O Mostrengo ensinou-me uma página da História!
Ensinou-me aquela parte da coragem dos nossos antepassados que lhes permitia ir além dos seus próprios limites.
Não é que eu seja assim tão adepta destas coragens. A minha coragem de culto é a resistência.
Não vejo com bons olhos a coragem de mandar os outros fazer aquilo que eu temo.
Respeito os medos, todos os medos, desde o mais pequeno e insignificante ao medo que se ergue do perigo e do desconhecido.
Esse medo torna os homens maiores.
E isso eu aprendi com o Mostrengo de Fernando Pessoa.
O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
A roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse: «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo:
«El-Rei D. João Segundo!»
«De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso.
«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»
E o homem do leme tremeu, e disse:
«El-Rei D. João Segundo!»
Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!»
El- Rei D. João Segundo nasceu em Lisboa, a 3 de Março de 1455.
2 comentários:
É um dos meus poemas favoritos de todos os tempos! Tão intenso! Tão dramático!
Sim, os medos..., mas o mais bonito é não mandares ninguém lutar as tuas lutas, quem dera fossemos todos assim!
Beijinhos solidários, diz ao leão-mor que não fique triste por termos sido roubados no jogo contra o Benfica.
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