quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

O Medo, esse Adamastor

Nota prévia: este é o texto que a Bárbara, Coordenadora da Equipa da Educação para a Saúde, me pediu que escrevesse, à laia de testemunho, no dia 4 de Fevereiro, um dia para assinalar a luta contra o Cancro.
Foi a primeira vez que o fiz, sem rodeios. Senti que talvez eu possa dar voz a um caso em que não há sofrimento e que o Medo foi o único inimigo a fazer perigar a cntinuação da vida tal qual eu a quero viver: com o Jorge e os "miúdos"; com os meus amigos, muito especialmente com as amigas que, ao longo do tempo, se vão revelando cada vez mais fundamentais no meu "respirar" de todos os dias; com a família que sabendo o quanto prezo a amizade, sentirá que não é menor incluí-los na categoria "amigos".
Aqui, na minha história, só é relevante o Medo. Não fosse aparecer alguém (Obrigada, Milú!) que, em jeito de "sentença" me obrigou a ir fazer a mamografia... Aproxima-se o dia de fazer mais uma, de rotina, e o Medo já começou a fazer estragos, a tirar-me sonos e a dificultar-me os sonhos.
Tudo o resto está bem.
Aí vai o texto que foi publicado no blog da escola, da Educação para a Saúde,Educar Para o Bem Estar!
A vida é assim mesmo.
Dia a dia, construímos os nossos dias!
Dia a dia, aprendemos a passar “além da dor”.
(Quem quer passar além do Bojador, tem que passar além da dor! disse o poeta Pessoa!)
Como é que se retoma o leme, como se enfrentam adamastores, como se prossegue o caminho, atracando a um porto seguro aqui, outro porto seguro acolá.
(Quando falamos de Adamastores, estamos a falar de medos enormes, imensos. Mas à semelhança do verdadeiro Mostrengo que guardava os mares do sul, este pode ser um mito, uma ilusão, uma dificuldade a ultrapassar…)
“Sabemos bem do que estamos a falar, quando falamos de cancro.”
Sabemos, sim. É de dor. É de medo.
Contudo, na vida, a experiência é que dá a verdadeira medida. A maturidade dá-nos esse saber. A humildade dá-nos a dica: podes e deves aprender com a experiência dos outros.
Para isso, é preciso vencer outra espécie de medo: o de falar com quem já viveu o caminho que vai da incerteza e da dúvida, à esperança e à certeza de estar à nossa espera, ao alcance das nossas forças, um tratamento que nos garante a vida.
É fundamental encarar essa fase: cirurgia, nem sempre necessária ou importante para o controle da doença; quimioterapia, tratamento que tem consequências difíceis de encarar, mas que são transitórias; radioterapia, tratamento sem dor que tem de ser encarado como muito sério porque é necessário proteger as partes do corpo que sofrem as radiações, para que seja levado até ao fim, sem problemas. Há também a hormonoterapia, específica de alguns casos de cancro e que consiste na toma diária de um poderoso comprimido que ajuda, combatendo e eliminando as condições hormonais em que o cancro apareceu e se desenvolveu.
Depois destas fases, e sempre com amigos e familiares por perto, com muito optimismo, queremos voltar à Vida.
Queremos voltar ao convívio alegre com os amigos, às conversas sobre as coisas com menos importância, aos passeios, aos teatros e cinemas, aos almoços e jantares, aos passeios à beira-mar, à contemplação do pôr-do-sol.
Ao trabalho! Aos projectos!À Vida, em pleno!
Madalena Santos, professora, 59 anos. Cancro da Mama aos 56 anos.

8 comentários:

Nela disse...

À Vida, em pleno!
Beijinhos, Madalena.

Não foi o Adamastor que impediu estes portuguesitos de seguir adiante e, também, não será o medo a impedir-te(nos) de prosseguires(mos) com os teus(nossos) sonhos

miguel disse...

Bravo Madalena, que texto tão belo, inspirador e verdadeiro. Resistir ao medo, aprender a viver com ele, suplantando-o.
beijo grande

IsaLenca disse...

Belo texto.

E tu dobraste o Cabo da Boa esperança, conseguiste derrotar o Adamastor. Mesmo que por vezes o fantasma dele volta e meia pregue alguns sustos, segues em frente. E isso é que é o principal para conseguires saltar os obstáculos e erguer a cabeça!

Bjs

Graça Pereira disse...

Mas o medo sempre foi o nosso Adamastor que precisamos de lutar continuadamente!
Beijinhos para ti MadaLENA QUE O SUPERASTE E CANTAS HOJE um hino à vida! Em pleno!
Graça

O Baú do Xekim disse...

Oi miguxa, boa tarde.

Feliz domingo e súper feliz semana.

Beijinhos.

Anónimo disse...

A vida Madalena.E esta viagem não podia estar melhor descrita. É o medo antes, durante e sempre, mas que é preciso resistir-lhe.
Beijinhos e obrigada por este testemunho.
M.Dores

eduardo disse...

Quantos medos, Madalena, nos assolam todos os dias? Quantas dúvidas e noites não-dormidas nos calharam já? Quantas interrogações nos passam ainda pela cabeça?

Tantos medos num corpo frágil, como é o do ser humano.

No entanto, há uma força abrupta. Gigantesca. Sabe-se lá vinda de onde. E lendo e relendo o que aqui está, não tenho dúvidas que a tens em todo o seu esplendor.

Difícil mesmo, são os amigos que sofrem por fora. Impotentes para mudar o rumo às coisas.

Para quem me conhece mais de perto, sabe que trocava o meu (por vezes aparente) bem-estar com as pessoas que passam por momentos mais difíceis. E tu eras uma delas.

Ah!, como eu gostava de ter o poder de colocar tudo nos eixos certos...

Um beijinho grande, minha amiga.

Ao trabalho, então. E à Vida, que se faz tarde.

ps - quando puderes manda-me o teu facebook, sff.

Célia disse...

Beijinhos minha querida. E abraços muito fortes!!!