quinta-feira, 3 de abril de 2008

Que é feito do mês de Abril

Que é feito do mês de Abril
que nos circulou pelas veias?
Que é feito das ruas cheias
quando o sol era um balão
e andava tudo ao contrário
e as estátuas vinham ao chão
e o sonho era o nosso horário?

Que é feito do mês do sonho
quando o sonho era concreto
e tinha formas de casas
portas abertas
e pão
quando o sonho que sonhávamos
era um sonho colectivo
parido pela multidão?

Foi então
num país
de repente sem fronteira
foi a feira
a desgarrada
foi o espanto dos abraços
na arquitectura sem margem
duma terra a conquistar.
Foi um país que acordou
com planícies no olhar
e a concertina a tocar
dentro do peito.
Que é feito do mês de Abril?

Soldados a quem dissemos
amigos eh! pá irmãos
operários que descobriram
um espaço para além das mãos
e as mulheres trabalhadeiras
que rasgaram seus vestidos
para as bandeiras de alegria
com que Abril foi envolvido.
Que é feito do mês de Abril?

Foi um país impaciente
que de pé se pôs em flor
foi o riso das guitarras
cansadas de choro e dor
foi a alegria fabril
foi a força da razão.
Não esqueças o mês de Abril!
Não esqueças que és multidão!
José Fanha

E o mês de Abril será sempre a homenagem a Salgueiro Maia. Foi ele o autor do mês.
Deixou-se morrer num Abril já longe!
Obrigada, Capitão!

2 comentários:

IO disse...

Um Abril inteiro de gratidão à memória de Salgueiro Maia! - obrigada por este 'post', Madalena.
IO

Célia Marques Pesseto disse...

O dramático é que, apesar de tudo o que os mais velhos contam, nós (a geração pós), não conseguimos realmente "sentir a liberdade." Mesmo agora com tanta proibição e controle, não conseguimos ficar furiosos o suficiente, para alterarmos as nossas atitudes tão passivas. Se escrevesse tão poderosamente como tu, Madalena, conseguiria explicar melhor o quero dizer...Bj.