntária para mais velhos e mais novos.
Eu, não sei mesmo por onde vou, por onde ando e para onde vou, acho que ando por andar até parar.
OBRIGADA

Anónimo disse...

Este concurso é uma falácia e devia ser impugnado pelo Presidente da Republica
Vejam este caso (um entre milhares)

No Publico
«Direito à indignação
09.06.2007
Como se já não bastassem as afrontas sucessivas de que, por parte da tutela, os professores têm sido vítimas, surge agora, dentro da própria classe (que já sabíamos heterogénea, desde professores que apenas têm como habilitação, de facto, o ensino básico até aos doutorados), a divisão entre "novos"/competentes e "velhos"/incompetentes, como se de categorias estanques se tratassem.
Mas o que se segue poderá ilustrar como é uma falácia a passagem automática a professor titular dos "professores do 10.º escalão (os mais velhos)" (sic).
Sou professora do 10.º escalão: início de carreira em 1972-1973 com 23 anos de idade, após uma licenciatura de cinco anos e um curso de Ciências Pedagógicas, tendo realizado, posteriormente, o Estágio Clássico para o Ensino Secundário, sem o qual não passaria de professor eventual/provisório a professor efectivo/PQND (professor do quadro de nomeação definitiva). Durante os quase 35 anos de carreira desempenhei, sempre e até este momento, os seguintes cargos: directora do 2.º ciclo liceal - 1 ano; estágio clássico - 1 ano; directora de turma - 14 anos; vogal do conselho directivo - 2 anos; presidente do conselho directivo/executivo - 3 anos; delegada de grupo - 8 anos; coordenadora de directores de turma - 2 anos; directora de biblioteca - 1 ano; directora de instalações audiovisuais - 1 ano; directora de mediateca - 1 ano; orientadora de estágio pedagógico - 5 anos; criação e organização do gabinete do aluno - 2 anos; criação do primeiro Clube Intercultura (génese dos actuais Clubes Europeus) - 2; coordenação e realização de intercâmbios escolares - 2 anos; orientação de cursos de formação contínua para professores - dezenas; orientação de cursos para pais e encarregados de educação (Portugal Continental, Regiões Autónomas e PALOP) - dezenas; orientação de cursos de metodologia de estudo para alunos - dezenas; leccionação de cursos de língua portuguesa e técnicas de comunicação oral e escrita (PALOP) - 3 anos; visitas de estudo (nunca "passeios") - dezenas; orientação, participação e execução de projectos educativos, planos anuais de actividades e projectos curriculares de turma - dezenas; licença sabática - 1 ano.
Com este currículo não passo à categoria de professora titular porque não atinjo os 95 pontos necessários: desempenhei uns cargos quando era "nova"/competente e que, por serem anteriores a 1999-2000, não contam; desempenhei outros cargos, sempre por "participação voluntária", agora que sou "velha"/incompetente (os tais que só os novos sabem fazer e estão assinalados, no quadro, em itálico), que também não contam; acresce que, por ter apresentado um projecto para licença sabática, em 2002-2003, que, por azar, foi aprovado, sou penalizada em 8 pontos; ainda por cima, em 35 anos de serviço apenas contabilizei 1,22 por cento de faltas.
Posto isto, conclui-se, veja-se lá, que os professores do 10.º escalão nunca estudaram, nunca fizeram estágio, nunca trabalharam, nunca leccionaram, nunca realizaram projectos, nunca exerceram cargos, nem nunca foram competentes...
Foi mesmo por isso que só conseguiram formar professores como o autor do artigo em causa.
Natália Izaura de Andrade Rodrigues
Coimbra »